quinta-feira, 29 de junho de 2006

O "tom" dos blogues - 46

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Os blogues criam todos os dias milhões de conteúdos que percorrem o jogo de espelhos do novo labirinto da rede. Nas conectividades que a estendem para fora e para dentro de si, os discursos fluem através de links, de pontes entre excertos, de partilhas entre dados e, em termos mais gerais, através da propagação metonímica de escritas variadíssimas que recobrem a comunidade (cada vez mais globalizada). A expressão da blogosfera é ainda uma tentativa de ocupação de um espaço, embora à ideia de descoberta de um novo território se sobreponha quase sempre a ilusória convicção de um dial-up automático e normalíssimo (tais são os efeitos da instantaneidade). É como se os navegadores de quinhentos chegassem a novos continentes e se exprimissem, depois, como se nada tivesse acontecido: mera conectividade. Esta neutralização da aventura expressiva (e da posse dos seus objectos) que está ‘em curso’ é típica da revolução pacífica que os blogues protagonizam nos nossos dias (só mentes tão inquinadas quanto criteriosas, caso de Clara Ferreira Alves, podem ver no novo medium um refúgio para "desempregados", "ociosos" e "rancorosos"*).
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Os média tradicionais, de modo diverso do que acontece com o discurso publicitário e com as “RP” em geral, tudo fazem, ainda que involuntariamente, para preservar um tipo de representação baseada sobretudo no fechamento (relação estrita entre fontes variadas e impressão) e, por isso, dissociado do imaginário da rede. A própria extensão dos média tradicionais aos meios “on-line” confirma essa tendência conservadora, na medida em que os conteúdos aí agenciados dispensam geralmente os “links” e acabam por assumir-se como atributos, marcas indexicais ou simples “suplementos” do suporte em papel.
Poderão alguns cair na tentação de ‘denunciar’ estes factos projectando nos média tradicionais um 'dever ser' que não é o da sua genuína codificação. De qualquer modo, imaginar que os jornalistas pudessem agir como os “bloggers” agem, ou seja, de um modo aberto e multimodal no coração da rede, seria, de algum modo, imaginar a morte da própria ideia (moderna) de jornalista. Imaginá-lo pressuporia um nivelamento da iniciativa diária e profissional dos jornalistas com os mais anónimos nós que constituem a rede. Imaginá-lo pressuporia uma menor visibilidade do seu próprio juízo deontológico e, portanto, da auto-referencialidade activa que lhes é particularmente inerente. Imaginá-lo pressuporia uma menor presunção do seu papel de tradutores exclusivos das meta-ocorrências (que constroem mundo) perante o grande público.
Exigir aos jornalistas uma natureza que não é a sua é legítimo, mas talvez não seja tão profícuo quanto se possa crer. No fundo, a verdade é que a comunicação não é apenas um vínculo estrito dos jornalistas (é esse o pensamento falacioso dos muitos jornalistas que são euforicamente chamados às escolas de comunicação para os estágios práticos de fim de curso). A própria – e recente – tradição da epistemologia comunicacional o demonstra, já que as saídas práticas desses estudos apontam, para além do clássico jornalismo, para o multimédia, para as relações públicas, para o marketing, para a investigação e para outras dimensões variáveis que colocam em evidência a proximidade entre a cultura material, o design e os novos mitos hipertecnológicos do globário.
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A comunicação está, pois, muito para além do jornalismo e seria um erro imputar-lhe uma espécie de pesada mono-referencialidade (daí que palavras, como as de Clara Ferreira Alves, não tenham qualquer importância). Se existe alguma ética e algum 'dever ser' na comunicação contemporânea, ela não é com toda a certeza uma anfitriã exclusiva e sedentária das redacções dos jornais. É o que estamos, também, no dia a dia, a aprender humildemente nos blogues, essa bacteriologia espalhada na rede que tem adaptado e desenvolvido as suas capacidades expressivas a um devir não apenas jornalístico da comunicação. Daí, também, a sua virtude e a sua imensa riqueza potencial.
A conquista de um “tom” específico, ou seja, a reinvenção de linguagens e elocuções no novo território da rede, é, hoje em dia, um novíssimo laboratório
comunicacional onde – ao contrário dos média tradicionais - os blogues se tornaram personagens essenciais (experimentais) e globais.
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*Publicado pela cronista no Diário Digital e referenciado no desdobrável da Casa Fernando Pessoa que convoca o público para uma discussão sobre este mesmo tema a ter lugar hoje, pelas às 21h. 30 (com a presença de Eduardo Prado Coelho - que "não lê blogues" -, Fernanda Câncio, Pedro Mexia e a moderação habitual de Carlos Vaz Marques). Antes do debate, Vasco Santos da editora Fenda falará dos livros que gostaria de ter editado no último mês e Maria Antónia Oliveira tentará responder à seguinte questão: Alexandre O'Neill, se fosse vivo, teria um blogue?

quarta-feira, 28 de junho de 2006

O "tom" dos blogues - 45

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No início dos anos oitenta, Richard Rorty afirmou: “há pessoas que escrevem como se só existissem textos”. Na blogosfera, fora talvez das vagas mais especializadas, esta tendência virtualizante apenas se acentuou. O mundo das escritas que se desdobram em escritas e das imagens que se desdobram em imagens tornou-se cada vez mais numa espécie de barómetro expressivo.
Ao navegar-se na rede, os sites e os blogues sucedem-se e a leitura, não estando fixa em lado nenhum, desloca-se sem aquele rumo que sempre nos habituou ao cumprimento de princípios, de fins, de direcções, de metas e de sentidos monopolizáveis. Ao contrário de uma possível História da Leitura Moderna, o texto subitamente mergulha no texto e dá-se a ver como uma auto-referência que avança em caminhos diferentes ao mesmo tempo (como se a sua montagem escapasse ao teor tradicional da manipulação griffithiana).
De um momento para o outro (uma década, hoje em dia, é um segundo), tal como em alguma arquitectura nórdica onde o encaixe dos materiais gera a robustez das linhas de força, também nesta escrita o sentido parece resultar mais do ímpeto com que o texto força e penetra no plano de outros textos e nas agendas que vai partilhando.
Aliás, neste movimento (nesta navegação), a escrita e a leitura parecem fundir-se como se dois filmes que se vissem frente a frente (ecrã face a ecrã), se misturassem e se projectassem caleidoscopicamente em todas as direcções.
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Há uma constante no modo como a escrita e a leitura blogosféricas traduzem esta intimidade com que os nós da rede se observam e interpenetram. Essa constante consiste na maior importância atribuída ao “quem” do que ao “quê” que emerge nos blogues (o que não acontece nos livros onde o enunciado tende a sobrepor-se quase sempre às enunciações, devido ao fôlego da narrativa tradicional). E isto apesar de o “quem” dos blogues corresponder quase sempre a um “eu” ficcional, cuja amplitude é ambígua: do intimismo confessional à tergiversação doméstica, do imediatismo crítico à crónica aforística, da locução apologética à proclamação solitária (longe de mim pretender categorizar!).
No rápido, persistente e ininterrupto dialogismo que faz dos blogues uma máquina agilíssima de vasos comunicantes, cada novo blogue que surge faz-se quase sempre acompanhar por uma atitude telegráfica que é menos apresentação do que explicação de si próprio. Trata-se de um ter que dizer “o quê” (de que se ocupa, ao que vem...) que “me faz ser assim como sou” (ou seja, que aponta para o sujeito empírico e ficcional que passo a ser - "o quem"). Como se um muro tivesse que explicar a forma que o faz ser muro. Como se um “quê” tivesse que se transformar subitamente num “quem” para poder aceder às regras do clube. É por isso que um blogue é sempre muito mais o blogue de “A” do que o blogue que versa “Y”.
Este facto, que releva a supremacia da individuação no novo meio, é afinal contíguo à citada máxima de Rorty. Como se o cenário da blogosfera tivesse voltado a emancipar todo o tipo de personagens, mas com um único propósito: escreverem e confundirem-se com os seus textos como se só existissem textos. Como se a leitura e a escrita se tivessem tornado de vez nesse novo filme sem fim (feito de filmes e de filmes de filmes) onde cada personagem - cada mónada - se move como se fizesse parte, realmente, de uma "segunda humanidade".

terça-feira, 27 de junho de 2006

O "tom" dos blogues - 44

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Uns dias após o Natal de 1919, Marcel Duchamp comprou numa farmácia de Le Havre um frasco de vidro. Com a cumplicidade do farmacêutico, desfez-se do líquido que o frasco continha e voltou a fechá-lo hermeticamente. Uma semana mais tarde, já em Nova Iorque, Marcel Duchamp deu a “obra de arte” à família que o alojou e baptizou-a com o singelo nome de “Ar de Paris”. Quando, vinte anos depois, este mesmo frasco - já então parte da Colecção Arensberg - foi aberto de forma involuntária, outro destino não o aguardava senão atravessar o Atlântico para receber em Le Havre - e na mesma farmácia - um novo ar e uma nova tampa. Claro que o nome da “obra de arte” se manteve incólume: “Ar de Paris”.
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Agora que se reatou o tema dos predecessores dos blogues (ou da retrodicção criada pela blogosfera), este exemplo evocado por Sloterdijk num recente livro sobre o terrorismo*, aproxima-nos doutra dimensão actual dos blogues que não deixa igualmente de ter os seus óbvios antecessores. No exemplo, à parte a consideração artística, canonizada e ‘datada’ do ready-made, o interessante é que o facto de nomear prevalece - sem quaisquer ironias - sobre a força do verosímil (de tal modo que uma falha na encenação plástica da “obra” obrigá-la-ia a atravessar o Atlântico, no delicado ano de 1939, apenas para se encher de “ar de Paris”… em Le Havre), independentemente da relativa virtualização atribuída ao “ar”, ao objecto e à locução.
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De facto, quando Duchamp se entendeu com o farmacêutico de Le Havre, naquele dia 27 de Dezembro de 1919, o frasco subitamente tornou-se num objecto com uma nova significação. O mesmo se poderá dizer da imaginação associada ao “ar” nele contido e ao jogo de linguagem que passou a denotá-lo e a conotá-lo (“Ar de Paris”). De certo modo, transpondo esta metamorfose significativa para a arena dos nossos dias, poder-se-ia dizer que o frasco passou a metaforizar uma espécie de hardware, que o ar teria passado a metaforizar o que geralmente se traduz por ‘éter da rede’ (a imaterialidade dos novos circuitos) e que as designações - “Paris”, “ar”, “de” – teriam passado a metaforizar as linguagens que ciclopicamente a atravessam.
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Levando mais longe este paralelismo, de que Marcel Duchamp podia ser o epónimo: ao blogar, em plena cibernavegação, mais não se faz do que sucessivamente retirar e fixar a tampa ao paródico frasco de Marcel Duchamp. O ar desse frasco ter-se-ia generalizado, dando origem a numa novíssima atmosfera que já não habita nem dentro nem fora do frasco, que já não é nem imaginária nem real, e que já não é nem relíquia estética nem obra incomum (dir-se-á que se passou a confundir com o próprio espaço da rede – essa informe globário de ‘hosts’ e ‘routers’ feericamente ligados entre si).
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A atitude performativa de Marcel Duchamp já semeava este propósito vivido hoje em dia na blogosfera: designar, dizer, referir ou preencher o espaço do ‘post’, em primeiro lugar, e ancorá-lo a um dado verosímil apenas depois. Não é, com efeito, a relação ‘verdade-não verdade’ que persegue o actual fascínio da leitura e da escrita na blogosfera, mas sim o ímpeto e o contraste entre os sentidos que vão sendo criados. Numa esfera profundamente auto-referencial onde os contextos são rápidos e estão imersos na enunciação ‘post a post’, aquilo que, no tempo de Marcel Duchamp, foi um gesto “criativo” e singular é hoje um dado pragmático, ou um elementar denominador comum da novíssima navegação.

segunda-feira, 26 de junho de 2006

O "tom" dos blogues - 43

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A arquitectura telemática da rede (a cenografia flutuante onde também surge em cena a blogosfera) é muitas vezes entendida como determinante face ao que nela se move (a informação) e sobretudo face àquilo que é a própria rede aos olhos dos novos navegadores virtuais (a rede é um fenómeno que se objectiva naqueles que a agenciam).
Para estes novos internautas, a rede é sobretudo um agregado de procedimentos, de travessias rápidas e de conteúdos fugidios que visa algo, ou seja, que denota uma intencionalidade qualquer a que os próprios não são de modo nenhum alheios. A questão tem a sua raiz em Husserl: a consciência é sempre a consciência de qualquer coisa, na medida em que uma representação é inevitavelmente um acontecimento de cada agente, de cada pessoa, de cada blogger. O que se representa - a ideia de rede e o que ela visa - representa-se sempre a partir de um corpo onde se criam imagens que vão fazendo aparecer a consciência (a mente é um fluxo de imagens que faz aparecer a consciência).
A consciência do blogger - criada por sequências variadas e intensas de imagens também virtuais - está assim permanentemente a imergir nos circuitos da rede e a reinventar-se em situações que se desdobram e que (mutuamente) se iludem ou intertextualizam: a experiência da rede é tanto mais uma experiência do corpo e da mente quanto mais as simulações nela criadas se abrem a novos espaços e a novas séries de remissões. O corpo do blogger que se projecta na rede é, nesta medida, um corpo que se transforma numa viagem, num tele-rumo em cascata. As finalidades e os leitmotivs surgem nessa navegação como meios, os limites - a pele - como passagens entre zonas permeáveis e o olhar como propriocepção alargada.
Tradicionalmente, a propriocepção sempre se traduziu por uma consciência dos limites do corpo físico. Só que, neste caso, o corpo internauta passou a exceder de longe essa noção de corpo físico que permanece sentado a observar o ecrã onde o blogue se torna visível através de intermitências electrónicas. Esse lugar que se dá a ver através do ecrã do monitor e onde aparecem imagens e pré-escritas é, ele mesmo, o mostrar de uma consciência que está, ao contrário da consciência real, ligada clinicamente a uma soma indeterminada de muitíssimas outras consciências. Este misto cruzado de consciências em articulação com uma propriocepção aparentemenmte sem fim define o corpo protético do blogger.
É um corpo que parece crescer até aos confins não-lineares da rede. Uma massa de carne telepática cuja consciência excede fatal e desmesuradamente a consciência individual, já que é regulada por imagens de imagens que se propagam de maneira indefinida e duradoura.
O corpo protético do blogger pode ser decisivo para o entendimento da questão do “tom”, essa incessante procura que tem em vista adequar a expressão – baseada em sistemas clássicos - ao novíssimo medium (tudo isto se passa nos últimos segundos da história da espécie humana). Se o corpo protético do blogger decorre de uma forte vivência virtual e se a consciência do blogger é a fábrica plural de imagens originada por essa vivência, é natural que a sua expressão na rede (nos blogues) tente salvaguardar aquilo que é o seu espaço vital e a preservação mínima da sua identidade. Sobretudo porque a mobilidade da consciência (coligada a muitas consciências, como se viu) tende a diluir as fronteiras do espaço singular e pessoal. É por esse motivo que a apropriação do meio e das linguagens que o blogger domina terá que depender de uma fixação identitária mínima, cuo objectivo é separar o que é o espaço da sua própria escrita da voragem intertextual que a rede processa e consome.
Esta ‘luta’ em duas frentes é a mesma que Damásio ilustrou para caracterizar a construção da consciência: de um lado, o engendramento contínuo de imagens (incluam-se aqui também os padrões neurais e os mapas) para que a mente expresse o que se passa na relação entre organismo e ambiente; do outro lado, a experiência do “sentido si” que implica a certeza de que esses acontecimentos correspondem a experiências desse organismo real e não de um outro qualquer.
A expressão, ou, repita-se, a adequação dos sistemas comunicacionais tradicionais à nova arquitectura telepática que constitui a rede, será sempre uma batalha sustentada nestas dois campos: o campo da euforia (onde se inclui a novidade proprioceptiva e uma nova consciência plural e partilhada constituída por uma bola de neve de imagens) e o campo subjectivo (onde se tornam inevitáveis o apelo da individualização, a recusa da imersão patológica, a criação de uma intencionalidade e a normalização mínima das escritas).

domingo, 25 de junho de 2006

Dominicais e intempestivas (act.)

Bloggers anónimos numa rua escura de Alcântara, na sequência da visita do ilustre Alexandre Soares Silva a Lisboa (flagrante após a sobremesa)
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Hoje, como é habitual, é dia de descanso para os "Tons". Para quem já se cansou e para quem já se rendeu, há uma novidade: eles acabarão no número cinquenta (tal como a série "Ficcionalidades de Prata" que publiquei há dois anos).
Daqui a duas semanas, sensivelmente, o Miniscente comemorará o seu terceiro aniversário e, nessa altura, far-se-ão outros balanços.
Consegui até agora nunca falar de futebol, talvez porque, pela primeira vez na minha vida, senti um ligeiro cansaço (não com o jogo, mas com o espasmo generalizado que obriga a fazer de cada corpo um corpo da selecção). No futebol, prefiro sempre o futebol de equipa: é aí que a physis se expõe e que o coração, decididamente, se entrega. Isto não quer dizer que hoje não torça por Portugal, embora tenha ambas as nacionalidades (portuguesa e holandesa). Cantarei os dois hinos, pois então.
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p.s. (no intervalo) - No comentário político está sempre a acontecer aquilo que deu há pouco ao Costinha.
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p.s. (no final) - Talvez o empate tivesse sido mais justo. Mas a estranha ausência de fairplay por parte dos holandeses ditou a justiça do vencedor.

sábado, 24 de junho de 2006

O "tom" dos blogues - 42

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É ponto assente que a blogosfera se transformou num território de regresso à individuação, num tempo que parecia não mais permiti-lo (a noção de ‘autor’ vinha a perder-se ao longo do século passado – entre tendências formalistas e hermenêuticas - e ameaçava diluir-se na frieza das conectividades da rede). Esta afirmação da individualidade é um dos aspectos que mais tenho perseguido e analisado nesta série acerca do modo como a expressão se tem reinventado no novo medium.
No coração destas análises, há uma questão que inevitavelmente não deixará nunca de ser postulada: que tipo de subjectividade e de individuação é esta? Há um ponto de partida que parece ser óbvio para as mais variadas respostas: na actualidade, a circulação de todo o tipo de informação adquiriu uma autonomia tão radical na rede que se afastou de vez daquilo que seriam os seus personagens ‘naturais’ (empíricos, ficcionais, interactores, etc.).
Hoje em dia, já não se pode dizer que o agir humano e o agir autónomo das linguagens interajam de modo flexível e aberto no mundo. Será mais prudente afirmar-se que a autonomia das linguagens (essa miríade de entidades semióticas veiculadas em bits) está a criar um novo tipo de agir humano. De um sincretismo entre linguagem e acção estamos a passar para uma virtualização que pressupõe uma acção e uma linguagem paralelas ao vivido. De um lado, o corpo de carne e osso face ao computador, do outro lado um corpo em delírio virtualizante que se adapta e confunde com a voragem dos dados suscitados pela instantaneidade da rede.
Cuiosamente, quando a Declaração de Leiner e Cerf foi tornada pública, a meados dos anos setenta, o protocolo que viria a criar rede (TCP/IP) tal como hoje a entendemos, baseava-se já na lógica do ‘end-to-end’. Isto é – como este último escreveria mais tarde -: “A única coisa que queríamos era que os bits fossem transportados através das redes, apenas isso”. A compreensão telemática do corpo passaria a pressupor precisamente este facto: a informação, ao ganhar uma tal independência, deixaria definitivamente de se relacionar com os corpos que a agenciariam, com os dados (conteúdos) agenciados e com os próprios objectos a que se referiria. Um novo entendimento do mundo estava assim a emergir.
É neste quadro que a disponibilidade do novo caudal de informação (que circula no mundo paralelo ao mundo territorial) acaba por traduzir-se numa espécie de eficácia de excesso que se contrapõe à ideia clássica de individualidade, de subjectividade e de corpo. O que apreendemos, hoje em dia, é sempre um excerto, uma panóplia de fragmentos, um ‘zapping’ desse novo mundo de bits (i.e., um outro desígnio para o que aprendemos a entender por montagem). Daí que o novo corpo e a nova subjectividade – que se revelam nos blogues de modo primoroso – assumam as características de um corpo e de uma subjectividade protéticos: neles, a realidade é uma plasticina criada pela ‘re-arrumação’ permanente de bits. A maior angústia do blogger - e do que ele enuncia e apreende - decorre do desfasamento entre aquilo que decifra e o fluxo a que acede em cada momento: é nessa décalage que a virtualização da individualidade (a prótese) age e reage aos próprios contextos que cria.
Este novo interface entre a máquina hipertecnológica e a subjectividade acabará, mais cedo ou mais tarde, por reflectir-se na nossa própria arquitectura genética. Hoje em dia, já se formulam questões acerca desta transição entre uma sociabilidade massificada e a súbita sociabilidade das mediações hipertecnológicas. O pós-humano - um campo do saber muito recente – vive deste emaranhado onde estão envolvidas a neurobiologia, as teorias da rede e as ciências comunicacionais, semióticas e cognitivas.
Quem sabe se a individuação que se revelou subitamente na blogosfera não constituirá - ou não constitui já – um laboratório quase ideal para encontrar algumas das respostas para tais fascinantes perguntas?

sexta-feira, 23 de junho de 2006

O "tom" dos blogues - 41 (act.)

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A interrupção do coito é um método clássico de precaução que nunca impediu um vasto campo de possibilidades, mesmo as mais inesperadas ou desejadas. A expectativa de interromper um coito sempre coincidiu com um horizonte fluido que tendia a diluir-se no frémito do prazer, na tentação ad aeternum do acto e na entrega ao ilimitado. É por isso que a interrupção do coito sempre navegou, e há-de navegar, na incerteza do que, ao mesmo tempo, ‘é’ e ‘não é’. A partir dele, ou da intenção de realizá-lo, tudo pode irremediavelmente acontecer. O que o sustém é o que o alimenta e o que o prefigura é o que o trai.
O coito interrompido é, pois, uma partilha tácita que pode, a qualquer momento, tornar-se no pasmo mais maravilhado da volúpia: uma rendição deslumbrada.
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A interrupção da leitura tem hoje em dia na rede um destino semelhante à interrupção do coito. As coisas ligam-se quase cutaneamente. Não tanto pelo facto de a instantaneidade da rede poder sugerir – e sugere certamente - formas de desejo protéticas, mas sobretudo porque a rede é, ela mesma, uma amálgama de interrupções permanentes, devido às remissões que conduzem, segundo a segundo, aos links mais diversificados.
Os destinos criados pela omnipresença dos links são incomensuráveis face à via - ou ‘estrada clássica’ - que sempre fez da leitura uma travessia calma que, quando muito, acautelaria a existência de um ou doutro cruzamento ou viaduto.
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Nos dias da rede, cada segmento de uma via (ou de uma estrada) é já - e sempre - um desdobrável quase ilimitado de seduções que nos aparece diante dos olhos sob a forma de índices variados, de ícones atraentes, ou de simples mudanças cromáticas (a palavra azulada acenando na frase negra).
Este banho de imersão faz do corpo do blogger que imergiu na rede um corpo que é quase só feito da água que o envolve: como se se tivesse dissolvido na matéria que transformou as vias - e as estradas clássicas – na mais pura volúpia. Como se todos os caminhos se tivessem extinguido e, em sua substituição, aparecessem agora vórtices doces onde se está em todo o lado e ao mesmo tempo.
Afinal, não há melhor metáfora para um orgasmo quase perfeito: essa perda de lugar, de horizonte, de expectativa e de consciência de interrupção. ‘Estar lá’ como explicação e ‘ficar lá' como devir: é tudo. Tudo para explicar um bom orgasmo, ou para situar a perdição do actual sujeito protético que está a fazer da rede a obsessão mais eufórica da sua individualidade.
Há descobertas que são simples: soam ao que somos, ao que fazemos e ao que – substancialmente - fantasiamos.
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p.s. - Remando quase ao mesmo tempo e na mesma direcção: publica-se hoje no Abrupto um segundo - e óptimo - texto sobre a natureza retrodita dos blogues (o verbo "retrodizer" foi utilizado por Borges para caracterizar o papel de Kafka como pioneiro de muitos dos seus antepassados - Otras Inquisiciones, Kafka y sus precursores, 1952). Lembro-me deste tipo de análise ter atravessado os blogues há uns dois anos.

quinta-feira, 22 de junho de 2006

O "tom" dos blogues - 40 (ver p.s.)

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Talvez a estratégia dos conteúdos que se agenciam nos blogues seja idêntica à que Gide atribuiu um dia ao diabo: a de fazer crer a sua própria inexistência. É verdade que a invisibilidade do que ‘se diz’ nos blogues é directamente proporcional à sua transitoriedade, ou seja: o que é retido do que se lê na blogosfera, passado um ou dois dias, é já tão pouco ao pé do que é removido que o ‘quase nada’ que sobra acaba por ter um poder demiúrgico sobre a própria obsessão do interactor (como se fosse o vestígio de um meio ‘iluminado’). Esta assimetria terá a crueldade de um exorcismo incompleto, mas é ela que cultiva o novo tipo de narrativa diária que, de modo síncrono e plural, a blogosfera passou a impor ao quotidiano nos últimos anos. Ela surge com novos ângulos e pontos de vista e cruza-se, de um modo provocador e externalista, com as narrativas mais ou menos estáveis que já lhe pré-existiam.
Em De Profundis, Óscar Wilde disse (“dizer” é próprio do género epistolográfico, como é o caso) que o principal valor da paixão de Cristo era estético e que o próprio triunfo do Cristianismo no Ocidente se ficava a dever mais a esse factor estético do que a qualquer outro paradigma moral. Segundo este ponto de visita, a paixão de Cristo teria superado a dimensão das tragédias gregas e inscrevia todas as possibilidades do mundo numa dramaturgia simples, superior e exemplar.
Se se fizer corresponder este visionarismo estético de Wilde (assente ainda na ideia de ‘beleza’) ao visionarismo local que o blogger tem hoje da rede em geral (o ‘todo’ dos blogues, ou, noutra escala, o ‘todo’ em expansão do universo da rede), pode dizer-se que a nova narrativa blogosférica se está, a pouco a pouco, a impor às narrativas previamente existentes, não por dar a ver todas as possibilidades do mundo através de uma dramaturgia superior e exemplar, mas por reflectir a redescoberta da subjectividade a contracenar com o novo acting-out mediático da rede. Daí o carácter provocador e activo da nova narrativa (de narrativas) que, dia a dia, o hibridismo expressivo da blogosfera passou a catapultar, apesar da aparente invisibilidade dos seus conteúdos e (par cause) do poder desmesurado da arena telemática onde circula.
Em 1766, no capítulo IX de Laocoonte, Lessing escrevia: “Apenas quis nomear como obras de arte aquelas em que o artista se podia manifestar enquanto tal”. Este eco que revelava a súbita descoberta da subjectividade num campo que subitamente se autonomizava – o estético (o que aconteceu a meados do Século XVIII, através de autores como Baumgarten, Diderot ou Winckelmann) – parece ter algo a ver com a hipnose encantada do blogger contemporâneo face à deslumbrada propagação da sua voz no novo éter da rede. Como se o fervor de todas as novas e súbitas revelações, fosse qual fosse a sua natureza – a de Wilde, a de Lessing ou a dos actuais “early adopters” (D. Watts) - se fizesse acompanhar por uma dimensão estética capaz de converter num segundo os mais incautos.
Eis, pois, mais uma explicação tão clara quanto óbvia para a euforia que acompanha, nos tempos que correm, todos os agentes da santíssima trindade da blogosfera: simultaneamente autores, editores e leitores compulsivos. Sem esquecer que a visibilidade dessa euforia tem ainda hoje em Gide um dos seus profetas.
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p.s. - Hoje, às 18 h. 30, Alexandre Soares Silva, vindo directamente do Brasil em figuração carne-e-osso, ostentará a sua erudição e outros devaneios espirituais em plena Casa Fernando Pessoa, aqui no bairro de Campo de Ourique. Estarei lá, como conspirador vestido de linho claro, mas não só.
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quarta-feira, 21 de junho de 2006

O "tom" dos blogues - 39

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Um breve texto deixado na caixa de comentários de “O ‘tom’ dos blogues – 30” (da autoria de Roteia do Ultra Periférico) suscitava respostas às seguintes perguntas alternativas: Que espaço existiria há alguns anos que, hoje em dia, os blogues tenham passado a ocupar? Ou, será que um espaço 'totalmente novo' se veio apenas acrescentar aos já existentes?
Eu creio que a blogosfera veio maioritariamente responder a horizontes anteriormente existentes, embora tenha também alargado o horizonte com que nos debatemos e exprimimos hoje em dia (daí as contendas enuncidas pelo
Roteia entre os tempos destinados ao blogue e os outros tempos ‘úteis’ destinados, por exemplo, à escrita, à investigação, à leitura, etc.).
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Comecemos pelo primeiro caso. A blogosfera veio de facto ocupar:
a) o que antes era um espaço de silêncio que se desenvolvia de modo vertical entre alguns emissores localizados e uma vasta cadeia de auditórios (o tempo de incubação e interpretação de um livro, de um filme, de textos publicitários, do discurso político, etc. que hoje aparece a cruzar a meteórica miscelânea temática dos blogues);
b) o que antes era um espaço potencial de interacção que vivia contido pela própria natureza dos média tradicionais (a reacção face à televisão, face aos espaços de crónica ou face à própria sintaxe das notícias/imagens que hoje preenchem boa parte dos discursos activos e plurais que se enunciam nos blogues);
c) o que antes constituia um espaço crítico a partir do qual se descreviam coloquialmente – era ‘matéria de botequim’ - certos mundos de cariz muito empírico (as viagens, os lazeres domésticos, os pequenos actos do quotidiano que hoje aparecem intensamente transpostos em conteúdos da blogosfera).
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Passemos ao segundo caso. A blogosfera veio também realmente acrescentar horizonte aos nossos horizontes, sobretudo pelo facto de ter aberto a possibilidade de existência ao que, hoje em dia, pode ser já caracterizado como sendo a ‘cidadania expressiva’ (um imenso jorro “telepático” global, segundo a expressão de Sloterdijk, que carece ainda de uma adequação das linguagens tradicionais às ‘estruturas’ do novo meio).
Este novo redimensionamento dos horizontes expressivos corresponde a um espaço potencial que anteriormente não estava a ser desenvolvido por diversas razões, sendo as principais (a) o controlo apertado dos mecanismos de edição e (b) o desfasamento entre o desejo de inciativa expressiva e os meios que a tornassem massificadamente possível.
A ideia (ingenuamente blogosférica) que, de repente, tudo e todos se tornaram “escritores” ou “autores” advém desta ‘ruptura’ operada na rigidez dos mecanismos de edição e na eficácia expressiva proporcionada pelos “hosts” (Blogger, etc.).
Há, contudo, uma interessante analogia entre este caudal de novas escritas e “escritores” (o número de blogues não deixa de crescer de modo exponencial) e o final da censura que, no caso português de há trinta e dois anos, toda a inteligentsia pensou que viria acompanhado do anúncio de um número ímpar de obras de qualidade até então ofuscadas do público. Se hoje se sabe que este último facto se traduziu afinal no verdadeiro mito de Abril de 1974 (pondo de lado uma meia dúzia de honrosas excepções), também se pode afirmar que, no caso dos blogues, a optimização massificada da expressão não logrou tornar visíveis, até hoje (salvo a mesma meia dúzia de excepções), novos “génios” anteriormente ofuscados pelo “sistema”.
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Ortega Y Gasset percebeu muito bem no seu tempo que as vozes que nunca tinham aparecido no espaço público começavam subitamente a singrar. E baptizou-as, sem grandes ironias (La Rebelión de las masas, 1939), como a voz do “señorito satisfecho” ou do “niño mimado de la historia humana”. Adoraria saber como é que Ortega baptizaria, nos tempos que correm, este novo ‘caudal’ que procura sagaz e desesperadamente o ‘core’ de uma renovada expressão.
Ter-se-ia ele lembrado da questão do “tom”?

terça-feira, 20 de junho de 2006

O "tom" dos blogues - 38 (act.)

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Gianni Vattimo disse que o design era o “sonho de um resgate estético da quotidianidade através da optimização das formas dos objectos, do aspecto do ambiente” (A Sociedade Transparente, 1989). Este tipo de esteticização do quotidiano acrescentou à eficácia da cultura material aspectos formais autónomos (estéticos), cuja função era criar múltiplas sugestões e perturbar a tradição de adequação tácita entre acondicionamento formal e funcionalidade (uma colher apenas para comer, um armário apenas para guardar, uma cadeira apenas para sentar).
E a verdade é que o design não só não perturbou o legado da eficácia técnica como ainda lhe acrescentou uma diversidade de valores que havia sido ditada pelas vanguardas artísticas do século XX (sobretudo as linhas de “expressão” - expressionismo, informalismo, etc. -, as linhas de “formatividade” - cubismo, stijl, op art, etc. - as linhas de “arte útil” - bauhaus, construtivismo de Malevich, etc. – e as linhas da “redução” - arte minimal, arte conceptual, etc.). É por isso que, para Vattimo, o design foi entendido como um resgate estético do quotidiano. O sonho, em tal concepção, passou por uma espécie de elevação do quotidiano: neste caso, o ter concedido ao dia a dia aquela sacralização que foi sonhada para o estético desde o Iluminismo, ou seja estender a nova catedral - que se enclausurara em museus, galerias e salões - ao asfalto das ruas e aos ambientes de passagem ou de habitação.
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A blogosfera é a consecução de um sonho parecido. Não se pode dizer que a blogosfera é a parte da rede que ligou o quotidiano a um devir estético (distante da função transitiva de meramente sinalizar), mas pode dizer-se que a blogosfera está a reinventar um conjunto inovador de conexões entre a experiência pessoal (e às vezes íntima) do quotidiano e um eclectismo de regras e linguagens que são em si mesmas uma procura.
Poder-se-ia até ir mais longe e reivindicar para a blogosfera um certo tipo de ‘efeito estético’ que resulta da permanente adaptação da linguagem ao multi-posicionamento das escritas na relação com outras escritas hipertextuais e com o novo meio em que se inserem. A linguagem no novo meio blogosférico é uma linguagem que acaba por flectir em tempo real, como se fosse um corpo em movimento, mas sem regras óbvias que lhe apontassem uma sintaxe apropriada, uma locução tipificada e um sentido estrito de finalidade. O jogo desta nova linguagem é a pesquisa da sua própria expressão, afinal. Este tipo de ‘efeito estético’ que se sente na blogosfera vive sobretudo de um princípio que o design tornou presente há algumas décadas: uma permanente perturbação no que sempre foi um encaixe perfeito entre acondicionamento e finalidade.
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O que se escreve nos blogues tem características de inacabado e vive sempre na iminência da sua flutuação noutro local da rede. Em cada palavra escrita na rede existe sempre um parapeito de perturbação ou um limiar de transtorno, na medida em que o destino da enunciação anda invariavelmente associado a uma imponderada mobilidade.
É por isso que se constata nos blogues uma espécie de suspensão do texto e das imagens que se traduz por marcas e inscrições variadas (esta uma matéria fascinante para investigar de modo mais aprofundado: encadamentos sintácticos, formas fáticas, estratégias de síntese, teores condensados, etc.). É como se o próprio texto soubesse que está inevitavelmente condenado a uma metamorfose, à mão de anfitriões sempre provisórios e desconhecidos. Um texto de hoje será, noutro dia, já outro texto; ou melhor: um texto de hoje poderá ser, noutro altura qualquer, ele próprio e muitos outros que nele e com ele se terão cruzado e interagido.
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A blogosfera também está assim muito próxima do tal “resgate do quotidiano” de que falava Vattimo, embora por via da optimização de formas expressivas em contínua adaptação aos impactos da instantaneidade comunicacional (o “tom”).
Tal como no design, a perturbação e a eficácia complementam-se na blogosfera.
A primeira, por transtornar a sequencialidade tradicional das escritas, por criar polaridades sugestivas e ainda por perturbar a tradição que sempre adequou à funcionalidade um pacote expressivo hipercodificado. A segunda, por repor a individualização na sua relação com uma agenda de grande proximidade (geralmente colocada fora da visibilidade dos média e de outros tipos de mediações tradicionais) e de vizinhaças múltiplas e inadvertidas.
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P.S. - Quando se reage a esta série deste modo, é preciso dizer uma palavra. Afinal, não gosto de reagir com indiferença. O que atravessa esta reacção (aparentemente descontraída e convencida) é, ao fim e ao cabo, o ressentimento e sobretudo a invídia. Não face a mim, como é óbvio e natural, mas face a um objecto fantasmático que representa como sendo o oposto daquilo que sente que é: uma pequena partícula na galáxia da rede. Tem pena de o reconhecer e não o podendo aceitar, reage atacando (injustamente) quem com ele se cruza. E fala da “bola” e das “três palavras novas” que um tipo inventa por dia. E fica todo contente.