quinta-feira, 8 de junho de 2006

O “tom” dos blogues - 28

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Austerlitz, Os Emigrantes e sobretudo a História Natural da Destruição são obras do escritor W. Sebald que nos permitem penetrar nos labirintos de uma amnésia colectiva. Não se trata, naturalmente, da amnésia colectiva que resulta do processamento dos disposivos globais de carácter hipertecnológico (o território dos blogues), mas antes de um tabu histórico e, portanto, de uma amnésia forçada. Este tipo de elipses era – tê-lo-á sido quase sempre - próprio do véu que cobria geralmente os vencidos (hoje em dia, o fluxo global de imagens tende a esbater ambos os territórios: vencidos e vencedores parecem agora disputar um limbo de choque em tempo presumidamente real).
O caso da deliberada omissão histórica do que foi a radical destruição da Alemanha no final da II Grande Guerra Mundial tem sido, nas obras de Sebald, abordada de um modo descomprometido, desideologizado, memorial, frio e literariamente possante. Com efeito, o processo de contínua e implacável razia que conduziu à derrota do nazismo foi sempre tomado no pós-guerra como um facto natural da própria lógica da guerra. As descobertas do horror nazi, na Primavera de 1945, tornaram incompreensível a própria ideia de guerra e de sentido (não da ausência, da falha ou da falta de sentido, mas do próprio sentido). O Holocausto era - e é hoje em dia – a verdadeira impossibilidade ao vivo. Esse facto terá acelerado, e de que modo, a recusa alemã em reflectir sobre a urbanização do terror.
Como Sebalt escreveu corajosamente, os alemães não se limitaram a adoptar esta “espantosa capacidade de auto-anestesia” que “parecia ter saído da guerra de extermínio sem males psíquicos dignos de nota”. Para além disso, a própria “génese do milagre económico do pós-Guerra” teria mesmo tido como base este “catalisador puramente imaterial: uma torrente de energia psíquica que ainda hoje não secou e cuja nascente se encontra no segredo bem guardado dos cadáveres em que assentam as fundações” da Alemanha. Este segredo mereceu mais consistência e mais eficácia histórica, segundo o autor, do que qualquer outro “objectivo positivo”, como por exemplo a “realização da democracia”.
Um tabu existe - e existirá sempre - como uma ferida para ser tocada. Sebalt, nascido praticamente com o final da Guerra (ainda hoje continuamos a pronunciar “A Guerra”), teve esse arrojo. O início de Os Emigrantes ilustra, de modo tão doloroso quanto límpido, o significado de um exílio que parecia aliar a inevitabilidade à ausência de sentido. O 'menino' e depois o 'adolescente' assumem aí o pasmo de quem é arrancado de um inexplicável campo de cinzas mental, pacificado apenas pela silenciosa e sábia articulação entre a fuga para a frente e a amnésia compulsiva.
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Mesmo em tempos imemoriais, a memória foi sempre assegurada por narrativas bastante estáveis, embora de natureza muito diversa. Os mitos, por exemplo, nunca se confundiram com os chamados textos “sagrados”. Estes últimos não podiam – e não podem - ser alterados e a sua razão de ser raramente deixou de se confundir com um literalismo absoluto e congénito. Ao invés, os mitos viviam - e vivem - de uma noção elástica de matriz, ou de ponto de partida, de tal forma – como escreveu H. Blumenberg em Trabalho sobre o Mito (1979) - que é na relação entre "tema" e "variações" que o auditório e a emissão acabam por encontrar um sentido (um sentido fluido, mas que permanece como se propagasse uma evidência muito mais importante do que qualquer geometria canonizada da memória). Os mitos aprenderam há muito a viver num mundo sem escrita que concedia à memória maior flexibilidade e mais margem de manobra, de inventividade e de recriação. A amnésia colectiva nos tempos míticos coincidia com aquele espaço difuso do vivido que nem sempre era agregado na narrativa (os vencidos apareceram, às vezes, nas narrativas míticas como é provado, por exemplo, na longa tradição da Sibila Tiburtina – evocadora dos feitos de Alexandre-o-Magno).
Segundo certos autores contemporâneos, a modernidade nunca matou o mito, antes o incorporou e modelizou na voragem tecnológica, nas novas narrativas e na nova amplitude racional e subjectiva. Aliás, sobrevive ainda nos nossos dias um conjunto variado de práticas de base ne varietur (como o canto) que não relevam o perfil estático das narrativas fechadas. Também a reprodução mnemónica - como escreveu Le Goff -, persiste nos nossos dias muito para além do literalismo. Actividades como o design perfilam-se na contemporaneidade como uma assunção clara entre a eficácia da cultura material (e da tecnologia) e a tradição artística que, de modo unívoco, sempre se reivindicou desde o Romantismo como herdeira única do mito. Os próprios blogues vivem deste pacto entre eficácia e criatividade, não deixando de repor ecos de ecos de muitas vozes na constituição da linguagem que diariamente agenciam.
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A superação das dicotomias estanques criadas pela modernidade (auditório-enunciação, verdade-sentido, público-privado, real-ficção, arte-técnica, mito-logos, etc.) é um dos teores do presente e é, sobretudo, um dos sinais que permite caracterizar uma sociedade em transição para o paradigma hipertecnológico. Um dos sintomas mais constantes dos tempos actuais é a incidência do presente mais imediato nas nossas vidas. O presente tornou-se numa fixação mais ou menos hedonista e protética e distanciou-se do futuro e do passado através de dois muros espessíssimos (muros parecidos com o levantado, com alguma cativante euforia, por Paul Auster em A Música do Acaso). Os chamados ‘grandes ideais’ abandonaram a tela ilusória e idílica do futuro (escatológica ou ideológica), enquanto as narrativas fixas eram subitamente substituídas por várias de raiz mundana – como as micro-narrativas da blogosfera - que coexistem e se sucedem de modo meteórico.
A revisitação quase sagrada do passado dava assim origem a um novo tipo de amnésia colectiva que ia transformando a memória baseada em narrativas estáveis numa espécie de Lost Highway. A metamorfose do saxofonista Fred Madison, no filme de Lynch, não é a mesma que delongadamente aparece em Orlando (Woolf), ou que, por absurdo, se enuncia através de Gregor Samsa (Kafka): nela o passado é uma remoção quase normal ao serviço de um ‘agora aqui’ vertiginoso e sem inquietação de dúvidas, perguntas e explicações. A ficção cyberpunk vai mais longe neste passo que devora o território: sobra nela a ilusão da ilusão que mobiliza como protagonista o pós-homem criador de memórias diversas e jamais vividas (Bethke, Brunner, Burroughs, Cadigan, etc.). A virtualização surge aqui como essa enorme fábrica que confunde o implante com os efeitos que produz: a imagem corre na consciência e está noutros lados, ao mesmo tempo, dissociada da relação potência-acto. O acto e os tempos confundem-se. A amnésia instala-se e revê-se como uma normalidade. Desaparece assim de cena, definitivamente, aquele pasmo que Sebald evidenciara em Os Emigrantes.
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A virtualização tende a pôr à mostra todos factos (mesmo os nunca vividos), ainda que sob a forma de simulações (imagens que reatam imagens e que se colocam todas ao mesmo nível no processamento global). Talvez seja por isso que as obras de Sebalt convivam, hoje em dia, com um horizonte de expectativas que as sabe apreciar e respeitar. Vivemos num mundo onde tudo cabe, não porque tenhamos atingido um estado de perfeição, mas porque, de algum modo, regressámos ao coração do mitológico: embora num campo de micro-narrativas instantanistas, a verdade é que voltámos a navegar entre a ambiguidade e a fluidez do sentido como se a comunicação global estivesse a todo o momento prestes a propagar uma evidência muito mais importante do que qualquer geometria canonizada da memória. Ao termos regressado a esta característica central do mito, elevámos a amnésia colectiva ao estatuto de troféu e fizemos das linguagens – sobretudo na rede e, também, nos blogues – um modo de dizer permanente que encontra na actualização, e não num qualquer ponto da narrativa, o seu clímax e a sua anunciação. Enquanto Sebalt reivindicava a restituição da narrativa para enquadrar a vida num conjunto de sentidos, a rede e a casa blogosférica preferem cumprir a ininterrupta enunciação de narrativas e transformam esse acto num conjunto de sentidos que simula todo o tipo de enquadramentos e de reivindicações.
Estar ‘on’ é, nos dias de hoje, estar salvo. Eis, por outras palavras, o que significa a euforia que tem atravessado a individualização quase sem mediações que se edita e difunde diariamente na blogosfera.

quarta-feira, 7 de junho de 2006

O “tom” dos blogues - 27

Quando o próprio e o impróprio coabitam no mesmo espaço
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O recurso a imagens nos blogues é sistemática. É raro o blogue, mesmo se substancialmente a preto e branco (a dimensão estética cruza-se com a eficácia na blogosfera), que não faça aparecer na construção de mensagens – de posts - uma sequência quase infinda e complementar de imagens.
A questão que se coloca é esta: qual a função destas imagens no novo meio?
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Referência: Junto ao post “COISAS DA SÁBADO: 'QUANTO VALEM OS VERDES' ?”
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Não querendo de modo nenhum categorizar, há várias possibilidades que diariamente acenam o interactor: a função de ilustração (mero acompanhamento que reduplica conteúdos), de ostensão (espaço dominado pela imagem e que resiste à anatomia do texto), de legenda (suporte ao serviço de um discurso), de evocação (recurso a iconografias muito culturalizadas), de referência (denotação do ‘topic’ do post) e de paródia (desfasamento criado entre várias escritas).
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Evocação e ostensão simultâneas: sem título, Sábado, 27 de Maio de 2006
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Em Kant e L´Ornitorinco (1997), U. Eco interpretou a noção de ícone de C. Peirce (que, por sua vez, se divide em diagrama, metáfora e imagem) de acordo com duas possibilidades: uma de natureza mais cognitiva e uma outra que o pragmático norte-americano identificou com a disponibilidade de qualquer coisa a “incastrasi” noutra coisa. No primeiro caso, sem querer aqui aprofundar a questão, está em causa a aptidão para estabelecer semelhanças tendo em vista comunicar ou transmitir algo (a chamada “likeness”). No segundo caso, trata-se de um tipo de entendimento que não deixa o espanto por mãos alheias. Por exemplo, quando, em 1779, um dos últimos ornitorrincos chegou à Europa e a sua forma e funções não “encaixavam” em nada existente e conhecido, logo os cientistas ingleses o “encaixaram” nas referências mais próximas e contíguas de que dispunham (ajustaram o novo dado à ‘enciclopédia’ existente). O mesmo aconteceu a Montezuma quando percepcionou um cavalo pela primeira vez e aos intérpretees da NASA quando receberam os primeiros sinais de Plutão.
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Evocação e ostensão simultâneas: Modigliani, post assinado por Ana Roque
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Os processos icónicos, num meio altamente permeável à inscrição de imagens – como é a blogosfera -, tendem a amplificar estes atributos: de um lado, a inevitabilidade dos eixos de semelhança (a “likeness”) visando a clareza de expressão; do outro lado, o uso - por vezes indiscriminado - de imagens como forma de adequação a um novo meio ainda não totalmente descodificado (a disponibilidade da linguagem criada pelo blogger, mais concretamente pelo seu sujeito textual, para “incastrasi”).
Creio que serão poucas as ilustrações, as ostensões, as referências, as legendas e as paródias presentes em imagens da blogosfera que não sejam atravessadas por estes dois atributos. Eles reflectem, afinal de contas, a procura expressiva que está, hoje em dia, a percorrer a blogosfera, num caminho em tudo pararelo, por exemplo, ao dos pioneiros da lanterna mágica, da fotografia, ou do cinematógrafo. O holandês Huijgens e os franceses Nicéphore Nièpce, irmãos Lumière ou Méliès inventaram a suas escritas do mesmo modo: criando dispositivos de linguagem que tornavam verosímeis as suas mensagens, adaptando-as, ao mesmo tempo e a pouco e pouco, aos segredos que os novos sistemas ainda comportavam. No fundo, eles aplicaram intuitivamente e de modo complementar estes mesmos atributos de natureza icónica: “likeness” e “incastrasi”.
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Ilustração: O poder da mente, post ficcional
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Como P. Sloterdijk escreveu num livro recente sobre o terror (2003), desde os alvores do século passado que “chamamos meio ambiente a todos aqueles valores integrais e decisivos que não podemos abandonar”. O recurso à imagem cresceu de facto, ao longo de todo o século XX, com a força de um valor que ia integrando os mais diversos legados expressivos (até chegar a fundir arte e quotidiano, publicidade e estética, política e marketing, média e simbólica). A imagem que, nas origens mitológicas, era um desdobrar do próprio homem em figuras arquetípicas (deuses, lendas, inscrições iconológicas) acabaria assim por encontrar, na transição da era mecânica para a era tecnológica, uma integração plena: o meio ambiente - ou o globário - por excelência.
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Paródia: Bazar, ou um post sobre a feira do livro, a idade, manuais e epifanias
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A metamorfose digital foi e está a ir muito mais longe, transformando a ideia patrimonial de imagem num processo tão permanente quanto descontínuo. A imagem é hoje – também na blogosfera - uma simples paragem do acelerado fluxo global: um momento que pertence a outros momentos, na sua desintegração mais incorpórea. Mas ‘está lá’: sinalizando a ilusão da presença fotográfica, dando a ver simultaneamente o representado e a representação (a figura e a operação que a figura) e tornando claro que qualquer sistema funcional é hoje inevitavelmente ambíguo (daí que, nos blogues, uma imagem transcenda sempre as funções aparentemente óbvias que desempenha).
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Ostensão: Mundo de aventuras XXXVI, um post do Klepsidra
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A blogosfera está a tornar-se num curioso desafio para o sentido das imagens, na medida em que (devido ao seu cariz individualizado e activo) é um meio onde a imagem se processa como se procurasse um lugar próprio. Este protocolo por resolver faz parte da demanda expressiva do meio blogosférico e não deixa de ser um jogo diário fascinante. No fundo, o impróprio e o próprio coabitam no mesmo espaço, que é o espaço da imagem, como se a superação da famosa frase de Tomás de Aquino – Duplex est modus loquendi - estivesse neste momento a acontecer de vez na casa sem paredes que é a blogosfera. A metafísica, como modo de perpetuar o poder, já teve melhores dias. A encenação une, hoje em dia, na blogosfera o palco e toda a ressonância activa e plural do backstage.

terça-feira, 6 de junho de 2006

O “tom” dos blogues - 26

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A criação de personagens corresponde a um percurso (ou a um destino) singularizante que organiza o sentido das narrativas. Os personagens começaram por incorporar a narrativa transformando-se em heróis indomáveis e quase divinos. Depois foram descendo à terra, tentando venerar, interpretar e imitar os heróis cujo excurso se situava nas “Escrituras”. Mais tarde, houve tempo para sonhar com uma autonomia errante mais ou menos terrena (Voltaire, Mercier, Diderot, Swift, Verne, etc.). Um dia, tornaram-se anti-heróis enclausurados nas malhas urbanas, na interrogação do nexo das coisas ou na metamorfose mais imprevista. Houve ainda eras nevoentas em que os personagens quase foram suprimidos por teorias intolerantes que os reduziam a funções de um motor impessoal. Com a rede, a vida dos personagens chegou a soluçar. Qualquer inscrição mais marcadamente personificada parecia já definitivamente condenada a um mero vértice entre conectividades. Até que na blogosfera reapareceu a febre do personagem, embora com contornos e características que pouco, ou nada, têm a ver com o modo como sempre foi compreendida a ideia de personagem (pelo menos desde o advento romântico, quando a ideia de criação e do seu “génio” penetraram no então emergente caudal literário).
Tradicionalmente, as acções expostas numa dada sequência narrativa sempre denotaram a presença, poder-se-á dizer decisiva, de um qualquer tipo de agente (o personagem). Contudo, neste agenciamento sempre se separaram máscaras muito diferenciadas: a empírica (confundida com o autor de carne e osso realmente existente) e a textual, ou, por outras palavras, o modo específico como uma linguagem, uma escrita e um sistema de possibilidades (um “meio”) eram apropriados. A criação de enunciados (posts) seria já um resultado claro do trabalho do autor textual, ainda que reflectisse, directa e indirectamente, marcas próprias do sujeito real ou empírico.
De qualquer modo, estes planos foram e são ainda planos completamente diferentes: num existe um blogger com quem se almoça ou se janta, no outro existe uma arquitectura que efabula, que tira partido e que constrói um “tom”, isto é, que leva a cabo o constante ajustamento e apropriação do – neste caso – meio blogosférico ao serviço de uma expressão e da transmissão de uma força elocutória (o que há a dizer). Para além desta separação clássica - e ao contrário do que aconteceu noutras tradições (géneros lírico ou dramático) -, na narrativa sempre existiu uma instância que ia concedendo o discurso a outrem (o narrador). Ao encarnar a regência do relato, o narrador jamais se confundia com o autor textual ou com o autor empírico. Ao invés, sempre se caracterizou como sendo uma construção autónoma, fictícia, associando-se à voz de um personagem (na primeira pessoa) ou simulando uma espécie de omnipresença divina (geralmente na terceira pessoa).
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Com excepção da separação (embora nunca taxativa) entre sujeito empírico e textual, a qual, ao fim e ao cabo, coloca a questão do “tom”, pode afirmar-se que na prática blogosférica estas divisões algo estanques se estão a esvair. É uma tendência. Por um lado, o narrador confunde-se praticamente com o ‘magno’ personagem que domina as micro-narrativas da blogosfera. Este protagonista relata tudo a partir de um inequívoco e nada ofuscado “Eu”, embora, aqui e ali, figuradamente, possa conceder a voz a outrem, ou contar um micro-enredo a um narratário passageiro. Por outro lado, e de uma maneira paradoxal, o protagonista dominante na blogosfera torna-se geralmente num “Eu” omnisciente que não separa enredo e fábula e que ocupa as mais variadas funções tradicionais (metatexto, emissão, destinatário, fática, etc.).
Um pouco como nos sujeitos textuais da literatura epistolográfica do século XVIII, há nos personagens da blogosfera um certo ‘spleen’ solitário que, no entanto, estabelece amiúde contrastes com uma súbita euforia que é própria de uma simulação de poder (o blogger interioriza a simulação que pressupõe o controlo do dispositivo onde a sua escrita se processa). Esta ingenuidade ‘tech’, muito ligada à omnipresença na rede e no mundo, nada tem a ver o confessionalismo epistolográfico de um Laclos ou de um Richardson. Por outro lado, o confessionalismo que hoje se está a recuperar nos blogues revela ainda a falta de um horizonte de sentido mais geral que o século XVIII levava muito a sério. Estes factos são positivos, creio eu, e estão a dar origem a um “Eu” muito livre, às vezes mesmo sôfrego, desprendido e em permanente procura. É este personagem-narrador-simulador, aparentemente muito próximo da respiração e da pele do sujeito empírico, que hoje imprime um percurso – ou um destino – às micro-narrativas, aos relances do quotidiano, às situações de ‘media res’ e a todo o tipo de quadros ficcionais que são relatados diariamente nos blogues.
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Durante os meses em que desenvolvi o projecto de um blogue em Inglês (o Minion), criei uma rubrica que designei por “The blank blog is staring back at you” e que se iniciava sempre assim: “Bloggers sometimes become characters much like blogging becomes a literary mode”. Nessa rubrica, tentei exemplificar este re-emergir do personagem dotado e enriquecido pelos atributos que acabei de apresentar. Deixo alguns exemplos e, numa segunda vaga, farei o mesmo com alguns blogues portugueses. portugueses:
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Começo por uma história incrível - e ao mesmo tempo mundana - que nos põe a cantar “love is in the air”. O personagem a partir do qual David Adesnik nos expõe o seu enredo sucinto (um “I” que claramente se individualiza no relato) tem como destino o exercício sagaz de uma pequena transgressão (guiar sem carta de condução). No entanto, sem conseguir transgredir, acabará por não atingir o alvo que pretendia. Mais um caso de amor falhado no universo:
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"Last spring, when I was living in Boston, love was in the air. I had a date with a very beautiful young woman in Vermont. But I didn't want to take the bus up to see her. I wanted to drive. However, my driver's license had just expired and I couldn't get a quick renewal, because I no longer lived in DC, where the license was from.Swept away by thoughts of romance, I decided to head over to the local Enterprise Rent-a-Car and hope they wouldn't notice my licensed had expired. But they did. And they explained politely but firmly that renting a car to someone without a valid license is absolutely unacceptable. I knew they were right, so I took the bus. Perhaps that why the girl broke up with me." (29/03/05)
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No Live Surprises You, o protagonista confessional faz eco da dramaturgia que se desenha entre ‘flirt or not to flirt’. Sem qualquer tipo de clímax, o desenlace antecipar-se-á abruptamente ao sentido da própria história: “Will I be able to stop flirting? Heck no!"
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"Secretly, every girl wants to be Cinderella. Every woman wants to be rescued from her circumstances by a wonderful and charming prince who is determined to do anything to get her." (...) "All the good princes are taken or (more often) not interested and all the Cinderellas are too busy chasing to be chased. My suggestion: Secretly like from a distance and flirt little. Flirting only confuses and sends mixed signals. Will I be able to stop flirting? Heck no!" (17/03/05)
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Por fim, nesta sequência do Minion, outra micro-narrativa de teor confessional em que o sujeito empírico e o textual quase se sobrepõem. Trata-se do filho de um camionista que adora o pai. Mas que adora ainda mais os jogos. Qualquer tipo de jogo. A euforia da confissão e da força elocutória:
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"And my father is a truck driver, so I only get to see him like on the weekends and sometimes only every other weekend, but when me and my dad hang out we usually play games. I love games, any games, card games, board games, computer games, or video game, I love them all." (13/03/05)
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Os blogues escritos em Português partilham naturalmente este tipo de narrativa desagregada que se baseia numa espécie de visionarismo instantanista: a situação criada articula-se com um alicerce mínimo onde um personagem age, geralmente tentando atingir uma meta bastante parcelar. Ao contrário do que é próprio da tradição narrativa, na blogosfera, a organização dos micro-relatos não tem como finalidade assegurar a coerência dos eventos que se sucedem no tempo e que atravessam necessárias transformações, desde um estado inicial até a um desfecho. Na blogosfera, os estados confundem-se e a coerência dos eventos resulta, muitas vezes, mais do entreacto paródico que se delineia entre a situação e o percurso dos personagens do que das querelas tradicionais (entre adjuvantes, oponentes, etc.). A própria finalidade da narração na blogosfera também não se resume à tentativa de restaurar um estado inicial que se teria transformado, nem tão-pouco à resolução de um problema, ou de uma oposição gerada inicialmente. O protagonista gera o seu “Eu” e torna-o sobretudo no movente e no móbil (veja-se este segredar tão paródico quanto íntimo, associado a um desejo de partilha e de “ajuda”):
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SOCORRO! SOCORRO! AJUDA!/ Hoje fiz um pic-nic. Vinho de pacote, geleira, frango assado e tortilla, mantas no chão, uma rede atada a duas árvores, cerveja morna, radio-cassete e as músicas da moda, calções, suor no cabelo, moscas, copos de plátisco e uma padilha de ecuatorianos a jogar à bola na azinheira do lado./ O meu domingo metido num taparuere. Alguém reponha o glamour na minha vida!”
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A Adriana Paiva do Periplus paulista é uma exímia narradora do quotidiano urbano. A imagem é sempre parte da equação expressiva da blogger. Neste extracto (a parte narrativa de um post sobre arquitectura efémera e publicitária), volta a sentir-se este quase aconchego entre a enunciação textual e empírica. A euforia imediatista com que o estado de espírito que acompanha a narração se faz notar pouco tem a ver – felizmente – com o que seria a objectividade do relato noutros meios. Um compromissso narrativo interessante:
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De folhetins e enlatados/ Dias atrás, transitando por uma das vias próximas à Avenida Paulista, ao divisar de longe a geringonça (fotos abaixo), cheguei a pensar que se tratasse de resquício de publicidade alusiva à Páscoa. Não. No domingo, percorrendo a Paulista até a altura da Consolação, descobri que o ovo gigante anunciava a estréia, ontem, de novo folhetim global. Sem disposição para assistir um capítulo inteiro de novela que seja, não sabia que a ocupante anterior do horário (novela de inspiração 'new-far-west'?) terminaria por esses dias.”
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Neste post do Vício de Forma, o destino e o personagem confundem-se. A brevíssima paródia ’trágica’ parecia, de facto, estar há muito escrita. É assim que, paulatinamente, um estado inicial quase perfeito (“Estávamos felizes”) dá origem a um súbito e fugaz mal-entendido. O desenlace quase como confissão:
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As onomatopeias estragam as relações/ Trocávamos sms de manhã à noite. A conversa fluía. Estávamos felizes. Até que ela resolveu usar num sms uma onomatopeia, uma que metia uma série de hagás e não era simples de dizer sem uma pessoa sentir que estava a falar para um recém-nascido. Claro que tive de acabar tudo depois.”
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E eis como o Ivan da sua bela Praia nos narra com economia rara uma história de cariz épico e actual. É claro que estes dois atributos não batem certo, ou pelo menos, batem tão certo quanto o desfecho já previsto - desde o incipit - para o relato em questão:
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É extraordinária a atenção que se tem dado à acção judicial de Margarida Rebelo Pinto contra João Pedro George. Ao que parece, há dois indivíduos que conseguiram vender muitos livros graças a uma providência cautelar. E isto é tudo o que há para dizer. Não há, nem nunca houve, nada de propriamente jurídico nisto.”
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Para terminar, mais alguns exemplos – entre uma miríade de possíveis exemplos – que ilustram o novo personagem-narrador-simulador que, muitas vezes, quase se cola à respiração do sujeito empírico:
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Time Capsule plugin/ ACABEI de instalar na barra da direita um novo plugin do Word Press chamado Time Capsule, desenvolvido por Aaron Brazell. É uma forma de ter sempre visíveis os títulos e os links para três posts de há 180 dias atrás…”
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CREDO!: Nestes tempos em que a religião deve servir os nossos propósitos, não haverá uma crença que nos impeça de ir a casamentos e baptizados de outras religiões a meio de Agosto? Quero acreditar.”
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Santos / A primeira sexta-feira de Junho anuncia as noites que aí vêm: bailarico à porta de casa. E os marmelinhos quase de fora foi uma das pérolas que tive de ouvir como som de fundo ao CSI NY.”

segunda-feira, 5 de junho de 2006

O "tom" dos blogues - 25

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A procura expressiva dos blogues faz-se não apenas através do modo variado como a linguagem se vai adaptando ao novo meio, tarefa maior e diária dos bloggers, mas também através do modo como o mercado interpreta a força da blogosfera, accionando, ele também, instruções claras aos investidores, aos publicitários, aos marketeers e às empresas. Um caso paradigmático surgiu em Abril passado num artigo de Derek Gehl, Harness the Marketing Power of Blogs, no site da MSNBC.
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O artigo começa por explicar ao seu público-alvo o que é um blogue (“I'm sure you've heard about one of the biggest things to hit the web in the last few years: blogging.”). O destaque desta primeira apresentação incide no imediatismo da edição (“you just log in, type what happened today, post it, and you're done!"), na eficácia do dialogismo (“you can add a simple little feature that automatically tells a whole bunch of other websites that you've made an update to your blog”) e sobretudo nas potencialidades que a blogosfera está a abrir ao mundo dos negócios (“a very powerful marketing tool for your business”). Vai mesmo um pouco mais longe, neste último aspecto, ao referir que existem pessoas que já fazem do blogging um modo de vida (“some people actually earn an income just from blogging alone.”).
Num segundo momento, depois de referir a importância estratégica do novo meio (“blogging is fast becoming an extremely important strategy for any online marketer”), o autor sistematiza, entre outras, três grandes capacidades que um blog potencia: aumentar o tráfico do site principal (“drive swarms of traffic to your main website”), aumentar as vendas (“generate more product Sales”) e aumentar a rentabilização publicitária (“create an additional stream of advertising income”). Antes de avançar para uma espécie de gramática do ‘blogging business’, que aliás domina o artigo, o autor salienta ainda três características interessantes que se situam na área do “tom” dos blogues (i.e., naqueles atributos que permitem desvendar a sua optimização expressiva). Em primeiro lugar, o seu estilo “informal”, “coloquial” e a proximidade quase chã da interacção. Em segundo lugar, a variedade potencial dos blogues: podem ser “informativos”, “opinativos”, “chatty”, cativam o público pelo seu “human aspect” e têm amiúde um tendência real para o “humor” (“humorous”). Em terceiro lugar, é colocada em evidência a “fácil” acessibilidade a todo o tipo de público e iniciativa, a gratuitidade, a simplicidade de uso e a eficácia do meio (“with all the new tools and resources that have been created specifically for blogs”).
O artigo conclui deste modo a introdução e passa, depois, a enunciar as regras que possibilitam a rentabilização da blogosfera nos negócios e que visam a conduta a seguir para que um blogger se torne num blogger de sucesso.
Comecemos pelo primeiro dos aspectos, ou seja: de como tirar partido na área de negócio através dos poderosos recursos da blogosfera (“the extremely powerful ways your business can benefit from a blog”). Derek Gehl descreve aqui sete pontos, revelando, em todos e em cada um deles, uma relação íntima com as potencialidades expressivas da blogosfera:
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1 - Humanizar o seu negócio (“Humanize your business”).
Neste ponto, estabelece-se o contraste entre o cariz informal e pessoalizado dos blogues e o formalismo algo passivo dos “websites” normais. Trata-se de uma clara vantagem por parte dos blogues, na medida em que permitem a utilização da própria voz (“you can write posts in your own voice”), dando ao negócio um “rosto” mais próximo junto dos “prospective customers”. Esta ilação expressiva é interessante, já que valoriza o teor da enunciação como puro acto de ilocução (de compromisso): “It also allows you to inject much more of your own personality into your online business than your main sales site could do”.
2 - Melhorar o serviço de clientes (“Improve your customer service”).
Neste ponto, apela-se às modalidades interactivas (“Your blog can act as a kind of interactive FAQ”) que permitem um contacto imediato e permanente entre os agentes do mercado. Uma tal sobreposição entre emissão e destinatários facilita todo o leque de actualizações relativas a campanhas, a produtos, a artigos, etc. (“product updates, how-to articles, and other information of relevance”).
3 - Dar ao seu público-alvo a informação que ele procura (“Give your target market the information they're looking for”).
Este ponto merece um realce à parte: “With its automatic archiving feature--by date and category--a blog is a fantastic content-management system”. Tendo em vista a eficácia do sistema, apenas se requer uma ininterrupta – e “bem escrita” - actualização de dados por forma a fidelizar “your best potential customers”.
4 - Intensificar o tráfico no seu site de vendas (“Drive traffic to your sales website”).
O dispositivo suscitado neste ponto remete essencialmente para o uso de palavras-chave e de links adequados tendo em vista o aumento de visibilidade no processamento de busca na net (“use strategic keywords and links to specific sales pages to dramatically improve the search engine rankings of both your blog and your main website”).
5 - Aumentar a credibilidade (“Build your credibility and establish yourself as an industry expert”).
Neste ponto, insiste-se na necessidade de processar uma informação regular e ponderada. Esse processo comunicacional, insistente e consistente “valuable”, pode vir a criar no público a ideia de uma especialização, o que acabará por traduzir-se num óbvio aumento de confiança (“It's a great way to establish yourself as an expert in your subject area, and allow your visitors to feel much more comfortable buying from you”). A chamada simulação subtil.
6 – Promover produtos ou serviços (“Promote your products or services”).
Este ponto é meramente referencial e apela à venda directa no blogue ou à remissão para o website apropriado.
7 - Gerar novos rendimentos (“Generate extra income”).
Este ponto relembra a existência de novos programas publicitários (“advertising programs”), nomeadamente o “Google AdSense”, adquados ao novo meio blogosférico.
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O segundo aspecto desta gramática do ‘blogging business’ – “What does it take to become a really successful blogger?” – é condensado por Derek Gehl em apenas três aspectos muito sumários:
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1 - Um bom contéudo (“Great content”):
Neste ponto salienta-se o óbvio: há que adequar o conteúdo ao público-alvo (“If your content isn't interesting and relevant to your target market, your blog won't work. It's as simple as that”).
2 - Actualização regular (“Regular updating”).
Primeiro a condescendância: – “I won't lie to you: there are some days when I really find it hard to find the time to post a new article” - , depois a advertência: “But if I don't post, no one will come back”. Mais um ponto claro como a água.
3 - A singularidade da sua voz voz (“Your own distinct voice”).
Este é o mais importante destes três pontos no que respeita à procura expressiva da blogosfera. A individualização e a modelação específica de uma voz - ou de um estilo - são vistas como parte privilegiada e integrante do novo meio. É, ao fim e ao cabo, a maleabilidade que assegura na blogosfera a imensa fertilidade (“a blog it´s a place where ideas can flourish and topics of current interest can be debated”). Mais: não é necessário ser-se um escritor dotado para encontrar na blogosfera o esteio funcional que religue adequadamente oferta e procura (“You don't even need to be a brilliant writer; you just need to be able to relate to your audience and give them good content”).
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No final (“Final Thoughts”), Derek Gehl alude ainda à necessidade de pensar um blogue estrategicamente, quando a sua utilização se fizer no campo dos negócios. Pode fazer-se um blogue em cinco minutos, mas “it takes time and dedication to develop a blog that keeps your audience coming back for more”.
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A flexibilidade, a eficácia e a extrema personalização são neste artigo interpretadas, menos como virtudes a desenvolver por futuros utilizadores e mais como características potenciais da expressão blogosférica. As capacidades e competências que o novo meio disponibiliza são apresentadas com a nítida preocupação de demonstrar que os agentes presentes no mercado se poderão muito facilmente adequar (i.e., recorrendo a uma gramática mínima) a esta geometria específica da rede
Um destaque particular é dado, em mais do que um momento do artigo, à lógica de proximidade que a blogosfera está a colocar em cena. É de facto particularmente interessante, neste ambiente de marketeers e publicitários, o recurso à metáfora da voz (“you can write posts in your own voice”) como modo de aproximar os agentes que se movem no mercado. Uma segunda metáfora, a da “humanização” do negócio, sugere a criação de um novo localismo que parece estar a emergir na arena global, embora com “vozes” que podem perfeitamente rasgar o horizonte mundializado em que vivemos.
Este novo tipo de maleabilidade e proximidade acaba ainda por renovar o próprio conceito de ‘marca’, na medida em o ‘core’ e o ‘património’ – um e outro tradicionalmente associados ao próprio conceito de marca -, parecem agora estar a ser completados pela tal “voz” que se ouve em tempo quase real entre vendedores e compradores (e que narra, ou segreda, em directo, os ‘topic’ em questão).
De uma vez por todas, a mobilidade dos mercados está a descobrir a versatilidade da flutuação expressiva da blogosfera. Artigos como o de Derek Gehl abundam, aliás, na internet. O alcance do “tom” dos blogues está, pois, muito longe das práticas e dos rituais que se vão tipificando regularmente entre as mais diversas micro-comunidades de bloggers.
A blogosfera começa a ter mundo.

domingo, 4 de junho de 2006

Domingo (act.)

Hoje, nada de metatextos. Hoje, olhar para os gladíolos cor-de-laranja que apareceram no canteiro e entrar depois na água. Eu amo o Verão.
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O "tom" dos blogues nos próximos dias: (1) a expressão blogosférica e o mercado, (2) as personagens e os blogues, (3) o papel expressivo das imagens no novo meio e (4) a amnésia colectiva, Sebald e o "tom" dos blogues.
A série continuará e - provavelmente - tornar-se-á livro (já agora, Carla e Luís, obrigado pelo estímulo).

sábado, 3 de junho de 2006

O "tom" dos blogues - 24


Chirico
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Nos blogues há um espaço que se ocupa: um universo de bits, elementos discretos, um jogo de inscrições possíveis. A escrita tornou-se subitamente num vaticínio quase sem fim, cujos moldes voltaram - e estão - a ser sonhados na vertigem da actualidade. Mas nem sempre foi assim. A escrita brotou um dia como a água brota das fontes: como um milagre. É por isso que a memória dos tempos mais antigos, sempre associada aos vultos mitológicos que Vico designou pelas “gentes heróicas” que “não colhiam outros frutos que não os naturais”, está cheia de genealogias que fazem da tradição uma sucessão acautelada de escritas. Um bom ‘incipit’ vivia desse apetite mineral: garantir ao leitor que havia outro mundo para além da escrita, sempre que a escrita falava diante dos seus olhos (ou tão-só se fazia ouvir).
Esta transcendência generosa dá-nos a perceber mais facilmente, como escreveu A.Manguel, por que é que datam do século IX as primeiras ordenações a requererem “o silêncio dos escribas no scriptorium monástico”. Até aí, no Ocidente, a leitura respeitava a voz que a suscitava e por isso se fazia invariavelmente em voz alta. Como se a escrita fosse um tributo para com a fonte que a teria feito miraculosamente brotar.
A Escritura e a escrita sempre se separaram ao longo de séculos: a primeira teria vindo do fundo (omnisciente) da fonte, enquanto a segunda ia emergindo, a pouco e pouco, de um fontanário apesar de tudo mais recolhido. Até nos aproximarmos dos nossos dias, é verdade que houve escritas que se impuseram como Escrituras e houve Escrituras que se reduziram a simples escritas. Mas, independentemente das trovoadas e da tenacidade das revoluções, sempre se mantiveram as separações, as indizíveis maravilhas e as sacralizações. A própria ideia de “escritor” - a deambular como um génio nas praças de oitocentos e de novecentos - não deixou de herdar o peso destes fontanários mitológicos, referências para todo o tipo de urbanização mental e psicológica.
Durante o século passado, os filósofos da literatura (deixem-me caracterizá-los assim) andaram durante anos a tentar explicar o que era a “literariedade” e baptizaram-na como uma espécie de água benta, ou de espírito santo cordato, que navegaria na pena e no molde ímpar de certas almas. O ‘livro’, na sua dimensão de objecto perenemente sacralizado, foi assim concedendo à literatura a aura de uma actividade que “não colhia outros frutos senão os sobrenaturais” (parodiando Vico). Kant - muito dado ao sublime - preferia a palavra “génio”.
É verdade que, hoje em dia, a literatura já não corresponde à ideia que foi sendo formada desde há pouco mais de dois séculos no Ocidente (de Schlegel a Garrett, a Holderlin, a Musset, a James, a Proust, etc.): a arquitectura digital, o circo mundializado de imagens, a hipertecnologia e a redução - sobretudo - das Escrituras a simples escritas alteraram radicalmente as coisas. O “escritor” é hoje alguém que agencia ficcionalidades e não mais o fruto de uma iluminação subliminar. A sacralização dos alfabetos e dos seus brilhos, herdada desde aqueles tempos originais que Vico soube tão bem inspirar e expirar, transformou-se, hoje em dia – em primeiro lugar na rede -, num puro processamento discreto de dados, grafos e gestos.
A expressão dos blogues corresponde, na contemporaneidade, a uma metamorfose curiosíssima porque está a reflectir, de modo dir-se-ia cristalino, esta transição abrupta entre um legado marcado pela sacralização da escrita e a sua mais alucinante e total dessacralização.
Há três aspectos particulares que dão a esta mudança uma acuidade quase única:
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a) Os blogues constituem uma categoria expressiva muitíssimo maleável que introduziu na rede, um pouco ‘contra natura’, um quadro de clara individuação. Esta singularidade, já aqui abordada, veio permitir o imediatismo da edição sem o peso das tradicionais mediações (de início, entre Deus e o profeta havia uma voz, depois um anjo, depois ainda uma exegese; na literatura, de início, houve os scriptoria, depois os editores e depois ainda a crítica). Esta remoção da imediação, apesar da necessária lógica dos “hosts”, dessacraliza completamente a ideia de uma forma – ou de uma escrita - que remete sempre para outrem. Trata-se de uma autonomia subitamente descoberta e ainda, por isso mesmo, sem um rosto estável.
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b) Os blogues põem decididamente em causa o espírito do ‘Livro’ como desígnio salvífico do escritor oitocentista e novecentista. Durante o fulgor moderno, a actividade do escritor era socialmente dominada por um carácter deífico. A questão atravessava regimes e modos de codificar o futuro: Hemingway, Camus, Céline ou os anónimos escritores que escreviam no “Palácio da Cultura” de Varsóvia eram, sempre, independentemente das tergiversações, “escritores”. E essa era uma marca indelével: a “declaração do escritor Y”, a “censura ao escritor Y” e o “congresso de escritores com a presença de Y” eram frases que pertenciam inevitavelmente à galeria hierarquizada do espaço público de então. O pasmo e a realização máxima dos escritores era o surgimento do "Livro". Era o tudo ou nada de um processo que, depois, a juzante, tinha - e ainda vai tendo, embora já com alterações de significado - os seus Passos Perdidos e a sua élégance royale (prémios, recepções, inspirações políticas e outros pendores de considerada e pública moralidade).
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c) Os blogues põem em marcha uma (paradoxal) instrumentalidade poética: a linguagem visa a linguagem. Isto quer dizer que a linguagem se enraiza e se virtualiza ao mesmo tempo no quotidiano. Ou, por outras palavras, que os factos e a linguagem escorrem em espelhos paralelos através da voragem do efémero que enuncia uns e outros (trata-se de um novo mapeamento da experiência). Nesta linha de ideias, a linguagem dos blogues e a realidade que nela se virtualiza estabelecem, instante a instante, uma permanente e mútua relação metonímica que pressupõe a ilusão de uma verdadeira imersão no quotidiano. Esta quase ‘Life live’ procede (da atitude) da crónica do dia-a-dia mais próximo, mas distancia-se da modalidade do diário literário, do mundanismo genérico da crónica e do “microrealismo” das novas poéticas pela sua radical dessacralização, já que nela não há, com efeito, um ‘exterior’ (na esfera literária, havia sempre a imanência do “seu mundo”). Na blogosfera, o ‘de dentro’ e o ‘de fora’ – que sempre pressupuseram a transcendência - comprimem-se e estendem-se hoje no caudal da procura expressiva e da linguagem (que a si própria se visa).
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Como em tudo na vida, a dessacralização do “tom” dos blogues também tem uma história. Mas esta é uma história apenas do presente. Trata-se de algo que nunca antes se viu: uma epistemologia histórica feita liminarmente com materiais suscitados pela ‘projectualidade’ passageira do presente.
Eis outro tema – não menos cativante - a pedir reflexão.
A procissão ainda vai no adro.

sexta-feira, 2 de junho de 2006

O "tom" dos blogues - 23

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Há na atmosfera expressiva dos blogues um óbvio pendor lúdico.
Está (e estará) ainda por caracterizar a complexidade retórica, a variedade temática e os modos de incidência que presidem ao mise en scène deste generalizado hedonismo.
Há reflexões recentes (entre outras, de G. Lipovetsky em O Crepúsculo do Dever) que estabelecem uma ligação directa entre a ideia ancestral de dever e um conjunto de manifestações de cariz lúdico que passaram a dominar o panorama do quotidiano. Seguindo esta lógica, nos tempos dominados por explicações totalizantes de natureza divina ou ideológica, o dever correspondia a um conjunto de imperativos muito interiorizados que se orientavam, ou para o altar da salvação divina, ou para o altar da república visionária e laica. O esvair destes “códigos totalizantes” veio reorientar, de modo súbito a inapelável, a entrega que o dever antes pressupunha e constituía. A sublimar o vazio das antigas liturgias do dever, um novo leque de actividades acabaria assim, nas últimas duas décadas, por emergir no horizonte da subjectividade contemporânea, nomeadamente: a massificação do consumo (os novos templos), o vórtice da informação e da comunicação (a telecracia doméstica e a ciberpermanência), a sobrevalorização narcísica do corpo e, por fim, uma crescente autonomia hedonista de cariz individual (novos tipo de lazer) e a própria invisibilidade ética (o estar para além do bem e do mal e de todas as referências clássicas de feição dicotómica).
Diferentes expressões do lúdico saltaram assim, nos últimos anos, para o patamar do nosso dia a dia.
Em foco estão, entre outras, a questão da eterna juventude do corpo, o renovado mito fáustico da saúde perpétua, a elegância ecléctica dos ginásios (solários, bronze, o imaginário modelo, etc.), a depuração dos mecanismos expressivos (a morte da sintaxe, recolocando, como nos tempos da oralidade, uma sobreposição do eixo da coordenação sobre o da subordinação; a proliferação de lugares-comuns fáticos; a desapropriação de regras acentuação; o emprego de adjectivos no lugar de advérbios, errância rotunda no campo das concordâncias e da ortografia, etc.) e a “hiper-mobilização do stress” como modo de compensar a “reciclagem completa” do corpo. Como David Le Breton escreveu, a própria oposição clássica entre corpo e alma passou hoje a ser uma oposição “entre o homem e o seu próprio corpo”:
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O corpo deixou de ser uma incarnação irredutível, sendo antes uma construção pessoal, um objecto transitório e manipulável, susceptível de múltiplas metamorfoses de acordo com os desejos do indivíduo. Se dantes o corpo encarnava o destino da pessoa, a sua identidade intangível, hoje é uma proposição a afinar e a restaurar permanentemente. Entre o homem e o seu corpo tem lugar um jogo, no duplo sentido da palavra. De forma artesanal, milhões de indivíduos assumem-se enquanto bricoleurs inventivos e incansáveis do seu corpo. A aparência alimenta agora uma indústria inesgotável.” (RCL, 2004)
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A par da massificação do consumo, dos fluxos comunicacionais, da invisibilidade ética e do individualismo hedonista e narcísico, a euforia da mobilidade tornou-se, também, nos últimos anos, num factor vital para entender a inscrição do corpo nos nossos tempos. A mobilidade contemporânea está cada vez mais associada ao desejo que as simulações instantanistas de cariz hipertecnológico têm vindo massificadamente a criar. É essa a lógica do metafórico “GPS” que traduz a vertigem de estar em todo o lado em todos os momentos, vivendo a ilusão do controlo, de tal modo que a passagem ou travessia da viagem se subsume quase sempre ao destino último: o que interessa é chegar. Mas depois de chegar, partir torna-se, de novo, no leitmotiv deste incessante fluxo de viajar: seja nas potentes indústrias das férias, seja no ritual contemporâneo das “pontes” entre fins-de-semana e feriados, seja nas longas filas das horas da ponta.
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Os blogues reflectem inexoravelmente este estado de coisas: viajam entre motores de busca numa contínua viagem muito para além da circumnavegação territorial; replicam, ironizam e parodiam a circulação de dados dos média, suspendem as suas narrativas através da frequente ostensão do risível, convidam amiúde à hipérbole, sugerem quadros quotidianos onde o privado e o público intencionalmente se fundem; enfim: consomem, na sua larga maioria, o ardor a linguagem para o devolverem à própria interacção blogosférica. Ciclo viciado e vicioso da expressão corrente dos blogues que, mesmo nos mais ‘sérios’ (aqueles que tentam evitar a máxima de Pirandello “A violação das regras sem razões torna-se cómica”), acaba por revelar-se na confissão dos excursos (o famoso “Judeu errante” do Abrupto), nas polémicas sarcásticas ou no mais puro motejo.
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Deixo, por fim, um brevíssimo quadro exemplificativo que reflecte este hedonismo que oscila entre a sátira, o olhar antitético, a boa disposição, a ironia avisada, a descrição desveladora de contextos risíveis, o entretenimento fugaz e a narração entrecortada e sem meta (os exemplos podiam ampliar-se aos milhares, como se sabe).
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O “maradona”, por exemplo, não sabe ungir a sua poderosa escrita de outro modo, dessacralizando todos os registos e fazendo da consanguinidade entre surpresas um modo de vida e de análise. Uma expressão rara, às vezes melodiosamente desconcertante:
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Para além da incapacidade genética dos franceses para criar, desde há 20 anos a esta parte, um mau jogador de futebol que seja (até aborrece), o Tigre, caso também não tenham reparado, vai desaparecer do estado selvagem em 25 anos. Um dos misticismos mais enraizados é o descanso provocado pelo olhar desatento através da vasta rede de parques e reservas naturais da India."
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Entreter significa também dar paz ao olhar e confinar essa atitude ao vaivém descontraído texto. A deriva e a contemplação da deriva surgem assim no mesmo discurso, como se a actualização da palavra e o acto que a acompanha fossem uma e quase a mesma coisa:
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Lisboa, sol, luz, calor. Passear por entre obras, carros, confusão. E destilar. A feira do livro, a subir e descer o parque, pelo fim da tarde será o remédio para este dia.”
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O texto marcado pelo hedonismo pode até tornar-se “lapidar” e mergulhar na urgência poético-literária, levando-nos a passear entre o mimetismo do lúdico mais perfeito e a sede do humor que se apodera dos nómadas em tempo de expiação (ainda que tosco e escatologicamente vadio):
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Porque é sábado e é tarde (para mim, cujas noites começam à tarde), e porque já enfiei três horas de TV, que incluiriam um filme sobre tornados, a Múmia, um especial sobre a mais bela bandeira feminina, maus-tratos a menores e o guiness para os cantares alentejanos, partilho com os amigos uma frase lapidar sobre o amor, ouvida esta semana (à espera de coragem para contar, é certo), num café qualquer de Lisboa, por um jovem de cerca de cinquenta anos: ‘O verdadeiro amor é estarmos os dois na cama e não se distinguir pelo cheiro quem é que se peidou’. Fiquei tão incomodada que o certo é não me ter esquecido. Agora, soçobra-me o riso alarve."
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A moldagem expressiva da linguagem (não é só o “maradona” que se consome em minúsculas) é também uma parte desta demanda lúdica, mesmo quando a impressão criada pela linguagem cativa o leitor através de parábolas climatéricas – o sempre desejado ‘Verão’ – e de livres evocações mais ou menos “panteístas” do corpo:
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“(...) é em dias como estes que se deve seguir o exemplo de marilyn em the seven year itch: toca a pôr a roupa interior no congelador uma ou duas horitas antes de a envergar./ ou isso ou a maré baixa na fábrica com aquelas ondinhas mansas em massagem panteísta (e aviso já que se não sabem o que é a fábrica também não vos explico)."
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Às vezes, o horizonte hedonista coloca tudo ao mesmo nível. É uma forma sigilosa de parodiar. Funciona pela omissão de contextos e pela colocação da palavra (neste caso, a palavra “regime”) no meio de outras embarcações que procuram sentido (neste caso, a embarcação sem zénite onde Conan Doyle lutará, ainda hoje, com o leme do acaso). A história torna-se desta maneira num conjunto de marés que perderam o contacto com as suas luas: não caminha para lado nenhum e permanece imersa na infinda caldeira do presente. Sign of times:
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"Na linha da notícia do Correio da Manhã que noticiava qe o General Humberto Delgado teria completado recentemente o seu centésimo aniversário se não tivesse sido morto pelo regime, estamos em condições de avançar que Sir Arthur Conan Doyle celebraria hoje 147 anos se não tivesse morrido em 1930. Sir Arthur sofria de angina do peito.Obrigado Google pela memória." (22/05/06)
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E ainda: uma caracterização da identidade à força da comparação mais coloquial e imediatista:
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Em Portugal existe:
- um oceanário para meter os peixes;- um zoológico para meter os animais;- um jardim botânico para meter as plantas;- um QCA para meter os empresários;- uma CGA para meter os dirigentes de topo das estatais e os políticos de carreira; e - um governo para meter os fiéis.Com a quantidade de borboletagem que por aí anda não se poderia criar também um borboletário?”
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E ainda: um abreviado ‘ressort’ doméstico sem qualquer tipo de pudor:
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"A minha prateleira de discos V
A seguir ao Elvis vem o Emanuel."
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E ainda: um desprendido tiro ao alvo. Todo ele uma arejada montra de prazer:
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"Prognósticos antes do jogo: Pacheco Pereira-Costa - 8, Rangel-Carrilho - 0. E se fosse um jogo de ténis - 6-0, 6-0, 6-0. E se fosse patinagem artística?"
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E a terminar, esta ilustre via atravessada pelo divertimento do diálogo. A imagem junta-se às “pérolas” e faz da doce ironia um díptico de graciosidade:
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"Portanto, amigo Rodrigo, aqui fica esta pin-up culta e informada, a avaliar pelo interesse em Geografia, nos folhetos turísticos e nos Guias de Portugal da Gulbenkian que parece estar a consultar. O cinto de ligas é um pequeno apontamento que não significa mais nada a não ser o empenhamento descontraído na procura do Saber. Com o colar de pérolas, claro está."
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quinta-feira, 1 de junho de 2006

O "tom" dos blogues - 22 (act.)

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“In the beginning - say 1994 - the phenomenon now called blogging was little more than the sometimes nutty, sometimes inspired writing of online diaries.”
(...) “This, at least, is the idea: a publishing revolution more profound than anything since the printing press.” (Andrew Sullivan, 2002)
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É difícil reflectir, hoje em dia, acerca da expansão da rede. Tradicionalmente, as análises sempre separaram o objecto do ponto de vista, enquanto, hoje em dia, a rede (como objecto de análise) e o olhar analítico do seu metatexto quase coincidem: como se um e outro surfassem na mesma onda e na turbulência do mesmo instante. O que não quer dizer que não haja imensa produção teórica contemporânea sobre o campo das redes e a sua recentíssima cultura (teoria dos grafos aleatórios, redes neuronais, a rede bolsista, o mundo cyborg, a rede WWW e outros – quase infinitos - universos diagramáticos).
Contudo, o ínfimo continente que dá pelo nome de blogosfera tem duas características imediatas de crescente notoriedade no meio da ‘grande tempestade’: a primeira, analisada anteontem aqui, diz respeito ao ‘paradigma da influência’ no espaço público (o ‘snapshot’ cirúrgico); a segunda diz respeito à enorme fertilidade que está a demonstrar na rede global.
Não existe um design que nos permita descrever este segundo aspecto, embora haja dados que contribuem para figurar a possível morfologia que se está neste momento a desenvolver:
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a) Sabe-se que a blogosfera está, semestre a semestre, a duplicar a sua dimensão (fonte: ClickZ). Neste momento ela é já 60 vezes maior do que era há três anos (escrevem-se 50.000 posts por hora). Particularmente interessante é o facto de actualmente o Japonês e o Mandarim perfazerem 52% da blogosfera, seguidos pelo Inglês (com 31%) e a uma grande distância pelo Castelhano, Português, Italiano, Russo e Francês. O caso da Coreia do Sul, onde se crê existirem cerca de 20 milhões de blogues, é impressionante.
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b) Segundo dados de David Sifry (referenciados pelo USA Today), entre Novembro de 2005 e Março de 2006, as línguas mais utilizadas na blogosfera foram as seguintes: Japonês (de 31 para 37%), Inglês (de 25 para 31%), Chinês (de 25 para 15%), Espanhol (de 4 para 3%), Português (de 3 para 2%), Italiano (de 3 para 2%), Russo (de 0,5 para 2%), Francês (manteve-se pelos 2%), Alemão (manteve pos 1%), Holandês (manteve-se por 1%) e outros (entre 4 a 5%).
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c) Neste momento existem no planeta, segundo o The Blog Herald, cerca de 75 a 140 milhões de blogues (40, 5 milhões indexados ao sistema de busca technorati):
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There are two sets of figures: based on major blog using countries the figure would be around 75 million, which is a patchy figure because its difficult to count blogs based on the country of origin due to the worldwide phenomenon of people using US companies. Based on blogs created at major hosts (a more accurate measure) the figure is actually 134-144 million. So I’m taking a round 100 million + blogs figure.”
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A taxa de crescimento deste novo dispositivo comunicacional é de tal modo meteórica que corresponde à criação de um blogue por segundo e a cerca de 75.000 a 80.000 blogues por dia. De todos os blogues criados, permaneceram activos, ao longo do ano de 2005, um total de 55%. A distribuição destes dados por “host” e por país é particularmente interessante (consultar aqui todas as fontes e, naturalmente, toda a relativação face aos números apresentados):
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por “Host”:
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Xanga: aprox. 40 milhões
MySpace: aprox. 20 a 30 milhões
MSN Spaces: aprox. 18 milhões
Blogger: aprox. 15 milhões
Cyworld: aprox. 13 milhões
SixApart: aprox. 11 milhões
Planet Weblog Service: aprox. 6 milhões
Yahoo blogs Koreia: aprox. 3 milhões
Skyblog: aprox. 3 milhões
Bokee: aprox. 2 milhões
Greatest Journal: aprox. 1, 16 milhão
Other US Live Journal: aprox. clones 1 milhão
Onet. pl: aprox. 825.000
Persian blog: aprox. 520.000
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por país (com mais de 250.000 blogues):
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Estados Unidos: aprox. 30 a 50 milhões
Coreia do Sul: aprox. 20 milhões
China: aprox. 6 milhões
Japão: aprox. 5,5 milhões
França: aprox. 3,5 milhões
Reino Unido aprox. 2,5 milhões
Espanha: aprox. 1,5 milhão
Polónia: aprox. 1,5 milhão
Irão: aprox. 700.000
Canadá: aprox. 700.000
Holanda: aprox. 600.000
Austrália: aprox. 450.000
Rússia: aprox. 400.000
Alemanha: aprox. 300,000
Itália: aprox. 250,000
Sobre blogues em Português, ver nota*
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O impacto desta expansão é de tal modo grande que não é possível hoje conceber juízos minimamente objectiváveis que o possam caracterizar. Nem nos próximos anos se irá aclarar muito bem o seu significado, já que o agir dos blogues é sobretudo aferido por aspectos qualitativos que agenciam influências quase invisíveis num tabuleiro, ao mesmo tempo, global e arrasadoramente descontínuo.
Tal como Daniel Drezner questionou - "How is it possible to show that without the blogosphere, a political event would have ended differently?" - e logo respondeu - “This problem is compounded by the fact that blogs often will be writing about a newsbreaking event as it happens”. Um dos dons da expressão emergente dos blogues é, de facto, essa ‘capacidade de fogo’ que faz do evento e da sua notação um mesma figura (peço, desta vez, licença ao João Miranda para exemplificar o poder da nova carabina comunicacional).
A verdade é que a velocidade da expansão blogosférica seria mais um óptimo tema para Virilio.
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*Quanto à blogosfera em Português, esta é uma óptima altura para solicitar actualizações aos nossos bloggers. Embora obtusos, os dados há três anos eram os seguintes: 100.000+ (Brasil) e 4.000 (Portugal). No entanto, contando a blogosfera global com uma média activa de 100 milhões de blogues e exprimindo-se no seu seio cerca de 2% em língua portuguesa – estes dados são sustentados por David Sifry e pela própria Technorati –, é normal que Portugal e Brasil, além da África lusófona, repartam uns 2 milhões de blogues. Mas eu torço o nariz, apesar de, em três anos apenas, a blogosfera ter matematicamente crescido 6000%. Venham, pois, actualizações acerca da blogosfera em Português!)
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P.S.- Paulo Querido tem hoje um post sobre o tema com remissão aqui para o Miniscente. Agradeço a consideração (e especialmente as palavras sobre esta sequência analítica), estimo as discordâncias e só lamento a omissão de opinião ("formada").

quarta-feira, 31 de maio de 2006

O “tom” dos blogues - 21

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A memória começou por ser invisível e mitológica para depois incorporar nessa ficcionalidade acumulada um tom épico e historiográfico. Reinava esta grande crónica do mundo, quando as próteses modernas entraram em acção: de um lado, a ideia científica de história (a partir de meados de setecentos, por exemplo com Vico) e, do outro, os primeiros museus, os arquivos e sobretudo o artefacto fotográfico.
A domesticação do passado, ao sabor de arbitrariedades várias, acabaria por transformar as mais diversas próteses na representação de mundos “objectivos” ao longo de oitocentos e de novecentos. A novidade da rede consiste, hoje em dia, entre muitas outras coisas, na desapropriação dos dados (dos factos passados) e na possibilidade da sua permanente e instantânea actualização (melhor: da sua virtualização).
O que quer dizer que vivemos num mundo bipartido: por um lado, mergulhado numa espécie amnésia colectiva (por via da deificação da actualidade, do agora-aqui e da insaciada devoração do presente em prejuízo dos antigos futuros de ouro); por outro lado, mergulhado num interminável banco de dados susceptível de actualização imediata e simultânea a partir de uma progressiva disseminação dos controlos (uma espécie de simulacro da ubiquidade que foi tão amada na infância do cinema).
Posto este contexto, pergunta-se: qual é o lugar da memória na migração expressiva que os blogues estão hoje a percorrer? Por um lado, a de um instável enquadramento que se agencia, situação a situação, sem grelhas muito bem definidas; por outro lado, a de uma narrativa que vive de uma intensidade diária e que se cruza com um ‘horizonte de interesse’ fulminante e ‘em diagonal’.
Isto significa, por um lado, que a organização cenográfica da memória – que Kant fez corresponder à ideia de “Darstellung” para traduzir o cariz encenado da objectividade” (CFJ,& 59/B255) – se está a transformar numa amálgama de ‘apresentações’ desprovida de qualquer ancoragem. A memória passeia-se, na actualidade blogosférica, entre as metáforas da flutuação, do leme e do catavento. Para além disso, à moda nominalista, a memória esvai-se numa leitura enviesada que apenas faz conjunto a partir da omnipresença de posts discretos, concretos e quase sempre actuais.
Isto significa ainda que a convergência de interesses entre o imediatismo quotidiano dos posts e o seu horizonte instantâneo de leitura é, de algum modo, homológica ao que se passa na nossa mente, pelo menos ao nível do “si-autobiográfico” e da “consciência alargada” (para recorrer a termos caros a Damásio). No fundo, tudo se passa como se a interacção proporcionada pela rede se traduzisse por uma tentativa de aproximação aos nossos próprios esquemas neuronais e fisiológicos. No meu livro Músicas da Consciência (2002), escrito em diálogo com O Sentimento de Si (1999) de A. Damásio (ambos da Europa-América), entre muitos outros aspectos, foram inventariados os dois primeiros níveis da consciência onde as imagens – na sua maioria não actualizáveis pela mente - ainda não coabitam com a memória (o “proto-si”, de um lado, e a “consciência” e o “si” nucleares, do outro). É somente no terceiro nível que as imagens actuais (mas já imagens de imagens, tal como nos pixels) e os complexos bancos de dados da mente acabam por interagir com uma velocidade estonteante: dez mil para um é a escala que se interpõe entre a realidade comunicacional verificada nos circuitos que ligam os neurónios e a realidade da primeira representação correspondente (e que está ininterruptamente, a cada segundo, a emergir através da “consciência nuclear”). O que torna possível este “grande filme do cérebro” - que é a consciência alargada – é a capacidade “de aprender e, consequentemente, de reter miríades de experiências previamente conhecidas através da consciência nuclear” e ainda a capacidade “de reactivar esses registos de tal modo que, enquanto objectos,” acabam por ser compreendidos como algo que pertence a quem os processou.
Nos posts, esta operação de simultânea enunciação, apropriação e montagem (onde interagem o registo ‘sempre actual’ dos posts e o dispositivo casuístico que funciona como enquadramento e memória para a leitura) determina o instantanismo do ‘género’ neófito. Sobrará ainda o arquivo, é verdade: esse destino de viagem exótico, cujo sentido resulta tanto do acaso como do capricho do navegador solitário.
Não se pode, pois, dizer que a memória se tenha exilado da blogosfera. Mas, com toda a certeza que se tornou numa extraordinária personagem mitológica do nosso tempo, cuja presença obedece à metáfora do “incessante estilhaço”. Como é possível pensar que a história da expressão blogosférica (que se está a fazer agora pelos seus próprios passos) não é uma questão proeminente?

terça-feira, 30 de maio de 2006

O "tom" dos blogues - 20

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A influência da blogosfera no mundo é intensa, embora não seja a quantidade que o determina (a desmedida taxa de criação de blogues) mas antes o impacto em públicos com influência e poder de decisão. Daí que a adaptação das linguagens tradicionais ao novo meio blogosférico acabe inevitavelmente por reflectir esta tremenda pressão.
As linguagens escritas sempre se adaptaram a meios que pressupunham uma clara distância entre as circunstâncias de enunciação e os mecanismos de representação. O que é novo neste pulsar específico da rede - que é ocupado pelo mundo dos blogues - é o facto dessas circunstâncias e mecanismos se terem subitamente confinado a um mesmo tipo de tempo real. A vertigem que está em curso impõe assim sobre a linguagem que se exprime nos blogues moldes apertadíssimos, embora informes, às vezes quase invisíveis e sem grandes referências (seria interessante saber o que se passa com as línguas que dominam a blogosfera global, nomeadamente o Japonês e o Mandarim). Mas desde o momento em que a linguagem de um blogue se torna na linguagem de uma polémica que se cola aos poderes (e aí se intertextualiza), a malha expressiva desse blogue tende a reconverter-se, a recompor-se ou a reformatar-se sem ambiguidades (geralmente através de uma esquematização visual e temática que é sempre acompanhada por ingredientes do meio: a paródia, a deslinearização das remissões, o cariz elíptico, o recorte do fragmento, etc.).
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De acordo com um estudo do “Forrester Research”, limitado aos EUA, apenas 6% dos utilizadores da internet lêem blogues. Um outro estudo bastante recente, encomendado pela “Jupiter Research”, concluiu que a blogosfera, apesar do número relativamente baixo de leitores de que dispõe, acaba por ter uma influência razoável e até desproporcionada (“disproportionately large influence") na sociedade. Quer isto dizer que a influência dos blogues não se mede realmente pela quantidade, mas antes pelos públicos-alvo que cirúrgica e diariamente atinge.
O estudo feito para a “Jupiter Research” demonstra ainda que os utilizadores activos da internet constituem uma parte insignificante do total de utilizadores da internet, embora os meios ao seu alcance (posicionamento autorial, circulação de dados, propagação em rede, etc.) estejam a contribuir para condicionar as discussões no espaço público e mesmo para criar impactos comprovados nos hábitos dos consumidores (o caso da “AOL Music” aparece aqui como um exemplo fulgurante). Julian Smith, analista publicitário e um dos autores do estudo, afirmou a propósito ao Guardian (no passado dia 18 de Abril): "The strongest part of their influence (blogs) is on the media: If something online suddenly becomes a story in the local press, then it matters."
Embora o estudo divulgado pela “Jupiter Research” se concentre na Europa, é verdade que este tipo de constatação é clara no caso dos EUA, onde um leque variado de blogues de natureza sobretudo política - Instapundit, Daily Kos, ThinkProgress, Wonkette, Captain's Quarters, e RedState - tem uma poderosa influência na mediação pública, sobretudo por criar agenda (“breaking stories”) e difundir intensamente temas e discussões que os “mainstream media” acabam por não desenvolver ou até “ignorar”. Apesar deste tipo de blogues ficar aquém da audiência dos média tradicionais, não deixam, no entanto, de ser objecto de leitura atenta por parte de pessoas com autoridade no espaço público e com efectiva capacidade de decisão. Este novo paradigma de influência que está a ser gerado pela rede tem, além do mais, uma óbvia tendência para aumentar, como escreveu Tom Regan (“The CSM”): “According to an April 2006 report by the Pew Internet and American Life Project, 88% of 18- to-29-year-olds in the U.S. now go online, and 84% of 30- to 49-year-olds do so. The influence of the Internet is only going to increase”.
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Muitos blogues que não têm estas características de impacto público imediato levam a cabo uma luta sagaz e permanente para tentar articular forma e matéria, ou seja, para inventar (e criar) uma conformidade entre a inscrição diária e a nova matéria de que é feito o meio subitamente colocado à disposição de milhões de cidadãos de todo o mundo. Este percurso expressivo global (e variadamente local), de que não me tenho cansado de salientar a importância na comunicabilidade contemporânea, constitui um aspecto decisivo dos destinos pessoalizados, e não apenas processados, que ocupam a rede.
Tendo como certo que a net vai continuar a crescer e que os blogues são, nessa inevitável onda de crescimento, uma das linhas de fuga mais activas e influentes, é normal que as expressões e codificações que se estão neste momento a redescobrir venham a dar à mediação pública mundializada novos rostos e novos formatos (hoje imprevisíveis).
Esperemos mais uma década e estou certo de que esta profecia se tornará em realidade.