segunda-feira, 22 de maio de 2006

O "tom" dos blogues - 13

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Um dos traços (geralmente polémicos) da expressão artística contemporânea diz respeito à banalização. No entanto, uma arte pobre (materiais elementares, fusão com o quotidiano, instalação pura, inscrição minimal na paisagem, etc.) pode ser uma arte muito enraizada no dia a dia e, nessa medida, necessária, fértil e sobretudo autêntica. Do ponto de vista da tradição sacerdotal e quase sacralizada da arte, que fez vida do romantismo para cá (com mais ênfase para o legado formativo, expressivo, reducionista, mas não menos para a chamada arte útil, para a pop e para outros legados de tipo social), esta expressão contemporânea da banalidade é ainda, muitas vezes, observada como uma excrescência dos tempos que correm.
Não partilho desta angústia que é própria de quem olha para o presente com uma perspectiva que já não lhe pertence. Nas últimas duas décadas, um horizonte fixo de referências com mais de dois séculos de idade foi-se descolando da experiência quotidiana, do mesmo modo que a hipertecnologia veio atribuir ao presente novos significados. A banalidade de que tanto hoje se fala é o resultado da reordenação de expressões e linguagens num quadro de mudanças que é no mínimo profundo. Esta pulverização expressiva atravessa um conjunto vastíssimo de territórios e não se limita naturalmente ao que continua a ser (esquematicamente) designado por perímetro artístico.
Os campos hoje em dia contaminam-se, confundem-se e movem-se. A blogosfera é um desses campos que cresceu e apareceu na turbulência que reflecte e está a edificar o presente comunicacional. Subitamente, quebraram-se as paredes que limitavam os géneros e as legitimações expressivas, ao mesmo tempo que se passaram a ouvir vozes que antes não dispunham de meio onde enquadrar a sua expressão própria. Todos conhecíamos já a tradição espistolográfica, enciclopédica e opinativa que era complementada com modelos fixados para a extroversão do intimismo (diário, crónica, memórias, etc.). Contudo, a blogosfera (ao lado de outros meios inovadores) está a proporcionar a enunciação de tipos expressivos que não se enquadram já em nenhum destes moldes que parecem ter sempre existido.
Esta emergente – e às vezes excessivamente eufórica – explosão de vozes tem arrastado consigo errância, procura e sobretudo afirmação admirada. Do seu nada, o anonimato encarnou, encorpou e descobriu-se no vertiginoso papel de autor e de editor, na confluência de olhares que ainda ontem dividia o imenso fosso entre auditório e emissor. Desaparecido o palco que os afastava, removida a crisálida que envolvia a voz, transposto para a rede o desejo de “dizer”, eis que a novíssima panóplia desabrochou. E com ela, entre ela, também com ela, a expressão de alguma banalidade. Mas não se reduza a blogosfera àquilo que se traduz, de modo simplista e apressado, por banalidade. Até porque, para muitos, a banalidade é uma manifestação de deriva e desvario que espelha a descida do ‘céu das expressões’ à ‘poeira terrena dos mortais’. A dessacralização expressiva ‘em curso’ seria assim comum a muito do que atravessa a arte (dita) pobre e a blogosfera. Depois de um longo tempo em que as referências eram autores, vias consagradas e valores pesados e centrais, hoje cada post encarnaria em si e por si uma referência, a sua própria referência: perdida e ganha no novo éter das expressões à procura de rosto.
A “consciência do nosso tempo” é uma ideia moderna e tem atrás de si uma longa tradição. No entanto, o que a torna diferente na actualidade é a dissociação entre horizonte e presente: ambos parecem fundir-se num cenário indefinido de simulações e efeitos (pixels de pixels). As novas formas de perspectivar estão intimamente ligadas ao instantanismo tecnológico e às múltiplas formas paródicas que o desenham no dia a dia nos mais variados campos expressivos, entre eles a blogosfera, os novos designs e toda a esteticização generalizada do mundo. Tal como o poeta Vasco Gato escreveu: “não tem anatomia,/ olhos apenas”. Estamos, pois, num novo patamar (como se existisse Leibniz sem Deus). Confundi-lo com banalidade seria quase crime.

sábado, 20 de maio de 2006

O "tom" dos blogues - 12

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Num livro que recente escrevi acerca da “novíssima poesia portuguesa” e da “expressão estética contemporânea”, um dos factos que salientei foi o de terem surgido, nos últimos vinte anos, muitos poetas de qualidade, embora sem que nenhum deles pudesse ser considerado de ‘referência’ (ao contrário do que tinha acontecido em décadas anteriores, quando nomes como Sofia, Herberto, Belo, Eugénio, Sena ou Pessoa constituíram marcos que geraram correntes, mapas de influências, vogas e modas). Subitamente, a poesia actual disseminava a sua linguagem e, ao mesmo tempo, acabava por desintegrar a própria ideia nodal de referência. Ainda que tal facto possa constituir sinal dos tempos – e eu creio mesmo que constitui -, a verdade é que no caso dos blogues a questão da ‘referência’ não se coloca do mesmo modo. Quer se queira quer não, existem blogues de referência e nem sempre, por sinal, serão os mais visitados (as excepções compadecer-se-ão com o cromatismo da paisagem).
Numa época de posicionamentos, as mensagens tendem sempre a criar posição na mente dos potenciais leitores/ interactores. Quando o senhor Y visita alguns blogues de manhã, é óbvio que há-de clicar em primeiro lugar naqueles que estão posicionados no seu próprio leque de escolhas. Um blogue é tanto mais posicionado quanto mais integrar o naipe de paradigmas a escolher pelo auditório potencial (tal como na poética, o sintagma perde aqui lugar face ao paradigma). Se o posicionamento de um blogue coincide com este tipo de território criado na mente de quem usa e significa as mensagens, já a marca de um blogue é a percepção que o auditório – o público em geral - tem desse mesmo blogue (tal percepção, geralmente intraduzível e inapropriável, é fluida e tem uma amplitude muito variada: óptima, péssima, agradável, indiferente, etc.). Pode, por outras palavras, afirmar-se que o posicionamento de um dado blogue estatui um espaço no cérebro do leitor/ interactor para que a marca de – misto de ‘core’ e património - aí se possa projectar, optimizar e ganhar corpo. Nesta linha de ideias, uma marca bem cotada equivale a um conjunto de imagens que num dado sistema – blogues generalistas ou dominantemente culturais, estéticos, eróticos, políticos, sociais, etc. - tornam um blogue num blogue de referência. No entanto, as coisas não são assim tão líquidas: um blogue muito bem posicionado, que o senhor Y visita todos os dias, pode não corresponder a uma marca bem cotada (mas, no entanto, o senhor Y visita-o sempre); por outro lado, um blogue pouco posicionado, que o senhor Y raramente visita, pode, por outro lado, corresponder a uma marca muito bem cotada. Isto é: nem sempre o posicionamento coincide com a marca, ou mais simplesmente, nem sempre a audiência coincide com a referência (basta, aliás, passar pelo Blogómetro para comprovar esta realidade).
Estes factos põem em causa a tremenda ingenuidade que identificaria a facilidade de criação e alimentação de um blogue com uma pretensa e chã ciberdemocracia blogosférica.
Em primeiro lugar, como vimos noutro post desta rubrica, porque a blogosfera vive do paradoxo do regresso da individuação num terreno que é fértil à "des-subjectivização" (daí que nomes posicionados em meios da ‘atmosfera’ se posicionem de modo geralmente eficaz na blogosfera, embora nem sempre com a agilidade expressiva – com o “tom” – a que o novo meio, dia a dia, obriga - o que, em certos casos, pode acabar por pesar).
Em segundo lugar, porque o sistema blogosférico de remissão (sobretudo o “link”) acaba sempre por valorizar o posicionamento e a audiência em desfavor da marca e da referência. O ‘main stream’ - ou o fluxo fundamental dos links - segue, de facto, na larga maior parte dos casos, a cartografia dos blogues mais desejados e visitados e não necessariamente o recôndito e, às vezes, vago horizonte dos mais cotados (existem excelentes blogues que quase não têm visitantes). É claro que ambas as funções coabitam em alguns – poucos - blogues que poderiam ser designados por ‘blogues de qualidade’ (ao aliarem, por mérito e trabalho próprios, a eficácia à referencialidade). A questão da qualidade deve ser perspectivada em construção – numa lógica de encadeamento - e não no consumar de um processo natural como aquele que liga as abelhas ao mel. Há, de facto, na questão da percepção da qualidade uma óbvia resistência ao reducionismo das categorias. É por isso que a qualidade acaba por refugiar-se, muitas vezes, na própria sobrevivência aos discursos, dando-se a ver, não do modo como o Iluminismo inaugurou o tema (“juízo do gosto”, “o génio”, etc.), mas, de um modo mais próximo, tal como António Ramos Rosa – poeticamente - sintetizou: “se a linguagem se salva é porque a linguagem poética se salva do próprio caos que suscita e enfrenta, constituindo a abertura em que o mundo surge na sua invisível materialidade”. Entenda-se “salvar”, no caso blogosférico, de modo algo prosaico. Isto é, como aquela persistência que fez e faz da linguagem dos posts a clara identificação de uma expressão, ou de um “tom”.
Em terceiro lugar, porque a ciberdemocracia é ainda apenas um (frágil) dado em função da livre possibilidade de enunciação e múltipla interacção e não tanto do escrutínio daquilo que é dito na e através das linguagens que são encenadas e processadas em rede. Daí que a blogosfera quase se exima, com toda a naturalidade e como já escrevi noutro post, à avaliação que é normal noutros meios (jurídicos, literários, económicos, académicos etc.). Isto significa que a blogosfera, tal como todo o design efémero que pode ter enorme impacto urbano, corresponde a uma base laboratorial muito pragmática em que o uso da linguagem e o seu sentido são água e leito do mesmo rio. Ao inscrever-se como anatomia desintegradora do corpo clássico e também moderno (de alguma maneira, ao jeito entrecortado de Nietzsche), a escrita dos blogues está hoje em dia a transpor o monolitismo dos géneros (e a procurar um “tom”) e é por isso mesmo que é composta por rasgões, fragmentos, enxertos, notas em movimento, interrogações súbitas, comentários parciais, palimpsestos instantâneos, esboços narrativos, escorços e relatos em radical ‘media res’ (mas não se reduz, por outro lado, e porventura devido à perenidade da sua auto-imagem - voltarei ao tema -, à mortificada elipse das figurações ‘sms’).

sexta-feira, 19 de maio de 2006

O "tom" dos blogues - 11

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Em Março passado, com o objectivo de proteger a figura do jornalista clássico da ventania interactiva dos blogues – e da rede em geral – o ilustre blogueador Alexandre Soares Silva propôs – com o seu habitual halo paródico - um leque de regras de “polémica”. Estas regras não deixam de ser interessantes no que reflectem da tensão clara que existe, hoje em dia, entre as expressões que a blogosfera procura para si e a bem mais tradicional e até unívoca gramática expressiva que sempre fez um jornalista ser um jornalista:
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“1) O golpe do “Não Generalize”- Uma das coisas que as pessoas deveriam ter em mente, quando debatem com um jornalista polêmico, é que ele sabe que existem exceções. Acredite, ele sabe. Não fique apontando o óbvio para ele, que é muito rude. Não fique dizendo: “Nem todo tenista é burro”. Ele sabe. Talvez até conheça dois ou três que não são burros. A questão é que é muito menos chato escrever “todos os tenistas são burros” do que escrever “há um grande número de atletas profissionais (não só tenistas, é claro) que não são assim, digamos, muito inteligentes. Mas faço questão de frisar que há exceções”. Portanto, regra número um: generalizar é divertido. Deixe o generalizador em paz. Ele sempre sabe que há exceções.”
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É difícil não citar toda a primeira regra (como as restantes). Ela é indutiva e, por razão disso mesmo, carbura do exemplo para a premissa perfeita: deixe que se generalize, deixe que se possa intuitivamente abarcar toda a floresta sem ter que ancorar o verbo na resina de cada árvore. Deixe o vitalismo libertar-se e contenha, caro sujeito blogosférico, o seu polposo e voraz apetite da interacção.
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“2) O golpe do “Não queira comparar” – Ah, esse é velho, e muito popular. Não se pode fazer comparação alguma sem que alguém diga: “Você está querendo comparar Jesus Cristo com Agnaldo Timóteo? Trotsky com Sharon Stone? Eliot com Cacaso?” Meu Deus, e daí? Sim, estou comparando. Comparações só podem ser feitas entre coisas diferentes. Exatamente para ver a diferença. Você compara uma melancia com a lua e conclui que uma é um bocado maior do que a outra. Mas você não compara uma melancia com precisamente a mesma melancia. É preciso ao menos que seja outra melancia, o que significa uma melancia diferente. É para isso mesmo que comparações servem! “Não que eu queira me comparar com Van Gogh, mas...” Mas o quê? Se compare, idiota!”
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Esta segunda regra é a regra da latitude. Se toda a retórica funciona por pares, tal como os hemisférios do cérebro (é a metonímia e a súbita contiguidade, é a metáfora e a semelhança subtil, é a alegoria e a simetria narrativa, é a parábola e a doxa da analogia, é a hipérbole e a miragem do gigantão, etc.), logo o espectro da comparação se torna na ginástica primordial de toda a expressão dos humanos. Daí que, ao comparar, nem que seja a raiz do abeto com o olhar de Proserpina, o cidadão interactivo da blogosfera ganhe mais em eclectismo do que em superar a sua angústia expressiva. O Alexandre, mais uma vez, tem toda a razão.
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“3) O golpe do Ataque Ad Hominem – O bom e velho xingamento gratuito. Nem é preciso explicar porquê isso não deveria ser feito. O texto é sobre matemática, digamos – e o leitor desqualifica o autor porque, segundo fontes confiáveis, “ele é corcunda”. Que feio, que feio. Esse tipo de recurso só é válido, é claro, se o xingamento for ao menos engraçado – alguma piadinha sobre corcundas e áreas cônicas, ou algo assim. Mas essa piada tem que ser um pouco elaborada. Um xingamento puro e simples, ou um xingamento com sarcasmo puro e simples, mas sem um toque de ironia, é um comportamento digno de labregos.”
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Pois é, a ironia. A ironia em vez do “gajo” que é ‘semiótico da Moviflor’ (uma máxima extraordinária publicada há dias numa ilustre caixa de comentários). Por outras palavras: conseguir avançar com desmedida sinceridade e mesmo assim dizer algo ligeiramente diverso do que se quereria comunicar é, de facto, arte pouco “labrega”. No entanto, ela até faz de certo modo escola, hoje em dia, no elevadíssimo milieu tribuno dos parlamentos regionais e das Assembleias Municipais. Só que nem sempre é requintado o modo como o locutor dá a ver o paradoxo ou a contrariedade que desejaria veicular. A coisa sai-lhe atabalhoada, com tons vernáculos e toscos, sobrepondo-se a toada alarve ou de elefante à finura felina que conduziria à acidez da limonada ou à crítica fina. A fulanização e o anonimato andam muitas vezes de mão dada na blogosfera: o que se expande em certos submundos da atmosfera terá na blogosfera o nome de ‘terrorismo do tom’.
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“4) O golpe do “Explique-se Melhor”- Também conhecido como o golpe do “Hein?”, ou “Não entendi”, ou “Fale Sério”, ou “Baseado em Quê Você Diz Isso?”. Não há piada ou frase de espírito ou boutade ou witticism que resista a isso. É como aquele sujeito que pede para que lhe expliquem a piada. Por favor, não peça ao autor da frase espirituosa que justifique sua afirmação em 500 palavras ou menos, usando trechos de jornais de época e bibliografia selecionada. Esse é um dos golpes mais hediondos do manual.”
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O público gosta de ser meta-comprensivo. Nem sempre por não entender, mas porque a própria repetição explicativa coloca em cena o prazer de uma desforra sempre e só imaginária. Enquanto o oponente potencial repete o seu excurso, ele, o pobre adepto da repetição, fica a olhá-lo e imagina – às vezes sem disfarçar - a frescura da guilhotina naquele pescoço dócil, a vibração dos volts na cadeirinha eléctrica e a força da gravidade que o embalaria pelo precipício depois de empurrado com mãos de seda. O público não gosta do laconismo, do texto acabado e do remate conclusivo. O público gosta de intermináveis relatos, de conversas picantes e cerejas e mais cerejas. É por isso que, na blogosfera, a interacção é insaciada: porque, justamente, o texto não tem fim, porque os posts jamais se esgotam e porque a actualidade é sempre a actualidade, removido que foi há muito o futuro e endeusada que foi há muito a amnésia generalizada.
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“5) O golpe do “Debate”- Ah, a mania do “debate”. Não basta a alguém escrever um texto brilhante – na Internet, ele tem que “debater” cada ponto de vista, sob o risco de ser considerado um idiota que não sabe o que diz. Não basta que o regime de governo seja democrático; é preciso que os sites sejam democráticos, com textos democráticos e comentários democráticos, em que leitores democráticos interpelam democraticamente as boutades do escritor democrático até levá-lo a um democrático suicídio. É como se Ibsen tivesse escrito as suas peças apenas para “debater” com qualquer badameco que se sentasse na sua mesa de café em Cristiânia. Ou Oscar Wilde tendo que “debater” seus ensaios com um estudante de sociologia de Goiás. “Não fuja, não fuja! Você não terminou de explicar como fica aquela sua frase sobre a classe média à luz dos conceitos de Durkheim!”
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Aqui é que o texto se confunde com o texto: de facto, uma teia é feita de linhas que se cruzam e que se confundem no produto que parece final. Só que, um dia, a teia desfaz-se e já não se sabe onde a dita terá começado e acabado. O texto – quanto mais o texto de um post - também não é o pontão de um porto onde apenas acosta um casco e um porão de cada vez. Não há nada a fazer aqui: se o aventuroso jornalista terminava dantes a sua tarefa na última linha do último artigo, antes aindade de escalar aos bares do Bairro Alto, hoje o blogueador está perdido como um flanêur sem destino. Não há (praticamente) regra que lhe valha. É por isso, caro Alexandre, que o debate acaba por ser essa coisa bizarra que faz de Ibsen e de Wilde dois marinheiros sôfregos face à impaciência de outros tantos biliões de anónimos marinheiros que com eles comentam o fim do Princípio de Peter. As ondas batem em todo o lado, tal como o texto jorra na omnipresença do debate e da interacção. Não há mesmo nada a fazer: a blogosfera chegou de vez para que a permuta se passe a fazer para lá de um ‘de dentro do texto’ e ‘de um de fora do texto’: todas as Goiás do globário estão abruptamente ao mesmo nível, como se tudo se passasse na instantaneidade do agora-aqui, do hoje e do já.
Deixei o link do post de referência para o fim, já que, misteriosamente (ó Blogger, por que nos abandonas?), o mesmo inibe e apaga tudo o que após ele se escreve: clique, pois, aqui.

quinta-feira, 18 de maio de 2006

O "tom" dos blogues - 10

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Por que razão se chama micro-causa a uma micro-causa? A que tipo de expressão corresponde aquilo que a blogosfera passou a designar por micro-causa? No fundo, escritas na sua maior parte em maiúsculas (há um efeito de diferença que elas pretendem sublinhar), as micro-causas correspondem a solicitações que sugerem uma possibilidade a instâncias directamente associadas a formas de poder (não é por acaso que se iniciam quase sempre com a fórmula: “Pode a instância X esclarecer ou disponibilizar…Y”). Entre o Verão e o Outono do ano passado, este tipo peculiar de cidadania em rede generalizou-se. Lembro-me de três micro-causas da altura com alvos completamente distintos. Em Agosto, o Abrupto lançava a micro-causa da OTA: “PODE O GOVERNO SFF COLOCAR EM LINHA OS ESTUDOS SOBRE O AEROPORTO DA OTA PARA QUE NA SOCIEDADE PORTUGUESA SE VALORIZE MAIS A “BUSCA DE SOLUÇÕES” EM DETRIMENTO DA “ESPECULAÇÃO”?”. Em Outubro, o Bloguítica avançava com uma outra micro-causa ligada ao caso Fátima Felgueiras: “PODE O JORNAL «PÚBLICO» SFF ESCLARECER COM QUEM É QUE FÁTIMA FELGUEIRAS MANTEVE CONTACTOS NO SECRETARIADO NACIONAL DO PS? QUANDO É QUE ESSES CONTACTOS TIVERAM LUGAR? QUEM É QUE INFORMOU JAIME GAMA PREVIAMENTE DA LIBERTAÇÃO DE FÁTIMA FELGUEIRAS?”. No mês seguinte, em Novembro, o Fumaças fazia eco de uma outra micro-causa acerca dos sistemas de informação da república: “PODE O PRESIDENTE DA REPÚBLICA SFF ESCLARECER O QUE PENSA SOBRE AS MUDANÇAS NO SISTEMA DE INFORMAÇÕES DA REPÚBLICA PORTUGUESA (SIRP), SERVIÇO DE INFORMAÇÕES ESTRATÉGICAS DE DEFESA (SIED), SERVIÇO DE INFORMAÇÕES DE SEGURANÇA (SIS) E DIVISÃO DE INFORMAÇÕES MILITAR (DIMIL), DESDE QUE DEU POSSE AO PRIMEIRO-MINISTRO, JOSÉ SÓCRATES?”. Os alvos considerados por estas três micro-causas eram, ou instituições do sistema político (governo e presidente da república), ou os média. Ou seja, a blogosfera, na sua larga maioria com apenas dois anos e meio de vida, passava, nos idos de 2005, a acenar e a requerer de forma concertada na direcção dos poderes e, quase sempre, directa ou indirectamente (lembro-me da resposta de José Manuel Fernandes no Clube de Jornalistas, na 2), com alguns resultados. Creio que o sentido das micro-causas é, do lado da blogosfera, o de uma tentativa que está para além do comentário dos média (quase sempre solitário, embora sujeito a isotopias conjunturais e a cruzamentos opinativos normais) e aquém do sentido manifestatário de grupo (não necessariamente corporativo, entenda-se). A micro-causa seria, portanto, o resultado de uma procura expressiva que não tende a influenciar de modo vertical e referencial (como acontece com os colunistas mais conhecidos que associam o seu próprio nome a um poder mais ou menos imediato), nem assume, por outro lado, a carga reivindicativa do abaixo-assinado que reflecte um espírito de corpo marcado por denominadores comuns consistentes e dados. As micro-causas da blogosfera atravessam uma e outra destas expressões, que há muito estão consolidadas na história do espaço público moderno, constituindo ambas formas claras, reconhecíveis e tradicionais de cidadania. O que torna diferentes e eficazes as micro-causas são essencialmente quatro ordens de razões, a saber:
1- O seu carácter despojado, na medida em que se enunciam depuradas de “considerandos” ou de contextualizações extemporâneas. A sua fórmula é sucinta e baseia-se numa pergunta ancorada na actualidade, ou seja, num breve segmento hermenêutico que tem a forma, ou de num jogo em que a pergunta-resposta visa revelar um segredo, ou de um enigma mais vasto em que a revelação de alguns dos seus dados clarificaria a própria natureza do jogo.
2- A sua livre apropriação, na medida em que a expansão do mote que faz as micro-causas tem algo de semelhante às mnemotécnicas da oralidade: avança com aparente fragilidade pela rede, mas vai assinalando nos interfaces mais inesperados (on e off-line) a sua real força. Isto acontece devido ao facto de os blogues não se moverem numa relação axial entre auditórios e emissores fixos, acabando antes - tal como uma trepadeira sem fim - por cruzar terrenos muito plurais e sensíveis (políticos, mediáticos, sociais, etc.).
3- A sua imprevisibilidade, na medida em que as micro-causas criam um tipo de agenda que escapa aos verosímeis que têm dominado, quer o espírito de corpo da reivindicação tradicional, quer a lupa dominantemente cirúrgica do colunismo jornalístico. O que as micro-causas da blogosfera têm em vista não é um corpo, nem um sistema e muito menos a exigência de uma mudança. O que as micro-causas visam é sobretudo uma inquirição aparentemente casuística, mas que, ao fim e ao cabo, acaba por criar uma desejada turbulência nas inércias de vários sistemas (por exemplo: inquirir uma situação abjecta, como é o caso do “envelope 9”, ou solicitar a disponibilização de fontes, como aconteceu nos casos OTA e Fátima Felgueiras).
4 – A sua contemporaneidade, na medida em que as micro-causas traduzem um tipo de eficiência que é própria de uma época em que as chamadas “grandes causas” deixaram de mobilizar a sociedade, a favor de outros factores (hiper-reais) que funcionam em fluxo massificado e em rede. As micro-causas integram-se, hoje em dia, num âmbito de causas mais vastas e fragmentárias que está percorrer a abertura dos novos ciberterritórios e das novas cidadanias emergentes no globário. Não deixa de ser curioso, a título de exemplo, que um partido político tradicional tenha usado o meio (os blogues) e esta expressão genuína da blogosfera (as micro-causas) para realizar uma petição (em Novembro de 2005) : “Micro Causa (CDS/PP Beato, Lisboa): Petição para tornar oficial o Idioma Português nas Nações Unidas”. Apesar de escrita em minúsculas, não sei qual terá sido o resultado prático desta petição, mas a verdade é que o uso da expressão da micro-causa – e do “tom” aproximado que se lhe associa – não deixa de ser cristalinamente sintomático.
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P.S. - Devido ao facto de Altino Torres Ferreira ter sentido, com alguma veemência, a ausência da sua micro-causa neste post, passo a transcrevê-la: "Considerando o facto de estarem apuradas para o fase final do Campeonato do Mundo de Futebol do próximo ano, na Alemanha, três selecções de futebol (Portugal, Brasil e Angola) de países cuja língua oficial é a língua Portuguesa, e, como tal, existir um universo de 200 milhões de pessoas que utilizam a dita língua como "língua materna", constituindo-se assim um vasto universo de pessoas interessadas em consultar a página oficial da FIFA, que presumo seja da vossa responsabilidade, solicito tomem as diligencias necessárias para que a referida página web seja também apresentada em Português." (o impacto desta micro-causa, já agora, foi bastante importante).

quarta-feira, 17 de maio de 2006

Aniversários (act.)

Os meus sinceros parabéns ao Almocreve, ao Crítico e ao No Quinto dos Impérios pelo terceiro aniversário e ao Bicho Carpinteiro pelo primeiro. Três anos na blogosfera são três milénios na atmosfera.

Tonalidades & casos - 13

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"O escritor austríaco, de mãe eslovena, Peter Handke, esteve presente no funeral de Milosevic e explicou porquê. Em retaliação, o administrador da Comédie Française, Marcel Bozonnet, resolveu retirar da programação a peça Voyage au pays sonore ou l'art de la question, prevista para 2007 e entretanto em fase de produção, da autoria de Handke. As opiniões políticas de Peter Handke são discutíveis. Ele discute-as. A censura a uma peça de teatro é um acto administrativo, não é um acto de cultura. Que um liberal francês a tome, em nome da indignação, é um sinal inquietante dos tempos."
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Eis o que é uma expressão realmente plástica: a possibilidade de tudo contar e denunciar sem necessitar de mais contextos, nem de dois ou três panos de fundo suplementares. O fundo adere à superfície e faz da única camada que fala um eco para inúmeras vozes. Vantagem dos blogues, pois então (não é apenas no design que a questão dos novos materiais é, hoje em dia, da maior pertinência). Basta depois reentrar pelos links e voltar a entrar, sucessivamente, como o próprio Luís refere noutro post - cito -, entre esse espesso oceano de “claques”, seguindo pelas “maternidades”, pelas verdades “vaginalistas” e pelos pasmos “abdominalistas”. Como um meteorito que não precisa de fôlego: estar em todo o lado ao mesmo tempo, em órbita à própria órbita, disferindo o golpe e ao mesmo tempo areando o risível, comediando o dia a dia, incendiando a ternura escondida, a intimidade próxima, o liberalismo anti-liberal e até as mais do que discutíveis opiniões (políticas) de Peter Handke. Eis o que é uma tonalidade realmente plástica.

Tonalidades & casos - 12

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“Etimologia hebdomadária
A palavra para hoje é nãotenhotemponenhumdesculpem.”
e
Poucos blogues, mesmo eclécticos e variados, seriam capazes de viver tendo como base um tão abundante número de rubricas fixas (“Coisas que melhoram algumas vidas”, “Ninho de Cucos”, “Eu hoje acordei assim”, “Metabloggers do it better”, “Porque é que adoro Desperate Housewives”, “Estado em que se encontra este blogue”, etc.). Quando fez um ano de vida, escrevi aqui no Miniscente: “Ela é uma rara mistura de quotidiano subtil e humor voraz com profundidade consistente e sátira afectuosa”. Não sei bem se acertei, mas sempre me pareceu claro que um dos lados mais apolíneos do labirinto blogosférico morava neste cocktail em festa que fazia do limiar – repita-se, do limiar - do ensaismo, dos aforismos, da crítica, da crónica, do excerto, do jogo de sombras e da comédia com fantasmas próprios e alheios… um palco, ao mesmo tempo, maleável e consistente. Ao ter criado e sobreposto vários destes limiares, os géneros puros e duros apenas se iam pressentiam. Mas ao recriar - nas rubricas fixas - novos esboços de géneros, esse pressentimento clássico, já de si apenas uma silhueta ou um coro grego de simples limiares, rapidamente se transfigurou no que a Bomba realmente é: uma inteligência expressiva. Poucos são os blogues, de facto, onde a variedade de registos é menos a procura de um tom do que o exemplo claro do que são as virtualidades (no sentido restrito de ‘trazer à realidade’, mas à sua ‘realidade própria’) de um meio novo como a blogosfera. No post citado, a familiaridade torna presente a rubrica que se ausenta, ao mesmo tempo que a palavra encontrada (encantada) para o dizer faz da cátedra do título uma espécie de design efémero e apetecido. Há poucas paisagens assim: muito mobiliário urbano atraente e ainda mais e mais rostos de personagens que se transfiguram permanentemente (lembram Delvaux, embora com o vazio recheado pelo diletante contágio do tango).

Tonalidades & casos - 11

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“Com todos/ Ontem, uma pessoa conhecida mandou-me um convite para mais um daqueles sites de amigos e conhecidos que permite que estejamos todos em rede. Aceitei o convite, preenchi os dados pedidos e, sem dar conta disso, mandei um convite semelhante a todos os endereços da minha caixa de correio, incluindo pessoas que mal conheço, de quem não sei há anos ou com quem me zanguei. Vamos ver se esse lapso não é interpretado como uma intenção.”
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Um meio tradicional - um jornal - tem sempre uma secção destinada a correcções (por exemplo, “O público enganou-se”). Nos blogues, a prática é desnecessária já que o pragmatismo da rede sempre fez claramente sobrepor o sentido à verdade (ver post sobre o tema). A veracidade torna-se, por isso, de vez, num assunto para a deontologia jornalística ou para as axiologias científicas sempre mediadas pelo inquérito e pela dúvida. Na particularidade da blogosfera, este tipo expressivo confina como nenhum outro com a coloquialidade e é por isso mesmo que, nestes casos, a imagem dos velhos botequins do final de setecentos parece ressuscitar. No post do Pedro – a bordo de um blogue minimalista e económico (ao contrário do Dicionário do Diabo) -, o confessionalismo abre portas à brevidade cinematográfica do gesto, à cristalina exposição do embaraço e até à simulação do sorriso. Parece que estamos agora mesmo a ouvir e a ver os interlocutores sob a arcada a discorrerem acerca da natureza dos lapsos e das "intenções" (em vivo itálico). Sobre a mesa, uma mão cheia de boicoli e golosessi. Uma pianola, dois violinos e a tonalidade das zattere um pouco mais ao longe.

terça-feira, 16 de maio de 2006

Um blogue a visitar

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Para quem gosta de cidades, eis um blogue de cidades com Milton Ribeiro (Porto Alegre / Brasil), Fal Vitiello Azevedo (São Paulo / Brasil), Luiz Ruffato (São Paulo / Brasil), Paulo José Miranda (Rio de Janeiro / Brasil), Nelson Saúte (Maputo / Moçambique), Rui Parada (Macau / China), eu, o próprio Luís Carmelo (Évora / Portugal), Luís Graça (Lisboa / Portugal) e Manuel Jorge Marmelo (Porto / Portugal).

O "tom" dos blogues - 9

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Escreveu Eduardo Pitta num post onde analisou a série que tenho dedicado à expressão na blogosfera (e que tenho traduzido pela palavra “tom”): “São coisas diferentes, escrever para um público virtual, não identificado, só remotamente pressentido — amigos próximos, oficiais do mesmo ofício, um que outro inimigo —, e escrever para uma audiência quantificada, que pode ir de Chicago à Palestina, do Campo Grande à Marechal Gomes da Costa e de São Petersburgo a Maputo (…)”
A questão pode também ser analisada do ponto de vista do leitor: são coisas diferentes ler um blogue com pouca difusão, embora minimamente referenciado (i.e., conhece-se o terreno, “pressentem-se” as clivagens, entende-se a natureza do círculo de leitura criado e domina-se até a possível natureza dos topics), ou ler um blogue de grande difusão sabendo que se partilha uma imensa e variada rede de leitores (é quase certo que as rubricas acabem por ser algo fixas, que os links constituam a remissão de uma main stream, que o impacto exceda o meio – a blogosfera - , que a previsibilidade e a expectativa não conduzam a sobressaltos desmedidos e que o próprio anonimato se torne mais consistente e menos familiar).
Ou seja, de um caso para o outro, o leitor deixa de entender a latitude de um simples claustro expressivo (é esse o esforço de um leitor do Miniscente, julgo eu) para se intrometer numa teia mais ampla onde acaba por rever-se num outro tipo de mobilidade e de compreensão (é esse o esforço do leitor de um Eschaton, ou, a nível mais local, por exemplo, do Abrupto).
As coisas andam associadas e têm, naturalmente, a sua tradição.
De facto, a hermenêutica romântica reduzia a interpretação ao reconhecimento das intenções de um dado autor (considerado do ponto de vista dos seus destinatários na situação original e histórica do discurso). Esta espécie de quase biografismo passou depois a ser entendida como uma variante da compreensão (Schleiermacher, Dilthey, etc.), acabando por centrar-se na expressão e na experiência vividas, sem qualquer necessidade de referência a um autor físico (noções do final do século XX, tais como a “fusão de horizonte” – Jauss - ou de “apropriação” – Ricoeur -, derivam deste turn e deixaram de visar fosse o fosse acerca da intencionalidade de outrem, já que o texto passava a bastar-se a si mesmo). Nesta linha de ideias, o convívio entre relato e leitor adquiriria o sentido de um real sobressalto, através dos qual este último se apropriaria de algo novo, por via de um conjunto de referências não ostensivas, entreabertas, ou desveladas no fruir do próprio relato. Este tipo de sobressaltos (com origem no apelo do texto) alimentariam a súbita compreensão do leitor ao mesmo tempo que lhe concederia uma nova capacidade de se rever a si próprio.
É este o coração do debate hermenêutico.
No caso dos blogues – raramente tenho visto este debate situado ao nível do leitor -, a diferença entre apreender o claustro expressivo de um blogue como o Miniscente e a rede criada pela mobilidade e intensa difusão de um Eschaton, ou de um Abrupto, é, contudo, de uma natureza distinta da que pode ser verificada entre textos clássicos (off-line). Há no mínimo quatro razões para tal.
A primeira situa-se na própria virtualidade do meio que já não pressupõe uma rígida separação de águas entre real e ficção. Mesmo nos blogues mais referenciais – os políticos, por exemplo –, a narrativa tende a criar a sua própria realidade e agenda. É por isso que a paródia, que encena sempre várias realidades ao mesmo tempo, se sobrepõe muitas vezes ao verosímil (ao potencial) que deveria ser trazido à realidade (é também por via desse uso que o virtual se impõe ao potencial).
A segunda tem a ver com o tipo de escrutínio a que se submete a linguagem em tempo real. Eu sou um adepto de que é apenas no uso, no efémero, no ‘cria e esquece’ — da linguagem que se cria o sentido (tal como escrevi aqui noutro post). Sei que o Eduardonão teria tantas certezas”. Seja como for, na perspectiva do leitor, a actualidade da expressão faz a leitura. Ninguém na blogosfera vive da memória temático-simbólica, ou de referências pesadas que legitimassem o sentido do que se escreve. Na blogosfera e na rede em geral, o hoje é já o sentido. A emergência é a lógica. O actual e o actualizado não se contrapõem à potência: são, sim, modos próprios e autónomos de significar (no fundo, isto corresponde à consecução de uma herança pragmática que referenciei igualmente noutro post).
A terceira prende-se com as novas possibilidades da interacção. Num meio tradicional, as possibilidades de afirmar a expressão eram escassas. De um lado havia o auditório e do outro lado existia a (depuradíssima) hierarquia da enunciação. As coisas estavam separadas verticalmente. Na rede, e na blogosfera com alguma singularidade, esses antigos magmas contaminaram-se e geraram horizontalmente novas formas de desinibição e de afirmação (as primeiras aparecem sobretudo na expressão do ressentimento, da desestruturação, do anonimato e de outros signos do desconforto, da paródia, ou do medo; enquanto as segundas aparecem sobretudo como cooperação, partilha, argumentação, complemento ou contraditório).
A quarta, no fundo o sustento de todo este debate e reflexão, diz respeito à própria procura de uma expressão que se adeque ao novo meio (a blogosfera). Tenho traduzido essa procura pela palavra “tom” – não me canso de o repetir - e tenho tentado exemplificá-la através de casos interessantes em posts que a dei o título de “Tonalidades & casos”. Sei que, à partida, a blogosfera é incompatível com gramaticalidades estriadas, embora haja blogues que tenham caído na tentação de explicitar algumas regras (voltarei um dia, talvez muito em breve, a esse interessante tema).
Estas quatro razões desenham cenários completamente novos na relação que o leitor tem com blogues onde se escreve, ou “para um público virtual, não identificado, só remotamente pressentido — amigos próximos, oficiais do mesmo ofício, um que outro inimigo”, ou, em contraponto, “para uma audiência quantificada, que pode ir de Chicago à Palestina, do Campo Grande à Marechal Gomes da Costa e de São Petersburgo a Maputo”, para recorrer aos termos utilizados por Eduarto Pitta no seu estimulante post.
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P.S. - Naturalmente, os meus cúmplices agradecimentos.