segunda-feira, 15 de maio de 2006

Tonalidades & casos - 10

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"Apesar do esforço honrado..../... e da hipotética razão que lhes assistam, não me vão conseguir convecer a ler o artigo que vivamente aconselhei. Também não me vão conseguir convencer a ir ver os Lisboetas. Mais: destesto o Jacques Tati".
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Há blogues únicos e este é um deles. O que faz um blogue ser único é o seu destemido formato expressivo. A concisão, o fôlego ‘apologético’ e o tipo de relato parecem adequar-se instantaneamente ao meio e à força elocutória. O que há a dizer é já assombração, antes mesmo de o leitor ser inundado (vibratilmente) pelo não-dito, ou seja, pelo silêncio onde moram as verdadeiras alegações. A coisa chega-nos como um trovão, como um eco no fundo da mina, ou como um tiro na montanha (o som é discreto, rápido, solto, mas certeiro). “maradonas” há poucos, tons como este também. Verdade seja dita que não há muitos blogues onde a procura expressiva pareça uma tarefa tão adiada, ou jamais sequer colocada na agenda.

sábado, 13 de maio de 2006

O "tom" dos blogues - 8

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Ao falar sobre o “tom” dos blogues tenho querido significar a procura expressiva que é própria da jovem história da blogosfera. Ao contrário de outras – muitas - intervenções, nunca identifiquei “tom” com estilo, com estado de espírito, com tipologia de abordagem, com gosto, ou até com epicentro educativo (o ‘bom tom’, o ‘tom certo’, o ‘tom aziago’, etc.). Seja como for, o mal-entendido é a prova de que estamos vivos e de que significamos com a errância e o precipício à vista. Seja, pois, bem-vinda a diversidade e o múltiplo entendimento (embora, com as desculpas da praxe, eu continue a seguir a via que adoptei desde o primeiro minuto).
A metáfora do “tom” surgiu na leitura de um post e, posteriormente, reconverteu-se em reflexão autonomizada – distante do modo como foi entendida nesse mesmo blogue - e creio que tem neste momento pernas para andar. É apaixonante analisar as metamorfoses e a maleabilidade que acompanham a linguagem dos blogues, assim como as diversíssimas matizes que moldam a tematização, a agenda, o vendaval intertextual e a marcada individidualização em confronto com outro dado que é próprio da rede em geral: a des-subjectivação.
De facto, verifica-se na rede um inevitável descolar das marcas enunciação de carácter pessoal ou subjectiva. De certo modo, está-se a assistir, hoje em dia, a um regresso ao palimpsesto de várias entradas e de várias autorias. Esta sobreposição de quase anonimatos tem mais tendência a ser activamente sincrónica - várias autores ao mesmo tempo, ou em tempos diferentes de um mesmo registo que se enuncia - do que diacrónica, no sentido em que um texto profético medieval era rescrito secularmente (e se ia adaptando às mais variadas circunstâncias históricas). Na actualidade, o evento é sempre o evento actual e, nessa medida, ele mesmo se encarrega de virtualizar as instâncias autoriais e as suas próprias circunstâncias de existência referencial, retórica ou estética. Contudo, a blogosfera acedeu, desde o primeiro momento, ao interessante paradoxo da individualização (já analisado em anteriores posts desta série). Este paradoxo é uma das características mais singulares da procura expressiva que caracteriza o “globário” dos blogues: movem-se na primeira pessoa, mas percorrem todos a mesma água, o mesmo tipo de leitura, a mesma instantaneidade de sentido, a mesma remoção da memória e a mesma inscrição de tipo síncrono (a remissão como respiração).
O modo com a blogosfera é habitada pela rede assemelha-se a um mar que se move ao mesmo tempo que as embarcações individuais solitariamente se abrem a uma interlocução enigmática: não se lhe conhece a carne do contacto, mas ele é permanente e contagioso. Daí que os seus textos – a palavra “post” é apenas o ligeiro fragmento de um rosto – se abram a caminhadas generativas sempre em mutação. É por isso que o contacto entre ‘bloggers’ se adivinha enquanto se processa e se consuma: é como se os deuses estivessem a criar o seu mundo, enquanto as criaturas desse mundo se acomodam às circunstâncias da navegação muito para além da vontade dos deuses criadores. Trata-se de uma autonomia que foge à própria iminência de prisão (haverá realmente voz própria no “globário”?)

sexta-feira, 12 de maio de 2006

Sobre todas as artes


João Queiroz
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O meu amigo João Palla deu-me a conhecer um novo site sobre arte. Vale a pena passar por lá.

Tonalidades & casos - 9

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“Gato por lebre/ é uma boa descrição do anúncio propagandístico da refinaria de Sines pelo Governo. Um Governo que se compromete publicamente com o anúncio de um projecto sem ter garantido as condições mínimas e contratuais da sua viabilidade está a vender-nos gato por lebre. Está também a vender-nos gato por lebre quando ataca o empresário por propor condições inaceitáveis, que Governo e Primeiro-ministro deveriam ter exigido conhecer antes de tocar a trombeta da propaganda. O Primeiro-ministro agrava tudo isto com o seu tom insuportável de arrogância, como se não fosse ele a ter que nos prestar contas do logro.”
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Ao proferir “Gato por lebre”, Sócrates daria conta do (possível) procedimento do empresário Monteiro de Barros, mas dá certamente também conta do seu próprio procedimento face ao público. O jogo faz o post e a analogia sublinha a respectiva eficácia. Não há prólogo, nem desenlace, até porque a actualidade e a “arrogância” desenham o efémero e o permanente do quadro. A brevíssima encenação entreabre-se ainda à simulação de Sócrates (“como se não fosse ele a ter que…") e auto-intitula-se sintomaticamente “logro” já no final do extracto. É que o texto corre para fora de si, excerto de excerto de um outro texto sempre maior que neste se pressente (indução narrativa, “frame interpolation”). É esta tonalidade que faz de um post o misto de clímax e de simples apresentação: as figuras sobrepõem-se, adensam-se, mas só se tornam presentes em efígie e não em tratado. A enunciação faz do post uma entidade interina, passageira, como se fosse o nome de uma travessia. Como não terá o post que procurar um tom, ou, se se preferir, uma adequação expressiva, actual e maleável que se adeque a tal transumância? Na blogosfera só há presente.

Tonalidades & casos - 8

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a) “Na RTP anuncia-se que o filme “Dormindo com o inimigo” (sobre violência doméstica) é patrocinado pela Martini.”
b) “O fim de semana político assinalou a rendição da direita política perante o governo de José Sócrates.Os tratados de Maio de 2006, assinados unilateralmente por Marques Mendes , Ribeiro e Castro, e João Almeida fazem prever a rendição até ao Orçamento de Estado para 2008.”
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Escrevem no mesmo blogue (Joana Amaral Dias, “a”; e Medeiros Ferreira, “b”). A primeira lança mão à subtileza pícara, à agenda em curso, à mitologia “fracturante”, à sátira valorativa e à denúncia menos velada. O texto acena, apenas mostra o que é necessário, depois escapa-se-nos e parte, como se irradiasse um brilho ou um sobressalto fugaz. Ninguém sabe onde se “anuncia” a RTP, em que meio, com que figura, a que horas, sob que formato. Fica apenas o impessoal como convém: “anuncia-se”. Depois há ainda os subtextos, a terrível entrega ao “inimigo” que transpirará nos lençóis do “sexus/plexus/nexus”. Fica o “Martini”, esse imbondeiro lascivo da cultura ocidental (que certos meios adoram converter em peircing de auto-mutilação). E ficará ainda a pairar a alegação e a sugestão. O segundo traz para a blogosfera o texto de corpo inteiro. Tudo está no seu lugar e reconhecem-se-lhe cabeça, tronco e membros. Na primeira frase, sabe-se que tudo terá ficado “assinalado” para, logo na segunda, se consumar a própria “rendição” antes prenunciada. A ironia quase não tem espaço – passe a polissemia atribuída a “rendição” -, na medida em que o jogo se denuncia de par a par no horizonte que o texto abre e logo fecha. É um texto sem errância, sem o prodígio da eventualidade. Coisa consumada e lacrada. Jornalística. Há, por vezes, tons que se desafiam num mesmo blogue, ou talvez insígnias que se apropriam, ou não, do meio onde escrevem.

quinta-feira, 11 de maio de 2006

O "tom" dos blogues - 7

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Não direi que a procura expressiva que é óbvia nos blogues (os mais velhos, entre nós, têm pouco mais de três anos de vida) – e que analisei em seis posts anteriores – não seja mais evidente num certo tipo de blogues do que noutros, conforme os temas adoptados. Só que a tipologia dos blogues, a sua tematização, quando existe, não resiste - ao mesmo tempo - a alguma disseminação. Ou seja, é verdade que existem blogues temáticos, mas essa tematização raramente congela ou se estigmatiza na gaveta da especialidade. A tendência é sempre deslocar os limites, invadir o tema alheio e deixar-se invadir pelo dito. Esta abertura, este deslizar que é tão próprio da rede transforma aquilo que tenho caracterizado como sendo o “tom” numa prática de sucessiva moldagem. A palavra nunca está conforme ao acto, antes se adapta, maleabiliza-se, ou reencontra-se tão-só, para depois reinventar caminhos. Esta é mesmo uma terra de imponderáveis e de fértil nomadismo: um blogue de vocação literária nunca o é (também fala e bem do sistema de segurança social dos EUA), um blogue desportivo nunca o é (também fala e bem, ainda que parodicamente, do pós-moderno e de Derrida), um blogue de publicidade nunca o é (também fala e bem de “algo de interessante” ou do “ritmo de escrita” do próprio blogue), um blogue social nunca o é (também fala e bem da imensidão das “galáxias”), um blogue sobre música nunca o é (também fala e bem sobre detenções, perseguições e desaparecidos), um blogue sobre política nunca o é (também fala e bem do campo dos média), um blogue sobre sondagens nunca o é (também fala e bem sobre a preservação da “Tapada das Necessidades”), um blogue sobre retórica nunca o é (também fala e bem acerca do “assalto” ao jornal “24 horas”) e mesmo os blogues que se dedicam aos média, ao jornalismo e à televisão – campos que, hoje em dia, atravessam todas as áreas - nunca o são completamente (também falam e bem sobre “cravos generalistas” ou sobre o “cansaço” da governação). O tom dos blogues também passa pelo modo como estas derivas estão a repor as perspectivas temáticas no quadro de uma nova pluralidade.
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P.S. - 1 - É evidente que também existem excepções que confirmam a regra.
P.S. - 2 - Será ainda mais interessante, porventura, analisar o tipo de miscelânea que os blogues generalistas (a larga maior parte) levam a cabo. Voltarei a esta temática aliciante. Até porque há semelhanças na blogosfera com a lógica de alguns manuscritos medievais e algo posteriores - lembro os que estudei, originários dos mouriscos do levante ibérico já do século XVI - em que a sintaxe dos temas é verdadeiramente alucinante e imprevisível.

Um homem sem deuses

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Não aceitar o que se passou, não ter compreendido por que normalmente perdeu, querer ajustar contas com comentadores e críticos, interpretar o mundo como se fosse uma pastosa conjura contra si, eis o sumo do bizarro livro de Manuel Maria Carrilho que é hoje lançado algures em Lisboa. Talvez o João Pedro George tenha aqui nova oportunidade – faz o género - para abanar as letras pátrias. Por que ajudaria a filosofia em casos destes?

Tonalidades & casos - 7

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“Volta e meia ouço alguma pessoa dizer que anda tão atarefada que já não tem tempo para ler blogues. Há por aqui algo de valorativo, não há? Como os que se convertem mas têm frio para se baptizar (os nossos baptismos são de corpo inteiro - good old imersão bíblica). Das duas vezes que tive a filha internada não deixei de actualizar isto. Ou há seriedade ou não vale a pena brincar. Férias. Provavelmente o único bom motivo para largar os blogues.” (…) “Há dois anos/ Surgia a melhor consequência dos meus actos. Com pouco mais de três quilos. Desde esse dia que se me turvaram as prioridades. Perdi o relativismo moral. Descobri o sentido da vida. Os filhos. Tanto assim que acabo de encomendar outro.”
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Uma das características da comunicabilidade que atravessa os blogues é o modo como o público e o privado se cruzam. As fronteiras esvaem-se muitas vezes. Aliás, o blogue do Tiago Cavaco é singular, eficaz e produtivo nas suas misturas: entre o rock, o culto de uma fascinante família baptista e as súbitas anunciações que parecem respirar uma sintaxe silenciosa (pergunta, resposta, síncope, nitidez). Há tonalidades assim: falam de missões como se existisse uma aurora boreal a pairar sobre a algazarra do palco. Tudo o resto parece em ‘câmara lenta’, admirado de si, mas tão autêntico e cirúrgico que é como se não fosse preciso sequer procurar um tom. A coisa revelar-se-ia no ápice, no tiro certeiro, na encomenda precisa. Como se não existissem illusões e cenografias na retaguarda do texto (na blogosfera, salvo excepções que optam ainda pela marca rígida de outras escritas, a retaguarda do texto – o ‘não dito’ quase asfixiado - invade amiúde o próprio espaço da cena).

Figurações da bola

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Tenho um amigo, dono aliás de um grande restaurante do Vimieiro, que há-de ontem ter dito – “finalmente uma equipa alentejana venceu a Taça UEFA”. Para ele, os galegos – sem carga pejorativa, é claro - vão do norte do Vimieiro até ao Ártico (e há, em Moçambique, quase no extremo sul desse pan-Alentejo, quem o conheça bem).

quarta-feira, 10 de maio de 2006

Tonalidades & casos - 6

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“Tinha orgulho, nas suas mamas. Não por serem resolutas. Não por terem redondezas e extremidades, como as de uma de rapariga. Mas porque ao contrário do abdómen, das coxas e dos braços, ao contrário das pálpebras, do queixo e do nariz; ao contrário das carteiras Vuitton, dos lenços Hermès, dos casacos Balenciaga, ao contrário até do seu noivo eterno, pusilânime e fanfarrão, as mamas da Lizete eram verdadeiras. Honestas. Originais.”
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O “media res” faz um texto crescer em tensão sem que nos preocupemos de onde vem e para onde vai. Não é a finalidadade que lhe dá o tom, nem tão pouco a proveniência ou a putativa grandeza do seu “incipit”. O que o nutre é a inquietação permanente, a ambiguidade, o simples estar em curso. Há grandes exemplos destes excursos na literatura, tal como aprendemos a entendê-la no mundo moderno e sobretudo antes. Mas se há forma que se adequa à provisoriedade e suspensão da rede é mesmo esta: a deambulação orgulhosa da personagem, o seu perfume errante, a adjectivação entrecortada, o desvario nada liofilizado. O adiamento sempre presente da cena. A elipse resguardada na delonga. A flor e a sua alma de pixel. A "Lizete" tão protética quanto carnal.