sábado, 14 de janeiro de 2006

Sociedade de informação

Do comunicado da PT de ontem:
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“(… ) a PT apurou que a informação foi prestada relativamente aos números solicitados, tendo sido ocultada por um filtro informático os restantes dados referentes a outros números do mesmo cliente - cuja identidade é sempre desconhecida pelos serviços.”
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Conclusão: a PT não podia jamais ter conjecturado que há "filtros informáticos" que podem ser removidos.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2006

A crise da Sexta 13

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Em Portugal pós-Casa Pia pouco já interessa a verdade. O que interessa é o sentido que as coisas ainda conseguem, de vez em quando, ter. E, com coerência, Sampaio lá fez mais um jeitinho à ambiguidade e à redundância. Começou a chover ao fim do dia, a cidade congestionou e o resto - sinceramente - é como se o país apenas sonhasse com a inconsolada voz de Tony de Matos. Pura Sexta, dia 13.

Figurações do mundo

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Há episódios da infância que são extraordinários. Lembro-me, há muitos muitos anos, teria talvez uns seis ou sete anos, de chegar à conclusão que os números pares e os números ímpares não deveriam existir em paridade. Ou seja, segundo a minha intuição numerológica da altura, o facto de existirem tantos números ímpares quanto números pares corresponderia, porventura, a algo de muito estranho e enigmático que deveria escapar à harmonia da criação. E movido por uma espécie de confiança leibniziana, lá decidi que o algarismo "5" ficaria para sempre - e apenas para mim - a figurar entre o número dos algarismos "pares". Ainda hoje assim é. Como se vê, há códigos neste mundo que são absolutamente silenciosos e restritivos.

Coisas boas da vida

Ontem visitei um amigo que tem 82 anos e que vai ser pai daqui a dias. Em casa, era visível aquele ambiente que é próprio dos jovens casais. A felicidade pode remover montanhas (a mãe parecia saída de um conto de fadas).

quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

Cultura

Raramente vi um ministro tão desarmado, tão fragilmente inconsistente e tão fora do seu papel. A Isabel Pires de Lima, ontem, no Magazine, faltou tudo. A prestação chegou a desencadear aquela empatia piedosa por quem quase não consegue respirar. Nada me move corporativamente contra a senhora - embora discorde de muita coisa da sua actuação -, que conheci numa circunstância bem diferente onde denotou simpatia, elegância e naturalidade e nunca aquele ar de acossadamente indefesa. É por isso que as quotas (por género e região) são a pior invenção do mundo.
De facto, "Lisboa" não basta como motivo político de tiro ao alvo para iludir fraquezas e insuficiências alheias.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

A espuma do apocalipse (actualizado)

Ontem, pela primeira vez - no Politécnico de Abrantes -, Mário Soares abordou a possível inadequação da sua candidatura presidencial. Ter admitido o facto tem, por si só, mais pertinência do que desistir. A realidade poucas vezes terá sido tão clara, goste-se ou não (por mim, não votarei em nenhum dos candidatos): uma parte significativa do eleitorado de Sócrates vai votar Cavaco e Sócrates continuará a viver do inelutável apoio desse eleitorado. Está, pois, traçado o quadro que irá reger a vida política nos próximos três anos. A margem de manobra para uma luta política de jeito só se voltará a colocar já para 2008.
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Ao contrário do que José Pacheco Pereira hoje afirma, creio que o "enfado" real que estas eleições carregam e o rico quadro de ilações que suscitam e provocam são coisas que correspondem a níveis e naturezas completamente diversos (são factos que nada têm a ver com perspectivas de vitória ou derrota). A primeira decorre da contenda entre um 'não-dito' meio sacrificial que se arrasta há meses e, por outro lado, um conjunto cansativo de práticas de esvaziamento retórico. A segunda está toda ainda em aberto e faz parte do horizonte com que pode já pensar-se a configuração de um novo ciclo político (na parte de cima do post, prefiguro uma coabitação ao centro com atritos muito dissuadidos no curto prazo, já que a base política legitimadora de Sócrates e Cavaco é bastante comum. A prazo, o centro acabará por se tornar sensível ao inevitável tumultuar do termo da legislatura e aí as posturas de Cavaco e Sócrates tenderão a pulverizar novos realinhamentos, hoje apenas latentes).

Casa Fernando Pessoa

No fundo, além do mais, este é um cumprimento de vizinho a vizinho. É que o Miniscente, pelo menos em metade do seu tempo semanal, mora mesmo na rua ao lado.

terça-feira, 10 de janeiro de 2006

Sexo e outras ocultações

Fui ao site da RTP para tentar saber o que quer dizer o "N" de RTPN. Consultei o "Perfil do canal", entre outros elementos informativos presentes, mas o enigma manteve-se.
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Lembro-me, quando era pequeno, que os cintos das fardas da mocidade portuguesa tinham um "S" na fivela. O meu avô materno, avisado espírito de tradição republicana, dizia-me - bem alto para e quem o quisesse ouvir - que o tal "S" queria dizer "Sabão". No entanto, sempre percebi que era brincadeira e o enigma manteve-se. Até hoje.
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Como vêem, não são apenas os escritores portugueses que trocam os lexemas do toma toma. A coisa é mais geral e espalha-se no mundo português de A a Z, para que o coma coma se esconda sempre atrás do toma toma. "Português Suave", diria Raul Lino. A falta que nos faz a Natália!

O sexo e o ar de trovoada

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A alvenaria branca subitamente imersa pelo céu da trovoada. E o sol, ao de leve, a inclinar-se, ludibriando o cenário e adivinhando a calada fantasmagoria.
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Dupla moral da história (ou da visão): o sexo e a linguagem que diz o sexo são coisas diferentes. O céu de trovoada e a linguagem que diz o céu de trovoada também são coisas diferentes.
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Aliás, o Bataille dizia que a literatura era a expressão peculiar do "mal", embora tal concepção acabasse por exigir uma inevitável "hypermorale". Lá está.

S. Boaventura

Gosto da serradura do meu vizinho.