segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

Ver os outros fora de tempo

Nunca me lembro, pelo menos em Portugal, de se iniciar uma campanha eleitoral, havendo já a convicção clara e generalizada de que a votação devia ter ocorrido há umas semanas.
Tudo parece tornar-se claramente penoso nos candidatos, a partir desta Segunda-feira: a destroçada voz de Cavaco (muito dos que hoje o apoiam serão amanhã os primeiros a opor-se-lhe), a sobrançaria de Soares, as ocas solenidades de Alegre, a idade do ferro de Jerónimo e as saloiadas do Bloco. Nada disto passa por direita e esquerda, mas antes pela ambiguidade persistente e hipnótica de um centro que, para um lado ou para outro, é sempre asséptico e incolor por natureza.
Muito sinceramente, Sócrates continua a ser o mais lúcido e sarcástico protagonista de todo o leque político português: não só recupera da queda e da crise muito bem resguardado da algazarra inútil, como demonstra ter sido ele o primeiro a perceber, ao jeito de Cameron, que fazer ondas a mais em águas paradas é o pior dos lances da política contemporânea.
Ao contrário de Guterres e de Cavaco, Sócrates dirige o seu governo como um hábil narrador de histórias que dá a ver o que é óbvio, mas não do modo como a larguíssima maioria o poderia esperar. Ou seja, Sócrates tem mostrado como se joga a meio campo à moda de Mourinho, não escondendo nunca - como diz o povo - que o último a rir é sempre aquele que ri melhor.

sábado, 7 de janeiro de 2006

Roth e os 500 anos do Progrom de Lisboa

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Acabei de ler o último romance de Philip Roth. A conspiração contra a América (2004; tradução na D. Quixote, 2005) relata a ficcionada vitória eleitoral do aviador Charles Lindbergh sobre Roosevelt, em 1940, baseada num programa político pretensamente pacífico e declaradamente anti-semítico que recusa a entrada dos EUA na guerra em curso na Europa. A assimilação e a mobilidade forçadas de crianças e famílias judias americanas – com a complacência romanesca de um imaginado Rabi Bengelsdorf, casado aliás com a tia do narrador, Mrs. Evelyn – arrasta a América para o espectro do Progrom (apesar das resistências pontuais, como a do jornalista e candidato presidencial Walter Winchell). Quando, já na parte final do romance – em Outubro de 1942 -, o presidente Lindbergh desaparece no avião que costumava pilotar sozinho, o espectro do Progrom ganha força real e apenas acaba por ser travado com a queda em desgraça do presidente interino que o sucede, Wheeler. Em Dezembro desse mesmo ano acontece Pearl Harbor e já Roosevelt, entretanto, venceu as eleições que sucedem ao período ficcionalizado por Roth. A partir daí, a história real passa a confundir-se com a que tacitamente se pressupõe até ao início do livro, em Junho de 1940.
A conspiração contra a América não é um romance linear. As sequências são narradas quase sempre por uma criança, o próprio Philip (que projecta nos pais toda a força do sentido), e envolve-se no mundo detalhado e documentadíssimo da época – nem sempre com ritmo verosimilhante, diga-se - e sobretudo nos microcosmos de Alvin e Sandy (primo e irmão do narrador), capazes, um e outro, de cruzar destinos muito diversos e opostos. Não é um romance poético, nem um texto cujo desígnio plástico se torne cativante (as pressões internas e contrárias que constróem os personagens não bastam para adensar esse aspecto). O teor clássico de Roth é ilustrado, neste seu romance, pelo domínio exímio dos materiais e também pela concatenação dos imensos factos e das muitas pequenas histórias que insuflam e animam a consistência e o interesse óbvio do argumento. Não creio que este livro constitua uma criação de excelência que transcenda a exiguidade do nosso “Parque Mayer” imaginativo, nem tão-pouco um livro que tenha deixado o tempo de leitura ao lema de mal amado. Mas ficou, sinceramente, aquém das expectativas que o tema, por si só, poderia – e pode - criar no leitor mais desprevenido. Até porque o anti-semitismo continua infelizmente na moda: 2006 é, afinal, o ano em que se comemoram cinco séculos do sempre silenciado Progrom de Lisboa. Para quando uma resposta, ou um aceno breve que seja, a uma micro-causa sobre o assunto que aqui lancei já por duas vezes?

sexta-feira, 6 de janeiro de 2006

Patriotismos

É caso para perguntar: dever-se-á apreciar mais a versão do hino norte-americano da autoria de Jimi Hendrix, ou a versão do hino português da autoria da PT?

quinta-feira, 5 de janeiro de 2006

Já era

A capacidade extraordinária de não nos encantarmos e de não nos espantarmos com a ambiguidade é um dos marcos deste início de ano. Outros preferirão falar da soberba, do vazio, ou até da rua escura e vazia onde adormece o vestígio da derradeira folhagem.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2006

As "ciladas" da história

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Não sou nenhum apaniguado pelo fundamentalismo eco-patrimonial. Por vezes, chega a atordoar-me o excesso de vazio que povoa certas apologias radicais que apenas existem porque outras causas (relativas às engenharias de salvação universal) se diluíram com o tempo. Mas, tal como escrevi noutro post mais abaixo (sobre Pina Moura), há limites para tudo.
Pois bem, a casa onde morou Garrett vai ser demolida amanhã e, para hoje à noite, está marcada - por isso mesmo - uma vigília na Rua Saraiva de Carvalho. Garrett não foi apenas um pioneiro liberal, um poeta aventuroso, um dramaturgo com densidade, um escritor romântico e um político que deixou obra. Garrett é daquelas primeiras referências do Portugal moderno e cosmopolita que deviam habitar para sempre na nossa memória. Extravasou a nossa escala, tal como Eça e Pessoa, e está muito para além daquilo que, hoje em dia, se auto-designa (amiúde de modo corporativo) por "universo da cultura".
Estou cansado de filantropias facilitistas, mas hoje vou passar pela Saraiva de Carvalho (nem que seja em espírito).
Como evocação, deixo para a posteridade blogosférica este extracto de crónica do autor, retirado do jornal O Cronista de Julho de 1827 (nº21, 22-28):
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“Rara vez na história do Universo apareceu época mais importante, fértil de mais extraordinários sucessos, pejada dos mais transcendentes resultados: nunca o olho do observador político se volveu para o passado com mais espanto, nunca repousou no presente com menos quitação, nunca se estendeu pelo futuro com tanta incerteza. O homem de Estado, suspenso entre o porvir e o pretérito, sente fugir-lhe o momento actual” (...) “O povo português, que tem a ventura, sem exemplo na história modernam de ser guiado neste grande e magnífico certame por seu grande Rei, o povo português, digno desta glória por sua docilidade e moderação, caminha lento, é certo, rodeado de embaraços, por uma estrada minada, semeada de estrepes, bordada de ciladas, mas caminha todavia apesar de tudo isso".
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(Caro Manuel Pinho: o projecto até podia manter os T4s e o T3 previstos, mas a manutenção da fachada e de alguma inscrição referencial não fazia mal a ninguém. Estranhas "ciladas" da história!)

António Gancho

Era um bom poeta e vi-o por uma só vez no local onde morou durante quase trinta e nove anos: no Telhal. Nasceu em Évora, como José de Carvalho, Palolo, Bravo ou Lapa. Uma voz lenta, murmurante, irónica e longínqua:

“Devagar se vai ao longe”

Devagar se vai ao longe
se eu fosse monge.
Mas como não sou monge
devagar não vou ao longe
só monge.Mas como eu também
devagar não quero ir ao longe
por isso também não me fiz monge.
Mas como eu também
não quero que se sonhe
que se ponha em questão
a causa da razão
deste poema devagar se vai ao longe
cujo tema é sobre um monge
então por isso neste caso
já não omisso
faço que se diga com isso
amigo ou amiga
mais vale o prejuízo.
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foto de Miguel Carvalhais
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Foi publicado pela primeira vez por Herberto Helder na conhecida antologia que organizou há duas décadas, Edoi Lelia Doura (1985). O Ar da Manhã (1995), obra matricial do poeta, reúne poemas de vários períodos desde meados dos anos sessenta.
De facto, existem memórias fixas que habitam numa espécie de abismo involuntário. António Gancho, para mim, foi sempre uma delas. Enigmaticamente.

terça-feira, 3 de janeiro de 2006

Alto do Pina

Não sou muito de nacionalismos. Mas para tudo há limites. Por isso, apenas pergunto (o início de ano aconselha o laconismo): o que está Pina Moura a fazer na Assembleia da República?

domingo, 1 de janeiro de 2006

A excelência do turismo

O que mais me impacienta no Algarve é o modo normal com que os donos de um restaurante reagem quando vendem peixe podre. Tenho dito.
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(Boas entradas!)

sexta-feira, 30 de dezembro de 2005

Desejo-vos um grande 2006!

e,
Como vou partir para outros mundos, aproveito para desejar uma boa entrada no ano que aí vem.
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Um grande 2006!
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(E... já conhecem o "VoipBuster" para desejar boas festas?)

Já saiu (INCM)

(clicar sobre a imagem para aumentar)
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"Ficará diante de nós, numa palavra, um dilema universal: partir definitivamente, ou entregarmo-nos antes ao desamparo da beleza que é, ao fim e ao cabo, a lembrança mais fecunda das nossas origens?
Ou as duas coisas, insustentadamente e ao mesmo tempo?"
e
(Só é pena que o preço do livro crie algumas vertigens)