sábado, 26 de novembro de 2005
Vem aí um novo folhetim em BD
sexta-feira, 25 de novembro de 2005
Heimat
Cruzo-me com uma fila de carros parados, enquanto subo de táxi a Conde Redondo. Uma sucessão de rostos tristes, severos, irremediavelmente imobilizados.
A generosidade das marés
Sempre que os média aproveitam o dia internacional de qualquer coisa para uma súbita inundação temática (que ficará sob silêncio o resto do ano), cria-se, quase necessariamente, uma monstruosidade.
O rosto terrível desse monstro anunciado ficará a pairar na expiação colectiva durante alguns dias e, uma semana depois, há-de diluir-se no mais sigiloso, indiferente e, às vezes, voluntário esquecimento.
Nada que admire a ingenuidade reinante. Até porque é essa a regra com que nos inventamos, ficcionalmente, no tempo: marés invisíveis, ondas perfeitas, oceanos cruéis.
Secreta defesa
Interessante, no mínimo, o modo defensivo como o governo sente necessidade de responder a um artigo de opinião (neste caso de José Pacheco Pereira - Público de ontem, sem links).
No termo do comunicado, o ministro dos negócios estrangeiros, Freitas do Amaral, remata de modo algo metafísico:
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"(...) o problema não consiste apenas - nem sequer principalmente - na oposição França/Inglaterra, nem é um problema PAC/cheque britânico. É uma questão muito mais funda, mais vasta e mais complexa. A seu tempo isso poderá ser pormenorizadamente explicado e debatido."
Folhetim
O Trevo de Abel – (último) Episódio 42
Terceira Parte: O tempo de Abel
Folhetim do Miniscente
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Terceira Parte: O tempo de Abel
Folhetim do Miniscente
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A escada rolante da estação de Baixa-Chiado é imensa, branca e bela. Sai-se à superfície como se se tivesse saído de uma visão luminosa do inferno de Dante. Segue-se a Brasileira, a estátua do poeta, o Camões em obras e depois a mais autêntica via de Lisboa, a Rua do Alecrim. Por ela, o destino da cidade se une ao Tejo, o que geralmente é coisa ofuscada, diluída, que se encontra velada pela suave roupagem das colinas da cidade. Enquanto desce a rua, Abel relembra, por secretos augúrios da memória, a cor avermelhada dos céus da noite. A aurora boreal do longínquo dia em que nasceu, como lho contara a avó Maria Alba, e os outros dois céus inauditos que o fizeram ser, por sortilégio, primeiro Caim e agora Abel.
Febril, nervoso e quase já esquecido da súbita reminiscência, Abel quedou-se subitamente imóvel, por instantes, nesse momento preciso em que acabava de descer o plano inclinado e luminoso Rua do Alecrim. E agora? Pela frente, apenas o Tejo e nada mais. Nada mais me resta. Tudo o mais é desaire e esquecimento, talvez assombro. Abel sentiu então uma desmedida vontade de juntar o seu destino às águas do Tejo e nelas desaparecer, cruzando o seu caminho com as tentações de Lisboa, de Santo António e dos seus fados de vaticínio irreal. Mas os passos venceram a contenda e Abel voltou a andar. Como um autómato, desceu a rua com leveza até quase se abeirar do Cais do Sodré. Povoado por sinais contrários, mergulhado em desejo e terror, Abel tanto se sentia acossado como herói. Por segundos, voltou a encarar o panorama, os vultos a silhueta de bronze do Duque da Terceira e, para além do rico empedrado da praça, o próprio rio, as suas margens, a maresia, a incerta névoa fluvial.
Abel terá percebido nesses segundos o que o poeta quereria dizer, ao contemplar dali, sem passado nem futuro, toda esta urbe esfumada num autêntico desejo absurdo de sofrer. Confrontado com tais sombras e bulícios interiores, Abel contornou os quiosques dos jornais, passou pela agência de viagens, atravessou a avenida e acercou-se da estação. Que fazer? Abel encolheu os ombros e, sem medir rumo e leme, acabou por se sentar na última das esplanadas ribeirinhas onde o destino, sempre ínvio, ainda permite que se visione o que resta da antiga e nostálgica Doca de Abrigo.
Daqui já partiram os vapores ditos lisbonenses e, na minúscula doca, recolhiam-se, em tempos que já lá vão, embarcações de pesca de mastro branco e altíssimo, ateadas por cordas, correntes de metal e deslumbradas memórias. De todo esse espectáculo, Abel apenas descortinou, ao longe, sobre o pontão, um par de namorados que continua a abraçar-se sob a ligeira neblina que envolve, ao longe, a Lisnave, os braços dos guindastes, o arcaboiço metálico e escuro das ancestrais naves de sonho. Depois, chegou a imperial bem tirada e, ao mesmo tempo, aportava na gare marítima um cacilheiro carregado de pneus cor-de-laranja que mais pareciam globos armilares do antigo império. E foi nesse momento, após um último olhar para a outra margem, que Abel sentiu uma desmesurada necessidade de falar, de contar, de se expor fosse a quem fosse.
Na mesa ao lado, estava já sentado o desconhecido senhor Zorba, entretido que estava com o seu silêncio e com a textura negra da Guiness. A conversa iniciar-se-ia pouco depois e foi então que Abel sentenciou a sua primeira frase. A tal frase. Disse Abel: “Não tenha medo, mas o que está à sua frente é um homem que já viveu várias vidas e que agora se transforma em luz”. Zorba intrigou-se, mas ouviu; percorreu com Abel o percurso da 24 de Julho até às Janelas Verdes. Aí apareceu Isabel, depois a Júlia e a Dona Joana já em Santos-o-Velho. O resto é conhecido, pois o grupo foi-se alargando e, com ele, a própria história; surgiu o senhor Gouveia na D. Carlos e, perto da Rua Nova de S. Bento, todos os restantes: o senhor deputado, o senhor professor de comunicação - o mais sisudo e calado - Lopamudra de Vidarbha, Chico e Sara de Belém e o sr. Brihadratha. O sapateiro Palmeirim, como todos se lembram, só se juntaria ao grupo na Rua da Boavista, perto do Conde Barão.
- E agora aqui estamos, já o sol nasceu e a noite passou. Desde o meio da tarde de ontem que venho contando toda esta longa história, e confesso que me sinto agora mais aliviado, menos misterioso. Ainda ontem, a esta hora, estava a entrar no fatídico duche e cantava, cantava, miraculosamente cantava. Era como se a voz de Adão me tivesse de novo visitado. Eis-me, portanto, aqui, entregue a vós, sem mais nada para dizer. Eu que sou Adão, Caim e Abel, ao mesmo tempo. E agora? Gritou Isabel, gritou Zorba, gritou Lopamudra de Vidarbha. Não tenham medo, o que está à vossa frente é um homem que se transforma em luz. A frase, a tal frase. E o senhor Gouveia apontou com fúria para baixo e disse: Venham, venham por aqui, vamos para os baixos do Jardim de S. Pedro de Alcântara; lá... sempre estamos mais recatados, escondidos. E depois... logo se vê, haveremos de decidir o que fazer. E o grupo desceu pela Rua de S. Pedro, entrou no jardim e aí viu nascer a manhã.
E o sol levantou-se dos lados do Castelo, da Graça, de S. José e nós os treze, entre canteiros, passeando pelos bustos de Ulisses, Vénus e Minerva, evocando a idade de ouro, a bonança do vazio e a terrível aflição do momento. Até que, por volta das onze da manhã apareceram helicópteros, viaturas, buzinas, sirenes, comandos; o cerco era total. Em cima, o jardim foi praticamente fechado e Abel, diante de tal aparato, recuou até ao tronco do imenso limoeiro, sobre o abismo, encostado a nada, ao fim. Os doze ficaram um pouco mais atrás, encostados à cerca de metal, aflitos, brancos de rosto, impávidos, esperando a voz, o alento, o sinal decisivo de Abel. E o nosso homem gritou, gritou, gritou muito alto para que o ouvissem - Tenho uma granada comigo e estas doze pessoas são minhas reféns. Tudo o que quero é... esperar aqui neste sítio, até ao pôr-do-sol. Depois disso entrego-me, desde que me deixem contar tudo o que tenho a dizer. - Ao crepúsculo? Mas o homem está maluco. O que vamos fazer, comissário? Tenham calma, não vêem que ele tem reféns e está armado? Nada de avançar, para já, com os comandos. Vamos esperar até ao pôr-do-sol, vigilantes, até porque esta espera pode não agoirar nada de bom. À volta, por toda a Lisboa, uma multidão imensa rodeou o local e ouve quem gritasse em coro: canta, canta, canta Adão! Mas o silêncio de Abel manteve-se. Perdurou.
Passaram algumas horas e os doze mantinham-se aquietos, hirtos, dominados por uma qualquer grandeza sem nome. Por cima, as hostes amotinavam-se, iam-se agitando a pouco e pouco e, apoiados às grades, Luísa, Leonor, Arlete, Dona Olga, o médico, Porfírio, algumas russas de Porto Brandão e gente e mais gente sem fim contradiziam-se nas implorações, impropérios e lisonjas. Um caudal de gritos, alaridos, brados e ecos ressoando entre as fileiras da polícia e o cheiro a limão que envolvia a aparente calma de Abel. Nos telhados e sótãos dos prédios vizinhos, sobre estruturas improvisadas, as televisões transmitiam já em directo todo o folclore, a espera, o semblante enigmático e longínquo de Abel. A tarde ia caindo, lenta, preguiçosa e, com ela, aumentava a expectativa, o temor, o tremor, a grande questão afinal: porquê o crepúsculo? Perto do pôr-do-sol, o comissário falou com o ministro e tudo foi decidido acerca da manobra. Os comandos avançariam por baixo e igualmente pelo ar, de helicóptero, tentando assim salvar os reféns e, ao mesmo tempo, não dando oportunidade a Abel para deflagrar a granada ou qualquer outro explosivo. A multidão estava ao rubro, a excitação polvilhara a capital, o jardim começava a escurecer.
E foi quando Abel ouviu ao longe o ruído dos helicópteros e o vasculhar das sebes no acesso ao jardim que, sem mais, correu subitamente para o meio dos doze e disse: abram um círculo à minha volta, protejam-me. A cidade estava em suspenso, parecia calada; as sombras dos helicópteros a percorrerem telhados, uivos de cão ao longe; as cordas lançadas às grades, os comandos escalando por baixo do Jardim de S. Pedro de Alcântara. Quase ao mesmo tempo, a polícia de choque interveio à bastonada para evitar a histeria colectiva que se formara. Um atrito, uma espessa nuvem de gestos, sonidos de violoncelo, corpos por terra, uivos de cão ao longe e Abel entre os doze, de braços abertos, rindo muito alto, unindo os pés e lembrando-se como nunca de Alonso, o pirotécnico, o nómada fogueteiro de Trujillo.
De repente, mal caiu o sol, Abel ficou com a pele toda macerada, em tons lilases, depois parecia vermelha, mais do que corada, quase em fogo. Passados alguns segundos, já os comandos saltavam as grades e os helicópteros apareciam sobre a Rua de S. Pedro, de súbito, sem que nada o fizesse esperar, Abel ficou incandescente como uma pira de lenho a arder e o seu corpo, agora longilíneo, afunilava-se como se o tronco, os membros e a cabeça se tornassem, de repente, numa vara muito alta em cor e em forma de fogo. E mais se parecendo com um gigante fio-de-prumo de brasas virado para as nuvens, Abel subiu pelos céus de Lisboa como se fosse o pau, o simples pau de um magnífico foguete e, ao atingir a calote ainda azulada da esfera pelos últimos raios de sol; ao atingir a curvatura celeste reflectida nas águas avermelhadas do grande Tejo; ao atingir de par a par o arco perfeito da atmosfera das Tágides, este foguete que fora Adão, Caim e Abel transformou-se num colossal fogo de artifício que fez regressar Lisboa à lembrança da sua última aurora boreal. E Zorba, espantado, quase destruído, sentiu uma estranha irritação nesse seu sinal paterno em forma de serpente com duas cabeças. O pasmo era total e, por cima, expandia-se o clamor, a beleza da frágua vermelha; seguiram-se explosões e mais explosões na indolência dos ares, dos eflúvios de lume, luz e brilho que se expandiam em forma de trevo de três fogos. Foi assim durante mais de meia hora.
Foi assim, em Lisboa, num dia de fortunas e luminárias.
Febril, nervoso e quase já esquecido da súbita reminiscência, Abel quedou-se subitamente imóvel, por instantes, nesse momento preciso em que acabava de descer o plano inclinado e luminoso Rua do Alecrim. E agora? Pela frente, apenas o Tejo e nada mais. Nada mais me resta. Tudo o mais é desaire e esquecimento, talvez assombro. Abel sentiu então uma desmedida vontade de juntar o seu destino às águas do Tejo e nelas desaparecer, cruzando o seu caminho com as tentações de Lisboa, de Santo António e dos seus fados de vaticínio irreal. Mas os passos venceram a contenda e Abel voltou a andar. Como um autómato, desceu a rua com leveza até quase se abeirar do Cais do Sodré. Povoado por sinais contrários, mergulhado em desejo e terror, Abel tanto se sentia acossado como herói. Por segundos, voltou a encarar o panorama, os vultos a silhueta de bronze do Duque da Terceira e, para além do rico empedrado da praça, o próprio rio, as suas margens, a maresia, a incerta névoa fluvial.
Abel terá percebido nesses segundos o que o poeta quereria dizer, ao contemplar dali, sem passado nem futuro, toda esta urbe esfumada num autêntico desejo absurdo de sofrer. Confrontado com tais sombras e bulícios interiores, Abel contornou os quiosques dos jornais, passou pela agência de viagens, atravessou a avenida e acercou-se da estação. Que fazer? Abel encolheu os ombros e, sem medir rumo e leme, acabou por se sentar na última das esplanadas ribeirinhas onde o destino, sempre ínvio, ainda permite que se visione o que resta da antiga e nostálgica Doca de Abrigo.
Daqui já partiram os vapores ditos lisbonenses e, na minúscula doca, recolhiam-se, em tempos que já lá vão, embarcações de pesca de mastro branco e altíssimo, ateadas por cordas, correntes de metal e deslumbradas memórias. De todo esse espectáculo, Abel apenas descortinou, ao longe, sobre o pontão, um par de namorados que continua a abraçar-se sob a ligeira neblina que envolve, ao longe, a Lisnave, os braços dos guindastes, o arcaboiço metálico e escuro das ancestrais naves de sonho. Depois, chegou a imperial bem tirada e, ao mesmo tempo, aportava na gare marítima um cacilheiro carregado de pneus cor-de-laranja que mais pareciam globos armilares do antigo império. E foi nesse momento, após um último olhar para a outra margem, que Abel sentiu uma desmesurada necessidade de falar, de contar, de se expor fosse a quem fosse.
Na mesa ao lado, estava já sentado o desconhecido senhor Zorba, entretido que estava com o seu silêncio e com a textura negra da Guiness. A conversa iniciar-se-ia pouco depois e foi então que Abel sentenciou a sua primeira frase. A tal frase. Disse Abel: “Não tenha medo, mas o que está à sua frente é um homem que já viveu várias vidas e que agora se transforma em luz”. Zorba intrigou-se, mas ouviu; percorreu com Abel o percurso da 24 de Julho até às Janelas Verdes. Aí apareceu Isabel, depois a Júlia e a Dona Joana já em Santos-o-Velho. O resto é conhecido, pois o grupo foi-se alargando e, com ele, a própria história; surgiu o senhor Gouveia na D. Carlos e, perto da Rua Nova de S. Bento, todos os restantes: o senhor deputado, o senhor professor de comunicação - o mais sisudo e calado - Lopamudra de Vidarbha, Chico e Sara de Belém e o sr. Brihadratha. O sapateiro Palmeirim, como todos se lembram, só se juntaria ao grupo na Rua da Boavista, perto do Conde Barão.
- E agora aqui estamos, já o sol nasceu e a noite passou. Desde o meio da tarde de ontem que venho contando toda esta longa história, e confesso que me sinto agora mais aliviado, menos misterioso. Ainda ontem, a esta hora, estava a entrar no fatídico duche e cantava, cantava, miraculosamente cantava. Era como se a voz de Adão me tivesse de novo visitado. Eis-me, portanto, aqui, entregue a vós, sem mais nada para dizer. Eu que sou Adão, Caim e Abel, ao mesmo tempo. E agora? Gritou Isabel, gritou Zorba, gritou Lopamudra de Vidarbha. Não tenham medo, o que está à vossa frente é um homem que se transforma em luz. A frase, a tal frase. E o senhor Gouveia apontou com fúria para baixo e disse: Venham, venham por aqui, vamos para os baixos do Jardim de S. Pedro de Alcântara; lá... sempre estamos mais recatados, escondidos. E depois... logo se vê, haveremos de decidir o que fazer. E o grupo desceu pela Rua de S. Pedro, entrou no jardim e aí viu nascer a manhã.
E o sol levantou-se dos lados do Castelo, da Graça, de S. José e nós os treze, entre canteiros, passeando pelos bustos de Ulisses, Vénus e Minerva, evocando a idade de ouro, a bonança do vazio e a terrível aflição do momento. Até que, por volta das onze da manhã apareceram helicópteros, viaturas, buzinas, sirenes, comandos; o cerco era total. Em cima, o jardim foi praticamente fechado e Abel, diante de tal aparato, recuou até ao tronco do imenso limoeiro, sobre o abismo, encostado a nada, ao fim. Os doze ficaram um pouco mais atrás, encostados à cerca de metal, aflitos, brancos de rosto, impávidos, esperando a voz, o alento, o sinal decisivo de Abel. E o nosso homem gritou, gritou, gritou muito alto para que o ouvissem - Tenho uma granada comigo e estas doze pessoas são minhas reféns. Tudo o que quero é... esperar aqui neste sítio, até ao pôr-do-sol. Depois disso entrego-me, desde que me deixem contar tudo o que tenho a dizer. - Ao crepúsculo? Mas o homem está maluco. O que vamos fazer, comissário? Tenham calma, não vêem que ele tem reféns e está armado? Nada de avançar, para já, com os comandos. Vamos esperar até ao pôr-do-sol, vigilantes, até porque esta espera pode não agoirar nada de bom. À volta, por toda a Lisboa, uma multidão imensa rodeou o local e ouve quem gritasse em coro: canta, canta, canta Adão! Mas o silêncio de Abel manteve-se. Perdurou.
Passaram algumas horas e os doze mantinham-se aquietos, hirtos, dominados por uma qualquer grandeza sem nome. Por cima, as hostes amotinavam-se, iam-se agitando a pouco e pouco e, apoiados às grades, Luísa, Leonor, Arlete, Dona Olga, o médico, Porfírio, algumas russas de Porto Brandão e gente e mais gente sem fim contradiziam-se nas implorações, impropérios e lisonjas. Um caudal de gritos, alaridos, brados e ecos ressoando entre as fileiras da polícia e o cheiro a limão que envolvia a aparente calma de Abel. Nos telhados e sótãos dos prédios vizinhos, sobre estruturas improvisadas, as televisões transmitiam já em directo todo o folclore, a espera, o semblante enigmático e longínquo de Abel. A tarde ia caindo, lenta, preguiçosa e, com ela, aumentava a expectativa, o temor, o tremor, a grande questão afinal: porquê o crepúsculo? Perto do pôr-do-sol, o comissário falou com o ministro e tudo foi decidido acerca da manobra. Os comandos avançariam por baixo e igualmente pelo ar, de helicóptero, tentando assim salvar os reféns e, ao mesmo tempo, não dando oportunidade a Abel para deflagrar a granada ou qualquer outro explosivo. A multidão estava ao rubro, a excitação polvilhara a capital, o jardim começava a escurecer.
E foi quando Abel ouviu ao longe o ruído dos helicópteros e o vasculhar das sebes no acesso ao jardim que, sem mais, correu subitamente para o meio dos doze e disse: abram um círculo à minha volta, protejam-me. A cidade estava em suspenso, parecia calada; as sombras dos helicópteros a percorrerem telhados, uivos de cão ao longe; as cordas lançadas às grades, os comandos escalando por baixo do Jardim de S. Pedro de Alcântara. Quase ao mesmo tempo, a polícia de choque interveio à bastonada para evitar a histeria colectiva que se formara. Um atrito, uma espessa nuvem de gestos, sonidos de violoncelo, corpos por terra, uivos de cão ao longe e Abel entre os doze, de braços abertos, rindo muito alto, unindo os pés e lembrando-se como nunca de Alonso, o pirotécnico, o nómada fogueteiro de Trujillo.
De repente, mal caiu o sol, Abel ficou com a pele toda macerada, em tons lilases, depois parecia vermelha, mais do que corada, quase em fogo. Passados alguns segundos, já os comandos saltavam as grades e os helicópteros apareciam sobre a Rua de S. Pedro, de súbito, sem que nada o fizesse esperar, Abel ficou incandescente como uma pira de lenho a arder e o seu corpo, agora longilíneo, afunilava-se como se o tronco, os membros e a cabeça se tornassem, de repente, numa vara muito alta em cor e em forma de fogo. E mais se parecendo com um gigante fio-de-prumo de brasas virado para as nuvens, Abel subiu pelos céus de Lisboa como se fosse o pau, o simples pau de um magnífico foguete e, ao atingir a calote ainda azulada da esfera pelos últimos raios de sol; ao atingir a curvatura celeste reflectida nas águas avermelhadas do grande Tejo; ao atingir de par a par o arco perfeito da atmosfera das Tágides, este foguete que fora Adão, Caim e Abel transformou-se num colossal fogo de artifício que fez regressar Lisboa à lembrança da sua última aurora boreal. E Zorba, espantado, quase destruído, sentiu uma estranha irritação nesse seu sinal paterno em forma de serpente com duas cabeças. O pasmo era total e, por cima, expandia-se o clamor, a beleza da frágua vermelha; seguiram-se explosões e mais explosões na indolência dos ares, dos eflúvios de lume, luz e brilho que se expandiam em forma de trevo de três fogos. Foi assim durante mais de meia hora.
Foi assim, em Lisboa, num dia de fortunas e luminárias.
quinta-feira, 24 de novembro de 2005
Da nossa poesia mais actual
A poesia portuguesa dos últimos anos, em vez de exceder-se para tentar referenciar o mundo (ao constituir-se como diamante das 'grandes narrativas' tradicionais), passou antes a tentar encontrar formas de sentido mínimas: estilhaços recortados do dia a dia com um realismo próprio dos primeiros tempos do cinematógrafo, onde o fundamental foi, ao mesmo tempo, perceber e fazer agigantar os actos minúsculos do quotidiano que subitamente se libertavam da hipecodificação secular do olhar. Essa épica original do cinematógrafo corresponde, nos nossos dias (e no caso da poesia), a um perfil quase subterrâneo, fugaz e apenas iluminado pelo sigilo. Um recato que passa despercebido no fluxo ininterrupto de imagens globais, mas que, às vezes, o sinaliza de modo abismado e mesmo grandioso.
Folhetim

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Termina amanhã a publicação do folhetim O Trevo de Abel, baseado no meu romance homónimo de 2001.
Folhetim
O Trevo de Abel - Episódio 41
Terceira Parte: O tempo de Abel
Folhetim do Miniscente
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Terceira Parte: O tempo de Abel
Folhetim do Miniscente
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Passei uma noite péssima. Leonor, felizmente, decidiu tomar comprimidos para dormir e não deu por nada. De manhã, levantei-me mais tarde do que o normal e fui lentamente, a sós, para o duche como que a imaginar saídas possíveis para isto tudo. Só me vinha à ideia o mordomo catalão, uma qualquer fuga aparatosa e sempre, sempre... o diabo do Porfírio. O cerco à minha volta apertava-se. Pensei em fazer a mala, telefonar para Barcelona, desaparecer.
Subitamente, sem razão nenhuma para tal, enchi o peito e vi-me a cantar muito alto, sob os auspícios da água quente do duche: “Leonor Luísa Amor/ Pelo vosso coração/ Canta a minha dor/As rosas desta visão”. Maravilha! Quase rejubilei. Vinda do nada, talvez do gravitas da alma, era outra vez a voz de Adão, potente e bela, ressurgida como que por milagre. Que maravilha! Era como se as cordas vocais tivessem sabiamente regressado ao seu paraíso primeiro e inicial. E... porquê agora?
Entretanto, no rés-do-chão, Leonor abriu lentamente a porta e subiu alguns degraus. Não foi preciso mais para ficar apavorada diante daquela voz televisiva, clara e nítida, que conhecia como ninguém. Parou ainda no cimo das escadas e, já trémula de palavra e espírito, ainda teve forças para gritar - Abel, estás em casa? Sem resposta, Leonor desceu a escadaria rapidamente, em pânico, veloz, com a boca presa, os olhos muito abertos, a respiração quase em suspenso, parada, irada. Abel, nu em flor, apercebendo-se do tremendo descuido, do repentino dom, do indomável susto, desceu até ao hall do primeiro andar e ainda gritou - Querida, estou aqui, o que é, o que se passa? Nessa altura, já Leonor tinha batido com a porta e fugido, fugido.
Sem tempo sequer para pensar, vesti-me num ápice e - continua Abel - segui pela esquina de cima. Passei pelo ‘Ano Zero’, a loja de cerâmica da vizinhança, e meti-me depois no táxi, uns metros mais à frente. Contei o dinheiro, acelerei, evitei a praça e, em poucos minutos, dei comigo em plena estrada de Pero Pinheiro. Atravessei então bermas de eucaliptos, nuvens baixas e carregadas e soube, por fim, que era este o termo da minha fase de Belas. Agora, já não podia voltar para trás. Depois do cantor, o chulo e agora o pacóvio, o pateta alegre! Ri-me de tanto fantasma, de tanta história insuportável, de mim mesmo, juro. Acelerei e voltei a cantar muito alto, alto, alto... e senti, a dada altura, que estava a ensandecer ou a tresloucar-me. Segui pela CREL, cigarro atrás de cigarro, lento, concentrado. Até que decidi o que fazer. Eureca.
Leonor correu até à praça, entrou no Centro de saúde e pediu para falar com o médico. O médico? Mas... o senhor doutor agora está muito ocupado, é quase hora de almoço, é uma hora muito má! Por favor, diga-lhe que é a Leonor, é muito urgente. É coisa de vida ou de morte, a sério... é isso mesmo, de vida ou morte. O médico entretanto apareceu com a bata branca a envolver-lhe o espanto, a ousadia do momento, a dúvida. Mas o que é que se passa, Leonor? Senhor doutor, ontem o senhor, afinal, tinha toda a razão. O morto-vivo está mesmo na minha casa! Ouvi-o a cantar muito alto e garanto que era ele, sem engano, sem hipótese alguma de me enganar. É que eu segui, durante anos e anos, o programa dele e conheço-lhe a voz, juro sr. Doutor, conheço-lhe a voz como conheço as minhas mãos. Mas não é apenas isso. É também o corpo... primeiro era aquela articulação do cotovelo, o osso, a forma do braço, depois as coxas ao andar, o pescoço, mas não só. Sabe, é que ele, já lho tinha dito uma vez, foi meu namorado, há muitos, muitos anos! Leonor fala, balbucia, hesita, parece tremer. Veja lá Leonor, está tão nervosa! Mas há mais, repare sr. Doutor, aquelas costuras atrás das orelhas devem ter sido plásticas que ele fez... para ocultar a identidade ou coisa do género e nunca por causa de qualquer acidente que tenha sofrido. Sempre desconfiei disso porque, pelo menos umas duas vezes, ele me trocou as estradas e até os sítios onde tudo se terá passado. Ó sr. Doutor, desculpe-me, deixe-me falar, eu sei que não estou nada bem, mas há uma última coisa que quero dizer. Aquele nome não existe no Arquivo, ou antes, deverá corresponder a alguém que já… morreu. Em vez de ir à escola, hoje de manhã, fui aos Arquivos Centrais e confirmei isso. É verdade, sr. Doutor, tem toda a razão, eu devia ter desafiado o homem cara à cara... mas reconheço que fiquei apavorada, tive medo; não estava à espera de ouvir aquela voz de defunto a cantar. Parecia uma coincidência do diabo, vou ao arquivo, falto à escola e reencontro um morto! Foi demais para mim e foi por isso que tive que vir até aqui a correr, desculpe sr. Doutor...
O médico agarrou então no pulso de Leonor e disse com voz muito decidida - Venha, vamos daí, vamos lá à sua casa, depressa. Subiram os dois pela Cândido Reis, entraram no hall, depois na cozinha; examinaram a sala, os quartos, passaram pelas águas-furtadas e ninguém, nada, vazio total. No entanto, o ar de casa subitamente abandonada falava por si: marcas de duche deixado a meio, roupa no chão, flocos e notas espalhados na bancada da cozinha, o armário aberto com peças de roupa a menos. Não mexa, não mexa em nada, vê-se mesmo que o tipo fugiu a correr; aqui há realmente marosca e da grossa! Dê cá o telefone, dê cá. Eu falo, eu falo, esteja quieta e tome mas é este comprimido, vá lá. Está? Está? É da polícia? olhe, venha num instante à Cândido dos Reis, 68, sim, sim, aqui em Belas. É melhor virem com toda a velocidade, porque a história parece apontar para coisa perigosa. Muito obrigado, até já. Em pouco tempo, duas viaturas da PSP estacionaram em frente à casa cor de cereja e, na hora que se seguiu, Leonor depôs o que pôde, o que sabia e do que, já há algum tempo, desconfiava.
Minutos depois, Dona Olga, espreitando de frente e no fundo dos olhos do médico, desabafava: Mas isto... é o verdadeiro diabo entre nós! Punha e voltava a pôr as mãos à volta da cabeça, suava e repetia, repetia - O perigo que a nossa Leonorzinha deve ter passado! - É verdade, é verdade. Seja como for, ela está agora ali na Casa de saúde a compor-se com uns calmantes e eu vou lá passar outra vez daqui a um bocado. Aproveitei para vir aqui à esplanada, porque vi, através dos vidros, que estava sozinha... posso tratá-la por tu? Só entre nós, claro. Claro. Então, diz-me... a tua mulher continua com as febres? E o médico, mexendo o café, abrindo os dedos cheios de alianças, a sorrir com ar adolescente e malandro, circunspecto... a fazer-se à resposta com alguma avidez demorada, lenta - Está mas é com febres de malta! Não, era tudo treta minha. Sabe, fiz com que ela, ontem, não saísse de casa; há lá umas pinturas a fazer e isso dava-me mais tempo para ir buscar uma ou outra tangerinazinha ao seu quintal, já está a perceber? - Seu madraço, seu brejeiro, como te atreves! Vou-me já calar, Olga, porque estou a ver a tua irmã do outro lado da Praça. - Pois é, e vem para cá, já deve ter sabido tudo acerca da Leonorzinha. - Mas antes de me calar, queria dizer-te ainda isto: eu agora não quero outra coisa senão os gomos sumarentos das tangerinas, entendes? E Olga, efusiva, exultante, a ranger entre dentes - Seu madraço, seu castigador, se não fosse ali a minha mana, dava-te com a mala nesse sítio. Quem te vê e quem te viu! Cuidado, olha que em Belas sabe-se tudo, tudo, e onde é que andará aquele bandido do Abel?
O que ouvi no noticiário a meio da tarde fez-me, de imediato, abandonar o carro numa colina isolada a norte de Alverca. De seguida, contornei a colina, segui a pé pela parte debaixo da auto-estrada a rebentar de trânsito e, depois, sem qualquer norte, sem direcção ou rumo, corri entre estradas velhas, atalhos, barracas, prédios de quinze andares no meio da lama; acampamentos de ciganos, quiosques, armazéns clandestinos, gráficas; oficinas de recauchutagem de pneus, casas saloias, tascas cheias de ferroviários, viadutos e alguns passeios esventrados. Na feira do relógio, comprei um casaco e novos óculos escuros. Deambulei pela Avenida do Brasil, pelos lagos do Campo Grande e só me vinha à mente os olhos de Sara, os gestos de Leonor; Luísa a saltar as grandes ondas de Porto Covo. Advinham-me imagens coloridas das ruas de Banguecoque, da tromba de água do Índico, das casas brancas de Djibouti; via diante de mim as meninas de Porto Brandão, os aplausos sem fim do ‘Tostões e Biliões’, a minha desconhecida filha, ou os olhos ávidos da Dona Olga; revia o Porfírio gigante e cheio de tatuagens, o Maremagnum catalão, o mordomo; enfim, tudo aquilo era eu, perdido de sentidos, na Estrela ou no Jardim do Paço do Lumiar a contemplar um céu avermelhado e sem qualquer explicação. Senti-me tonto, fraco, frágil e sem forças. Sentei-me num dos bancos de jardim do Campo Grande e pensei - Já chega! Já chega. Chega de fugas, de fingimentos, de duplos. Chega de desventuras. Serei assim tão anormal? Não será possível contar toda esta minha história a alguém e ser ouvido? Poderei alguma vez vir a ser perdoado? Mas perdoado pelo quê?
A todo o momento, a polícia pode cercar-me, levar-me, ou interrogar-me. Antes isso. Estou aqui no Campo Grande, a sós, livre de querer e de ser, mas, seja como for, à vossa disposição, de todos. Pensei. E pela cabeça passava-me tudo, tudo: era o funeral da Estrela, os cartazes ostentando o meu rosto de Adão hilariante, o antigo fadista dos seguros, a Arlete a dançar à noite nos jardins de Belém; as belas putas do Pireu, o aeroporto de Dubai, as águas-furtadas de Barcelona e Sara e eu num sonho de Verão, em Cascais. Foi então que, sem medo de nada, de rigorosamente nada, me meti no metro. Fosse o que fosse. Circulei, estação após estação, até ao Marquês de Pombal e daí até à Baixa-Chiado. Talvez a secreta notoriedade do nome do Chiado, boémio de gema, homem de perdição, me tivesse atraído. Mas a quê?
Subitamente, sem razão nenhuma para tal, enchi o peito e vi-me a cantar muito alto, sob os auspícios da água quente do duche: “Leonor Luísa Amor/ Pelo vosso coração/ Canta a minha dor/As rosas desta visão”. Maravilha! Quase rejubilei. Vinda do nada, talvez do gravitas da alma, era outra vez a voz de Adão, potente e bela, ressurgida como que por milagre. Que maravilha! Era como se as cordas vocais tivessem sabiamente regressado ao seu paraíso primeiro e inicial. E... porquê agora?
Entretanto, no rés-do-chão, Leonor abriu lentamente a porta e subiu alguns degraus. Não foi preciso mais para ficar apavorada diante daquela voz televisiva, clara e nítida, que conhecia como ninguém. Parou ainda no cimo das escadas e, já trémula de palavra e espírito, ainda teve forças para gritar - Abel, estás em casa? Sem resposta, Leonor desceu a escadaria rapidamente, em pânico, veloz, com a boca presa, os olhos muito abertos, a respiração quase em suspenso, parada, irada. Abel, nu em flor, apercebendo-se do tremendo descuido, do repentino dom, do indomável susto, desceu até ao hall do primeiro andar e ainda gritou - Querida, estou aqui, o que é, o que se passa? Nessa altura, já Leonor tinha batido com a porta e fugido, fugido.
Sem tempo sequer para pensar, vesti-me num ápice e - continua Abel - segui pela esquina de cima. Passei pelo ‘Ano Zero’, a loja de cerâmica da vizinhança, e meti-me depois no táxi, uns metros mais à frente. Contei o dinheiro, acelerei, evitei a praça e, em poucos minutos, dei comigo em plena estrada de Pero Pinheiro. Atravessei então bermas de eucaliptos, nuvens baixas e carregadas e soube, por fim, que era este o termo da minha fase de Belas. Agora, já não podia voltar para trás. Depois do cantor, o chulo e agora o pacóvio, o pateta alegre! Ri-me de tanto fantasma, de tanta história insuportável, de mim mesmo, juro. Acelerei e voltei a cantar muito alto, alto, alto... e senti, a dada altura, que estava a ensandecer ou a tresloucar-me. Segui pela CREL, cigarro atrás de cigarro, lento, concentrado. Até que decidi o que fazer. Eureca.
Leonor correu até à praça, entrou no Centro de saúde e pediu para falar com o médico. O médico? Mas... o senhor doutor agora está muito ocupado, é quase hora de almoço, é uma hora muito má! Por favor, diga-lhe que é a Leonor, é muito urgente. É coisa de vida ou de morte, a sério... é isso mesmo, de vida ou morte. O médico entretanto apareceu com a bata branca a envolver-lhe o espanto, a ousadia do momento, a dúvida. Mas o que é que se passa, Leonor? Senhor doutor, ontem o senhor, afinal, tinha toda a razão. O morto-vivo está mesmo na minha casa! Ouvi-o a cantar muito alto e garanto que era ele, sem engano, sem hipótese alguma de me enganar. É que eu segui, durante anos e anos, o programa dele e conheço-lhe a voz, juro sr. Doutor, conheço-lhe a voz como conheço as minhas mãos. Mas não é apenas isso. É também o corpo... primeiro era aquela articulação do cotovelo, o osso, a forma do braço, depois as coxas ao andar, o pescoço, mas não só. Sabe, é que ele, já lho tinha dito uma vez, foi meu namorado, há muitos, muitos anos! Leonor fala, balbucia, hesita, parece tremer. Veja lá Leonor, está tão nervosa! Mas há mais, repare sr. Doutor, aquelas costuras atrás das orelhas devem ter sido plásticas que ele fez... para ocultar a identidade ou coisa do género e nunca por causa de qualquer acidente que tenha sofrido. Sempre desconfiei disso porque, pelo menos umas duas vezes, ele me trocou as estradas e até os sítios onde tudo se terá passado. Ó sr. Doutor, desculpe-me, deixe-me falar, eu sei que não estou nada bem, mas há uma última coisa que quero dizer. Aquele nome não existe no Arquivo, ou antes, deverá corresponder a alguém que já… morreu. Em vez de ir à escola, hoje de manhã, fui aos Arquivos Centrais e confirmei isso. É verdade, sr. Doutor, tem toda a razão, eu devia ter desafiado o homem cara à cara... mas reconheço que fiquei apavorada, tive medo; não estava à espera de ouvir aquela voz de defunto a cantar. Parecia uma coincidência do diabo, vou ao arquivo, falto à escola e reencontro um morto! Foi demais para mim e foi por isso que tive que vir até aqui a correr, desculpe sr. Doutor...
O médico agarrou então no pulso de Leonor e disse com voz muito decidida - Venha, vamos daí, vamos lá à sua casa, depressa. Subiram os dois pela Cândido Reis, entraram no hall, depois na cozinha; examinaram a sala, os quartos, passaram pelas águas-furtadas e ninguém, nada, vazio total. No entanto, o ar de casa subitamente abandonada falava por si: marcas de duche deixado a meio, roupa no chão, flocos e notas espalhados na bancada da cozinha, o armário aberto com peças de roupa a menos. Não mexa, não mexa em nada, vê-se mesmo que o tipo fugiu a correr; aqui há realmente marosca e da grossa! Dê cá o telefone, dê cá. Eu falo, eu falo, esteja quieta e tome mas é este comprimido, vá lá. Está? Está? É da polícia? olhe, venha num instante à Cândido dos Reis, 68, sim, sim, aqui em Belas. É melhor virem com toda a velocidade, porque a história parece apontar para coisa perigosa. Muito obrigado, até já. Em pouco tempo, duas viaturas da PSP estacionaram em frente à casa cor de cereja e, na hora que se seguiu, Leonor depôs o que pôde, o que sabia e do que, já há algum tempo, desconfiava.
Minutos depois, Dona Olga, espreitando de frente e no fundo dos olhos do médico, desabafava: Mas isto... é o verdadeiro diabo entre nós! Punha e voltava a pôr as mãos à volta da cabeça, suava e repetia, repetia - O perigo que a nossa Leonorzinha deve ter passado! - É verdade, é verdade. Seja como for, ela está agora ali na Casa de saúde a compor-se com uns calmantes e eu vou lá passar outra vez daqui a um bocado. Aproveitei para vir aqui à esplanada, porque vi, através dos vidros, que estava sozinha... posso tratá-la por tu? Só entre nós, claro. Claro. Então, diz-me... a tua mulher continua com as febres? E o médico, mexendo o café, abrindo os dedos cheios de alianças, a sorrir com ar adolescente e malandro, circunspecto... a fazer-se à resposta com alguma avidez demorada, lenta - Está mas é com febres de malta! Não, era tudo treta minha. Sabe, fiz com que ela, ontem, não saísse de casa; há lá umas pinturas a fazer e isso dava-me mais tempo para ir buscar uma ou outra tangerinazinha ao seu quintal, já está a perceber? - Seu madraço, seu brejeiro, como te atreves! Vou-me já calar, Olga, porque estou a ver a tua irmã do outro lado da Praça. - Pois é, e vem para cá, já deve ter sabido tudo acerca da Leonorzinha. - Mas antes de me calar, queria dizer-te ainda isto: eu agora não quero outra coisa senão os gomos sumarentos das tangerinas, entendes? E Olga, efusiva, exultante, a ranger entre dentes - Seu madraço, seu castigador, se não fosse ali a minha mana, dava-te com a mala nesse sítio. Quem te vê e quem te viu! Cuidado, olha que em Belas sabe-se tudo, tudo, e onde é que andará aquele bandido do Abel?
O que ouvi no noticiário a meio da tarde fez-me, de imediato, abandonar o carro numa colina isolada a norte de Alverca. De seguida, contornei a colina, segui a pé pela parte debaixo da auto-estrada a rebentar de trânsito e, depois, sem qualquer norte, sem direcção ou rumo, corri entre estradas velhas, atalhos, barracas, prédios de quinze andares no meio da lama; acampamentos de ciganos, quiosques, armazéns clandestinos, gráficas; oficinas de recauchutagem de pneus, casas saloias, tascas cheias de ferroviários, viadutos e alguns passeios esventrados. Na feira do relógio, comprei um casaco e novos óculos escuros. Deambulei pela Avenida do Brasil, pelos lagos do Campo Grande e só me vinha à mente os olhos de Sara, os gestos de Leonor; Luísa a saltar as grandes ondas de Porto Covo. Advinham-me imagens coloridas das ruas de Banguecoque, da tromba de água do Índico, das casas brancas de Djibouti; via diante de mim as meninas de Porto Brandão, os aplausos sem fim do ‘Tostões e Biliões’, a minha desconhecida filha, ou os olhos ávidos da Dona Olga; revia o Porfírio gigante e cheio de tatuagens, o Maremagnum catalão, o mordomo; enfim, tudo aquilo era eu, perdido de sentidos, na Estrela ou no Jardim do Paço do Lumiar a contemplar um céu avermelhado e sem qualquer explicação. Senti-me tonto, fraco, frágil e sem forças. Sentei-me num dos bancos de jardim do Campo Grande e pensei - Já chega! Já chega. Chega de fugas, de fingimentos, de duplos. Chega de desventuras. Serei assim tão anormal? Não será possível contar toda esta minha história a alguém e ser ouvido? Poderei alguma vez vir a ser perdoado? Mas perdoado pelo quê?
A todo o momento, a polícia pode cercar-me, levar-me, ou interrogar-me. Antes isso. Estou aqui no Campo Grande, a sós, livre de querer e de ser, mas, seja como for, à vossa disposição, de todos. Pensei. E pela cabeça passava-me tudo, tudo: era o funeral da Estrela, os cartazes ostentando o meu rosto de Adão hilariante, o antigo fadista dos seguros, a Arlete a dançar à noite nos jardins de Belém; as belas putas do Pireu, o aeroporto de Dubai, as águas-furtadas de Barcelona e Sara e eu num sonho de Verão, em Cascais. Foi então que, sem medo de nada, de rigorosamente nada, me meti no metro. Fosse o que fosse. Circulei, estação após estação, até ao Marquês de Pombal e daí até à Baixa-Chiado. Talvez a secreta notoriedade do nome do Chiado, boémio de gema, homem de perdição, me tivesse atraído. Mas a quê?
quarta-feira, 23 de novembro de 2005
Realeza cultural - 3
O estado filantropo, razoavelmente remediado e sempre pronto a insinuar-se perante o magistério do que se designa por "cultura", torna-se amiúde num corpo narcísico que evoca e actualiza certas formas arcaicas de auto-sacralização. Noutros tempos, era através do universo das indulgências que os superiores representantes do ‘Altíssimo’ na terra se encarregavam de mediar o perdão do mal, para além, é evidente, de edificarem templos e acomodações luxuosas (os museus e o mercado das ‘indústrias da dignificação contemporânea’ estavam ainda para vir).
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