quarta-feira, 23 de novembro de 2005

Delírios da Ota - 2

Pois é: o meu amigo MacGuffin já tinha associado "Otário" a partidário da Ota. Mas eu vou um pouco mais longe e baptizo todos aqueles que imaginaram, durante décadas, o sumptuoso conceito. Baptizo-os, naturalmente, com o nome generalista de "Idiotas". A língua portuguesa tem sempre segredos bem guardados para as ocasiões.
O Trevo de Abel - Episódio 40
Terceira Parte: O tempo de Abel
Folhetim do Miniscente
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Afinal o médico, obsequioso e afável, sempre acabou por regressar à tertúlia. É quase meio-dia e meia e Dona Olga, arranjadíssima com o seu vison habitual, sentou-se agora mesmo à mesa do Café Parque. Então a sua esposa hoje não vem? Sabe, está engripada, nada de importante. Olhe que pena que eu tenho! Estimo as melhoras. Muito obrigado, muito obrigado. Então e o jornal, hoje, não o traz? Veja lá, como fiz as palavras cruzadas no intervalo da manhã, acabei por deitá-lo fora. A propósito, li ao de leve a notícia do morto-vivo e a senhora... ouviu falar? Sim, sim, ontem na televisão, o chefe da polícia, ou lá o que era o senhor, falou muito bem. Mas sabe uma coisa, senhor doutor, estas coisas arrepiam-me. Deixam-me com um medo enorme. O que eu acho, o médico a puxar as mangas do casaco e chegando-se à frente, o que eu acho, sabe, é que meio mundo é louco. A gente ainda disfarça, porque temos cá a nossa educação, as nossas coisinhas, mas este mundo anda fora de si, acredite que é verdade. Ó senhor doutor, não me diga uma coisa dessas!
E quando o médico, taciturno e melancólico, disse o que disse com palavras a rolar de lentidão e algum ardor, desencadeando aquele movimento desencontrado de íris, sobrancelhas e pupilas, logo Dona Olga sentiu uma íntima esperança de que alguma coisa, um dia, pudesse ainda vir a acontecer. Mas... senhor doutor, agora só aqui entre nós, acha mesmo que eu e o senhor doutor, por exemplo, somos... maluquinhos que disfarçamos que não somos? Não é isso Dona Olga, não é nada isso, o médico a rir-se bastante alto e retirando de uma assentada os cotovelos de cima da mesa, - olhe lá Dona Olga, nós estamos bem, damo-nos bem e até nem temos motivos de queixa, mas fora aqui dos nossos hábitos e da nossa rotina, digo-lhe mesmo, esse mundo tornou-se numa coisa diabólica. Pois é, Dona Olga de olhos abertos a repetir, pois é, pois é. E hoje o raio da mulher da fruta nunca mais me aparece aqui! Se quiser, sr. Doutor, tenho tangerinas muito boas no meu quintal. Está bem, está bem. Depende de como as coisas se encaminhem em minha casa...está a ver... tenho que receitar umas pomadas, uns tratamentos à minha mulher e, depois, se ela estiver melhor, passo ainda pelo Centro de Saúde e, lá mais para ao fim da tarde, posso ir lá então colher umas tangerinazinhas. Dona Olga sentiu um calafrio, ao longo da coluna vertebral, dos quadris, das orelhas e tremeu como varas verdes, entre os artelhos e as finas rugas da testa, completamente pálida e sedenta de mão de homem. Há tanto ano! Dona Olga estava perdida, corada e afónica, no momento em que eu e a Leonor nos sentámos.
Então, senhora professora, como vão indo as suas aulinhas? Ah, senhor doutor, os meninos, hoje em dia, são todos uns malcriados. Olhe, olhe, estávamos agora mesmo aqui a falar nisso. Dona Olga, já a sorrir, bem rosada e perfumada de olhar, dizendo que sim com a cabeça. Pois é, pois é, naturalmente é preciso ter uma grande paciência; e como eu estimo, por isso mesmo, aqui a nossa Leonorzinha! Eu, sisudo, caladinho, já a mexer o meu chá de limão e a pensar nos templos do interior da Tailândia. E com os taxistas em Lisboa é o mesmo, continua Dona Olga. Andam sempre a correr, parecem uns malucos, como o sr. Doutor dizia, há pouco, meio mundo anda louco, mas louco mesmo a sério! Excepção feita aqui ao senhor Abel, claro está. E o médico levanta o sobrolho, olha-me de baixo para cima e pergunta com ar agoirento e aziago, então mas o meu amigo não teve um acidente, uma vez? Eu? Ah sim, e eu a tentar fixar de lado os olhos no rosto Leonor. Teria ela falado ali das minhas costuras atrás das orelhas, mas que gente esta! O raio do médico, se calhar, ainda está mas é remoído com aquela história do "festo". Eu? Acidente, Eu? Sim, sim, aqui a Leonor contou que passou muito mal, há uns anos, e que até teve que fazer umas plásticas. Ah, sim, sim, isso foi ali na auto-estrada, entre... Saragoça e Barcelona. Sabe, coisa de jovem, estava nos meus vinte e tal anos. Acontece a todos. Dona Olga repetiu, sim, sim acontece a todos, mas coitado, que coisa! E isso custou-lhe muito? Ó Dona Olga, nem imagine! E o médico com o sobrolho levantado, com cara de coronel frustrado, a querer tramar-me com outra pergunta ainda pior que esta.
E então onde é que se fez operar, em que hospital? Olhe, sr, Doutor nem eu já me lembro bem, foi há tanto tempo! Então não foi em Saragoça? Avançou Leonor, ingénua, adjuvando a doméstica intriga do médico. Sim, sim, claro, foi aí mesmo; é, foi em Saragoça, fica em Aragão, conhecem? Ai, conheço tão mal a Espanha, disse e suspirou Dona Olga na direcção do empregado que era, todo ele, uma bandeja arqueada de cafés, garrafas e uns brindes do dia. São caixinhas de marmelada que trago para os senhores, porque hoje é o vigésimo quinto aniversário da casa! Foi nessa altura que chegou a irmã da Dona Olga. Sentou-se, trocou a perna e disse logo na direcção do médico: Olhe, sr. Doutor, o jardineiro disse-me que a mulher da fruta está com papeira e que, portanto, não pode vir hoje. Papeira? Papeira, naquela idade? Há com cada uma! Olha que esta! Isto hoje mesmo é dia de coisas do Entroncamento! Só faltava mesmo é que o morto-vivo estivesse para aí escondido numas águas-furtadas de Belas. O quê? Águas-furtadas, o quê? Disse Leonor. Bom, bom, isso é maneira de dizer. Sabe, durante a guerra, os espiões escondiam-se, ou nos sótãos, ou nas caves. Dona Lola, com o seu ar vidrado, pedrado, ilimitadamente seco de voragens: Ai era? Era mesmo assim? É como lhe digo. E eu, a acabar o chá de limão, e o nervoso miudinho a subir-me pelas canelas até aos joelhos e daí à barriga, ao peito, entrando-me pela cabeça que parece já oca, sem conteúdos, vazia. Subitamente vazia.
Mas o senhor Abel, hoje, está muito pálido, continuou o médico. E de imediato Leonor ergueu a cabeça e virou-se para mim, aparentemente preocupada: Estás-te a sentir bem? E, sem mais, se pôs a contar que eu tinha tido dores no peito, outro dia, quando acabava de almoçar, trá la lá, trá la lá, trá la lá, sempre a falar, não é capaz de se calar e não há nada que lhe ocupe a cabeça que não lhe povoe logo, a correr, os lábios, os gestos, a fala, o raio que a parta. Salvo seja. Não, não, sinto-me mesmo bem, fino. E acho que está quase na minha hora; é que hoje o meu turno começa à uma hora da tarde, porque o senhor Domingos foi ao curandeiro. Então... o que é que o homem tem? Perguntou Dona Olga para a mesa. Ficou tudo a olhar para o vago, uns para os outros, ou para ninguém que fosse; fez-se silêncio, demora, delonga. A atrapalhação com nome próprio. E foi a irmã que acabou por tomar a palavra, com ar secreto, balbuciante, como se chamasse um gato do outro lado da rua. Chega-se à frente, toca com os túrgidos na mesa e avança em máximo sigilo: Ó mana, parece que tem um mal no sítio... dos homens. Dona Olga tapou a boca com a mão carregada de anéis, enquanto eu sorria e Leonor olhava para o chão. Quando me levantei, o médico ainda disparou para o ar: Ó senhor Abel tenha cuidado no serviço que isto hoje parece que está tudo assombrado. Dona Olga riu muito alto, a julgar que era piada. De costas para o médico, sem ligar à desdita, virei-me para Leonor, já atónita, e limitei-me a repetir - Às 6 h, querida, está bem? Então, até logo. Leonor despediu-se de mim com um sorriso leve, improvisado, talvez mesmo distante. E porquê?
Ao chegar ao táxi, abri o rádio e, nas notícias, falava-se já em exumação. Era isso que eu temia. O que iriam eles encontrar? A questão tinha saltado fronteiras e a polícia tinha agora já em seu poder um depoimento do mágico Muhammad Mubarak, para além de andar no encalce de fontes mais consistentes. Entretanto, desse ou não desse, a polícia ia distribuir por todo o país o rosto de Ulisses Caim dos Santos Trigo, meliante, assassino e perigoso elemento que, porventura, poderia ainda estar vivo e a monte, constituindo, portanto, uma verdadeira ameaça para a paz pública. No final das notícias, o chefe Madeira, entrevistado, repetia: a exumação de ambos os corpos é uma medida normal, quando há indícios de crime, ou quando se regista uma ausência de indícios e provas necessários à investigação de um crime.
A polícia começa agora a tratar o que era uma simples anedota num caso realmente sério. Nesse dia, viajei até Campolide. Esperei, ao longo de toda a tarde, a uns bons trinta metros da casa de Porfírio. Observei, tomei notas, esperei. Perto das 6 da tarde revi o gigante; ia um pouco coxo e mais enfatuado do que o normal; entrou rapidamente em casa sem me dar tempo fosse para o que fosse. Fiquei indeciso sobre o que fazer, nervoso, escondido atrás dos meus óculos escuros, com algum medo à mistura. Foi nessa altura que olhei para o relógio e dei comigo a gritar: Mas já são 6 horas e eu esqueci-me de ir buscar a Leonor! Corri para Belas e entrei em casa com os bofes na boca. Que tinha tido um serviço para Lisboa, que não tinha podido parar para telefonar. Mas que já não saía hoje, etc. etc.
Leonor olhou então para mim com um aparente desdém, sorriu depois e disse com voz serena, tranquila - Não há problema nenhum com isso! Percebi logo que devia ter sido uma coisa dessas. Pareces tão nervoso nos últimos dias! Eu sosseguei, mas logo estremeci quando Leonor me disse que a Luísa viria amanhã jantar cá a casa. Ah é? E porquê? Para retribuir? Mas o jantar que ela ia dar... ainda não aconteceu, pois não? Não, mas, no outro dia, foi ela quem me pagou o jantar. Mas o que é que tu tens? Fazes com cada pergunta mais estranha e absurda! Parece que não te conheço! Qual é agora o problema de convidar a Luísa, uma minha amiga, a vir cá comer a casa!? Começo a não gostar nada do ambiente que tu andas aqui a criar, sabes eu...

terça-feira, 22 de novembro de 2005

O delírio da Ota

A campanha de marketing do governo tem acentuado o facto de o estado ir apenas investir um quinhão muito pequeno no projecto. Começa agora a ver-se que não é verdade. Para já, parece que, nos próximos doze anos, os frequentadores da Portela terão que pagar uma taxa de 7 a 8 Euros por voo. Dá vontade de tudo fazer para passar a voar apenas a partir de Madrid, Badajoz, Faro, Sevilha, seja de onde for.

Presidenciais

Há figuras assim: exilam o olhar dos outros. Não são propriamente Acácios; mas são as efígies que os Acácios adulam e de que necessitam para respirar e sobreviver (ver mais no Idade Média).

Folhetim

O Trevo de Abel - Episódio 39
Terceira Parte: O tempo de Abel
Folhetim do Miniscente
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Bom, e para terminar o telejornal com algum suspense - a pivot ri-se com ar atormentado - deixamos aos senhores telespectadores uma história verdadeiramente admirável. Este senhor que vêem nas nossas imagens é o egípcio Muhammad Mubarak, mágico e prestidigitador, que, após alguns espectáculos no Cairo, deu uma entrevista ao Sunday Egipt onde disse que, em pleno planeta Terra, existia um homem que já tinha morrido uma vez e que, apesar disso, ainda vivia. Mas o mais interessante, segundo Mubarak, não confundir com o presidente do Egipto, é que o homem em causa é um português de gema. A locutora, em voz que dizem ser off, simula depois um sorriso de grande autenticidade e ternura e adianta - Não bastasse já isso, a verdade é que todos nós o conhecemos de nome, ou seja, tratar-se-ia de José Adão Ulisses Ferreira, imagine-se! Diz quem ouviu Mubarak que a história lhe teria sido contada, no passado Verão, durante um espectáculo seu, dado algures na Etiópia. O nome que o morto-vivo adquirira, na sua segunda vida, era qualquer coisa como Ulisses Caim dos Santos Trigo. Enfim, senhores telespectadores, não podíamos ter acabado de melhor forma este nosso telejornal. Continue connosco e tenha um óptimo serão, sempre na nossa companhia. Boa noite.
- O quê, ouviste aquilo pá? Aquele era o gajo que a gente capturou na Gago Coutinho - disse o chefe Madeira. - Já viste, ó Macedo, aquele nome diz-me qualquer coisa, não era o tipo das russas ali de Porto Brandão? - disse o senhorio da casa da Rua das Flores. - Chega aqui filho, ouve lá, esse tipo que te tramou a vida não era um tal Caim dos Santos Trigo? - disse a mãe de Porfírio, trémula, no hall da pequena casa de Campolide. - Inventam com cada coisa! Ainda ontem estivemos aqui à noite a falar dele, não é engraçado? - disse Leonor. Abel, por sua vez, levantou-se, limpou os lábios com a ajuda do enorme guardanapo branco e, ainda a mastigar, nervoso, levantou-se da mesa, correu, correu e foi dizendo que tinha pressa, que já vinha; - Deixa-me só lavar os dentes, é só um bocadinho. Disse. Abel chega entretanto à casa de banho, abre as luzes laterais do espelho, encosta-se ao mármore da bacia e encara o próprio rosto, face na face, imagem trocada e truncada pelos seus nomes sem nome, olhos nos olhos diante do espelho. E agora? O que vale é que o raio do Preste não conheceu a minha terceira vida, haja pois sossego! E Abel, naquela posição de confronto consigo mesmo a falar sozinho, a segredar, a temer talvez o pior. Mas por que não me sei eu calar, porquê? E se o Porfírio acaba por falar? Mas, também... que pode ele provar? Eu, a todos os títulos, estou morto, não é? Não é assim? Abel de olhos vermelhos em monólogo assustador, perdendo o controlo, a questionar, a questionar-se: estarei vivo? E o que é que me aconteceu, durante este tempo todo? Porquê eu? Abel passa com as mãos pela testa, parece gemer, abre e fecha os olhos, volta a monologar, a questionar, a mão agora sobre o peito... até que, por trás, sem mais, em silêncio perfeito de esfinge, surge Leonor.
- Que é que estás a fazer, querido? Não te sentes bem? O que é que se passa? O coração a galope, acelerado e eu branco, pasmado, virando-me para trás. - Querida, eu estou aqui... com umas dores estranhas no peito, sabes? - Mas vê lá se queres que eu chame o doutor, com essas dores nesse sítio não se brinca. Foi agora enquanto comias, foi? Mas... por que não me contas tu o que sentes? Se te doía o peito, devias-me logo ter avisado! Parece até que... andas estranho nos últimos tempos! Estás com suores frios, é? Eu vou chamar o doutor, está bem? Sempre é melhor. - Não, não faças isso, não vale a pena, isto já está melhor, juro. Olha, põe lá aqui a mão, vês? Vês que não estou com nenhuma arritmia? Vês? Só ia lavar os dentes, não te impressiones, se calhar comi depressa demais, não achas? - Vê lá, querido, estás tão estranho! Não queres hoje descansar? Deixa o táxi por uns dois dias, vá lá! Se quiseres eu também meto atestado e não vou à escola. - Não, isso nunca. Garanto que já estou bem, deixa-me lavar os dentes e depois saímos juntos. Vou levar-te à escola e vou para a praça que até é um sítio tranquilo, descansa que já me sinto mesmo bem, está bem? Pronto, se assim o dizes. - Mas sem pressas. - Certo. Combinado.
A meio da tarde, o telefone da praça de táxis chamou Abel à Idanha e o carro seguiu lentamente, com o condutor bastante apreensivo, curva após curva, ao longo da Avenida Veiga e Cunha, entre paredes recheadas de heras e muros claros. Ocorria-lhe a grande tromba de água por que passara a ocidente de Ceilão, ou o rosto magro e quezilento de Preste Nekemte; as mil histórias de mar e os olhos meio demoníacos do etíope que, de repente, passavam a anil baço. Sentava-se depois no chão do convés, acendia a pequena vela que trazia no macaco e contava histórias de um reino onde nasciam mulheres de bigode e homens com cornos em sangue. Em Djibouti, já na estação, perto da bilheteira, chamou-me à parte e disse - Olha, tem cuidado que nesse reino havia muitos como tu. Conheço bem o que são homens com vários cérebros, corações ou almas, sim, almas fora do corpo correcto e corpos trocados da sua alma. Essa gente é convulsiva, perigosa. Tal como César ou Napoleão. Tem cuidado, não corras riscos, isto que eu sei são histórias que vêm dos confins do tempo. Se não ligares a estas palavras, hei-de ainda falar de ti. Sorri e vim de novo ter com Porfírio que estava com o carrinho de bagagem na mão. Esta gente é toda maluca, pensava eu.
O caminho para a Idanha não é longo, mas está cheio de casas surpreendentes, inóspitas, quase coloniais, estampadas por madeiras de cor pastel, azuladas, afastando-se da estrada por quintais cheios de labirintos, fontes secas, arbustos cansados, oliveiras idosas e hortas meio abandonadas pela humidade dos penhascos. Depois, surge a Quinta da Oliveirinha, surgem as trepadeiras debruçadas em frente do chamado Pacato´s bar e surge ainda a grande mansão meio fantasma, meio assombrada, rodeada por sebes densíssimas, pinheiros bravios, tubos retorcidos para escoar as chuvadas nocturnas e, no topo, no cimo quase inacessível da cumeada, duas palmeiras a escalar o céu com os seus dois troncos muito alongados e estreitos, deixando as copas a flutuar entre nuvens, entre esse logro da respiração divina e da nossa ocultação sem nome. Abel entrou finalmente com o táxi na Idanha, depois de ter percorrido, com olhos assustados e muito vermelhos, essas mágicas palmeiras, esses misteriosos caminhos, esses terríveis prenúncios de vales e vistas, talvez mais frondosos dos que envolvem a estação de caminhos-de-ferro de Djibouti.
Preste Nekemte avisara, é verdade, estou ainda a vê-lo dependurado no comboio quase pré-histórico que partia para a Etiópia. Porfírio levantava as suas mãos de gigante e gritava até breve, até breve. E eu a sorrir, a pensar em Lisboa, na Sara, na minha infinita e desejada Stone. Eu, em estado de estupefacção total, a querer-me vingar dos desgraçados dos Coimbras e vendo naquele Preste um mero embarcadiço delirante, embora, devo reconhecer, me tivesse feito estremecer, pensar, delirar. É que parecia querer penetrar dentro do meu mistério insondável e até conhecê-lo, dominá-lo. Foi há milénios, tudo isso. Há milénios. De regresso à Praça 5 de Outubro, Abel cruza-se agora com a bizarra agência funerária da Victor Cordon que, entre paredes esquecidas, a estalar de cal e tinta esbranquiçada, ostenta, mesmo ao meio, a escultura vermelha de uma deusa pagã a desfolhar um trevo de três folhas na mão. Ao fundo, o largo, os fofos de Belas, os TIRs habituais para cima e para baixo, sacudindo os prédios frágeis desta vila que já viveu um dia a sua sonhada e nostálgica belle époque.
No dia seguinte, ‘O jornal da Capital’ fazia capa da história do morto-vivo e dizia: “Desde ontem que o túmulo de Adão Ulisses tem sido visitado por inúmeras pessoas, ligadas à lenda viva do paladino de 'Tostões e Biliões'”. E acrescentava, no interior: “Embora sem confirmação oficial, fontes seguras confirmaram a ‘O Jornal da Capital’ que a polícia judiciária está atenta ao caso e que, para além de ter desencadeado contactos internacionais sobre a estranha ocorrência, também já inspeccionou as campas dos nomes referidos pelo mágico egípcio. Ou seja, não apenas o túmulo da conhecida vedeta, Adão Ulisses, mas também a campa do meliante Ulisses Caim. A curiosa parecença dos nomes, pelo menos através da presença do enfático “Ulisses” em ambos, foi ontem motivo do programa radiofónico ‘Escárnio a bem dizer’ da ‘Emissora Regional de Lisboa’. Enfim, é um tema que promete ainda fazer correr muita tinta, quando, de início, apenas parecia matéria de chacota, ou mote para um fugaz e meteórico primeiro de Abril. De facto, é caso para dizer que o nosso estimado Adão Ulisses, de boa memória, tinha que continuar a fazer-nos rir e também a pensar, mesmo depois de morto “, concluía o porventura inspirado articulista de ‘O Jornal da Capital’.
Abel fechou o jornal, colocou-o sobre o banco e suspirou. Com o olhar parado, quase imóvel, o nosso homem parecia dizer, sem o dizer, que a vida é disfarce, farsa bem contada, dissimulada, que a vida é desdobramento, duplo. Que a vida é caçada de fantasmas, que a vida é a rapidez de disfarce, eficácia de farsa, relato convincente de dissimulação, que a vida é a tentação do duplo, que a vida é uma derrapagaem desabrida entre jogadores e presas.
Em frente, sob a luz do fim da tarde, a Casa de saúde das irmãs hospitaleiras mantinha a sua fixidez habitual. Portadas azuis sobre paredes amarelas, ocres, dóceis. Portadas em formato neo-gótico, talvez de supositório ou de foguetão, quem sabe se de fantasma? Quem me dera ser o Fritz Lang, pensou por fim Abel.

segunda-feira, 21 de novembro de 2005

Coincidências e décadas

Faz agora dez anos (de hoje a oito dias, mais precisamente), fui a Utreque defender uma tese. Quando regressei a Portugal, soube no aeroporto da morte deste senhor a quem, duas décadas antes, tentara tirar nabos da púcara diante de uma câmara televisiva. Fica a imagem para colar a retina à imprecisa rotunda onde, às vezes, fortuitamente, se dilui a memória mais involuntária.

"Eu tinha grandes naus", não era meu caro Assis Pacheco?

Seca sem agravo

Um blogue 'exclusivamente político' tem sempre tendência a encerrar-se a si mesmo numa lancinante correria atrás da agenda que lhe é dada. E é por isso que quase se limita à mimetologia aristotélica, ou seja: a techné cumpre, por um lado, o que a physis é incapaz de realizar, mas, por outro lado, imita-a". Schiller diria que sim, embora sem grande propensão para as imitações. Talvez os blogues 'exclusivamente políticos' devessem beber um pouco da água criadora de Schiller.

Ler grande reportagem "Avatar"

Tudo se passou entre Tete e Chimóio. A situação excede a moral da história. Mas ambas são interessantes e fiéis a um princípio que se procura e persegue. Qual será, não se sabe (há aqui eco de Jorge de Sena). Mas está lá. Inteirinho. A ler.

Fragmentos, narrativas, actualidade

Uma brevíssima reflexão acerca publicação de folhetins aqui nos blogues: uma sequência novelesca de pequenos episódios faz crescer as audiências; uma sequência romanesca de grandes episódios afugenta radicalmente as audiências. Experiência própria. Só aqui para nós: O Trevo de Abel tem já um tempo de vida muito curto: acaba na próxima Sexta-feira. Depois, é claro, voltamos de novo ao convívio em massa (presidenciais, micro-causas, escárnios, empatias, polémicas, romances do século, posts de leitores, as mais curtas histórias do mundo, links, vaidades vitais, invejas, truca-truca, ditos risíveis, bibliotecas de papel, politiquices, ilusionismos, sitemetergate e ainda o estado do Lula).

Folhetim

O Trevo de Abel – Episódio 38
Terceira Parte – O tempo de Abel
Folhetim do Miniscente
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Era muito tarde, era já noite, quando Leonor entrou em casa. Chovia sobre Belas, sobre a serra, sobre as encostas do Telhal e as nuvens seguiam rasteiras em direcção às terras saloias, a Lisboa, ao interior carregado de pinheiros mansos, calcários antigos, vinhas abundantes e trevas. Preparei-me para descer do sótão até ao andar de baixo e a tempestade parecia acentuar-se; o granizo batia com força nas telhas, eram pancadas secas sem fim, medonhas. E Leonor não se calava.
- Mas... foi muito bom ter saído, sabes? A Luísa é uma antiga amiga que eu conheci, quando ia comer à cantina da câmara... porque dava aulas ali ao pé na altura, numa escola da Junqueira. Ela foi casada com o Adão Ulisses, aquele da televisão que já morreu, lembras-te? Era bom homem. Conheceste-o? Sim, imagina. Quando era mais nova, costumava dizer às minhas amigas que eu e ela, a Luísa, éramos como Evas do mesmo Adão. É que, em adolescente, tive uns namoricos de praia com ele. Depois, é evidente, nunca mais o vi; é assim mesmo a vida. Estranhas? Mas foi verdade. Para que saibas. Tem graça, não tem?
As mãos de Leonor acompanham o movimento das palavras até ao peito, parecem taças que recebem de muito longe o líquido precioso da infância. Deixa subitamente de sorrir e está agora em minha frente como se fosse no eléctrico fantasma de antigamente e os nossos pés se tocassem; falavas alto para que o motor fosse apenas música de fundo, ou um coro sumptuoso elevado pelas begónias e mimosas da grande serra; falavas alto e os miúdos perguntavam se eu podia dormir lá em casa e tu, lembro-me bem, quase coravas e dizias que não com a cabeça; as sombras das ramagens e dos sucessivos troncos de plátanos cruzavam-te o rosto como se te tornasses no imenso ecrã do meu primeiro e enternecido cinema. É isso o amor? E agora está aqui em minha frente, voltas a mexer os lábios com a maior das dádivas do mundo - Tem graça, não tem? Continuas com as mãos quase agarradas ao peito, dedos virados para o ar, para a incandescência frágil do que nos ligará; nem tu própria o sabes, nem imaginas, mas, de qualquer maneira, ainda aí estás, efusiva, doando-me a expressão mais profunda e sincera de ti, ao contares-me o teu mundo, abrindo-o sem limites.
- Tem graça, não tem?
Respondo que sim, talvez pudéssemos ir comer fora, é tarde, mas o que ressoa ao longe é o temporal, o granizo, nada a não ser o testemunho obscuro do mundo em movimento. Comemos apenas torradas, o ruído da televisão, os passos cruzados no corredor e o sono; palavras vãs, entretecidas a sós, e o que é a história de um dia por contar, ao serão? Sim, é isso mesmo, a vida toda. Foi melhor não termos saído, parece que já há menos chuva, faz-se tarde, talvez eu esteja excitada dos encontros de hoje e por isso ainda não tenha vontade de ir para a cama, e tu? Eu nem sei, estou calado há tanto tempo e o ecrã da televisão agita-se sobre legendas, cores difusas, um regatear de retratos sem tempo, nem lugar.
- Está bem, está bem, nesse caso vou à cozinha abrir mais uma cerveja. Pela rua estreita há sempre carros que passam, expiações em alvoroço, sinais de vida, companhia. O homem é um ser gregário e por isso gosta de partilhar a chuva que agora acalma, as tempestades, as palavras, o som dos motores e até os gestos. Leonor estica os braços sobre a mesa, encosta a cabeça com a mão e aponta para a televisão - Olha aquele é parecido com o Adão, não é? Aquele, quem, onde? Assusto-me, mas não o digo; olho mas nada pressinto. Sorrio e acrescento qualquer coisa sem sentido - Ah, pois é, mas quem será? Quem é?
Talvez exagere no tom da pergunta, na prosódica, no timbre carregado. Leonor volta a endireitar-se na cadeira e repete pela segunda vez
- Então não vês que é o personagem do filme? É o filho da Laurence que fugiu de casa, não estás a seguir o filme? Mas que filme ando eu a seguir na minha vida, há tanto tempo, há uma imensidão sem nome? O meu filme é este puzzle sem rosto, esta charada sem nexo; talvez seja apenas uma cabala elementar, ou tão-só o abismo de mil palavras cruzadas que entretêm o lazer ou o tempo, parece que estou a ver o médico na esplanada do Café Parque devorando-as sem parar, até ao desfecho, ao termo, ao limite.
Olha para dentro do saco da fruta e para as tetas da saloia anafada e a Dona Olga chega de braço dado com a irmã. Vêm depois os cafés, o carioca e o empregado mexe no bigode, olha para os pombais azulados, tosse. Dona Olga pergunta à Leonor se ainda quer, um dia, ser mãe. A mulher do médico sorri, falta ainda algum tempo para que o marido remate as palavras cruzadas, mas o jornal ocupa meia mesa, será impaciência, será hábito, será o quê afinal? E a irmã da Dona Olga volta à carga, os bebés são a melhor coisa que há na vida, não acha? Não, não, tudo o que é pequenino, as flores, os cãezinhos, até as miniaturas das raposas que tenho lá em minha casa. Risos. Bebo o meu chá de limão, ouço os TIRs cruzando impiedosamente o sossego de Belas, risos, e o empregado tossiu outra vez e reentrou no café. O que acha, senhor Abel?
Parou a chuva, o filme está quase a acabar e eu volto ao frigorífico. Nessa noite, Leonor agarrou-me com muita força no cotovelo do braço esquerdo. Parecia querer aí encontrar uma senha, um indício, uma ternura demorada. Que lindo braço tens tu, silenciou. Lá fora, a chuva ainda mole e leve escorrendo nos vidros; o céu lilás e macio, fazendo lembrar outros episódios mais sombrios. O que acha, senhor Abel? Minha senhora, sabe, a vida é como um jardim onde tudo nasce e cresce! Que poeta me saiu o senhor Abel! Dona Olga acrescenta: está quase sempre caladinho aí com o seu chazinho, mas quando fala diz coisas muito lindas. O médico bate com a mão na mesa; são as palavras cruzadas, deixe-o, é sempre assim, gosta de as fazer, mas aborrece-se com elas! A mulher do médico desculpa, justifica, sorri e volta a olhar de soslaio para Dona Olga. Agora percebo que a Leonorzinha esteja... tão contente e feliz, não é? Ó senhor doutor, então diga lá a palavrinha que não é capaz de descobrir? E ainda por cima só falta essa para acabar tudo? Veja lá. Pode repetir, pode? Ah bom, é o seguinte: ponto alto entre duas ou mais rios mas que não faz parte da rede hidrográfica de nenhum deles. Estranho, diz Dona Olga; Inventam cada coisa, diz a irmã da dita; deixa lá isso, hoje, diz a esposa; eu sou professora, mas desculpem... é que não sei mesmo, diz Leonor. E o senhor Abel não nos diz nada, não?
A meio da noite, Leonor acordou e olhou insistentemente para Abel, enquanto o antigo Caim e Adão dormia do outro lado desse olhar penetrante e demorado; é um olhar anatómico, carinhoso, mas, ao mesmo tempo, surpreso, e até algo admirado. É o olhar dos amados que não distingue ainda a diferença entre a ilusão óptica e a ilusão amorosa, mas, agora, parece o olhar de Leonor querer desvendar física e friamente o que os sentidos lhe dão, na realidade, a ver. A respiração tranquila, as costuras atrás da orelha, o acidente, coitadinho, como terá sido? Mas, de novo, com alguma insistência, a mão de Leonor volta a avançar sob o edredão e mexe ao de leve no cotovelo, no braço de Abel. De onde conheço eu esta carne tão íntima, este vigor, esta forma invisível? Leonor olha para a janela, salpicos de chuva sem direcção, lentos, escorrendo sobre as minúsculas vidraças e Abel quase a despertar, sob o efeito da carícia que lhe tolhe o braço, o antebraço, o estreito cotovelo, essa forma íntima e antiga. E o senhor Abel não nos diz nada, não? Olhe, acho que esse ponto se chama "o festo". Sim, "o festo". O doutor levantou a cabeça, ostentou o brilho da sua cabeleira branca impecavelmente penteada e disse baf baf baf. Dona Olga juntou as mãos e pensou que este era, de facto, o marido perfeito para a Leonorzinha.
E a mulher do médico a dizer que era já hora de irmos embora, pagam os cariocas e os cafés e eu a perguntar, então está certo senhor doutor? O homem olha para dentro do saco da fruta, volta a cabeça para o escorrega do parque infantil e diz que sim. A irmã de Dona Olga está atenta ao relógio, que é ainda cedo, diz melosamente; falta ainda tempo para o almoço... e Leonor a pensar, mas terá o médico ficado sentido? Abel põe a chave do táxi em cima da mesa, despede-se, há sorrisos de infinita afinidade, vou-te buscar à escola às 6, está bem? Leonor ficou com o mesmo olhar anatómico, carinhoso, mas, ao mesmo tempo, surpreso, e até admirado.
Por que é que o Abel se levantou da mesa, de modo tão brusco? Pergunta para si Leonor, quando o médico e a mulher já entraram no carro. Dona Olga repete: aquela senhora é mesmo muito difícil. Ao longo da vida toda, sempre, sempre deu cabo do senhor doutor, sempre; então havia lá agora razão para se irem embora! A irmã de Dona Olga concorda e Abel já está de pé e repete, vou buscar-te à escola às 6, está bem? Leonor fez o tal compasso de espera, olhou com a alma vazia por instantes, mas logo contracenou. Claro, até logo, querido; até logo e não demores. Dona Olga enternecida com o casal e temendo não ver o médico amanhã e depois de amanhã, sabe-se lá até quando.
Nessa noite, já nem sei se foi no fim-de-semana ou depois, acabei por acordar às 4 da manhã e senti a mão de Leonor à volta do meu cotovelo. Olhava-me com uma expressão enredada, enigmática, talvez fosse da minha respiração e eu perguntei:
- Estava a ressonar?
Leonor sorriu, afagou-me a testa e disse que não.
Com a ponta dos lábios muito vermelhos e encorpados.