domingo, 20 de novembro de 2005

Tirada pós-moderna

Na semana que acaba de passar, as autoridades francesas afirmaram que tudo tinha regressado à normalidade. Afinal, apenas duzentos carros haviam ardido. Moral da história: há um país na Europa onde a normalidade é medida pelo número de automóveis que os seus cidadãos incendeiam numa só noite.

O mais curto sermão - 45

Caminhavam com fúria, desfalecidos, um misto de ira e de cólera. Quando chegou o crepúsculo, perto já do promontório, o sargento gritou para os recrutas: “Corram todos imediatamente em direcção à falésia”. Só João G. não abriu o pára-quedas. Um bom Franciscano adora sempre pregar aos seus peixes.
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Ponto final.

Folhetim

O Trevo de Abel – Episódio 37
Terceira Parte – O tempo de Abel
Folhetim do Miniscente
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Dei boleia à Leonor. Era a segunda vez que vinha a Lisboa desde que a vida me fez ser Abel. Levei-a ao Campo Santana e, depois de a deixar do lado do Patriarcado, dei a volta ao jardim e estacionei. Do outro lado, a uns cinquenta metros de distância, vi o corpo talvez mais esbelto e alto de Luísa. Vinha com saltos muito altos e uma espécie de vestido azul-escuro com rendas claras ao longo dos ombros. Luísa, a abandonada, a falsa viúva rica. Deu-me vontade de rir ao revê-la, ali, pela primeira vez, ao fim de tanto tempo. Eu tirava e punha os óculos escuros, baixava e subia as palas do carro, agitado que estava com estas coincidências destemperadas. A Luísa. Descia comigo pelas escadas rolantes do Rossio, ouvia-me cantar com voz de tenor nas caves de Linda-a-Velha, voava dentro das ondas como uma sereia. A Luísa. E agora estava ali, sentada mesmo ao lado de Leonor, a antiga filha do solstício. Se as duas soubessem, se imaginassem!
Do outro lado do jardim, frente a frente, esboçavam sorrisos, gestos e uma conversaria de arrazoados sem fim. O amor é como o sabor a ostras, uma impressão desalmada que arrebata qualquer um. De barba mal feita, mão no queixo e riso desenfreado, contido, Abel pôs de novo o carro a trabalhar e desceu à avenida. Que saudades de Lisboa, outra vez! Por que tenho eu a mania de que me possam reconhecer, se no tempo do Caim isso não acontecia? Intuições, meu nitrato de sódio, intuições, dizia-me a Arlete com a sua voz batida, trilhada. A desgraçada veio das brenhas e teve azar. Onde morará hoje? Parece que foi agora que entrei na casa da Bica e ela queria pôr fogo naquilo tudo, chegou a encostar o isqueiro à cortina e depois à toalha junto do fogão. Tive que andar com o cobertor na mão a apagar o perigo. Dizia que eu não lhe ligava, que não lhe passava cartão, que no fundo se sentia apenas uma boa puta de alterne. Tudo isso foi já no tempo do ‘Limões e Biliões’. E como ela tinha razão.
Belos tempos, belos tempos, dizia Abel diante dos semáforos dos Restauradores, do Avenida Palace, da Estação do Rossio. E, de longe, a acenarem com lascívia, aqueles lábios muito vermelhos, encorpados, atiçando murmúrios e sons; gestos depois reunidos em palavras, meio acabadas e articuladas com demorada languidez: Leonor, Luísa, amor, - diria o meu fado. E deste modo o fui cantando pela 24 de Julho, olhos postos no sol e na mais remota lembrança, mergulhado que ia também no saber do acaso e na doutrina dos desacertos, senão mesmo na instrução perdida da felicidade:


Leonor Luísa Amor
Pelo vosso coração
Canta a minha dor
As rosas desta visão

Leonor e Sara Amor
Pela vossa felicidade
Canta este meu ardor
A flor de lis da cidade.


Passei Alcântara e, de repente, decidi seguir ao largo das águas. Vi a foz do rio, Algés, o Bugio, Oeiras, Estoril. Pena é que a minha voz de Adão se tenha quase perdido, depois da primeira operação. Pena é esta ruína que eu sou. E vi Carcavelos, S.Pedro e o azul sempre azul. E vi fados nesta cor de mar, de que foi feita a excitação das minhas vidas e também o furor deste momento de súbita felicidade. Vi coisas que não cabem em quadras e vi vontades audaciosas de ser outro, outra vez e sempre; fosse quem fosse que não eu mesmo, Adão, Caim ou Abel. Por dentro, sentia que morria e vivia sem nexo, mas, nesse bate bate, nesse alarme bizarro, era absorvido pela mesma canção, pela mesma intimidade e pelo desejo. Sabor a ostras, a amazonas perfeitas, a seios de ouro dominando-me o destino. Até que apareceu S.Pedro, Estoril e Cascais. estaciono, paro, procuro uma lista telefónica e descubro por fim o verme do apelido da viúva rica, a Luísa infiel, a Luísa maldita. Afinal, é mesmo ao lado da Praça de touros. Circulo e, de novo, me advém a rebentação, a areia, o céu, a natureza em rocha e o mar fundidos para sempre. É como se na minha frente surgisses e tivesses os lábios sempre vermelhos, encorpados, ateando sussurros, sons e acenos reunidos em palavras articuladas com demorada lascívia; são palavras líquidas, arrastadas até ao meu ouvido que já não ouve e apenas te olha. Mas eu não te vejo o rosto, nem o apelo que me lançarias. Onde estarás? Tão longe. De onde virás? Leonor, Luísa, estou perdido entre vidas vividas, cruzadas e tanta memória trocada, truncada!
Paro o meu táxi estrategicamente e espreito para a grande casa onde mora Luísa. Não estarás, Luísa, eu sei, mas vejo uma empregada a limpar os vidros; vejo cães que ladram atrás dos portões e das grades; vejo sebes densas e a cor rosa clara que faz esquadria às portadas das janelas; vejo antenas, câmaras de segurança, telhas com clarabóia e o alarido do vento do Guincho. Vejo tudo subitamente. É como se conhecesse de cor o leme da felicidade e nunca o tivesse partilhado. Vejo a vida toda, subitamente. Onde estás? Tão longe. De onde virás? Leonor, Luísa, estou perdido e rio-me alto, muito alto. Rio-me de todos os cenários que a vida, hoje mesmo, me deu a ver, a conhecer. Sim, onde estarás? Pergunto eu e a mulher, impassível, continua a limpar os vidros com mãos de ovareira, e as sebes a ondular na brisa e, por cima, a clarabóia a reflectir a antiga luz desse mar tenebroso e belo que me faz lembrar Banguecoque, Djibouti, Colombo, o Pireu. Ó alma incendiada, por que não consigo saciar tanto desejo, sem nome, sem corpo, sem destino? Onde estás? Donde virás, neste final de dia sem qualquer história? Que me acontecerá no termo de mais uma vida? Por que perco eu, afinal, o próprio amor pela vida? Porquê? Por que trevo de quantas folhas?
Estou de novo na marginal e vou pelo Guincho, Cabo da Roca, Colares, Sintra; vou pelas montanhas do início do mundo. São elas que protegeram, há muito, o labor indómito de Ulisses. São elas que me deram pousada e horizonte nesta terceira vida. Para onde irei? Era como se chegasse ao palco, os holofotes já acesos, as bancadas cheias de uma multidão incinerada e eu a correr, a correr; pouco depois, apareço frente às câmaras; pisco os olho às produtoras, belisco o rabo à anotadora, abro a boca, os braços, os olhos e puf puf puf, em directo para o país todo, são vinte horas certinhas; e hoje, amigos, depois das notícias do mundo, o tempo e a música; o ritmo e o movimento; você já sabe que não é apenas espectador, é sim o meu maior e melhor amigo; amigo íntimo, companheiro de jornada, luz desta luz que não é palco, nem fingimento; é vida! Sim, sim, a sua vida é a minha vida. Eu sou a sua vida aí em casa, na sua casa e você está aqui como se a sua vida fosse este show! Eu sou a empatia e a simpatia que é só sua, afinal, aqui e hoje, neste ‘Limões e Biliões’! Hoje, meus amigos, sorteamos quase cem mil contos e dois BMW... da série que você vai, desde já, adivinhar. Depois das onze horas, virá o desporto, a entrevista, o universo VIP e a carolice do Hertzan-BIC para que haja riso, riso, riso. Curva à esquerda, curva à direita, e o carro a subir à vila velha; bons tempos em que o eléctrico funcionava e tu, Leonor, dançavas com os teus lábios nos meus, por cima desta névoa rasteira até ao Palácio da Pena, ao céu. Onde estás, donde virás? Diz-me. Porquê eu?
Diz-me. Silêncio, o doutor avançou até mim e disse-me como se fosse pecado - São dois corações, senhor Adão. Sim, é melhor tirar um, nunca vi nada assim. O homem tinha a bata branca congestionada, manchada de sangue escuro, mas estava branco como o deserto e olhava para mim com cara de terrorista, saqueador de bruxedos ou de impropérios à solta. Eu, José Adão Ulisses Ferreira, sujeito a isto tudo? Ó senhor doutor, desculpe lá, mas por que é que a enfermeira ficou mal disposta? Não, não se pode dizer ao país. Quer perder o emprego, quer? Veja lá. Portugal não pode passar sem si, sabe? Você sabe isso muito bem. Mas porquê esse ar de carniceiro, será que me tornei em tuberculoso sem cura? Terei peste suína ou outra qualquer? Avance-se com a operação. Claro. Claro. Para a faca. Porquê eu?
Fiquei ao longe, muito ao longe, era a anestesia. Maus augúrios, fios lentos desligando-me de vocês os dois, vermelhos, sim muito vermelhos e cheios de batom; esses lábios vermelhos, encorpados, ateando sussurros, sons e acenos reunidos em palavras já sem sentido, articuladas com demorada lascívia. Eram palavras líquidas, arrastadas até ao meu ouvido anestesiado que já não ouvia nem escutava. E depois? Acordei, é cedo, muito cedo ainda. A vida está por um fio. Está? Está? Ninguém responde. Tento telefonar para Barcelona e ninguém atende. Hei-de conseguir, hei-de conseguir. Chego a Sintra e viro na direcção de Belas. Vou aproveitar para descansar. Sinto-me atordoado, a transbordar de memória, de mim. Farto da vida. Segue-se Pero Pinheiro, passo pelo campo de golf, pelo Sabugo e dirijo-me finalmente a casa. Subo as escadas, atravesso a malfadada cozinha e vejo-me a correr, desvairado, até às águas-furtadas. Parece que nunca saí daqui em toda a minha vida. Não, a Leonor hoje regressará da visita à Luísa, não da escola. Não te enganes Abel, Adão, Caim. Não te enganes, vê lá no que te metes. A vida talvez esteja mesmo por um fio. Onde estás? Estás Longe? O que me terá hoje acontecido?
A quem é que tu perguntas isso tudo? Não sei. Deixem-me mas é olhar pelas vidraças das águas-furtadas e sonhar.
Ao menos isso, sonhar.

sábado, 19 de novembro de 2005

A mais curta história de um invento - 44

Sob um tufo de silvas bastante denso, Semião descobriu uma folha de bronze carregada de estranhos e enigmáticos sinais. Acabaria por ser a descoberta mais importante do século. Afinal, havia animais que falavam e escreviam entre si.
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Ponto final.

A mais curta lenda falhada - 43

Conheceu Eva Duarte em Janeiro de 1944, quando um amigo pintor o convidou a ir a uma festa de apoio às vítimas do terramoto de San Juan. Tudo podia ter acontecido entre eles. Mas Juan Peron antecipou-se com um secreto licor entre mãos e o resto é bem conhecido.
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Ponto final.

Folhetim

O Trevo de Abel – Episódio 36
Terceira Parte – O tempo de Abel
Folhetim do Miniscente
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O Príncipe Real de Lisboa já foi chamado Alto das Cotovias e conheceu perto de si a graça de muitos vendavais e moinhos de vento. O Príncipe Real de Lisboa foi local de lixeira do Bairro Alto, de ruínas sucessivas e de acampamento militar a seguir ao maior dos terramotos. O Príncipe Real de Lisboa foi lugar de forca, de Basílica Patriarcal, de incêndios e voragens. O Príncipe Real de Lisboa foi miragem de construções faraónicas, foi cabouco do erário e, de novo, entulho restaurado. O Príncipe Real de Lisboa foi o ponto alto de muitos esquecimentos e de planos infrutuosos.
Por agora, esquecidos da história mais irremissível e perdida, os cedros de folhagem aberta descansam apoiados nos caramanchões e a noite parece finar-se na timidez ainda lúgubre do dia. E este é o dia em que tudo, quase de certeza, irá acontecer. Abel está cansado da imensa história que vem contando ao grupo que o acompanha, há já horas e horas. Abel senta-se num dos bancos, fecha os olhos, quase dorme. Deixa por momentos este mundo e assim dorme profundamente por instantes, Abel.
À volta, como se apenas tivessem passado segundos durante as últimas horas, o diálogo precipita-se. Inicia-se:

Isabel - O que é que queria Isaías dizer com tudo aquilo?

Dona Joana (extenuada) - Referia-se, quase com toda a certeza, ao encontro que ontem tivemos com ele, junto ao Mercado da Ribeira.

Lopamudra de Vidarbha - Mas o Isaías aparece nesta história como Judas, ou antes como o bom amigo que avisa de perseguição iminente o próprio acossado?

Júlia - Não sei, talvez as duas coisas. Eu sou muito desconfiada.

Altino de Mendonça - E acham mesmo que a Leonor não reconhece no Abel, pelo menos na intimidade, qualquer coisa do antigo namorado? É que, quando eu há pouco disse - “tomai e comei” - era nisso que estava a pensar. Ou seja, a presa reconhece sempre o seu caçador, mesmo depois de morta. Não vos sabe muito melhor um faisão caçado por vós, do que por qualquer outro deputado da nação?

Zorba - Vê-se mesmo que vives noutra galáxia, ó pobre homem de S. Bento. É evidente que há coisas dessas que se sentem. Mas são coisas sem tradução. São apenas manchas muitos distantes da nossa consciência. Eu, na Grécia, há muitos anos, senti isso mesmo. Achei-me subitamente de amores por uma mulher alta e vestida de negro. Dançava com ela dia e noite, transfigurado, e, por isso mesmo, me baptizaram por Zorba. No fundo, essa mulher, retirada a máscara veneziana ao fim da festa das sete noites, era, imaginem, a minha própria irmã, ou seja meia-irmã. É que o meu pai também foi embarcadiço e fadista. Leram os Maias?

Isabel - Ó pai, isso é uma coincidência incrível. Nunca me tinhas contado isso.

Zorba - Pois não, filha. A vida é assim. Uma autêntica caixinha de surpresas.

Senhor Gouveia - Mudando de assunto, aquele mordomo catalão de traços orientais era, ao fim e ao cabo, amigo de longa data do próprio Adão, não era? Sempre me pareceu isso.

Zorba - Sim, sim, mais ou menos. Segundo percebi, logo no início da conversa, ainda no Cais do Sodré, o Adão, enquanto cantor e figura televisiva, tinha um filipino ou coisa do género como seu representante em Barcelona. Mas, de qualquer maneira, ele pagou-lhe sempre e bem; muito, muito dinheiro.

Sara de Belém - E as máfias da Catalunha não passaram por Portugal?

Sapateiro Palmeirim - É evidente que sim, mas isso só aconteceu depois do escândalo da Gago Coutinho. Os Coimbras já nem existem e os negócios com as russas estão hoje na mão de gente nova. São os Cortes Ingleses. São as OPAs dos dias de hoje.

Chico de Belém - E como é a vida de Luísa e da filha, hoje em dia?

Júlia - Penso que vive em Cascais, fez um casamento bom e dedica-se a fazer festas. Contrata criados de papillon, encomenda cozinhados sumptuosos e paga às revistas do social para testemunharem o feito. Fica muito contente com isso e, depois, vai vivendo desses rendimentos fotogénicos. Às vezes, e porque tem certas heranças nostálgicas, organiza encontros com antigas amigas, mas sem convidar os habitués do jet set. Nada melhor do que separar águas para estar sempre bem consigo mesma.

Dona Joana (consumida pelo cansaço) - Então... foi por causa disso que a Leonor recebeu aquela chamada no telemóvel...

Júlia - Exacto.

Dona Joana - Estou a ver, estou a ver.

Senhor Gouveia - Uma coisa é certa: quando ele ressuscitou, deixem-me empregar esta palavra só para ser prático; dizia eu, quando ele ressuscitou a primeira vez, assustou-se muito e desinteressou-se depois quase totalmente pela sua vida anterior. Pelo contrário, quando passou de Caim a Abel, os pavores foram-se dissipando, a pouco e pouco, e, por trás dos apetites domésticos de Belas, surgiu-lhe até um certo interesse pelo passado.

Isabel - Talvez isso seja verdade, mas só em parte. Reparem que ele foi levado a recordar insistentemente o tempo dos seus catorze ou quinze anos, apenas porque reencontrou a Leonor. Acho isso uma coisa espantosa, a sério! Quanto ao resto, só o curso das coisas o poderá ditar, não é?

Sapateiro Palmeirim - Sim, sim, no entanto, se o Isaías andou a espalhar a nova pelos cais de Lisboa e se o Preste João da Etiópia, nos tempos que se seguiram, também espalhou a mesma notícia pelos mares televisivos do planeta, não é, pois, normal que a coisa tenha começado, com algum vagar, a soar também aqui por Lisboa?

Senhor Gouveia - É possível, é possível. Disso não me tinha eu lembrado.

Sapateiro Palmeirim – Claro. Não é assim que se fazem rumores? Penso bem que sim, porque é o mesmo que dizer que, quando alguma folhagem evita o sol de Verão, se esta o toma em cheio, é muito maior a sombra que o amparo sentido. Assim são também os que falam demais e intrigam, pois as suas esperanças tomam sempre praticamente em cheio a realidade das coisas de que falam e intrigam.

Zorba- Ó Isaías, és ainda pior que o deputado. Quando falas, não há palavra que se perceba!

Júlia - Mas... será o Abel, a esta hora, já um acossado?

Dona Joana - Em Francês é “A bout de souffle”, não é?

Sara de Belém (rindo-se) - Mas o Abel não é nenhum actor de cinema! Não confundamos as coisas!

Júlia- Quero eu dizer... não correrá perigo o Abel a esta hora?

Zorba - Não, tenham calma. Deixem o homem contar o resto da história. Não vêem que já abriu os olhos e se espreguiça?

Dona Joana (definitivamente exausta) - Diz-me a idade... que os bons presságios despertam sempre com o sono da manhã.

Isabel - Vamos sair daqui. Este lugar é bonito, por fora, todo ele feito de repuxos e cedros, mas, no fundo, tem uma história medonha: lixo, forca, entulho e incêndios!

Zorba - Ó filha, és mesmo impressionável diante das coisas mais normais deste mundo. Repara que a vida só separou, um dia, o que é normal do que é anormal por necessidades da razão, dos dogmas, dos mundos fechados. Por mais nada. Mas a vida é muito mais do que isso. Acredita.

Júlia - O Abel que o diga. Olha, que já se põe de pé e acorda.

Abel - O quê, o quê, de que falam?

sexta-feira, 18 de novembro de 2005

Risível - 7

Jan van Steen
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A palavra a Montaigne:
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"O lamento e a comiseração são misturados a uma certa estima pela coisa que se lamenta; as coisas de que troçamos, estimamo-las sem valor. Não penso que haja em nós tanta desgraça como vaidade, nem tanta malícia como loucura "
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(Essais, Vol. I., Cap. L, Gallimard, Paris, 1962, pp. 418/9)

Folhetim

O Trevo de Abel - Episódio 35
Terceira Parte: O tempo de Abel
Folhetim do Miniscente
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E ao sair da Cruz dos Remolares, depois de encarar a luz do sol em forma de trevo, tive quase a ideia de ter visto um imenso pavão que, nos antigos banhos públicos, anunciava com voz humana coisas bem estranhas que se estão a passar nesta cidade de Lisboa. Disse-me essa visão que hei-de encontrar, no local dito de S. Paulo, o homem com várias vidas, o qual, parecendo morrer, continua vivo no seu corpo e espírito, viajando por esse mundo fora com o encanto interditado pelos muitos deuses criadores. Mais disse esse pavão de penas agitadas que o sol, no último dia da sua aventurosa vida, há-de desaparecer por minutos e desse eclipse nascerá, em certa cidade do mundo, um outro homem tão estranho como o de Lisboa. E enquanto regresso ao túnel da Rua do Alecrim e me encaminho agora para o Terreiro do Paço, mais ainda sinto que esse dia está para breve.
Durmo enrolado a jornais nas traseiras da gare, sonho e visiono coisas que escapam à ordem natural das coisas, mas não se pense que ando apanhado pelo cavalo ou por chutos de seringa infectada, nada disso. Nunca fui drogado, nem mafioso, nem sem-abrigo rotulado na testa, embora experimentasse tudo na vida. O que vejo e ouço são palavras sem som, são sons sem sentido, são sentidos sem norte. Se tivesse vivido há dois milénios e meio, talvez fosse profeta. Contudo, nesta vida de desnortes, carências e muitas dúvidas, aprendi a recortar retalhos de verdade através das figuras que as nuvens desenham neste estuário milagroso do Tejo. Subitamente, eis-me chegado ao Terreiro do Paço e as arcadas, a abertura do espaço, o arco regenerado e as colunas e colunatas voltadas para o rio definem subitamente um equilíbrio e geometria únicos que apenas, na velha Alexandria, se terá sonhado ou imaginado. Isto é o fogoso corpo iluminado ou iluminista, misturado com a perdição e talvez com a prova de uma beleza desencantada e em suspenso. Só aqui, neste breviário de encontros, poderiam emergir coisas estranhas que Lisboa conhece e que estão prestes a desocultar-se.
Neste locus da ordem e da delicadeza de contornos que é a Praça do Comércio, há uma memória do antigo Terreiro que era avermelhado, cheio de varandas contíguas e desalinhadas, quase flamengo e aberto apenas às marés, ao grande torreão do Paço e ao ímpeto mercantil da lendária Rua Nova. Isaías lembra o velho traçado, o ruído ao fundo da hecatombe, a tragédia precipitada e, diante de tal ondulação irregular da Ribeira das Naus, despontaria já, nesse ímpeto terrível de 1755, a nitidez, a definição e o rigor das formas anunciadas. Depois do estertor, veio o esquadro, a norma aparente e o tempo da magia só já submersa. É essa a história e a causa das coisas estranhas que se anunciam em Lisboa. No centro da actual Praça, D. José I ainda aspira à idealidade de um centro quase perfeito e, para sugerir essa mesma demanda imaginária, o cavalo em bronze que o transporta levanta, com imprevista leveza, uma das suas sete patas.
Ao entrever a fantástica desproporção, neste mundo esculpido pela maior das arrumações e aprumos, Isaías apenas consegue imaginar a ideia de voo, de descolagem, de Ícaro momentâneo que se aprestasse a sobrevoar e absorver o Tejo. É essa a sua visão mais momentânea que, entre a nuvem do comedimento e harmonia, aspira ao delírio e aos mil sortilégios que se possam supor. Mas Isaías sabe também que, desde os acenos em matéria de Ode ou verso popular até ao canto do Café Martinho da Arcada e ao recato do Cais Sul-Sudeste, nada mais paira senão mistérios, vogas marítimas, maresias de uma qualquer agonia luminosa e visionária. Isaías cruza em diagonal esta Praça Maior de Lisboa e não esquece de maneira nenhuma o pavão que, com voz humana, falou em alto e bom som de um tal Adão, Caim e Abel em trânsito por Lisboa; era um pavão que a luz do sol da foz do Tejo transformou em efígie na cabeça caprichosa e sonhadora de Isaías.
É verdade que, para Cesário Verde, os desejos absurdos de sofrer deverão ter tido origem nesta excelência e graça por decantar, talvez algo veneziana, mas também solar e atlântica, e sobretudo cheia de brumas escondidas sob a pele de tanta geometria aparente. Isaías encosta-se aos arcos do norte, junto aos alfarrabistas, e conta pelos dedos. Conta apenas números, esse mote abstracto, ou estrutura da imaginação, ou esquadria anterior a qualquer acto; Isaías repete muitas vezes esta operação: com o polegar conta números, apenas números durante um tempo quase infindável. O Terreiro do Paço, confessa o próprio, é um dos resultados aproximados do insondável compasso dos números. Por trás da geométrica cadência bachiana, o ritmo dos arcos nasce, emerge e parece anunciar uma música silenciosa que, à noite, empresta ao amarelado das luzes um incerto vaguear de sigilos, de silhuetas imersas pela vertigem pessoana; alaridos distantes de paquetes, navios e naus antiquíssimas irrompendo pelas correntes do grande rio das Tágides; desafiando a barra, o oceano, até o universo. É essa a sua senha: entre a morte e a pulsão da aventura quase total, pensa Isaías sem o dizer por palavras.
Para Camões - dizia o fadista e poeta do engenho - o sublime som do seu estilo grandiloco e corrente, ditado ou implorado às Musas do Tejo, mais não era do que um mar espesso de enigmas e segredos que, por natureza, se atravessa no caminho de todas as histórias impossíveis de contar, de narrar, de esclarecer. A própria Praça do Comércio é, ela mesmo, uma história por contar. Lisa e ampla, este espaço de números também por calcular prepara e acarinha a partida das grandes viagens, a invocação dos grandes poemas, a margem de toda a divagação. Porventura, também alimentará os que vêem a sua alma incendiada, o coração repartido, a ousadia abismada. Por trás do equilíbrio do Paço e das geometria modelares, os anjos de Ulisses abrem as asas e conseguem voar até à memória mais antiga do fascínio. Quem verá esses anjos, sob a forma de pavão, fado, ou luminária... a sobrevoar visões, letras, passos, amores encantados; tragédias da natureza, ou tão-só os simples números que Isaías continua ainda a contar com os seus dedos turvos de clochard?
É esse pasmo sem tradução que Isaías sente e que consigo traz na retina carregada, sempre que, por artes de fortuita passagem, lhe advém ao olhar este ancestral Terreiro que hoje é a talvez aparente Praça do Comércio. E por isso repete: disse-me a visão desta alvorada que hei-de encontrar, no local dito de S. Paulo, esse homem de várias vidas, o qual, parecendo estar morto, continua ainda vivo no seu corpo e espírito, cruzando mundos e o mais que a natureza e os deuses criadores desde o princípio interditaram. Isaías acompanha o pôr-do-sol atrás da ponte suspensa e revê, na sua mente de estilhaços puros, as várias bússolas e indícios do pavão visionado. Tudo iria ocorrer, um dia, perto das naves do Mercado da Ribeira. Mas a tempo, espero, hei-de admoestar esse Abel desafortunado. Talvez haja já quem o tenha denunciado pelas muitas pragas que nos chegam do Oriente, do Egipto e até aqui dos Remolares e da Boavista. Hei-de admoestá-lo pelos muitos perigos que decerto correrá, dizia.
Fez-se noite e Isaías retoma agora o seu caminho habitual em direcção às portas neo-góticas que limitam a sul o parque automóvel da EDP, junto à Praça de D. Luís I. No esconso da portada, já aí chegaram, entretanto, o pirata, antigo jogador e corretor; o velho Mateus, ex-presidiário convertido ao budismo; o Nativo, reformado da lotaria; o Lémur, apeado de chulo e, por fim, Silvestre que, nos tempos áureos, fora campeão de natação em Algés. E Isaías repetiu para quem o ouvisse: Que pode um clochard ver diante dos seus olhos, senão a fotografia de algo que já foi, sem lugar nem tempo, mas que se perpetua no inefável desejo de apenas ser? Apenas isso, disse Isaías, mas sem jamais o ter dito através de tais palavras. Chegará depois a sopa dos pobres, a noite, mil luminárias, e Isaías continuará, apesar de tudo, a pensar que, na sua frente, o mundo não é um simples encadear de lugares e de factos, onde tudo se encaixa e se explica. Diante de si, o que luz é a própria matéria, a própria vida em movimento, embora desfocada do seu lado imediato, directo, actual.
O profeta desempregado dos nossos dias é este tipo de clochard que, em diferido, consegue transmitir, talvez a ninguém, recortes e retalhos da verdade que só ele entende, por via das mil figuras desenhadas nas nuvens mais baixas, após o crepúsculo. Isaías ama Lisboa e acima de tudo o Tejo. Adorava tornar-se, ele mesmo, na cor dessa água nocturna. Adorava ser o pavão vislumbrado na alvorada desse dia, magnífico nas suas cores de framboesa e ventura. Adorava poder cantar como o velho Adão, correr como o destemido Caim, contemplar como o reservado Abel. Adorava ser tudo isso, ao mesmo tempo. Talvez devido a esse desejo, sempre vivo e sempre ocultado, Isaías tenha explicado que a vida marginal e noctívaga, à beira desta 24 de Julho, não é senão a sapiência do acaso, a doutrina dos desacertos e a instrução da perdida providência.

quinta-feira, 17 de novembro de 2005

Cavaco Silva e o Abrupto

Estou de acordo com muito do que José Pacheco Pereira tem dito e escrito acerca da pré-campanha presidencial: de um lado, os “tribunícios” habituais e, do outro lado, Soares dissimulando tudo o que passou a ser no pós-11/09. Há ainda o enigma Alegre, cujo horizonte ficcional assenta na figura do ‘guerilheiro injustiçado’ à procura de um discurso e de um posicionamento claros. Por fim, aparece Cavaco, por quem JPP não esconde ilimitado e coerente apoio.
Hoje mesmo, sob o tema “Temas Presidenciais ( 3ª Série) - Uma Campanha Declarativa”, Pacheco Pereira avalia as razões que justificam a actual proeminência de Cavaco. Não concordo com esta ponderação concreta (e digo-o com a consciência de quem não se vai abster, embora com a certeza de que não irei votar em nenhum dos candidatos).
JPP começa por afirmar que Cavaco “parte com patamares de apoio” sem precedentes. Não creio que assim seja. De facto, Cavaco surge nesta pré-campanha tal como Soares e Sampaio surgiram no final dos respectivos primeiros mandatos: sem reais alternativas. Nos três casos, a criação acumulada de comunicação era - e é - mais do que suficiente para conter as máquinas de sinalização publicitária que fazem e enunciam as habituais campanhas. Seguidamente, JPP traduz a disponibilidade do eleitorado para a mensagem de Cavaco Silva em função de um “princípio de necessidade”. É verdade – e é tão óbvio quanto “exemplar” - que a necessidade de estabilidade pressupõe sempre a opção mais plausível (do mesmo modo que, para Kant, a necessidade de comprazimento pressupunha o belo). Ou seja, à falta de alternativas, a necessidade apenas acaba por aplicar o chamado princípio da ‘exclusão de partes’. E é exactamente por causa disso que toda a gente sabe que Cavaco Silva vai vencer as próximas eleições (sendo apenas dúbio quando, se na primeira, se na segunda voltas). No final do seu post, JPP inscreve na análise a dimensão mediática. É aqui que são focadas as consequências da “sobreexposição” e é aqui que ganha corpo a mais frágil de todas as ilações (baseada, creio eu, na recente entrevista à TV-I). O argumento de JPP é o seguinte: a pouca “plasticidade” de Cavaco seria dissuadida pelo facto de o candidato “falar de coisas sérias”. A tensão e a ausência do ‘must’ televisivo das blagues seriam assim superadas pela seriedade, como se esta se contrapusesse, por omissão, a tudo o resto que vai sendo enunciado e declarado na pré-campanha. À moralidade e alguma altivez do argumento (hipercodificando a seriedade, de modo monossémico, no meio de uma amálgama de ruído) corresponderá, por fim, o tom “declarativo”. E é este tom, afinal, que se constitui como substância vital da análise de JPP e que encontraria as suas raízes na capacidade de o “professor” escapar à anedota e à mundanidade, como se, no fundo, emergisse, ele mesmo, de um limbo puro, único e porventura providencial. Devo dizer que é um certo moralismo subliminar que me afasta de Cavaco. E o mais curioso - e surpreendente - é que é este mesmo esteio, impregnado de um silencioso “dever-ser” de imaculada exclusividade, que acaba, curiosamente, por se espraiar na entusiasmada análise de JPP acerca das potencialidades reais do candidato Cavaco Silva.

Agir

Que o ministro aja e seja eficiente. Se o fizer, nem chega a valer a pena dizer a palavra "vergonha", ainda que possa ter toda a razão.