quinta-feira, 17 de novembro de 2005

Novas subcutâneas

O Minitempo actualizado: Poe e questões adâmicas literárias.

A mais curta história judicial - 42

O provedor da justiça limpava os óculos. O Juiz Silvestre amaciava a toga. O magistrado mais baixinho dizia que era espiado pelos serviços secretos de todo o mundo. E ali iam os três, confidentes, cada um com um vaso de sardinheiras na mão. Depois dos santos populares, demitiram-se em bloco. E fizeram muito bem.
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Ponto final.

A mais curta história incidental - 41

O taxista lembrava o antigo nome da ponte e ela nada. O taxista vociferava, letra a letra, “S-a-l-a-z-a-r”. E ela nada. A bandeirada já passava dos dez euros e ela nada. Foi então que ela começou a trautear a abertura da ópera Guilherme Tell de Rossini. E o taxista, enfurecido com tal indiferença, travou de repente. E morreu.
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Ponto final.

Folhetim

O Trevo de Abel - Episódio 34
Terceira Parte: O tempo de Abel
Folhetim do Miniscente
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Está a ver, minha filha, tantas vezes a dizer que a vida não se compunha! A dizer que podia ter tido uma vida de luxo, é verdade, mas que depois tinha ficado viúva muito cedo, não é assim? Ele, esse saudoso Adão, era bom homem, bem parecido, uma bonita figura. Mas... ter sido seu namorado em jovem já é um orgulho e um privilégio que deve até agradecer a Deus. Mas, sabe, Deus escreve sempre direito por linhas tortas - eu que o diga! - E a felicidade, minha filha, tinha que acabar por bater-lhe à porta. Não é por acaso... o senhor Abel é um sujeito que, embora humilde, é tranquilo, discreto e deve dar-lhe muito carinho; Dona Olga abre então a boca e descreve uma larga baía com os lábios distendidos, hirtos, expelindo, em breves segundos, um estrídulo ai ai, ui ui.
Que bom que deve ser... ter um homem em casa, eu bem me lembro como era antes do Armando ter desaparecido em África, Deus o guarde e tenha compaixão de nós todos! Mas não me posso queixar, embora o que mais me custe, hoje em dia, seja a vista e o ouvido. Mas a gente distrai-se, há sempre coisas que fazer, cortinas, canjinhas, a paróquia, os fofos de Belas; o que é preciso é saber fazer bem a massa e polvilhá-la com açúcar bem granuladinho, também costuma fazer, não é? A minha mana, a sua vizinha, diz-me que sim e a Leonorzinha é muito jeitosa; pena é que depois do vosso... enlace, Dona Olga abre agora os olhos, embaraçada, como a não querer sublinhar a ausência da palavra casamento, - mas a Igreja até já protege o namoro e as relações de facto dos mais novos, mesmo sem matrimónio, não é assim? E os leigos já fazem, hoje em dia, quase o mesmo que os padres dantes aprendiam por si sós, e eu, sabe, minha filha, no fundo, até era capaz de admitir que nós, mulheres, pudéssemos dar missa. Não pense que sou assim tão antiquada, pois a idade cria caruncho e saudade do tempo em que despertávamos para certas coisas, mas agora os tempos mudam muito depressa, é tudo a correr, e a minha mana, pois, coitada, desde que a Leonor deixou de estar só, digamos assim, não vai já visitá-la como ia dantes e isso para ela até era importante.
Sabe, a minha irmã nunca conheceu homem, e agora Dona Olga colocou a mão sobre a boca e evitou que os maus-olhados e os espíritos mais aziagos se aproximassem do hálito de tais palavras, não vá o diabo enredar as suas histórias onde menos se espera. Bom, mesmo bom, é durante as longas invernias, ter ali ao lado um homem e, à noite, no tempo das constipações, servir-lhe um chazinho e umas torradas com aspirina e muitas colheres cheias de mel de favo é coisa que faz sempre bem, embora os intestinos, está a ver, isso é que é o pior. Gosto de a ver assim, rosadinha, composta e de novo a dar aulas sem aqueles pesos, aquelas dúvidas em que andou aí mergulhada. Pois é, pois é, eu apercebi-me de que a Leonorzinha andava mal; não andava mesmo nada bem, até pediu um atestado médico, ai, ai, ai, o que nós nos admirámos com isso, não fosse a voz esclarecida e sábia do senhor doutor e juro que até tínhamos, eu e a minha mana, pensado que a doença era mesmo coisa a sério. A voz é subitamente mais secreta, escondidinha, cheia de gafanhotos. Andar aí com dúvidas a mais não é lá muito boa coisa, não.
É que a Leonorzinha, nessa altura, andava tão branca, até emagreceu e pouco aqui aparecia na esplanada. Mas não há mal que não venha por bem e a menina, porque é boa moça, generosa, sempre pronta a ajudar e por isso… mesmo tinha que atrair até si aquilo que merecia; digo-lhe, minha querida, que eu sempre tive essa intuição, sempre a tive. Bem lhe disse, hoje e tantas vezes antes, que é por linhas tortas que se escreve a felicidade, não é assim? Leonor respondeu finalmente que sim e espreitou o relógio. Abel não voltara ainda à praça e há já meia hora que o médico e os restantes convivas tinham ido para casa. A tarde de sol e céu azul prometia. - E onde foi a sua irmã? Foi a casa da costureira que, pelas minhas contas, já cá deve estar. Foi o seu..., o seu Abel - sorrisos e cochichos - que a levou de táxi ao curandeiro do Sabugo, não sabia ?... Até mesmo o senhor doutor lá vai. Quem parece que não vê com bons olhos a ida do senhor doutor ao Sabugo, sabe quem é, sabe? Pois, pois, é a mulher dele. A Dona Isabel.
Sabe, é uma senhora muito difícil, sempre assim foi, e faz a vida muito negra ao nosso doutor, isto é... só aqui mesmo entre nós, eu até penso que ele... se fosse mais novo havia de repensar a vida. Mas já se sabe, dantes a educação era outra coisa e as alianças pesam, são bodas de ouro e de prata e por mais que se saiba que não há amor e que não há verdade, o certo é que na minha geração ninguém se atreve a divórcios e coisas dessas. A si, Leonorzinha, ainda a percebo. Repare, com quase trinta anos na altura desse pavor do 25 de Abril, é normal que se tenha separado. E foi o seu único casamento, pois claro. Deve ter sido uma experiência penosa, difícil, mas percebe-se. E os tempos também se davam a isso nessa altura, digamos que é até verdade, vistas as coisas já com uma certa... distância. Agora comigo, ou com o senhor doutor... não, não, não pode ser. Até lhe digo mais - Dona Olga como que deita o cabelo grisalho e o nó de vison da gravata sobre o desprevenido colo da professora - Olhe, o senhor doutor... conheço eu bem, há muito, muito tempo. Ah, Ah! não core, não core, Leonorzinha, que não é nada disso que está a pensar... isto é só a gente a falar. Só isso.
Bom, minha filha, tenho que ir andando, Tenho tanta coisa para fazer! Vou começar por ir ao pão, depois passo pelo senhor Figueiredo a ver se ele me arranja um peitinho de frango ou coisa assim do género, porque tenho andado com umas náuseas, à noite, umas sedes, umas coisas que nem imagina. Ainda vou aproveitar a luzinha do fim da tarde para coser as bainhas ao cortinado da dispensa e, depois, não posso perder a telenovela das sete. Também está a seguir, não está? Ai é? Olhe, eu não, vejo essa e a das nove e meia, faz parte do meu dia a dia. Ah... é verdade, a minha mana disse-me que a Leonorzinha tem lá em casa umas revistas espanholas de decoração, será que me podia emprestar uma que é, segundo julgo, acerca de cobertas... dessas que se usam para proteger os sofás. Obrigada, obrigadinha. Dona Olga levanta-se, cobre os mil anéis reluzentes com as luvas de cor pastel, fecha o casaco, apara o cabelo grisalho muito bem penteado, recebe das mãos de Leonor a sombrinha e conclui, no momento em que vê na sua frente o imóvel jardineiro da Junta freguesia: Ai filha, tenho que pedir ao homem para ir lá ao meu quintal. Tenho umas begónias e uns arbustos para desbastar, o limoeiro também está a morrer e, depois, é tanta erva daninha a aparecer por todo o lado que eu já nem sei o que fazer à vida!
Dona Olga despediu-se finalmente de Leonor que voltou a olhar para o relógio e seguiu logo para a escola. Até que, em frente dos jardins da Vila Jacinta, o telemóvel tocou e a professora foi levada a exclamar um emocionado - Olá Luísa! Ah! Desculpa não te ter logo reconhecido. Como estás? E a tua filha? Ah é? Uma reunião de amigos... mas fazes anos? Sim, sim, entendo. Olha, tenho todo o gosto e sabes... tenho grandes notícias. Sim, andou mouro na costa. Não, não, já acostou e aportou como deve ser. Sim, sim, como deve mesmo ser. Não, isso não. Sabes, eu já tive um divórcio e prefiro assim. Aliás, hoje em dia, já não é problema para ninguém. Na escola e entre as minhas amigas, mesmo as mais idosas, é coisa que toda a gente já aceita. Sim, estou bastante feliz. Tive aí, há uns meses, uns períodos difíceis... mas isso é coisa que já lá vai. E tu? Percebo, percebo, Mas ainda bem, pode ser que, desse modo, atinjas o que queres, não é? Está bem, está bem, eu depois telefono-te. Olha, e fico muito contente por te teres lembrado de mim. Sim, sim, talvez já há uns bons cinco anos que não nos vemos uma à outra! Um beijinho também para ti, clic.
Leonor andou depois até à casa das bonecas e, já na rua da escola, não retirou os olhos do telhado muito inclinado, quase germânico ou sintrense, que se ergue ao fundo, esbatendo-se no claro claríssimo azul do céu. Leonor vai tranquila, contente com o convite, - a Luísa, a Luísa dos tempos em que comíamos na cantina da câmara, em Alcântara. Depois a coincidência de sermos ambas Evas do mesmo Adão que Deus levou. A sorte que teve na vida... com o segundo casamento e a herança que ganhou do galo cantor é que são a minha secreta inveja. Quem me dera não ter que dar estas aulas e andar de iate nos mares do sul! Quem me dera.
À frente, impiedoso, o rosa esvaído das paredes é esventrado por janelas graves e pelo muro gradeado, vigiado por um guarda minúsculo com sardas e óculos quase redondos. Por dentro, no jardim centenário, várias dezenas de crianças brincam com balões de cores vivas, cheias, exuberantes, enquanto a colega de turno de Leonor, alta, gorda e quase já na reforma, agita os folhos da saia comprida, arrastando o ocultado bigode para cima e para baixo, tal como o movimento da corda que, de um dos lados, ela mesma segura. Toca a sineta e tudo recolhe subitamente para a sala de aula onde, no topo, ainda esmorecem os sombreados dos antigos retratos de Salazar e Caetano.

quarta-feira, 16 de novembro de 2005

A mais curta história de Júlio Dinis - 40

A mulher do guarda prisional meteu-se com o padeiro. Era de noite e a vida parecia ter ganho o sigiloso brilho da estrela da manhã. Até que o crime foi descoberto na aldeia. E o fogo de artifício transformou-se num imenso vulcão. Nada restou. vulcão irado. Nada sobrou.
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Ponto final.

Folhetim

O Trevo de Abel - Episódio 33
Terceira Parte: O tempo de Abel
Folhetim do Miniscente
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Foi no meio de lapas, algares, pedras maceradas pela ondulação e estranhos sinais inscritos nos estilhaços da arriba dados à luz pela maré baixa que a língua de areia se abriu. Vimo-la a partir das bóias de salvação, tábuas brancas engalanadas de pneus velhos e uma âncora desenhada a carvão. Tentámos alcançar a estreitíssima língua de areia, qual oásis entre a tormenta e a liquidez que nos despertaria os sentidos, o alarme do olhar. Pé ante pé, diante de salpicos e da aragem agreste que sobressaltava o corpo envolto em toalhas, em fervor antiquíssimo. O mês de Setembro desse ano longínquo parecia agora fechar-se, para sempre, com ilimitada saudade de tempos vindouros e também com o antecipado adeus que um certo silêncio já anunciava. Pela frente, a cadência infernal das ondas parecia disputar a bandeira vermelha que o vento sacudia, em ira de luas vivas e equinócio, com a mesma força com que a brancura azulada dos toldos, das cadeiras de braços e das barracas se agitavam no meio do areal praticamente deserto. Era um mar encapelado que desafiava a estreita língua de areia que o capricho das erosões fazia aparecer no termo da falésia; era o sopro da ventania a levantar, mais atrás, os apetrechos da praia e da própria estação balnear que parecia de vez acabar.
Continuo por trás das janelas das águas-furtadas à espera que Leonor chegue a casa a qualquer momento, abrindo a boca, a plasmar memórias e deixando o bafo colar-se nas pequenas vidraças quadradas da guilhotina da janela. Com o dedo, desenho diagramas sem sentido, riscos e folhas talvez de trevo, linhas rectas e uma maçã a adivinhar-se pelos contornos que conduzem o dedo a secreto porto. A vida é uma forma a compor-se a todo o momento, iguaria em expansão, essência talvez a esbater-se. Foi nesse Setembro, diluído já em miragem, numa voragem a esfumar-se, e onde o mais fértil dos mundos começava e acabava ao mesmo tempo, que nos deitámos como verdadeiros náufragos do desejo sobre a apertada língua de areia. Estávamos agora abraçados com a tentação mais desmedida e os meus dedos a desviarem a alça do fato de banho de Leonor, a unha sobre a virilha invicta e depois a folga, a abertura, a fissura magnífica e tanto sal, areia molhada, grão pastoso e algas e mais algas entre lábios, olhos e dedos navegando sob o soutien, ou sob o elástico de pano dos meus calções. A pele eriçada, desconhecida, estirada na palma da mão cada vez mais aberta; os olhos revirados, a lua no ocaso das marés vivas e o zum zum do mar tão próximo e ameaçador. Ri-me muito alto e atirei dois pedaços de madeira que as ondas tinham arrastado até à raiz do penhasco, da arriba negra e carcomida. O zum zum do oceano a rebentar, a crescer.
Até que a grande onda atolou o acto e nos mergulhou em súbito pânico. Vertigem brusca de quem espreita para além de. E os meus olhos à janela das águas-furtadas desenterrando essa miragem vivida há tantas vidas, eras e naufrágios sem mar. Se ela imaginasse que era eu, aquele Adãozinho tenro e ainda sem fibra! Talvez fosse esse o primeiro dos meus inexplicáveis naufrágios, generoso e sem qualquer bóia, nem corda de salvação, mas arrojado. Da casa azul, em frente, sai a irmã da Dona Olga com os seus óculos de tartaruga e vestido azul-escuro; é, pois, quase meio-dia e meia, hora de encontros no café. No céu, a luz tímida diz-me que a espera é breve, tranquila como a retina em catadupa inesperada. Limpo as vidraças lentamente com a manga do casaco e, ao descer as escadas, ouço ao longe a chave na porta. É Leonor, apressada, pergunta-me se também quero ir ao café da praça. Pois claro, é hora do chá de limão. Depois de almoço começa o meu turno, há tempo, espreguiço-me e ela a olhar-me fixamente como se fosse sigilosa adivinha, pitonisa de qualquer coisa remota, autêntica, desvelada há muito, mas sem nome próprio.
E o mar brutal avançando sobre nós nesse tempo sem fundo e depois, sem apelo, a dor súbita, imprevista e medonha ao embatermos nas rochas por umas duas vezes; nada do outro mundo, apenas o susto, o limite, ou o alívio de tornar a ver a onda a refluir. Levantamo-nos e os corpos mal resistem, e os gestos a perderem-se, e as vozes que dizem Leonor e Adão, Adão e Leonor; mal de nós se o intervalo entre as vagas for pequeno. Subitamente, a água em forma de espiral parece absorver-nos e enrola-nos os passos, as pegadas já translúcidas, a força com que nos detemos colados aos rochedos. De relance, vejo o fato de banho de Leonor trilhado, rasgado por cima da perna, talvez já na cintura. Entre as duas vagas fugimos sem saber onde pôr os pés, os braços, a névoa do olhar e a outra. Reparo subitamente que tenho sangue nos artelhos e Leonor, atónita, tem os olhos enlevados, aturdidos; queixa-se do braço, dos rins, da pancada, da vida sôfrega ou do instante inacabado.
Que sorte, mesmo assim, ter perdido de vista a língua de areia já ao longe; que sorte, apesar de tudo, ter revivido o prazer do abismo, afugentado pelo monstro vivo da natureza sem dó. E nós os dois, tantos anos depois, e sem podermos partilharmos sequer o passado, ali sentados no Café Parque, mal ainda haviam chegado as meninas de bata azul que trabalham na casa de saúde das irmãs hospitaleiras. Passados dois minutos, o médico atravessa a Praça e espreita para o lado da bomba de gasolina à espera que a revisão do carro esteja pronta. Junto ao Parque infantil, o jardineiro parou entretanto diante das ervas, da alfaia e do carrinho que faz lembrar o dos gelados nessa praia de antigamente. Parou o jardineiro diante do seu eterno canteiro e com ele deteve-se a ocultação do nosso olhar prolongado desde esse dia em que, na Praia das Maçãs deserta e plena de desejo bravio e enfurecido, nos conhecemos carne a carne. Cinco minutos depois, chegaram a Dona Olga e a irmã de braço dado. A meio do meu chá, a costureira da mulher do médico requisitou-me para ir a uma quinta no Sabugo e lá fiz a estrada de Pêro Pinheiro, antes ainda da minha hora.
Mas haverá uma hora marcada para fazer seja o que for? Perguntava-se Abel, enquanto descia ao largo do campo de golf e se lembrava de tudo. Era noite profunda e eu tinha ainda nos meus ouvidos o ruído seco das balas. A modorra nocturna da Gago Coutinho. O sol entretanto tinha nascido e eu, atemorizado, deixei atrás de mim o Cabo da Roca e toda a paisagem avermelhada e medonha de falésias e arribas. Sabia-me de novo transfigurado e ressuscitado; por isso, o horror e a fobia invadiram-me o espírito e a urgência de sobreviver a tais metamorfoses fantásticas e sem explicação. Como já acontecera uma vez, era preciso agora mudar de rosto, de gestos, de nome. Segui então para norte, como se fosse levado a reencontrar-me com este meu destino duplo: o da singular Belas e o da minha meninice de amores. A dada altura, estacionei a motorizada junto ao penhasco e, com a suada do mar a referver uns trinta metros mais abaixo - ainda a retenho com todo o seu alvoroço mortal -, corri em direcção à abandonada cabine telefónica. Era um casinhoto solitário, edificado na berma da maltratada marginal e onde eram visíveis os vestígios de antigas chamas. Puxei a porta de vidro para mim e, por milagre, ouvi o tinir constante do telefone. Meti moedas, rodei o número escrito por trás do cartão do Hotel Oriente de Barcelona. Falei com o mordomo de ares orientais e, à minha volta, sobre o tejadilho da cabine telefónica, começou a chover copiosamente. Juro que era uma chuva quase vermelha, assustadora. A voz compassada do meio filipino meio catalão lá me ensinou, com muita paciência, onde ir, onde me apresentar. Restavam-me os cheques do Porfírio e pouco mais. Foi numa destas quintas muradas junto ao campo de golf que acabei por entrar, devido à cunha do fiel mordomo. E foi assim que os meus lábios perderam espessura, que a minha face se estreitou ainda mais e que, por fim, a minha testa ficou mais ovóide e menos larga. Tinha agora uma face a dar para o triangular, compensada pelo cabelo mais curto do que fora apanágio em Caim ou em Adão. Atrás da orelha e sob o cabelo, as costuras acumulavam-se; era muita operação, muita mexida.
Aquilo tinha sido um acidente em pequeno, repetia eu a Leonor, em voz baixa de lençóis, sempre que ela passeava os dedos na minha cabeça. Leonor ouvia, ouvia, calava, mas repetia, com ar matreiro e sem o dizer sequer por palavras, - malandro, meu grande malandro, o matreiro és tu. Mas tudo isto eram sorrisos e gestos da pele, ternura leve e prazenteira, quando os corpos, a nu, enchem a casa e a aura perfeita onde chegam a habitar a dois. Foi nessa estranha casa-clínica que me deram novos papéis e me definiram a minha nova identidade. O meu destino era agora mais paroquiano, reservado, protegido. Taxista de boa memória. Abel de meu nome.

terça-feira, 15 de novembro de 2005

A mais curta história melodramática - 39

Tinham sido vizinhos durante anos e anos e raramente se olhavam. Um dia, encontraram-se face a face, de modo súbito, e decidiram fugir ao torpor que os perseguia. E um deles perguntou, com os olhos escancarados: “Se amanhã o mundo acabasse, que faríamos hoje nós os dois?”
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Ponto final.

Folhetim

O Trevo de Abel – Episódio 32
Terceira Parte – O tempo de Abel
Folhetim do Miniscente
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Subo às águas-furtadas e não sou capaz de deixar de pensar em Barcelona. Apenas por estar no sótão, nas águas-furtadas, no desvão, na mansarda, na trapeira, enfim neste espaço fechado tipo farol, breve torreão de menagem, resguardo infantil, porventura. Aqui dormiu Leonor durante anos e anos até que a morte dos pais a fez descer ao primeiro andar, acompanhada das bonecas, dos napperons, das molduras, dos pratos falsos da China, ou da Vista Alegre. É uma casa cor de cereja, talvez bordeaux claro, rosa ácido, ou mesmo tinto da região, desde que filtrado pelos raios do sol que entram pelas janelas altas que são de guilhotina, divididas em dezasseis pequenas vidraças por cada portada. Um encanto.
Leonor continua na escola. Espero-a como se estivesse ainda no passeio diante da casa branca da Praia das Maçãs e o mar urgisse, e a porta se abrisse pela calada, era tempo de sesta e os senhores haviam saído. Entrei e, por trás da marquise, viam-se pinheiros, arbustos rasos, campos de gaivotas a descansar do entra e sai pelas arribas, pela escarpa aberta; e nós abraçados, com mácula, talvez com aquele deslumbre que invade os corpos de tanto se desejarem; por tudo e por nada, Leonor punha batom e fazia-se mais velha, entrava-me nos olhos e dizia três palavras, uma frase, um ínfimo gemido... e eu corado por dentro, crescendo para fora, revendo o movimento dos braços na janela entreaberta das marquises; havia aragens fortes, marés estranhas, luas muito demoradas, era da idade e o tempo passou a correr, pode crer-se.
Parece que estou ainda a viver essa lenda longínqua. Estou de pé à janela da nova casa e vejo, em frente, outro sótão infantil e outra casa também de bonecas, azul-clara como a dos pombais da praça, e o telhado ao meio interrompido por um triângulo genuíno, onde aflora uma única janela no porão aéreo, na sobreloja. Subitamente, estou a andar de táxi e levo Leonor comigo pela primeira vez. Vamos a Sintra, Leonor precisa de ir à Câmara, coisas de heranças, diz. É claro que Belas já foi sede de concelho, há tanto tempo que isso foi, e, depois, enfim, contam tanta história, - O senhor é que, na sua vida, deve ouvir contar de tudo, não é? - Sim, até já tinha ouvido falar nessa coisa da Casa Real que dá ali para a praça e que, como a senhora disse, como é que se chama, Ah, sim, Leonor, Dona Leonor, pois, pois é; tudo isso foi há imenso tempo, era em Belas que se realizava a grande romaria - Claro, eram as festas do Senhor da Serra. - Nesses tempos remotos, o Marquês de Belas encontrava-se muitas vezes na Rua da Palma, em Lisboa, com um amigo que era meio galego. Um belo dia, morre o marquês e o amigo que era seu credor apropria-se da quinta e, mais tarde, são já os filhos do galego que vendem a quinta e também o palácio ao senhor Albufeira e este, por sua vez, assim reza história, Dona Leonor concorda, não é verdade? - Sim, sim, Leonor leva a mão ao cabelo e estuda o escorço, a efígie, a figura, a estampa, o brilho oculto na imagem reflectida nos vidros do carro - é este senhor Albufeira, dizia, quem acabou por dar cabo do jardim, da mata, das cataratas e até, um dia, as próprias festas do Senhor da Serra acabaram. Leonor, uf, era ela mesmo, uf, que euforia secreta; Leonor, dizia, fora à Câmara e eu passeei-me pela Pena, pelos cafés, espreitei a estação e o novo museu, mas só do lado de fora. Uma hora depois, lá trouxe a professora de volta até esta casa onde agora estou. Na Cândido Reis, é verdade que não me havia enganado.
Leonor já era assim no tempo da Praia das Maçãs. Tinha o riso exuberante, uma espontaneidade súbita e o olhar aparentemente fixo e monótono. Era agitada, corria mais que os miúdos, olhava com frieza para os arames do estendedouro que ficavam junto às lajes da marquise onde pousam as roupas. Pela calada, repito, eu entrava - e estou ainda a entrar - naquela óptima casa de praia que mais parecia um comboio (tinha um longo corredor ao meio, todo vazio, comprido e as portas abertas ou fechadas das muitas divisões da casa davam para essa passagem sem fim) até que, na frente da roupa estendida, encostados ao embaciado dos vidros, ela me puxou pelo pescoço e dançava e dança ainda com os seus lábios nos meus. Com uma fúria descomunal, imensa, arrebatada. Leonor tinha esse olhar fixo num ponto, mas era coisa só de aparência e foi por isso que Dona Olga, na esplanada do Café Parque, se virou para ela e lhe disse - Então, senhora professora, está a pensar no quê? Nessa altura, o médico chegou e recebeu da saloia anafada o seu saco de fruta e pediu o café. Dona Olga manteve o olhar suspenso, hirto, e do alto do seu cabelo grisalho muito produzido, casaco cor de camelo e gravata larga de vison com nó de ombro a ombro, repetiu Dona Olga a pergunta com ênfase, enquanto o médico espreitava para dentro do saco da fruta e abria as narinas e, por milagre, eu próprio apareci e logo pedi o meu chá de limão. Foi então que Leonor me repetiu o seu bom dia de sempre e, virando-se para a Dona Olga, carregada de anéis depois de descalçar a luva, e, claro, virando-se também para a esposa do médico, disse que hoje não ia dar aulas porque tinha uma grande dor de cabeça. Era do tempo, concordava o dono do café, a esposa, o doutor, Dona Olga, a própria decerto e até eu disse que sim com a cabeça, mantendo o apreciado silêncio de sempre.
Esse meu gesto, ou talvez a manha com que o meu olhar se terá emancipado das operações plásticas por que já passei, ou mesmo algum desejo mais sublunar, tiveram influência nos planetas de Leonor. E a verdade é que, nesse dia à noite, quando o telefone tocou na Praça 5 de Outubro, e o tinir da campainha sobrevoou o vazio dos bancos de pedra, dos pombais, do parque infantil, do coreto, de tudo - e eu atendi, era a voz dela quem falava do outro lado e me pedia que a levasse a Lisboa, - É que a esta hora só uma pessoa de confiança, sabe! Fomos pelo IC19, Segunda circular, Avenida da República e, mesmo ao pé da Biblioteca Nacional, disse-me de súbito - Pare o carro se faz favor. Eu parei e ela atrás, com um xaile lilás à volta do pescoço, perguntou - Se deixasse por acaso de ser taxista, era mesmo capaz de largar de vez a sua profissão? Que sim, já tinha trabalhado pelo mundo todo, fora gerente de empresas, trabalhador de marinha mercante, agente da Swissair, operador de televisão e agora taxista. - O meu problema é esse! Sabe, penso que as minhas dores de cabeça só surgem quando, de repente, há qualquer coisa que eu, no fundo de mim, recuso ou detesto fazer. Gostava de ter estado em todos esses países e ter feito outras coisas, mas agora é tarde demais!
Percebi que queria desabafar e, por isso mesmo, de modo simpático, convidei-a para cear num restaurante perto de Queluz, coisa de jeito, bem frequentada. Fui ficcionalizando a minha vida como pude e, naturalmente, ocultando as outras vidas por mim vividas enquanto, do lado dela, ia ouvindo o rosário triste da sua história e a revelação mais inesperada; ou seja, para além de tanto desaire, apenas as tais longínquas férias de Verão, na Praia das maçãs, se salvavam na alegria da memória. Corei, cruzei os braços, cocei as mãos e lembro-me que havia imenso calor dentro do restaurante e, além do mais, fazia-se já bastante tarde. Por isso, levei a Leonor à porta de casa e aconselhei-a a pedir um atestado médico, a dar uma volta, a ocupar-se com outras coisas durante uns dias; - Eu... podia levá-la à Nazaré ou à Batalha, enfim, se achar que não é, vamos lá, ousadia minha dizê-lo ou, por outras palavras... que está à vontade na sua vida para que eu o possa propor desta maneira. Que sim, dizia Leonor - Mas esta minha cabeça é... e não conseguia acabar a frase de modo nenhum e eu logo me apercebi da atrapalhação e, nestes casos, diz a sabedoria antiga, que é melhor deixar a festa por acontecer, no ponto de rebuçado, na margem limite. Foi o que fiz. Saí do carro nessa altura, abri-lhe a porta e ela saiu. Disse boa noite secamente, apertei a mão e apenas pus o táxi a trabalhar quando vi luz acesa no primeiro andar. Sabia agora que os próximos episódios ditariam sentença.
Continuo nas águas-furtadas e já não penso em Barcelona. Mas lembro que no tempo dos meus catorze a quinze anos não havia ainda esgotamentos, angústias a metro, desabafos tresloucados e várias vidas vividas. Havia apenas a esperança de viver uma única vidinha e era ao correr da pena que, por linhas ínvias, o destino se escrevia. Era uma caligrafia que se estendia, leve, diante daquelas marquises onde havia o tal grande estendal, o cheiro a goma, a mão sábia das lavadeiras, as cortinas de rede e, por trás do embaciado dos vidros, os lábios dançavam durante uma eternidade que se ia dilatando fora do tempo. Nessa desordem feliz, ou melhor, nessa felicidade meteórica e sem tradução possível morava eu e morava a Leonor; enquanto, agora, é nesta desordem desencontrada, ou melhor, neste desencontro tornado encontro e sem qualquer explicação possível que eu e a Leonor habitamos numa mesma casa.
Tudo aconteceu numa ida à Batalha, talvez um mês depois da ceia. Tinha estacionado o carro perto de Vieira de Leiria, algures bem em frente do oceano nocturno e tumultuoso. Aí, à beira desse areal meio molhado, lembrei a Leonor, mas sem nunca falar, sem uma única palavra, tudo, tudo, tudo o que ela já vivera, quando as Maçãs ainda eram uma praia paradisíaca e solar. Dei-lhe a ler a maresia, o sussurro das ondas, a noite. E nós ali agarrados ao fim de algum tempo de pasmo. E nós a lutarmos com os nossos fantasmas, sem saber onde passar a mão pela pele, pela roupa, pelas extremidades da história. Tanta atrapalhação e engasgo que valiam por cometas e luzes de ribalta. Como me lembrei do pirotécnico Afonso! Era uma história de amor inesperada. Pela idade, diria ela. Pelo meu singular fado, pensaria eu.

segunda-feira, 14 de novembro de 2005

A mais curta história de errância - 38

Leonor correu até ao fundo da carruagem sem saber porquê. Parou junto à porta do restaurante, fixou demoradamente o pinheiro, a paisagem adormecida e aquele homem muito alto que tinha um jornal debaixo do braço. Até que entrou no compartimento 36. Aí se sentou ao colo de Proust e adormeceu.
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Ponto final.

A mais curta história gaia e científica - 37

Passou a carroça. Ouviu-a como quem se pendura na Via-Láctea até percorrer o mais ínfimo eco. Foi depois à janela e pensou que devia escrever a palavra “coveiro”. E depois o resto: “Será que ainda não estamos a ouvir o ruído que fazem os coveiros a enterrar Deus ?”
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Ponto final.