terça-feira, 11 de outubro de 2005

O recato
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Harry Gruyaert
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Lembro os altos fornos de IJmuijden na noite avermelhada e densa. Gaivotas funestas e flores consumidas pelo pão que tinha a forma de âncora. Na parte da frente da embarcação, velejava a escultura de uma mulher com garfo tridentino entre braços, seria uma bruxa do tártaro e, ao mesmo tempo, a simples e desalinhada volúpia do Mar do Norte. Lembro Les enfants du paradis de Carné e os mercados perdidos na ventania da imensa rua de barracas de mexilhão, picantes do Suriname e queijo jong belegen de Gouda. As nuvens rejuvenescidas, o horizonte incerto, o mar picado, a palavra enternecida ou quebrada.
Autárquicas - 6
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Mark Power
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Acabou a campanha e acabou também o leque de dissimulações que acompanhou a noite eleitoral. Subitamente, um silêncio glacial percorre o vestígio puído dos cartazes e o eco ainda turvo dos discursos. À ficcionalidade afectada, sucede agora a patética imobilidade das paredes vazias. Ciclos embaciados, desfocados, sem fronteira certa entre si. Para que o recolhimento fosse quase perfeito, eis que a chuva veio ajudar o novo sigilo a conformar-se com a respiração que ainda sobra para além de imagens e palavras de ordem vazias. O que restará, portanto, à intensidade encenada desde o início do verão? A simples memória do espectáculo, a mnemónica dos rostos salvadores, a chama das paixões sem qualquer objecto, ou, tão-só, o esbanjamento de uma espécie de redenção sempre e sempre adiada?

segunda-feira, 10 de outubro de 2005

Autárquicas - 5


Mark Power

Para o grande público há duas linhas de força fundamentais na governação de Sócrates: por um lado, algumas reformas corajosas que tendem a irritar as fortes corporações do país; por outro lado, a habitual e viciada política de nomeações que tende a fragilizar o governo. Marques Mendes, que ontem sentiu o dom da vitória eleitoral, tem perante estas duas linhas de força um comportamento algo perverso: face às reformas, portou-se muitas vezes como um sindicalista, abrindo portas à demagogia que devia ser natural noutros sectores; face às nomeações, protestou amiúde como se, neste particular, o bloco central não tivesse sempre evidenciado um comportamento simétrico e mutuamente conivente. Estas considerações não lhe retiram mérito, sobretudo no modo com se soube opor às chamadas candidaturas judicialistas, mas fazem sinceramente pensar acerca do que significa hoje em dia ganhar eleições (e dos meios correntemente usados para tal).
Autárquicas - 4
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Mark Power

A transmissão em directo do discurso de Valentim Loureiro mostrou ontem um homem que podia ter saído dos fascismos dos anos trinta: foi o modo tumultuoso e irascível como pegou no microfone, foi o acenar turbilhonado das mãos, foi a enfatuação rouca da voz, foi a ameaça latente e ruidosa e foi ainda o crispado espírito de vingança claramente ostentado. Nada nem ninguém evidenciaria naquela presença um discurso de vitória democrática, onde o que está em causa é a pluralidade, a opção, a tolerância e a colegialidade entre pares. Um sinal dos tempos a reter.
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P.S. - Mal vai Jorge do Coelho e o PS se apenas vêem nestas manifestações o que lhe convém (isto é, acabar com as listas de independentes por conveniência própria e partidária) e não o que elas realmente significam para a liberdade e para a democracia.

domingo, 9 de outubro de 2005

Autárquicas - 3
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Mark Power
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Avaria do sistema informático do STAPE, vitória dos candidatos judicialistas (com excepção amarantina) e sondagens confirmadas em Lisboa, Porto e Sintra. De resto, é ainda difícil saber o destino de mais de 57.000 autarcas. Há nisto tudo um aroma de clara normalidade: mão no bolso, autocolantes esfumados, casaco aberto, águas paradas.
Autárquicas - 2
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Mark Power

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E que tal este extracto de entrevista? (TSF às 18.36): "- E o Dr. Eduardo Lourenço pensa que há caciques bons? - Eu penso que sim."

Autárquicas - 1
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Mark Power
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Devido a declarações proferidas por Mário Soares, hoje às 16.40, eis o que declarou o porta-voz da Comissão Nacional de Eleições, Nuno Godinho de Matos:

"O Dr. Mário Soares cometeu um ilícito expressamente previsto no número dois do artigo 167 da lei eleitoral para os órgãos das autárquicas locais, porque no dia da eleição ele apelou ao voto numa determinada força política, que ele nomeou expressamente. A multa aí prevista é de prisão até seis meses ou multa até 60 dias."

Isto promete.

sábado, 8 de outubro de 2005

Pergunta da semana
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Harry Gruyaert
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Lembro-me de atravessar a rua e esquecer-me de tudo. Há palavras assim, soam a torvelinho mas são tão simples como estar a meio da rua esquecido da tempestade. Eras tu que estavas a olhar para mim?
Semiosfera – 6
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Lise Safarti
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“há mais de uma semana que só ouço música francesa, algo novo na minha vida.”

"E
já fui tanta gente. Já morri tantas vezes, já amei tantas vezes, já tive medo, já fui corajosa, criminosa e heroína, já fugi, já lutei, já descobri, já criei."

“A todos os leitores da Rua da Judiaria, aqui ficam os
desejos de um doce e feliz ano de 5766!”

"As acusações contra a autarca por parte de arguidos do processo "
sirene oculta", membros do PS, já têm alguns meses."

"Maria José Nogueira Pinto - Confirmou a
excelente campanha que fez (...)"

"Os
sindicalistas militares acham que a "vigília" que fizeram junto a São Bento não foi uma manifestação."

"A condição de informar, o respeito aos destinatários da informação (os leitores) e a responsabilidade do jornal O Público (que se supõe imune a pressões de todo o tipo) é, hoje,
puro logro."

"Eu, que nos últimos anos tenho escrito texto atrás de texto de combate à abstenção, tento racionalizar, o melhor que posso,
a decisão que tomei há várias semanas - abster-me, pela primeira vez na vida, numas eleições."

"O que, no fundo, quero perguntar é: a partir de que idade é que se pode achar que o Pulido Valente – se lhe retirarmos o mau feitio e as estantes demasiado atafulhadas –
tem toda a razão naquilo que tem escrito ao longo dos anos?"

"Poesia ambulante, o poeta limita-se a cuspir as palavras. Senão pela boca, pela pena. Na folha.
Da folha à boca. Da boca à cena."

"
Quero... um apartamento em Sto Amaro. um lugar sentado na esplanada do Grande Onda sempre guardado para mim. um lugar sentado na esplanada do Grande Onda sempre à minha espera. a cor de olhos da dra. Corday (e o sotaque também). as asas de uma gaivota."

"Desde pequeno que
resolvi não me envolver em qualquer crime económico, por achar que lhe falta panache e não ter vocação."

sexta-feira, 7 de outubro de 2005

Antecipei a reflexão
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Constantine Manos
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A qualidade do decurso eleitoral é tal, que decidi antecipar a reflexão. Construí o meu próprio cenário, encenei os meus próprios candidatos e voto hoje à noite aqui no escritório. Felizmente não voto em Lisboa, caso contrário iniciaria já hoje o percurso de voto inútil que irá, no meu caso, culminar nas presidenciais. Boa sorte a todos!