Sem comentários (citado do Público de hoje)
quinta-feira, 8 de setembro de 2005
Sem comentários (citado do Público de hoje)
quarta-feira, 7 de setembro de 2005
O sol quase outonal a descer sobre Lisboa. A silhueta em fuga ao longo das montras, casaco até aos pés, cores claras, jamais saberei quem é. Há pessoas que vemos apenas uma vez. Nem sei por que razão retemos a espessura desse momento. Talvez a memória pondere a sua própria redenção.
terça-feira, 6 de setembro de 2005
Na Europa política os factos são muitas vezes meras dissimulações. Mesmo quando toda a gente vê que o rei vai nu, os políticos de Bruxelas preferem amiúde sorrir e acenar na direcção das nuvens. É por isso que não foi possível dissuadir a tempo a hermética aventura de Giscard d'Estaing. Passados alguns meses, Durão Barroso parece ter posto finalmente a mão na consciência:
"Num futuro próximo, não teremos constituição. Isso é óbvio. Não estou a ver qualquer fórmula mágica que a possa ressuscitar. Em vez de discussões intermináveis acerca das instituições, trabalhemos com o que temos. A vontade política e a liderança são mais importantes que as instituições"
(declarações ao jornal Rzeczpospolita citadas no DN de hoje)
Mas já se sabe que a longa espera até ao próximo ano e as etapas retóricas que a sucederão irão consumir energias infindáveis. E, no final, bem sobre a meta, desta vez, Durão acabará por ter toda a razão.
segunda-feira, 5 de setembro de 2005
Na passada semana, quase no final do longo discurso de Mário Soares, a citação dos últimos quatro versos do poema Liberdade de Fernando Pessoa levantou a sala do Altis. Ouviu-se então um murmúrio de fundo, uma sacudidela no torpor do ritual, ou, até talvez, um rumor de felicidade pela devoção reencontrada. Não tanto a de Soares, mas uma outra mais profunda e silenciosa: precisamente aquela a que o regime vem devendo investiduras há já algumas décadas.
É verdade que Fernando Pessoa se tornou, nos últimos trinta anos, numa espécie de texto puro e intocável que ninguém põe em causa e a que todos, ou quase todos, recorrem para tornar o presente num episódio com algum sentido. Tal como nos ‘tempos antigos’ os profetas utilizavam a citação da escritura para atribuir coerência ao vivido, e em primeiro lugar ao presente (em conformidade com uma ordem superior e indiscutível), também o actual regime – constitucionalmente laicizado e dissociado das âncoras espiritualizantes do regime que o antecedeu - acabou por encontrar em Pessoa o esteio ideal para transformar o seu verbo em convicção transparente.
Ramalho Eanes surgiu no final do PREC como o homem estóico e imerso em voz seca de comando para, mais tarde, vir a repousar na melancolia aparentemente épica e almofadada do regime. E foi durante essa viragem que terá dito, com o intuito de desencorajar a letargia lusitana, que era chegada a hora: “É a hora!” (encerrando, talvez para sempre, “Os tempos” da terceira parte da Mensagem).
O centenário do nascimento de Pessoa, em 1988, constituiu o momento por excelência de celebração escritural de Pessoa (a entrada para a CEE, de que os Jerónimos serviram de rosto para a cerimónia de investidura e também para a trasladação do corpo do poeta, definia um novo cenário a que a “identidade” não se podia subtrair). Vários livros importantes precederam a ritualização dessa data: de Eduardo Lourenço, Poesia e Metafísica: Camões. Antero Pessoa (1985) e o famoso Fernando, rei da nossa Baviera (1986); de António Quadros, Fernando Pessoa, Vida, Personalidade, Génio (1981) e iniciação global à obra (1982); de José Augusto Seabra, Fernando Pessoa ou o Poeta-Drama (1974) e O Heterodoxo Pessoano (1985); de Joel Serrão, Fernando Pessoa, Cidadão do Imaginário (1981), entre muitas outras obras de fixação mítica.
Pondo de parte a cenografia de louvores à nossa inteligentsia criada pelo “Prémio Pessoa”, a década de noventa afastou-se um pouco da saga pessoana, até porque os novos desafios de abertura do mundo e de assunção tecnológica convidaram a novas teias e projectos, dos quais ressaltou, entre um singular optimismo em fuga para a frente, o ‘espírito de obra pública’ que haveria de ligar o “centrão” político à gesta de construção do C.C.B. e sobretudo da Expo-98.
Meia década passada sobre o Carnaval dos nineties, é verdade que o mundo mudou radicalmente, sobretudo por causa do pós-09/11, enquanto, a nível interno, a crise passou a metaforizar a própria doxa quase surreal do país (os primeiros-ministros evadiam-se a meio dos mandatos ou caíam no “caos administrativo”; escândalos como o da Casa Pia ou o dos incêndios proliferavam). É assim, com toda a naturalidade e já nas vésperas das eleições presidenciais de 2006, que Fernando Pessoa acabou por reentrar no nosso caminho.
Foi Mário Soares, como já vimos, quem primeiro o utilizou para justificar quase tudo: a intemporalidade, a vocação íntima, a “não-obsessão financeira” e um certo “humanismo” que vive à custa da proclamação retórica. Dias depois, o pouco inefável Louçã voltou a relembrar Pessoa através de um cliché publicitário conhecido. Tudo para dizer que irá “até ao fim” e que o seu espírito acabará por “entranhar-se” na galáxia da auto-flagelação ocidental. Não sei se Cavaco irá, dentro em breve, aparecer com a máscara de Alberto Caeiro a discursar sobre a sua aldeia e o quanto dessa “terra se pode ver no universo”. O que sei é que a mitografia portuguesa se reencontrou, mais uma vez, com a sua escritura preferida. Talvez assim descortinemos algum sentido, ou alguma “coerência forçada” como escreveu Franz Kermode, nos factos e nos meta-discursos que escorrem diariamente de modo instantanista diante dos nossos olhos.
domingo, 4 de setembro de 2005
Já não vou a Viana do Castelo desde a excursão de finalistas do meu liceu (imagine-se que a viagem se realizou algures na Páscoa de 1971). Mas creio que esse terrível demónio designado por "prédio Coutinho" ainda não havia sido semeado na cidade. Agora parece que o Polis tem dinheiro que baste para o demolir em condições ditas convenientes. Para além da óbvia economia da operação, sobretudo nos tempos que correm, o "prédio Coutinho" vai tornar-se, seguramente, no bode expiatório do regime. Por uma simples razão: em coerência com este singular Polis vianense, Portugal deveria ter orçamento que permitisse também demolir boa parte da Buraca, da Maia, da Reboleira, da Trofa, etc., etc., etc., para além da miríade de torres que abunda em Esposende, na Póvoa, em Armação, na Rocha, em Albufeira, etc., etc., etc..
Portugal continua a ser um país de grandes feitos! Abaixo o "Coutinho"!
sábado, 3 de setembro de 2005
Há quem tire partido da terrível catástrofe de Nova Orleães (saiba-se lá com que autenticidade) para se indignar com a incompetência e com a negligência dos EUA, essa "grande potência", como se qualquer planeamento humano pudesse evitar a quase derrocada de uma cidade edificada tão fragilmente sob o nível das águas do mar. É uma nova versão da teodiceia que fez a sua época no pós-1755 lisboeta, mas, desta feita, fazendo do seu discurso o pretenso discurso do julgamento divino e dos EUA o natural e desejado inferno.
P.S. - Mais uma vez, a contra-cultura auto-flageladora do Ocidente parece fundir-se com o delírio pseudo-teológico de certos radicalismos islâmicos que mencionam o "terrorista Katrina" como sendo um dos "soldados de Alá".
sexta-feira, 2 de setembro de 2005
"O lirismo da linguagem não consegue encobrir a parcialidade flagrante dos recentes trabalhos da jornalista Alexandra Lucas Coelho a partir da Cisjordânia. Esta parcialidade assumiu contornos chocantes na sua crónica publicada no passado dia 21, intitulada "Dó de quem?", na qual se entrega a um duvidoso exercício de comparação entre o sofrimento dos habitantes dos colonatos, obrigados a evacuar as suas casas, ao sofrimento dos palestinianos, para evidentemente concluir que o primeiro é irrisório: "Os colonos viveram muitos dias bonitos, nas suas casas bonitas, à beira de praias bonitas"... Alexandra Lucas Coelho pode saber muita coisa, mas o que não sabe com certeza é que nunca se comparam sofrimentos."
Tinha reparado nessas crónicas. E em muitas outras.
Há quem insista em preencher os vazios que advêm da falência de causas oitocentistas através de um anti-semitismo bizarro (o que faz lembrar, nem sempre subtilmente, alguns dos piores momentos vividos no século passado).
quinta-feira, 1 de setembro de 2005
Ontem vi e ouvi com atenção a apresentação de candidatura de Mário Soares. O mais importante para mim foi a moldura humana que ali acorreu. Reflectia o establishment, a inteligentsia e o reiterado acomodamento que, embora com contornos completamente diversos, quase se assemelhou a uma "brigada" de triste memória.
Tenho praticamente a certeza de que o ritual em torno de Cavaco Silva não destoará, se não ultrapassar mesmo a cenografia ontem pungentemente vivida no Altis lisboeta.
O regime anterior, no seu íntimo modo anti-democrático de fazer e imaginar a política, prolongou durante décadas uma sede de não renovação quase asfixiante. Mesmo os mais novos, que foram singrando na década de 60 e no início da década de 70 (a geração ballet rose), repetiram ininterruptamente a velhice e o sentido de "brigada do reumático" dos seus mitógrafos e epónimos.
Parece-me grave que o regime democrático, com quase trinta anos de história, mantenha a mesma invariante histórica tão pouco sadia e tão própria dos corpos com pouca fertilidade e em franca decadência.
Soares disse que vinha combater o pessimismo e Cavaco virá falar na 'rectidão do centrão'; mas a intemporalidade que perpassa nesses discursos e na galeria viva que os acompanha tem a cor do abismo e respira (inapercebidamente) uma espécie de ávido ressentimento da tristeza.
Como dizia Marivaux, há quem goste "mais da miséria alegre do que da miséria triste" (Arlequim, Acto II, Cena V de A Surpresa do Amor, 1722).
O "duplo discurso" de Tariq Ramadan reflecte afinal muitas das inclinações e ambiguidades das segundas e terceiras gerações islâmicas que habitam as urbes da Europa.
Talvez tenha sido por isso que foi convidado a integrar "uma equipa que deverá propor formas de evitar que os jovens muçulmanos do Reino Unido sejam atraídos por ideologias extremistas".
Porventura, um estranho convite. Até porque, ainda não há muito tempo, os EUA recusaram um pedido de visto ao próprio Ramadan.