sexta-feira, 29 de julho de 2005

Digressão matinal

Se o universo está em expansão é porque existe uma força que é mais forte do que a força da gravidade. Os cientistas chamam-lhe a energia negra, criadora de matéria negra. Platão, afinal, sabia que o lado visível e observável era uma brincadeira de crianças. É por isso que eu gosto de Campo de Ourique: do que se vê, dir-se-ia ser uma harmoniosa cidade de província; do que não se vê, já se sabe que é filha do sobrepovoamento e da respiração alheia. Mas, mesmo assim, é um belo buraco negro para viver. Às vezes.

quinta-feira, 28 de julho de 2005

Sinais - 2

Se em Portugal a questão é não dizer aquilo de que se fala (ver post por baixo), já no Brasil a questão é saber se Lula sabe, ou não sabe, daquilo de que se fala (e que se passa). Afinal, nesta transa atlântica, nunca se sabe o que se sabe, nem nunca se fala do que se sabe.
É isto a “cultura”?
Sinais - 1

Toda a gente concorda com a sensatez do manifesto dos economistas ontem divulgado pelos média. Mas há um ponto que eu destacaria e que é, no fundo, o mais português de todos: nunca se refere aquilo de que se fala. Há entre nós uma insaciada paixão pela expressão tabu que envolve a coisa dita sem jamais a dizer (neste caso, era a Ota e o TGV).
É como se a palavra nunca tocasse o alvo desejado. É como se um discurso nunca visasse um objecto real. É como se a burocracia nunca saciasse um circuito referenciado. É como se o desejo nunca tocasse na coisa amada. É como se um termo nunca se ajustasse à proposição que é a sua. É como se uma imagem nunca se centrasse em si própria.
É isto a "cultura"?
Veraneantes - 15

Se o gelado é o petisco da hora proibida, os caracóis são o haiku do fim da tarde.

quarta-feira, 27 de julho de 2005

Só visto

De facto, é bem melhor do que comprar aqueles romances que se levam para férias (histórias exóticas muito bem contadas e muito legíveis com triângulos amorosos acertados e descrições enfadonhas e muito realistas dos personagens, com um apimentado religioso, misterioso, esotérico, engatatal, bananal, sexual com open space, roça e museu ao fundo).
Memorial de desconcertos
e

Houve expressões que guardei dos tempos de liceu: o desconcerto do mundo, a Florida (em vez da Flórida), o primeiro de Dezembro, os olhos verdes da Joaninha, a bola de catchum, os contínuos, o quinto império, a O.P.A.N.*, o canto coral, as caçadas desenhadas nos azulejos e a deliberada leveza dos plátanos que me conduzia ao velho edifício.

*"Organização Política e Administrativa da Nação".

Veraneantes - 14


Se a ventania é o logro das amazonas, posts pequenos como estes são as chiclets da blogosfera (I mean: the original candy coated gum).
Ausências


Tinha imagens espantosas. Onde andará?
Veraneantes - 13

Se o toldo é o recolhimento da boazona, a toalha turca é o tapete voador do galã.

terça-feira, 26 de julho de 2005

Veraneantes - 12

Se o voyeur é galo de pouca gula, a galinha é a praia na platónica letra do poema.