quinta-feira, 5 de maio de 2005

Quotidianos - 9

Estou numa esplanada e peço um pastel de nata com canela e um quarto de leite Vigor (faço questão, neste caso, de explicitar a marca). O empregado deita o leite no copo e eu bebo-o lentamente. Adoro leite gelado em tarde quente de Maio. Só depois de ter lido o jornal é que reparei que a garrafa (de vidro) estava totalmente rachada de alto a baixo, em várias direcções, quer por dentro, quer por fora. A fragilidade do vasilhame era tal que, na minha mão, quase se desfez. Entro no café com a garrafa na mão (e a dizer das boas) e o empregado fica de imediato alarmado. - Mas… bebeu tudo? - E eu respondo que sim. Moral da história: pedi que guardassem a garrafa, não fosse preciso alguém pagar a cirurgia. Até agora não houve sinal de coisa maligna ou funesta. Devo é ser um belo faquir.
Quotidianos - 8

Sigo pelo passeio e ouço um rumor agudo ou um estrugir demorado (como se fosse vela de veleiro a roçar com pressão sobre asfalto). Olho e vejo subitamente um enorme guarda-sol a cruzar a rua arrastado pelo vento. Dou um salto e evito o choque. Bons reflexos. Logo a seguir, o empregado do café atravessa também a rua e vem fechar o dito guarda-sol que mais parecia um animal enfurecido. Só depois, os dois táxis que haviam travado na altura certa puderam avançar.
Esconjuros

Escreve hoje Maria Filomena Mónica no Público:

"Um amigo meu, médico no Algarve, contou-me, há três anos, um episódio revelador. Tendo analisado clinicamente uma miúda, violada pelo pai, interrogou-o sobre como lhe fora possível fazer tal coisa. A resposta veio, lesta: "Olhe lá, sr. dr., eu não estava a engordá-la para que outros a viessem comer, pois não?" O processo da Casa Pia mudou tudo. Hoje não se fala de outra coisa."

Sem comentários.

quarta-feira, 4 de maio de 2005

Já On-line!
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Voltarei ao tema, pois há artigos que a tal obrigam, como por exemplo o de Paulo Tunhas, Vamos então pensar, onde se visa o inefável Boaventura S. Santos. Aliás, numa primeira leitura do artigo recomendado pelo professor de Coimbra e de Porto Alegre, fiquei logo a saber que um"intelectual" ocidental "não pode ter opiniões sobre o Islão". E eu que andei uns anos a estudar essa língua semítica e tanta outra coisa relacionada... e que tenho ainda, pelo menos, uns dois livros sobre o assunto e uma série de artigos, o que é que me vai agora acontecer?
Estou a tremer, professor Boaventura!
Quotidianos - 7
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Olho para cima, por entre persianas de faia, e revejo a abside quase oculta de uma dessas igrejas com que a austeridade da Contra-Reforma nos baptizou. Mas vista daqui ela sabe a mistério, a dissipação e a limpidez. E é isso que interessa.
Quotidianos - 6

Quando venho de casa para o escritório, atravesso um passadiço esverdeado que é uma espécie de agregado de juntas metálicas e por isso mesmo treme, faz-se ouvir, trina, ribomba e leva-me a imaginar que estou a andar sobre aquelas águas tumultuosas que apartam dois navios muito paralelos em alto mar, porque presos um ao outro à distância por cabos de aço.

terça-feira, 3 de maio de 2005

Futebol mudo

O nível dos comentadores é tal que apenas consigo ver o jogo do Chelsea retirando totalmente o som à televisão. Para além da incompetência e dos dislates generalizados, há naquelas vozes o eco de géneros alimentares misturado com dentes de elefante e com as famosas "lixívias de balneário". Chega.
A mitologia do colo

Belo post do Pedro Mexia sobre o mito do "Benfica levado ao colo". Vale a pena ler.
O que é entronizado é bom

Agora desatou tudo a responder ao mesmo questionário sobre livros (é aquela coisa que começa pelo “Fahrenheit 451”). Intriga-me esta tendência que convoca o feérico desejo de massificar e repetir os registos. E a verdade é que dezenas de blogues tentam inventar originalidades em forma de beco invisível. Como se a blogosfera fosse uma tertúlia de amigos e não um conjunto de dispositivos onde se processam expressões. Como se ter e escrever num blogue implicasse uma inevitável rede de afectos e de ternas familiaridades (de que se falará, por exemplo, num encontro de blogues?).
Juro que, qualquer dia, ainda espalho pela blogosfera uma pergunta do género: “O que faz nos tempos livres?” (a minha resposta é, aviso já: "Jogo ao monopólio").
Quotidianos - 5

Iniciei hoje inesperadamente a época balnear 2004-2005 (a do ano passado acabou no fim da tarde de 7 de Outubro). Nado muito mal, mas com imensa pertinácia e sempre com a cabeça de fora de água, não caia um meteorito por perto.