sábado, 30 de abril de 2005

Paciência asiática


É o indiscutível sinal de que vem aí, mais ano menos ano, a reunificação da grande China. Na fotografia, à esquerda, o líder da oposição de Taiwan, Lien Chan, é recebido pelo presidente chinês, Hu Jintao. Parece claro neste cerimonial quase simétrico o desígnio simbólico de suster a tentação independista do reeleito presidente de Taiwan, o senhor Chen Shui-bian. Depois de dar cartas na liberalização do comércio internacional, a China prepara agora aquilo que há sessenta anos parecia ser uma dissensão irremediável. E fá-lo com habilidade, com tempo, ou seja, com uma ilimitada paciência asiática. Chapeau. Escusado será dizer que esta é mesmo a fotografia da semana. Enquanto discutimos datas de referendos, tramas do Tratado Constitucional e as levas da inútil contracultura anti-americana, eles dançam a valsa como muito bem entendem.

A primeira cyborguização

Ian McEwan

“The novel is supreme in giving us the possibility of inhabiting other minds. I think it does it better than drama, better than cinema. It’s developed these elaborate conventions over three or four hundred years of representing not only mental states, but change, over time.”

Entrevista a Ian McEwan (por Ramona Koval)

sexta-feira, 29 de abril de 2005

Um escritor em sentido



Eu leio pouco, ponto final.
Um escritor que o diga está a cometer uma heresia, uma traição. Pois é, eu sou um traidor e um apóstata consentido. Li bastante ficção em tempos, leio hoje esparsamente, mas nada comparado com o que deveria.
Sim: o dever.
Um dever é parecido com um guardanapo branco que se estende sobre o colo em refeição consular. Um dever é também um estilhaço desprevenido que vem ter com o mais incauto. Um dever é, sem sombra de dúvida, um reflexo de luz perdido ou um passeio ao fim da tarde mergulhado no ócio e na mais pura melancolia. Num dever há tudo isso, amalgamado: um belo guardanapo de linho espalmado e recolhido, uma manobra secreta mas algo involuntária e ainda um paso doble com o próprio destino. E quando um escritor não lê o que deveria ler, como parece ser o caso, o que é que lhe poderá acontecer?
Limpa a Vichyssoise com as costas da mão. Distraído, deixa cair no chão os talheres no meio da maior das ausências. Depois, há-de ver-se a olhar em volta, enfastiado, e afastando as moscas como se fosse de avião no meio de indescritível turbulência. Uma vida sem sentido.
Sinto-me assim há anos e anos e sempre em sofrido e recatado silêncio. É um sofrimento brando, mas lento. Uma espécie de dor de dentes a saber a preguiça. E o nervo anima ainda mais o fino fado das gengivas, sempre que me vejo comparado com os vínculos estatuídos por um Fio do Horizonte, pelos questionários mundanos e habituais do JL, pelas bibliofilias almofadadas de alguns blogues e pelas entrevistas aos jovens escritores que já conseguiram integrar a caravana VIP que se desloca, à conta do orçamento do estado, a todas as feiras culturais do planeta. É uma vida sem sentido.
Estamos todos a viver no seio de uma tradição obesa que reproduz, simula ou afirma com a boca, ou com a pena, que se lê obesamente. António Guerreiro escreveu-o, com outras palavras, é claro, no nosso semanário de etiqueta (impossível lincar), lamentando a terrível vaga globalizadora, a mesma que tem colocado a tricolor francesa nos cabos mais remotos do mundo. Lembro-me, a propósito, que, nas Mitologias barthesianas (daqui a dois anos cumprirão meio século), os escritores em férias eram demoradamente retratados como seres dotados de cachimbos pensantes. Liam tudo, liam como bravos, liam todos os clássicos. Liam como se fossem já e sempre, eles mesmos, clássicos. E depois diziam em coro que “Ceci n´est pas une pipe!”. Só não liam a hemorragia de livros-produto-light que hoje se dão à estampa de sete em sete minutos. Mas estou em crer que se hoje vivessem, esses escritores leriam tudo. Linha a linha, livro a livro, tal como qualquer respeitável comentador semanal ou cronista diário o faz serena e silenciosamente.
Caso contrário, tudo isto seria uma vida sem sentido.
Não é que eu leia assim tão pouco, mas jamais o suficiente. Li o José Gil, é certo, mas só li a entrada do Museu do Louvre do Dan Brown e os halos finais de S. Tomé pela letra de Miguel Sousa Tavares. Para além de ensaios geralmente obrigatórios (nem cito autores porque esses são de facto muitos), nos últimos meses, li Roth, Don DeLillo e algum belíssimo Oz, mas não levei até ao fim o último McEwan ou o já quase ilegível Lobo Antunes (e limitei-me a raspas no que diz respeito a Sebald, Baxter, Bobin, Hoagland, Appery, Cunningham, Nothomb, Wendel, Zuravleff, Delaroche, Pietrzyk, McGarry ou Slavin. Ena tantos!). Depois, confessemo-lo de Guiness na mão, é verdade que existem escritores como Rubem Fonseca ou Patrícia Melo de que jamais acabarei de ler um livro completo, não por enjoo ou sequer tédio, mas porque adoro mastigá-los a meio caminho, como se lhes sorvesse o ritmo, a delonga da intriga e as manobras da linguagem sem nada fazer. Quieto como um pinguim no pólo sul, ou como uma lagartixa no mais denso vórtice de Agosto. Terrível preguiça, a minha.
Pois é: uma vida, afinal, sem grande sentido.
Ou seja: em sentido diante da fúria ridícula e mascarada que manda fazer o que ninguém quase faz.

quinta-feira, 28 de abril de 2005

Eu sou acidental, aqui!

Escreveu Rodrigo Moita de Deus:

"Em Portugal existem três ou quatro intelectuais e nenhum deles aparece na televisão, subsidiar teatros é estar a pagar aos amigos, inaugurar bibliotecas é um desperdício de dinheiro e a esmagadora maioria da esquerda pensante roça o analfabetismo cerebral."

Brilhante. Trata-se daquele brilho do Bloco de esquerda, mas dotado de inversão especular.
Sobre essa espécie ainda designada no post de R.M.D. por "intelectuais", devo dizer que o diagnóstico me espanta pela hipérbole e sobretudo pelo ponto de vista do observador.
Já quanto à arte da talma, e pesando alguma solidariedade pela visão (é esse o étimo do apocalíptico), creio que, de facto, Portugal é um país onde, numa esplanada, três pessoas observam outras três. Fiquei assim a compreender melhor o ponto de vista do autor da máxima acidental.
A referência às bibliotecas deve ser profunda, alicerçada e penetrante, já que eu, sinceramente, não fazia a mínima ideia de que a esquerda era afinal uma súmula de bibliotecas. E a direita... serão só os bibliotecários, ou os leitores, ou as cotas? (há certas coisas, francamente, que eu não entendo nesta inteligência voraz que, seja para o que for, decidiu dividir o mundo, para sempre, em esquerdas e direitas).
Por fim, abordando o sublime "roçar" do "analfabetismo cerebral": gosto da expressão, porque denota alguma leitura de Damásio, para além de libertar afectos face ao objecto (mais ou menos) analisado. Mas já agora, a propósito do "Proto-si" damasiano: esse roçanço não aparece tanto na esquerda como na direita, ou, se se preferir, em sentido contrário, tanto na direita como na esquerda?
A rematar, uma pergunta razoavelmente humilde: existirá uma natureza humana?
Remissões

Eis o post "Saber o seu lado", publicado pelo BdE (II) há uns dias e explicado agora às crianças:

- Deixem-se de filosofias, de merdas pessoais, de argumentos cansativos e de expressões que apenas revelam a singularidade da vidinha. Façam mas é campanha pelo A e contra o B, prontos!

No regaço da simpática acusação retórica referia-se o Miniscente e visava-se abertamente um belo texto de Maria Filomena Mónica aqui publicado.
O dito do dia

"A qualidade de um romance é inversamente proporcional à sua capacidade de dizer alguma coisa inteligente sobre ele.
Coisas muito inteligentes podem ser ditas sobre romances ruins: eles foram planejados para isso mesmo. Quanto mais burra a pessoa, mais coisas inteligentes dirá sobre um romance. O melhor romance é o que apresenta mais dificuldade a que se mencione Platão ou Aristóteles na sua crítica. O bom romancista faz isso de propósito: interrompe a escrita para rir e pensa: “Quero ver falar de Platão agora, filho da puta.”
"

Explosão
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Os blogues estão a crescer em todo o mundo a um ritmo só comparável ao da implantação do correio electrónico nos anos noventa (basta dizer que, há um ano, havia cerca de dois milhões de blogues no planeta e que, durante este último ano, houve um crescimento da ordem dos seis milhões!). Vejamos os números tal como foram agora apresentados pela Business Week:

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Total de blogues

Abril de 2005 - 8,700,000
Jan. de 2005 - 6,600,000
Dez. de 2004 - 5,400,000
Sept. de 2004 - 4,100,000
Jun. de 2004 - 2,950,000
Març. de 2004 - 2,000,000
Dez. de 2003 - 1,400,000
Set. de 2003. - 1,000,000
Jun. de 2003 - 300,000
Març. de 2003 - 100,000

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Em muitos países (China, Irão, Egipto, etc.), como refere o estudo da Business Week, os blogues estão a tornar-se numa verdadeira alternativa àquilo que seria um universo mediador do espaço público, na perspectiva que dele temos no ocidente. O que dá para concluir que a democracia se está a globalizar, dia após dia, cada vez que humildemente carregamos em "Publish Post". Continuemos!

quarta-feira, 27 de abril de 2005

Mistérios portugueses?

Na Holanda, no dia 30 de Abril celebra-se o “Dia da Rainha” (Koniningedag). É uma designação mais formal do que tutelar, na medida em que o povo holandês faz desse dia uma festa nacional exuberante que ultrapassa em muito a etiqueta e o plano tácito da tradição monárquica. Na prática, trata-se de uma espécie de carnaval à moda dos latinos do norte que todos os mortais deveriam ver uma vez na vida. Há outros países europeus (e não só) onde os dias nacionais se convertem em pura celebração através de um movimento espontâneo ascendente e profundamente mobilizador. Ao contrário, Portugal tem uma série de dias que tutelam a natureza da festa (25/04, 10/06, 01/12), mas em nenhum deles o povo português "assume", acata e preenche essas 24 horas com a expressão lúdica e viva de um contentamento que fosse capaz de atravessar, de um lado ao outro, toda a nossa sociedade.
Por que será?

terça-feira, 26 de abril de 2005

Camisola irrespondível

A importação de camisolas oriundas da China aumentou 534% no primeiro trimestre deste ano (não é engano, não: quinhentos e trinta e quatro por cento em três meses!). E eu pergunto:
O que significa uma camisola fabricada, hoje em dia, na China?
O que significa a confluência, recente mas não eterna, do comunismo com o capitalismo sem regras na China?
O que significa a vontade proteccionista europeia e o seu estado social, quarentão mas decerto não eterno, face a esta camisola chinesa?
O que significa hoje a Europa, quando enterra a cabeça na areia para recusar com dramatismo a globalizada camisola chinesa?
Qual o futuro possível da camisola Chinesa?
Qual o futuro real da Europa?
Quererá a Europa que a globalização varra naturalmente a própria Europa do mapa, ou quererá a Europa preparar-se para um novo mundo - o mundo do presente - que parece nem sequer querer ver, imaginar ou admitir?
É esta a breve história da camisola irrespondível.
Respirar fundo

Regressei à base, após três dias de incursão pelos interiores a norte do nosso pequeno país. O Douro de socalcos ainda a germinar, as macieiras em flor na estrada de Penela, o vale do Côa, a excelente Penedono ou a terra de D. Magriço, os castanheiros de Sátão, a memória e o brilho dos anfitriões de Paredes da Beira, o sabor divino dos míscaros e as vistas magníficas do castelo de Trancoso, a confusão da Régua, a placidez de Lamego, a depuração sóbria do Grão Vasco viseense, a vertigem de São Salvador do Mundo junto a S. João da Pesqueira, o recolhimento das proporções em Marialva, o uivo dos lobos na Soutosa de Aquilino, as alheiras da Torre de Moncorvo, o passeio de barco a leste do Pinhão, os foguetes na noite fria dos céus de Moimenta, a serenidade das margens no Pocinho, o fim da tarde de Celorico e as novas auto-estradas a sul da Guarda que fazem de antigos pesadelos um regresso célere (embora com os perigos da indigente, indígena e lusitana fúria).