terça-feira, 8 de março de 2005

Não está mal



O critério justo e adequado para avaliar os chamados "livros do ano", segundo Benjamin Schwarz da The Atlantic.
A disputa dos vaticínios

Grande parte das esquerdas mais tradicionias e também alguns sectores, dir-se-ia prudentes, da direita e do centro-direita vaticinaram da forma mais negra a guerra do Iraque.
Há dois anos a esta parte que o discurso desta área difusa se tem mantido incólume e, naturalmente, tentando sempre, aqui e ali, encontrar na cena internacional sinais de coerência e confirmação.
No campo oposto, permeável aos que viram no 09/11 uma clara mudança de paradigma na cena internacional, e onde se agrupam desde “neo-cons” a liberais e a diversas franjas das esquerdas menos tradicionais, sempre houve a ideia, mais ou menos utópica, de que a desagragação criada no Médio-Oriente acabaria por ser benéfica a prazo.

O que se está a passar agora no Líbano poderá corresponder ao tipo de sinais que são esperados por este último tipo de vaticínios.
Mas ainda é muito cedo para respirar.
A coerência forçada sempre foi um mau princípio.
Seja como for, e como hoje alude alguma imprensa internacional, está aberta uma verdadeira guerra de vaticínios.

segunda-feira, 7 de março de 2005

UM AMOR CATALÃO
Folhetim à moda clássica
DÉCIMO PRIMEIRO EPISÓDIO
(Ver o caminho e, por vezes, não o reconhecer)

Passou esse minúsculo décimo de segundo e eu ainda a pensar que já não tinha quaisquer expectativas ou esperanças para a minha vida. E que seria absoluta miragem pensar noutros voos ou tentações.
Olhei em frente e a vida pareceu-me enredada numa névoa estranha.
Cheguei a pensar que seria demasiado celestial partir de coche dourado nos braços da desejada Albe e serenamente sobrevoar os Apeninos, as montanhas sagradas de Kufa e os quase inacessíveis altos de Afrodite.
Havia uma inércia que me descia pelos braços, uma descrença, uma desistência, um arrepio a sondar-me o olhar quase embaciado, um estorvo tardio a prolongar-me a inutilidade do sorriso.

E Albe, completamente alheia a isso tudo, a redesenhar a sinceridade, a adiar a certeza e, afinal, a confessar-se de livro aberto:

- É verdade, todos nós devíamos conhecer as nossas vocações, antes dos estudos. Mas a vida é assim mesmo, é preciso começar por algum lado e aquilo que nos é oferecido está de tal maneira já preparado... e é tão estanque que poucas são as soluções e muitos os problemas que nos esperam, não é assim ? - E Albe, qual doce Dulcineia, ali a falar na minha frente e eu já mal a ouvia, enquanto a ligeira mácula de cansaço desaparecia, a pouco e pouco, muito devagar.

Ao fundo da sala dos pequenos almoços, os pais de Albe fizeram, entretanto, sinal de alvorada.
Albe respondeu ao chamamento com dois dedos no ar.

E eu vi ali o sinal de uma espera que era única.

Exclusiva.


(No próximo episódio, Edmundo irá perceber finalmente que uma mudança está em curso. É algo que vem de fora e que o cerca de forma inapelável. Um encontro decisivo aparecerá subitamente no horizonte e nenhuma desistência momentânea poderá já impedir o inevitável. Assim os deuses se proponham ajudar um destino aparentemente tão sibilino)

Continua
*
(publicação simultânea da versão matricial em Inglês no blogue Minion)
Frase do dia

"O problema de fundo do país é uma invulgar capacidade de não estar no mundo." (Fernando Ilharco)
Violência

A remoção de imagens na catedral de Utreque marcou-me imenso. Mas quando um dia entrei na imensa AyaSofya, em Istambul, senti o mesmo estremecimento. Na Holanda ou na Turquia, uma idêntica voragem terá cruzado a história. E, num belo dia, eis que essa voragem de terror se pôs a apagar e a remover memórias passadas. Hitler, Mao, Estaline ou os mongóis no coração da Bagdade abássida disputaram taco a taco a mesma tara, o mesmo enigmático e violento desígnio.
E, hoje, na arena civilizada da democracia portuguesa, como é possível que um simples gesto de remoção e envio pelo correio possa, de algum modo, lembrar toda esta bizarra genealogia de factos?
Implosão radical

A mais inexplicável discussão partidária de que tenho memória: aqui.
UM AMOR CATALÃO
Folhetim à moda clássica
DÉCIMO EPISÓDIO
(O humor e o drama na memória de Edmundo)

Estava cansado do impasse a que a minha vida tinha chegado e estava sem grande esperança e alento, no momento preciso em que decidi pedir a licença militar e a renovação do passaporte, para além da demorada passagem de segunda via da cédula pessoal e do bilhete de identidade.
Quando reuni toda a documentação, meti-me no escort que era novo e dirigi-me para a Costa Brava. Precisava desanuviar e, em primeiro lugar, escapar ao cemitério nacional. Foram três dias de longa viagem até à praia de L´Escala.

Para além do mais, tinha visto finar-se, bem dentro de casa e na própria pele, um daqueles casamentos do antigamente; daqueles cuja unção divina aspirava a um compromisso de eternidade, e de que o exemplo-mor e mítico era e é o matrimónio de Pedro e Inês que, em Alcobaça, se irão ainda levantar, um dia, um diante do outro, no fim dos tempos, quando o advento radioso do paraíso e dos seus mil limbos forem revelados por Deus Nosso Senhor.
Sem mais nem menos, naquele tempo de D. Salazar e Tomásio, ainda antes da fase do homem da regisconta, via-me eu, um cândido e tradicional dono de duas tipografias, condenado ao ultraje de um divórcio contra todas as santas leis e, como se não bastasse, poucos haviam sido os amigos, para além do António Romeu, que me entenderam a disjunção e sobretudo a fúria.
Depois de ver fugir das minhas hostes a Dª. Filipa para a casa do tio que era Bispo em Viseu, fugi definitivamente do Restelo e dei entrada no Bairro Alto dos mil amores, onde acabei por encontrar outra vida, outros prazeres e outros fadários já não a rimar com Tomásios.
Bons tempos de fandangos nocturnos, esses. Foi a minha segunda juventude. E mal eu sabia que muitas outras me esperavam.

Passou esse minúsculo décimo de segundo e eu ainda a dizer, entre dentes, para mim próprio, que estava cansado e sem grandes esperanças. E que seria miragem pensar noutros voos ou tentações.
Seria mesmo?



(No próximo episódio, Edmundo admitirá finalmente que existem novos sinais. Algo poderá estar prestes a mudar. Albe, na sua frente, parecer-lhe-á, cada vez mais, uma estrela a brilhar, um amor talvez possível, uma entrega inevitável mas ainda distante. E que medos o perseguiriam ao mesmo tempo?)

Continua
*
(publicação simultânea da versão matricial em Inglês no blogue Minion)

domingo, 6 de março de 2005

Intimidades da casa

Em poucos dias, a ameixoeira tornou-se num esplendor de múltiplas flores brancas. Há vida no pátio. A alvenaria sorri. Às vezes, ponho-me a olhor aqui do envidraçado do escritório para essa beleza serena e pergunto-me o que é que a árvore estará a querer dizer. Que rumores? (pena é a relativa sofreguidão que acompanha a vida do maracujá, da jovem buganvília e da recentíssima laranjeira).

sábado, 5 de março de 2005

UM AMOR CATALÃO
Folhetim à moda clássica
NONO EPISÓDIO
(A súbita expiação de Edmundo)
hoje on-line na primeira hora de domingo

- Tocou-me nas costas ao de leve, enquanto apontava para Albe, e sorria, sorria, de modo transbordante, e não se cansava sobretudo de insistir, sem que tivesse sequer sido inquirido para tal
- É a minha filha, é a minha filha ! - e eu, ali, sem mais, despojado de mim, a compreender, talvez, a mais velha lição de geometria e de óptica do mundo: uma recta une, no mínimo, dois pontos, mas pode aproximar, por impoluta ilusão, muitos mais.
Refeita a lição, voltei-me a sentar na cadeira de lona, mas, minutos mais tarde, a breve apresentação fez-me ver, ou reconhecer, uma menina de vinte e poucos anos e uns olhos ávidos de aura por cumprir, de candura, de impenetrável beleza. Chamava-se Albe.

E nós, imagine-se, a falarmos de vocações a uma hora daquelas ! Era já o rosto do tempo, diante de nós, a desafiar o tédio. O tédio de tudo o que ameaça tornar-se em descaminho, ou mesmo em perda, se, a certa altura, não aparecer um sinal, um gesto, um hiato súbito a minar a apatia, aliás natural, da hesitação.
Olhei para Albe e, durante uns segundos, brevíssimos e inenarráveis segundos, senti a justa noção do meu cansaço. Estava sinceramente cansado e sem grandes esperanças.

Estava cansado daquela Lisboa pindérica a cheirar a fardas cinzentas e a enxofre lentamente atiçado nos cais, de onde partiam barcos com magalas para Angola; estava cansado daquela Lisboa cheia de quixotadas submissas, licenças para isqueiros aos rodos e de fadâmedes para rimar com a nossa Moçâmedes, como diria o poeta; estava cansado daquela Lisboa a exalar perfume de iscas e a silenciar todas as polémicas e arrojos; estava cansado daquela Lisboa a explodir de hipocrisia enlatada e onde tudo era pequenino e franzino, com excepção da recente ponte sobre o Tejo, do suave Benfica, do Joaquim Andrade do Sangalhos e dos evidentes milagres de Fátima e arredores.

(No próximo episódio, Edmundo continua a descrever a descrença que a sua vida lhe alimenta, enquanto tenta descobrir na atmosfera das súbitas férias algum sinal que lhe aponte uma nova deriva, uma nova aventura, ou um novo recomeço. Mas faltava ainda muito, quase tudo, para que um pacto com o futuro se viesse a cumprir)

Continua
*
(publicação simultânea da versão matricial em Inglês no blogue Minion)
UM AMOR CATALÃO
Folhetim à moda clássica
OITAVO EPISÓDIO
(A sereia mágica e a grande surpresa de Edmundo)


O rasto do caravelle leva Edmundo a erguer a cabeça e, de súbito, a encarar o céu já limpo, liso de amplitude e devaneio. Fá-lo por instantes como que a adivinhar o silêncio possível, ante o vendaval de asteróides e cometas de quem brinca ao esconde-esconde, ao flecte-insiste, ao conta tu - conto eu.
Edmundo pousa agora o policial sobre a toalha e, nesse ápice quase sem duração, levanta-se da cadeira alongada e anda, durante alguns metros, em jeito de leve fastio, ou de ligeiro spleen, até acabar por atingir o limiar empedrado da piscina.

Foi nessa altura que os olhos de Edmundo se desfiguraram e que o cravo e a pianola se ouviram tocar no reverso da última nuvem que mais parecia uma estrela do mar. Foi também nessa altura que Edmundo, de um momento para o outro, se esqueceu do preço do papel, do telegrama, da tourada e até das velas avariadas do ford escort.
Sobre o rectângulo da piscina, num emaranhado de fios, suspendiam-se ao vento pequenas bandeiras triangulares, azuis e vermelhas. E ela ali, por baixo, a flutuar, a fundear de braços abertos ou unidos em aro límpido, puro, antigo. Sobre o azulado desvanecido, Edmundo fez com que o tempo parasse e continuou a vê-la de cima, de lado, ou com a ubiquidade que conduz as borboletas a escalarem pela mancha do esófago.
Um pasmo.

E ela a nadar, a nadar lentamente e a chegar, neste triz generoso da existência, ao lado oposto da piscina. Abraça-se às bóias, desliza, e, de repente, como se fosse em câmara lenta, faz adeus na direcção de Edmundo. Quase lhe responde o português com a mão, meio tímida, a soerguer-se; com os braços a abrirem o sorriso embaraçado que não chega a pronunciar.
E ela fica a rir-se nas calendas, ao longe, do outro lado do universo, a inclinar agora o rosto para a água, para Tebas, para Haifa, saiba-se lá para onde mais. Talvez a querer dizer que o tempo se enreda do mesmo modo que a lua se liquefaz nos mares enigmáticos do solstício.

Foi nesse assombro, confessa Edmundo a António, - Que o senhor acabou por vir ter comigo ! Era o pai dela, imagina !


(No próximo episódio, Edmundo conta a António Romeu o que se passou, nesse dia, com o pai de Albe. Mas não só. O próximo episódio dará também a conhecer o pacto que os dois apaixonados terão acertado nestes delongares do estio catalão)

Continua
*
(publicação simultânea da versão matricial em Inglês no blogue Minion)