sábado, 29 de janeiro de 2005

Gravidade

Diz Margarida Rebelo Pinto com excelsa sageza e perene sagacidade:

"Depois de perdidas as colónias, Portugal não se virou para lado nenhum e a pouco e pouco foi perdendo a sua auto-estima. Hoje, apesar de todos os problemas nacionais inadiáveis, somos um país no bom caminho; o único problema é que não acreditamos nisso".

O problema está, pois, algures entre as colónias, a fé e o pescoço que não roda o suficiente. A identidade portuguesa anda mesmo na moda. Em movimento. Depois de Lourenço e Gil, é esta a teoria do momento.
Davos, Davos…

Escreve hoje Mário Bettencourt Resendes:

“(…) na próxima quarta-feira, vou almoçar com a loura que protagonizou o mais célebre cruzar de pernas da história do cinema e que recentemente pôs fim à sua relação com o director de um diário de S. Francisco. Deve ter, no mínimo, alguma apetência pela área dos media... Como o mundo não é perfeito, à mesa vão estar mais algumas dezenas de pessoas, entre elas Richard Perle, um dos gurus do neoconservadorismo norte-americano. O local é um dos hotéis de Davos ( …)”

Só o viril cronista poderá dizer o que tem a marmota a ver com a perdigota. Enfim, debates. Muito insulares, já agora.
Desvarios



A avaliar pela capa, o Expresso de hoje entrou em estado de cativante delírio. Ao lado de uma fotografia de Luís Delgado com área de 200cm2, aparece o título: "Cavaco apoia Governo romeno". Um pouco por baixo ficamos também a saber que "Encontro do PSD junta Valentim e Damasceno". O carácter dadaísta desta capa poderia ter sido coerentemente amplificado com a fotografia de um pôr do sol nos Cárpatos, precisamente na noite do encontro de todos os personagens das narrativas de James Malcolm Rymer, Thomas Preskett Prest, John Polidori, Joseph Sheridan e sobretudo de Bram Stoker. Portugal, de facto, ainda tem coisas giras.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2005

Intolerâncias vs. liberdade

Custo a entender que a inteligência sobreponha o cromatismo compulsivo das facções políticas à lógica da livre abertura dos percursos individuais. Falo de Freitas do Amaral, naturalmente. Mas Durão, Pacheco, Lamego, Espada, Zita Seabra entre muitos muitos outros, também percorreram as suas vias livres, e às vezes dolorosas, entre campos, mundos e intermináveis terras de ninguém. A forçada coerência estalinizante é própria das formigas, mas não dos homens. Julgo eu. E muito menos o será da inteligência. Resida o afecto à direita ou à esquerda. Tanta visão esquemática que por aí anda... tão subliminarmente hostil à liberdade!
É já depois de amanhã

"With not even candidates out on the streets, role of getting out vote has fallen to infantrymen." (Steve Fainaru, Washington Post)

A razão e o erro podem coexistir. Mas a evidência supera ambos. Largamente.
Deslindando mistérios recentes

"Fique no entanto a saber-se que muito foi tentado, felizmente sem vir para as páginas dos jornais, para que tal acontecesse. Houve muita gente que não ficou sentada e que tentou. Falhou, mas também não é verdade que muitos militantes, entre os quais me incluo, não tenham tentado persuadir, convencer, sem sucesso."

Quando o autor destas linhas nos fala acerca do novo espaço político que poderia vir a ser preenchido por um novo partido (não fosse a "pouca fluidez do sistema político" e a "rigidez" do sistema eleitoral), o que será mais importante: a manifesta impossibilidade de concretizar esse projecto (que seria o equivalente aos "Democrats" ingleses ou ao "D66" holandês), ou o simples facto de enunciar - e assim legitimar e prenunciar - essa mesma possibilidade?
Fico-me, ou seja, tenho-me ficado mais pela última hipótese. Mera intuição. E que eu desse por isso, Pacheco Pereira já referiu o facto umas quatro vezes (entre o seu blogue e as crónicas impressas em papel). Sublinhe-se. A repetição faz o engenho e o engenho faz a coisa.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2005

O que dizer?


The Jerusalem Post

É o problema. O que dizer. Dizem-se as coisas, não se diz a barbárie. Desdizem-se as coisas, mas não pode desdizer-se a barbárie.
Meta-ocorrências típicas

Por que razão andam as televisões a dizer-nos que há uma vaga de frio polar a sobrevoar o país? Se calhar, é isso. A sobrevoar. Mas muito por cima.
Por que terá sido?

E há ainda uma leveza tardia a recobrir o ócio que faz a pedra viver no seu silêncio.
A geração

A desestruturação das redes sociais no ocidente, com destaque para a família, fez emergir, nas últimas décadas, a importância da ideia de geração. Particularmente a partir da segunda metade do século passado, uma (nova) geração passou a ser a procura de um espaço singular de significação, de uma haceitas, e a simultânea e exaustiva repetição das palavras de ordem que se iam cumulativamente estabilizando ao longo dessa procura. Há sintomas claros que permitem demarcar a iminência de fim de uma geração e o necessário advento de uma outra. O mais peculiar é a permuta mútua de elogios no espaço público entre os elementos-chave que mais terão contribuído para cimentar a anterior procura num conjunto de crenças (tal como Peirce as entendia: um estado de repouso, de bem estar e de arrumação mental que, ao contrário da dúvida, orienta quase toda a reprodução dos hábitos).