domingo, 9 de janeiro de 2005

Anfitrião sabido



Com ajuda do Abrupto instalei o Geoloc, dando assim ao Miniscente a oportunidade de conhecer, em tempo real, a origem geográfica de quem o visita. Embora com pouco mais de 24 h. de convívio com o software, tempo ainda insuficiente para qualquer tipo de conclusões, é já, no entanto, interessante ver as Filipinas em terceiro lugar, apenas atrás de Portugal (cerce de 60%) e do Brasil (cerca de 12%), entre a mais recente - e, aliás, pequena - vaga de visitantes do Miniscente.

sábado, 8 de janeiro de 2005

Convivência global e convivência doméstica (actualizado)

O diário holandês Volkskrant publicou, no Sábado passado, um artigo assinado por Janny Groen sobre a cada vez mais estranha relação entre pais e filhos de origem marroquina que moram na Holanda. Na abordagem de Groen, o que está em causa já não são as clássicas segunda e terceiras gerações, mas sim o caso da mais recente primeira geração, muito marcada, na sua juventude, pelo impacto do 11 de Setembro. Se, no Ocidente, o vórtice criado pelo dia das torres gémeas continua a ser visto como o início de um processo que, de um modo ou doutro, veio alterar radicalmente os paradigmas habituais de análise política e social, este caso, pelo seu lado, permite-nos confirmar esse mesmo quadro, mas agora no mais íntimo e impensado reverso da medalha.
O mais curioso no artigo de Groen - e sobretudo no que é nele subjacente - é o modo como os jovens de origem marroquina apreendem, hoje em dia, o que é o Islão. Em vez de se sustentar nos seus pilares escriturais e da tradição (hadith), o Islão acaba antes por ser moldado, por estes jovens, de acordo com um modo de desabrida e radical oposição a todos os elementos simbólicos do mundo ocidental. Quer isto dizer que, para muitos adolescentes de origem marroquina que moram na Holanda, o Islão acaba por basear-se numa interiorização caricatural, fantasmática e, portanto, diagramática.
Um “teólogo” muçulmano - o termo é, não posso deixar de sublinhá-lo, muito ocidental - da província do Brabante, de nome Mohammed Ajouaou, relata, no artigo de Groen, o que se está de facto a passar, neste momento, na Holanda. Ouçamo-lo:

"(...) tudo começa com o interiorizar de um estilo de vida adoptado por um filho e, aqui e ali, também, por uma, por uma filha. O filho entra na sala e tem sempre um comentário na ponta da língua acerca das cortinas que estão abertas. Tal pode fazer com que gente estranha veja as mulheres que estão dentro da sala. E isso não pode, de modo nenhum, acontecer. (...) Noutras situações, faz-se sentir uma pressão quase hostil sobre as mães e as irmãs para que usem o véu. A televisão também deve permanecer fechada, já que a música que dela sai não é islâmica. Numa fase seguinte, os filhos chegam a separar os pais e as mães na própria casa, sempre que há visitas."

Groen termina o artigo com esta comparação assustadora:

"Segundo Ajouau, em muitas famílias marroquinas sofre-se em silêncio. Tal como os pais de drogados compulsivos, também os pais marroquinos já não conseguem, hoje em dia, evitar a entrada do radicalismo dos filhos na sua própria casa”.

Esta conclusão revela-nos uma novíssima história acerca dos pais marroquinos que se sentem domesticamente reféns dos seus filhos e, no fundo, devido ao facto de estes respirarem um súbito fascínio pelos agenciamentos de violência global anti-ocidentais que, como se sabe, adquiriram uma nitidez muito especial na Holanda dos últimos meses. Os efeitos de contracultura já eram poderosamente conhecidos no Ocidente, pelo menos desde os anos sessenta, mas com outras cores, naturezas e devires. É por isso interessantíssima a comparação que Ajouau faz entre os pais ocidentais confrontados com o flagelo da droga e seus derivados, por exemplo, e os pais marroquinos, hoje abruptamente comprimidos pelo esquematismo pseudo-religioso.
A verdade é que, no contexto da progressiva diluição entre esfera pública e privada, que é uma das características-chave do nosso mundo contemporâneo, a situação descrita por Groen ameaça pôr drasticamente em causa a tradicional política de integração a que países como a Holanda se entregaram há umas três décadas. Este estado de coisas era inimaginável há uns vinte anos, até porque a família marroquina era então um reduto férreo e uno que, apesar das diferenças e dos traumas, não se alheava dos processos estatais que visavam intensa e honorariamente a integração das “minorias”.
Hoje em dia, o 11 de Setembro está em curso em todo o lado. Mesmo na mais aprazível sala de um apartamento de Amesterdão. Nos tempos que correm, as fronteiras entre culturas, alteridades, modos de agir e violências possíveis pulverizaram-se. E, às vezes, parecem mesmo anular-se. E ainda há quem discuta a questão da Turquia com tanto receio e impaciência!

sexta-feira, 7 de janeiro de 2005

Reparo

Num post (e crónica) que assinei acerca dos "juízes inabaláveis", critiquei convictamente a ideia de que poderiam - ou deveriam - existir listas "perfeitas". Interpretei o facto e tentei provar que essa ideia acabava, em última instância, por corroer o que há de mais importante e vital na própria democracia.
Mas não se entenda esse meu texto e essa minha posição, de modo nenhum, com uma espécie de aceitação acrítica das listas que estão aí a aparecer à luz do dia. A excentricidade e a incapacidade renovadora que denotam são de tal modo gritantes e generalizadas que nem quase valeria a pena escrever este reparo (ver hoje, a propósito, o excelente editorial de José Manuel Fernandes). Não irei tão longe quanto é saudável e causticamente habitual em Vasco Pulido Valente, mas, por outro lado, não há nada como a hipérbole para traduzir de forma cristalina o que se está a passar diante dos nossos olhos.
Maiorias

Hoje, o Expresso da meia noite promete. A avaliar pelo que se passou ontem na gravação. Seja como for, estarei ainda a dar aulas a essa hora.
No momento adequado

Foi hoje publicada no Diário da República uma "Resolução do Conselho de Ministros (n.º 5/2005. DR 5 SÉRIE I-B de2005-01-07) que "cria uma instância de coordenação da acção externa do Estado Português".
Também já não era sem tempo.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2005

Na RTP - 1, hoje à noite

António José Seguro: levanta o pano do pó, enquanto apara a máscara circunspecta.
António Filipe: levanta os óculos, enquanto ameiga com puro dó a neurose ideológica.
Fernando Rosas: Coça a orelha, enquanto delira com o derribar da conjura bourgeoise.
Pires de Lima: Levita sobre sisudez, enquanto acena na teia para o fantasma da placidez.
Dias Loureiro: Deixem-me lá em paz que eu já dei o que tinha a dar para este peditório.
Existências

Acabo de colocar no Minitempo, o blogue mais subcutâneo do Miniscente (espécie de sótão para onde atiro coisas antigas), o texto que escrevi para o Salão do Livro de 2000. Para trás ficou uma peça de teatro, um libretto de drama musical e umas notas de viagem. E mais umas coisas. Gosto da poeira inesperada dos sótãos.
Há com cada coisa!



Por acaso é verdade: uma coisa tão inédita entre nós como é um acordo de fundo entre patrões e trabalhadores, ou, conforme se queira a - linguagem torna-se personagem enquanto o diabo esfrega um olho! -, entre empresários e sindicatos... não tem tido quase menção na blogosfera. Sobretudo naquela em que se esperava que a coisa fosse, pelo menos, mais sensível. Deve ser do derby que aí vem. Ou será das listas ?
Já nem ouso proferir outras alternativas mais fortes. Que as há. Haverá mesmo?
O sentido de estado e o estado do sentido

Vivemos interrogando ambos e, muitas vezes, não discernimos nem um nem outro. Não é?
Falar sobre Portugal é quase sempre reaver algum branqueamento com o seu ar diáfano, lírico e ocultado.
Atenção

Soube, via Aviz, que a Buchholz se encontra infelizmente em situação de pré-falência. Durante anos e anos, mais numas alturas do que noutras, a Buchholz tem sido quase sempre a minha livraria de referência (ainda hoje por lá passei). Chegou a altura de voltar em força à Duque de Palmela. Fica também aqui o apelo. Para que se amplifique, para que se difunda, para que se torne bem audível. Enquanto ainda é tempo.