Ouvindo 2005
Ouço siflar o horizonte nas cortinas impregnadas de luz.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2005
sexta-feira, 31 de dezembro de 2004
Bom ano!
Cá estou entre sacadas solares, cornijas voadoras, brasões sem memória, ombreiras amareladas, clarabóias coloridas, acenos invisíveis, escadarias abismadas, cantarias imobilizadas, frestas simuladas, amarras manuelinas, águas-furtadas ao vento, ameados entre sebes, jardins oblíquos, janelas namoradeiras, logradouros de ervas aromáticas, frisos com fantasmas, balaústres fugitivos, mármores enleados e terraços presos à névoa crepuscular. E é deste local mágico que vos desejo a todos, sem excepção, um grande e feliz
Cá estou entre sacadas solares, cornijas voadoras, brasões sem memória, ombreiras amareladas, clarabóias coloridas, acenos invisíveis, escadarias abismadas, cantarias imobilizadas, frestas simuladas, amarras manuelinas, águas-furtadas ao vento, ameados entre sebes, jardins oblíquos, janelas namoradeiras, logradouros de ervas aromáticas, frisos com fantasmas, balaústres fugitivos, mármores enleados e terraços presos à névoa crepuscular. E é deste local mágico que vos desejo a todos, sem excepção, um grande e feliz
2005!
quinta-feira, 30 de dezembro de 2004
Actualidades referendárias
Foi hoje publicado, no Diário da República, o Acórdão n.º 704/2004 (304, SÉRIE I-A) onde "o Tribunal Constitucional procede à fiscalização preventiva da constitucionalidade e da legalidade da proposta de referendo aprovada pela Resolução da Assembleia da República n.º 74-A/2004, de 19 de Novembro (proposta de realização de referendo sobre a Constituição para a Europa)".
Algum português acredita ainda neste labirinto de séries, legalidades, propostas, truncagens e procedências ao serviço de um referendo claramente imaginário?
Foi hoje publicado, no Diário da República, o Acórdão n.º 704/2004 (304, SÉRIE I-A) onde "o Tribunal Constitucional procede à fiscalização preventiva da constitucionalidade e da legalidade da proposta de referendo aprovada pela Resolução da Assembleia da República n.º 74-A/2004, de 19 de Novembro (proposta de realização de referendo sobre a Constituição para a Europa)".
Algum português acredita ainda neste labirinto de séries, legalidades, propostas, truncagens e procedências ao serviço de um referendo claramente imaginário?
Actualidades culturais
"Resolução da Assembleia da República n.º 86/2004. DR 304 SÉRIE I-A de 30-12-2004: aprovada, para adesão, o Primeiro Protocolo à Convenção para a Protecção dos Bens Culturais em Caso de Conflito Armado, adoptado na Haia em 14 de Maio de 1954".
Já era tempo. Os portugueses sentiam tremendamente a falta desta grave e incontornável decisão.
"Resolução da Assembleia da República n.º 86/2004. DR 304 SÉRIE I-A de 30-12-2004: aprovada, para adesão, o Primeiro Protocolo à Convenção para a Protecção dos Bens Culturais em Caso de Conflito Armado, adoptado na Haia em 14 de Maio de 1954".
Já era tempo. Os portugueses sentiam tremendamente a falta desta grave e incontornável decisão.
Dois em um e um em dois
Há paradoxos portugueses que são interessantes. Vejamos as três facetas de um em particular que anda aí muito em voga:
a) Toda a gente cala e reduz a tabu a homossexualidade, pretensamente, por causa da separação entre a esfera privada e a esfera pública;
b) Toda a gente envia e recebe SMSs que dizem alto o que todos dizem saber (nomeadamente que os dirigentes políticos A, B e C são gays. É interessante como o uso da palavra inglesa suaviza a alegada tempestade);
c) Toda a gente que é gay prefere viver na clandestinidade, sem tentar sequer fazer da vida um curso normal e assumido de direito próprio (a excepção é sempre coisa de malucos e excêntricos, tipo opus gay, artistas, meninos de coro, almirantes, actores, bailarinos, etc., etc., etc.).
Nos países protestantes sempre há menos hipocrisia; mas nós, portugueses, amantes de altares barrocos e de malinhas pretas de mão, adoramos ser dois em um.
Hoje lá tive que apagar mais um SMS que fingia ser
- já se sabe - mais uma mensagem de "santo natal"...
Há paradoxos portugueses que são interessantes. Vejamos as três facetas de um em particular que anda aí muito em voga:
a) Toda a gente cala e reduz a tabu a homossexualidade, pretensamente, por causa da separação entre a esfera privada e a esfera pública;
b) Toda a gente envia e recebe SMSs que dizem alto o que todos dizem saber (nomeadamente que os dirigentes políticos A, B e C são gays. É interessante como o uso da palavra inglesa suaviza a alegada tempestade);
c) Toda a gente que é gay prefere viver na clandestinidade, sem tentar sequer fazer da vida um curso normal e assumido de direito próprio (a excepção é sempre coisa de malucos e excêntricos, tipo opus gay, artistas, meninos de coro, almirantes, actores, bailarinos, etc., etc., etc.).
Nos países protestantes sempre há menos hipocrisia; mas nós, portugueses, amantes de altares barrocos e de malinhas pretas de mão, adoramos ser dois em um.
Hoje lá tive que apagar mais um SMS que fingia ser
- já se sabe - mais uma mensagem de "santo natal"...
quarta-feira, 29 de dezembro de 2004
Balanço - 2
Há quarenta anos, os programas de TV que faziam o balanço do ano apareciam carregados de fascínio. Arrastavam o imponderável caudal das imagens a preto e branco, durante uma hora, e desse modo passavam em revista o que se sentia como distante, inocente, fotogénico e único no sentido da pouca compulsão criada.
Hoje, esses mesmos programas aparecem carregados de uma redundância enjoativa. Mobilizam o que já havia sido desenterrado reiteradamente, cortando ou alargando partes do fluxo global de imagens durante uma hora, como se quisessem anestesiar a nossa memória através de uma banalização galopante e desinteressante.
Acabei de comprovar este verdadeiro contraste, ao esforçar-me por seguir, do princípio ao fim, o programa da RTP que acabou há pouco.
Ou será isto tudo uma desfocagem com origem nos acenos da infância?
Vá-se lá saber.
Há quarenta anos, os programas de TV que faziam o balanço do ano apareciam carregados de fascínio. Arrastavam o imponderável caudal das imagens a preto e branco, durante uma hora, e desse modo passavam em revista o que se sentia como distante, inocente, fotogénico e único no sentido da pouca compulsão criada.
Hoje, esses mesmos programas aparecem carregados de uma redundância enjoativa. Mobilizam o que já havia sido desenterrado reiteradamente, cortando ou alargando partes do fluxo global de imagens durante uma hora, como se quisessem anestesiar a nossa memória através de uma banalização galopante e desinteressante.
Acabei de comprovar este verdadeiro contraste, ao esforçar-me por seguir, do princípio ao fim, o programa da RTP que acabou há pouco.
Ou será isto tudo uma desfocagem com origem nos acenos da infância?
Vá-se lá saber.
Sem resposta
Todos os dias, há mais dez mil mortos que se noticiam na sequência da imensa catástrofe do Índico. Amanhã serão cem mil e poderemos então imaginar uma cidade como Coimbra a afundar-se na impiedade do oceano, entre Sumatra e a Somália. Que dizer, para além de explicar, enumerar, ajudar, agir, mostrar, comparar, difundir e repetir até à exaustão? Que dizer para além da enxurrada retórica? Que dizer aquém da necessidade? Que dizer?
Há perguntas que é impossível colocar.
Todos os dias, há mais dez mil mortos que se noticiam na sequência da imensa catástrofe do Índico. Amanhã serão cem mil e poderemos então imaginar uma cidade como Coimbra a afundar-se na impiedade do oceano, entre Sumatra e a Somália. Que dizer, para além de explicar, enumerar, ajudar, agir, mostrar, comparar, difundir e repetir até à exaustão? Que dizer para além da enxurrada retórica? Que dizer aquém da necessidade? Que dizer?
Há perguntas que é impossível colocar.
Sontag
De Susan Sontag ficam-ne duas recordações: um grande livro sobre fotografia que li nos anos oitenta e um outro onde a autora avançou com a interessante noção de "interpretose" (não me apetece levantar e ir ver às estantes os nomes e tudo o resto; mas, já agora, por que me esqueço eu de todos os nomes dos livros, mesmo daqueles que ando a ler?).
De resto, Susan Sontag pertencia a outra galáxia.
Seja como for, a morte traz sempre a terreiro essa incompreensão de voltar de novo a não ser.
De Susan Sontag ficam-ne duas recordações: um grande livro sobre fotografia que li nos anos oitenta e um outro onde a autora avançou com a interessante noção de "interpretose" (não me apetece levantar e ir ver às estantes os nomes e tudo o resto; mas, já agora, por que me esqueço eu de todos os nomes dos livros, mesmo daqueles que ando a ler?).
De resto, Susan Sontag pertencia a outra galáxia.
Seja como for, a morte traz sempre a terreiro essa incompreensão de voltar de novo a não ser.
Balanço - 1
Nunca tive grande jeito para círculos de afinidades persistentes. Nas ideias, nos livros, nos filmes, nos blogues e noutras coisas que a vida enfrenta. Na maior parte das vezes, vejo-me a regressar a sós. No limiar da partilha. Ainda que infusa, espontânea ou admirada. Mas nunca tive a tentação das tutelas e das referências fixas, a montante ou a juzante. O que não quer dizer que a amizade não ilumine este meu regressar, algo solitário, entre tectos do mundo; embora ela - a amizade - também não seja contínua, linear e indivisa.
Permanecerão os afectos e milhões e milhões de eventos que denegam a ilusão da montagem. Permanece o amor. Permanece o desejo da lucidez e da independência radical. E é assim que vejo mais um ano quase a acabar e um outro prestes a começar: sorrindo. A ternura a desfilar na confissão e a compaixão a esquecer-se do principal que haveria afinal a dizer.
Nunca tive grande jeito para círculos de afinidades persistentes. Nas ideias, nos livros, nos filmes, nos blogues e noutras coisas que a vida enfrenta. Na maior parte das vezes, vejo-me a regressar a sós. No limiar da partilha. Ainda que infusa, espontânea ou admirada. Mas nunca tive a tentação das tutelas e das referências fixas, a montante ou a juzante. O que não quer dizer que a amizade não ilumine este meu regressar, algo solitário, entre tectos do mundo; embora ela - a amizade - também não seja contínua, linear e indivisa.
Permanecerão os afectos e milhões e milhões de eventos que denegam a ilusão da montagem. Permanece o amor. Permanece o desejo da lucidez e da independência radical. E é assim que vejo mais um ano quase a acabar e um outro prestes a começar: sorrindo. A ternura a desfilar na confissão e a compaixão a esquecer-se do principal que haveria afinal a dizer.
terça-feira, 28 de dezembro de 2004
Declaração do tempo
Regresso após uma semana de ausência. Talvez a maior desde que esta escrita se fez blogue. Vive-se um tempo incomum, embora a ameixoeira se resuma ao ermo dos ramos e a macieira ainda resista. Enquanto pode. Sobram-lhe umas amolecidas trinta folhas. Um ronronar sem fim. O Natal foi cheio, pleno. Sigilos, doces, apologias domésticas, vilegiaturas, memoriais, lume fortíssimo, litanias, luzes na janela, meteoros (um enorme na estrada para Machede) e ainda uma desmedida incontinência da paixão. Reconciliei-me este ano. Não sei com o quê. Talvez com aquela parte de mim que havia partido e hoje regressou. Somos todos a épica que mais amamos sem sequer o sabermos. E da ausência fazemos castelos, pontes levadiças, estradas desenhadas em névoa. Volto a olhar para a ameixoeira e para a macieira. Imensa a gratidão que habita no ar. Sem lugar. Por isso se escreve aqui. Como se fosse sobre a neve. Regresso.
Regresso após uma semana de ausência. Talvez a maior desde que esta escrita se fez blogue. Vive-se um tempo incomum, embora a ameixoeira se resuma ao ermo dos ramos e a macieira ainda resista. Enquanto pode. Sobram-lhe umas amolecidas trinta folhas. Um ronronar sem fim. O Natal foi cheio, pleno. Sigilos, doces, apologias domésticas, vilegiaturas, memoriais, lume fortíssimo, litanias, luzes na janela, meteoros (um enorme na estrada para Machede) e ainda uma desmedida incontinência da paixão. Reconciliei-me este ano. Não sei com o quê. Talvez com aquela parte de mim que havia partido e hoje regressou. Somos todos a épica que mais amamos sem sequer o sabermos. E da ausência fazemos castelos, pontes levadiças, estradas desenhadas em névoa. Volto a olhar para a ameixoeira e para a macieira. Imensa a gratidão que habita no ar. Sem lugar. Por isso se escreve aqui. Como se fosse sobre a neve. Regresso.
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