sábado, 31 de janeiro de 2004

Inter

Como eles temem a democracia.
Chove chuva

Chove outra vez. O limoeiro balbucia com alguma aflição. No fundo do quintal, há um debate quase épico entre a coreografia dos lençóis estendidos à chuva e a persistente aura dos citrinos. Faltam as ondas, falta imaginar uma doce Carmen granadina a agitar o leque de pavão colorido. Falta o imenso calor com pelo menos quarenta graus à sombra. É nesses dias que me sinto imperador da felicidade. Hoje, mais não sou do que a pálida sombra de um insecto a olhar para os raquíticos troncos da roseira-de-Damasco. Chove.
White vs Delicado



Vi ontem o Ballet Gulbenkian. Na primeira parte apenas mulheres em transmutação - um jogo de ritmos e suspensões cromáticas sem quaisquer escorços de personagens individualizadas (criação de Gilles Jobin); na segunda parte, os homens a negro criados por Paulo Ribeiro - uma partilha de muitas catarses solitárias que desenharam o espaço delineado pelas danças ocultas (pena que as concertinas não aparecessem, elas mesmas, no fundo do palco). Na primeira parte, Delicado, uma peça para um gineceu labiríntico, desenhada com alguma frieza; na segunda parte, White, uma peça em que as individualidades (doze, ao todo) estabeleceram um belíssimo contracampo em movimento (fez-me lembrar o Leviatã de Thomas Hobbes em palco, imagine-se).
Ontem, hoje

Ontem um alaúde a vibrar algures sobre telhas ainda húmidas de tanto temporal, hoje a falésia a adormecer no abismo das vagas que soletram o ofício antigo do tempo. Ontem um relâmpago sem fim a abrir brechas e riscos de luz de tanto clarão, hoje a cidade lavada e quase despovoada pela brancura das paredes a desafiar o silêncio.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2004

Madrugasses

Obrigado Ma-Schamba, é bom saber de Moçambigue pelo acerado e atento crivo dessa blogosfera dos Índicos.
A janela de Ceilão


Vermittlung von Kunstwerken, Georg Gresko

Cada vez vou sorrindo menos com as micro-mini-polémicas que atravessam alguma blogosfera e que me fazem lembrar brigas entre meninos que vestem camisolas de lã de cor diferente e que se divertem numa sala de aula, algures em Ceilão, enquanto o professor olha pela janela a ver as garças (a voar pelas montanhas de Gresko).
Por que não utilizam antes os telemóveis para falar uns com os outros? Era mais seguro. Ou, por que não esgrimem argumentos que não se colem sempre ao mesmo hipotexto?
Tragédia do Esquecimento - 3

Para dissipar as dúvidas levantadas acerca das Noites de Cristal do início do século XVI que tiveram lugar em Lisboa (ver posts de 16/1), deixo aqui um testemunho publicado no blogue Rua da Judiaria que fala por si. Oxalá, daqui a dois anos, em 2006, o estado português saiba homenagear a parte mais esquecida do seu corpo nacional. Fazê-lo seria, para além de uma questão de justiça, sobretudo uma desafio vital para a nossa própria auto-imagem e orgulho próprio. Vamos, então, aos factos históricos:

O número de mortos resultantes do progrom de Lisboa, ocorrido em Abril de 1506, também não é certo, embora a maior parte das fontes e testemunhos da época apontem para cerca de quatro mil pessoas (cripto-judeus / cristãos-novos) chacinadas na sequência de motins antijudaicos incitados por frades dominicanos. No Rossio, contam Samuel Usque e Damião de Góis, o chão ficou “tapado com montanhas de corpos mutilados”. “Mais de quatro mil almas morreram(...)”, escreveu Samuel Usque em “Consolação às Tribulações de Israel” (1553).



“Von dem Christeliche / Streyt, kürtzlich geschehe / jm. M.CCCCC.vj Jar zu Lissbona / ein haubt stat in Portigal zwischen en christen und newen chri / sten oder juden , von wegen des gecreutzigisten [sic] got; reprodução a partir de cópia publicada pelo Hebrew Union College, Cincinnati, OH. O original, bastante raro, encontra-se na Houghton Library, Harvard University)”

Panfleto anónimo, impresso na Alemanha (presumivelmente poucos meses depois do massacre de Lisboa). O “progrom” de 1506 contra os judeus de Lisboa é descrito em detalhe e as matanças contadas ao pormenor. A gravura do frontispício mostra os corpos mutilados e envoltos em chamas de dois judeus portugueses, dois irmãos, os primeiros a morrer num massacre que vitimou mais de 4 mil pessoas.

Numa altura em que a Igeja Católica tem uma certa apetência em pedir perdão pelo passado, a oportunidade de 2006 tornar-se-ia no mínimo adequada. Mas o desafio seria - e creio que virá a ser - bem mais profundo: olharmo-nos de frente e encararmos finalmente o que somos, como fomos, em todas as suas facetas. Na multiplicidade histórica e mítica ainda por preencher e entender. Não há Idade de Ouro que não tenha reversos feridos. Mas tapar as feridas e ocultar o incómodo não é, nem pode ser próprio de uma cultura que fez da saudade um santuário de remissões vagas e místicas. Que o sonho e a lenda não sirvam para encobrir a dor. Encobrir não é viver; é mitificar e calar.
Fica, para já, o desafio proposto para 2006. Que acham?

O filme do olhar


Braque, Vogel

São cabos de alta tensão e desenham ao longe o fio de prumo onde navega, solitário, o horizonte. Abrem os braços, sibilam ao vento, percorrem quilómetros e parecem evocar Braque quando dividem a profundidade em sucessivas anamorfoses e montagens. Prodígios invisíveis.
Riso falado



Vi Um Filme Falado de Manuel de Oliveira. Muito diferente de todos os seus últimos filmes. Começa por ser uma peça didáctica (a criança que pergunta obsessivamente à sua mãe: “O que é...”?), no meio de uma viagem - que não chega a ser deslumbrante - através do universo mediterrânico: Ceuta, Marselha, Pompeia, Atenas, Gizé e Istambul. Depois do afloramento mediterrânico e da diluída conversa entre John Malkovitch, Irene Papas e Catherine Deneuve, tudo se transforma numa frágil comédia. Subitamente, o terrorismo torna-se num estranho e paradoxal pretexto para a gargalhada final. A Manuel de Oliveira tudo se perdoa. Digo eu.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2004

Tragédia em Jerusalém

Deixou-se fotografar ainda vivo, avançou depois com uma bomba para o meio de inocentes, fez-se explodir e conseguiu que dez pessoas morressem do mesmo modo como um homem toca com a mão num muro. Sem mais nem menos. Isto não é guerra, isto não é nada. Terror puro, sem explicação, sem princípios, sem argumentos. Chamava-se Alí e pertencia ao al-Aksa. Nem a boa vontade da troca de prisioneiros que hoje decorria, no leste de Israel, retirou o ímpeto a estes terroristas suicidários.