terça-feira, 6 de janeiro de 2004

Pathos de Inverno


Open Democracy

Um brilho de veludo, a luz da bruma mais esvaída e a humidade da vertigem a invadirem a verdadeira noite de Janeiro. É o frio a adivinhar o sabor a gelo e o antigo espectro das cavernas onde se desenharam traços de cor avermelhada de sangue. No inverno, o corpo ensaia a grande dança da gestação e a imensa espera dos citrinos torna-se agora na delonga do génio noctívago. E sem nada que o previsse, eis que a natureza fala através de sinais pouco claros, porque apenas amadurecidos na densidade mais crepuscular. São traços escuros sobre fundo escuro, são meteoritos brilhantes sobre o brilho de águas paradas, são vozes de silêncio sobre o mutismo mais longilíneo da terra. As marcas do inverno não têm nome. Apenas uma respiração profunda, um desejo avassalador e todo, todo o luzir da manhã desejada.
Já hoje olharam para o céu?

Ei-lo:



Com ou sem nuvens, ela está lá. Apesar desse imenso prazer (ver e rever a lua), hoje recomeçaram as aulas e as leituras entre mil tempos mortos e esse ponto morto que delimita sem fronteiras certas o ritmo do quotidiano. E o carro para a frente e para trás à procura de um destino. À procura de um sentido.
Em Fevereiro, vou ter muito para escrever. Os planos de viagem começam a ditar-me alguns horários, alguns desejos sob a forma de ocupação física do tempo. Até lá, fiquemo-nos pela contemplação da noite. A noite do verdadeiro Inverno.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2004

Loucura brevíssima


Botticelli, Primavera

Pode parecer uma loucura, porque é com efeito uma loucura supor vivencialmente uma coisa dois meses antes dela se prefigurar. Mas ontem, em plena tarde de sol maravilhado, ao interromper a leitura de um romance velho de trinta e cinco anos de idade (belo mosto!), dei comigo a dizer que isto era ou parecia ser um dia de Primavera. Mas não era. Era tão-só a imagem móvel, certa e precisa a correr na minha frente com lentidão godardiana e eu, do outro lado do lago, a pronunciar, em voz off, o texto da Primavera que parecia, ele sim, uma loucura. Árvores sem folhas, ramos sem fio, seivas sem dote, rebentos sem forma, mas, por outro lado, de verdade, era tal o prazer a deambular no ar azul e sem nuvens, era tal o fascínio a deambular sob aquele sol aberto e sem sombras, era tal a leveza a pairar naquela mornidão redentora e sem teias que eu me vi a clamar, em sigilo e sem freios, pela palavra Primavera. Hoje, como já se notou, vieram as nuvens altas e o céu adensou o seu mistério, ontem ainda tão apolineamente deslumbrado. Ritmos da natureza. Ritmos dos blogues.
Optimismos

A crença de que vivemos no melhor dos mundos é uma crença plausível apenas e tão-só quando o homem não acredita que é ele que tem de facto o leme na mão (cf. Leibniz ou os Mu´tazilitas de Bássora do Séc. IX). Quando todos sabemos que, de certo modo, o tem, ou que, pelo menos, o partilha com diversíssimas circunstâncias, é normal que políticos e bispos, uns e outros investidos no altar que ainda sobra do dever, apareçam a prenunciar a certeza de um mundo ideal e melhor, ou mesmo a aconselhar o dissimulado fruto do optimismo. É a habitual vaga fática de início de ano, de Páscoa, de dez de Junho, de vinte e cinco de Abril, de Natal, de um de Novembro e de outras pontes que oscilam entre a comemoração festiva ou vazia e o milagre da multiplicação da função pública. Somos um povo em que alguns dos seus escritores ainda sonham com o funcionalismo subvencionado e em que o estado é o mais antigo deus paternal que foi um dia incumbido de tratar das azias colectivas, as dos árbitros, as dos penalties ungidos pelo óleo do santo espírito e todas, todas as outras, as mais importantes. Claro. Com um tal estado e uma tal teodiceia terrena e natural, não há pessimismo que resista. Nem mesmo quando a crise e a sensação de desistência generalizada são o dia a dia do nosso grotesco mas gostoso bacalhau à Gomes Sá.
Ainda a agenda

A chamada "agenda" (noticiosa, política, tanto faz) é um instrumento lexical recente. Serve para nos delimitar, com alguma precisão, as coisas em que devemos pensar e as coisas que devemos ouvir e ver (os chamados "conteúdos"). No fundo, a "agenda" resume-se a um conjunto de instruções que tende a edificar um mundo fechado sobre si próprio e que conteria em si todas as referências possíveis do nosso discorrer. Sem ter em conta que o complexo discorrer em que comunicamos (ou através do qual somos comunicados) é um vaivém muitíssimo mais irradiante e livre. Em tempo de rede, as tentativas de impedir a cultura do linque ilimitado são interessantes. Vendem-nos o fluxo e a indiferença e tendem a esquecer que a democracia é um habitat de indagação de todos os percursos possíveis. E o possível, repita-se e registe-se, não é apenas o construído, o dito, o agendado.
Só um apogeu trágico do hiper-terrorismo poderia, um dia, legitimar uma dada cultura da "agenda".
Inventários e mundos

O blogue Instapundit divulga hoje um contador que dá conta das vidas que todos os dias são poupadas no Iraque. É interessante ir e ver com os próprios olhos. Por trás da retórica que envolve o pós-guerra, sobretudo na Europa, há outros dados que poucos, de facto, relativam e colocam na agenda. Ou não é a "agenda" uma espécie de inventário que pretende soterrar os ilimitados inventários de que o mundo é feito?
Esplendores

Hoje começa de facto o ano de 2004. Para trás ficam N pontes e feriados, fivam N quadras luminosas e desmedidas bichas em pontes, para além das Janeiras, das cartas anónimas forçadas e das estatísticas rodoviárias da morte. É o nosso Iraque asfaltado e é, também, a nossa capacidade de baixar a productiveness até a níveis ínfimos durante uns bons dez a doze dias. Mas o sol brilha, esplendoroso. E concede aos portugueses aquela dose de alheamento e de inércia que se adequa na perfeição aos lazeres prolongados e à aparente doçura conventual. O pior é quando estala o verniz e o indígena se apanha ao volante.
E é nesse aquário de tubarões ensanguentados que então se descobre a outra face do esplendor mais rude, espertalhão, inventor de truques, egoísta, acaciano e mergulhador em águas muito pouco profundas. Infelizmente. Apesar de tudo é melhor ser português do que alemão.
Planeta vermelho



Estas imagens, enviadas hoje pelo Robô Spirit, convidam-nos a repensar o espaço além-global. Por outras palavras, quando ainda nos ocupamos em definir a hiper-realidade no nosso mundo bem como todas as suas consequências num quadro de fusão entre o homem e as máquinas do futuro (a nova antropologia cyborguizada), eis-nos, agora e aqui, a cair em nós e a trocar a velha fotografia pela simples paragem de imagens noutros globos e noutras coordernadas.
É a vitória red, marciana já se vê.

domingo, 4 de janeiro de 2004

sábado, 3 de janeiro de 2004

Pós-regionalização

A confusão já está lançada outra vez. Pequenos clientelismos, grandes pacovices paroquiais, imensas e tremendas crisálidas para protagonismos e novo-riquismos territoriais em torno das novas siglas: as C.U., as G.A.M. e as A.M.
Ser presidente de uma sigla destas é agora a tarefa de mil e um edis espalhados pela coluna dorsal do nosso luso jardim delico-doce e cheio de pequenas capitais a fervilharem de betão, canavial, centros comerciais, caminhos de cabras, telhados de zinco, vias verdes e pinheiros queimados na berma das estradas acidentadas. Para além dos estádios e das cartas anónimas, é verdade.