quarta-feira, 31 de dezembro de 2003

A todos desejo um grande 2004!


Baco por Caravaggio (Loggia)

Até para o ano e uma óptima travessia. Luís Carmelo.
Agradecimentos

ao Contra a Corrente, à Bomba Inteligente e ao Almocreve das Petas pelo lugar que nos atribuem no ano dos blogues, o 2003.
Desaparecimento


Yale University

Há em Hopper um desaparecimento. Como se as formas tivessem resistido à edificação e, ainda assim, conspirassem algures, mas muito ao longe do alcance do mundo formado e possível. É aí, nessa recôndita travessia sem lugares, que a encenação hopperiana adquire um nome, uma fachada e um modo de ser tão silencioso quanto próximo.
Universo moral - 2

Anteontem, dia 29/12/2003, Souto Moura precisava acerca do processo Casa Pia: "o segredo de justiça não terminou" com a dedução da acusação. Ontem, foi ver os jornais, a televisão, os debates e o rosto das notícias. Com a maior das naturalidades, tudo e todos falavam de tudo, como se o livro se tivesse definitivamente aberto diante dos olhos extasiados de todos nós. Pela minha parte, sem pruridos ou pudores, prefiro não me pronunciar acerca da cascata revelatória. Apenas creio que, em termos exclusivamente políticos, Ferro Rodrigues devia retirar de vez as ilações que parecem agora ser cristalinas.

terça-feira, 30 de dezembro de 2003

A polémica do utente

Segui com interesse a mini-polémica entre o Abrupto e a Causa Nossa sobre a pertinência e as conotações do uso da palavra "utente". O que estará em causa na nota de Pacheco Pereira, provavelmente sem grande clarificação do próprio autor, é o facto de certos requisitos de linguagem, nos últimos trinta anos, terem construído mundos, adequando-se assim a diversas micro-comunidades de interesse (político, sindical, económico, etc). O mecanismo, mais semiótico do que propriamente semântico, procedeu sobretudo por ratio difficilis (o que ocorre quando não existe um tipo expressivo preformado para certos conteúdos subitamente emergentes) e criou um novíssimo aparato de linguagem que permitiu grande parte das discussões do pós-25 de Abril, bem como legitimou a identificação das palavras de ordem dos sectores emergentes que enunciavam os seus mundos, pela primeira vez, numa comunidade ainda à produra de um perfil democrático. É aí que a reconfiguração do uso da palavra "utente" adquire um novo nexo, embora, e sempre, dentro de contextos previsíveis e entretanto já sistematizados e codificados pela máquina social (daí a facilidade dos exemplos que Vital Moreira ostenta no seu contra-texto). Mas, a par da palavra "utente", poder-se-iam apontar muitas outras palavras que, no seu conjunto e diversidade, contribuíram para reedificar os mundos imaginários a partir dos quais e nos quais hoje em dia nos entendemos, concordando, discordando, discorrendo. Seria interessante elaborar uma lista desse tipo de lexemas (trabalhadores, processo, iniciativa, massas, empreendedores, auditoria, empresários, comissão, para além de um leque ilimitado de siglas, etc.)
Universo moral

Eis como o blogue de Brendan O´neill descreve a "masturbação moral" que, no ocidente, sucedeu à captura de Saddam Hussein:

Since Saddam climbed out of his spider-hole and into the custody of US troops, we have read thousands of words about Iraq - it's the 'end of an era', we are told, the 'shadow of Saddam' has finally being lifted, the Iraqi people's eyes have been opened to their 'liberation', and so on.
But I would like to turn our focus back to the West for a moment, and ask: what kind of people define their moral universe by the capture of a dirty, bedraggled has-been dictator down a stinking hole in Tikrit?


(Atenção rapaziada mais novinha: isto é puro sarcasmo e nada tem a ver com a dicotomia boa-má notícia que parece ter sido imputada à dita captura)
Esperanças

O meu colega das semióticas, José Augusto Mourão, fez acompanhar as suas simpáticas boas festas da homilia de Natal por ele escrita. Não resisto a publicar três extractos desse texto pelo seu brilho discursivo e teórico:

1.Num dos seus últimos escritos, A imutabilidade de Deus (1851), Kierkegaard fala de um “viandante que se queda ao pé de uma montanha enorme, impossível de escalar”. Os seus desejos e aspirações, a sua alma, visam as alturas, mas a montanha continua diante dele, imóvel, impossível de escalar. Pode o viandante chegar aos setenta anos: a montanha erguer-se-á ainda diante dele imutável, inacessível. Mil anos pasassem e a montanha continuaria imóvel e já mortos quantos tentaram escalá-la. A montanha inacessível e imutável é de facto, Deus. Esta será uma das últimas vezes em que um grande pensador vê Deus como o imutável e o eterno, em contraposição com a mutabilidade e a volubilidade do mundo.
2.Os teólogos dizem-nos que Deus é um ser atemporal que é infinito, omnisciente e omnipotente porque Ele é todo o ser,e toda a existência está contida nele. Não sabemos o que dizemos. Não sabemos o que significa existir fora do tempo, conter todo o passado e todo o futuro na existência presente. Não sabemos o que significa ser omnipotente, senão metaforicamente – o pantocrator grego que alude ao governante ou senhor de todas as coisas é mais fácil de conceber do que o seu equivalente latino omnipotens. Não sabemos o que é criar o mundo de nada. Tão pouco o que é ser omnisciente, nem o que é a Santíssima Trindade ou que coisa possa ser identificada de essência e existência.
5.Na nossa civilização tudo se tornou uma questão de fé. Vivemos na fé enquanto estamos na terra. “Fé” significa “fidúcia”. Fiamo-nos no guia quando não sabemos os caminhos; ter fé é um não ver e um não saber. Paulo di-lo: fiamo-nos nas coisas que não aparecem (non apparentium). Onde aparece a salvação é que está o perigo. Até a missão do Tirano que o homem democrático acalenta é “espiritual”: fazer do cosmo uma cidade, de todos os lugares um espaço, de todas as convicções a convicção sobre a eficácia da Técnica e de toda a fé uma só ética. O Anticristo “erit in omnibus subdole placidus” não é o oposto de Cristo, mas o seu símil. Quer trazer ao homem a sua paz, convencê-lo disso e encadeá-lo. É o ídolo da providência que o homem democrático adora: adorará aqueles que dispõem da força desta fé. Servirão aqueles que afirmam poder produzi-la, que saberão magicamente mostrar-lhes que a paz (segurança. Protecção, tutela) está em seu poder. O seu rosto será placidus, a sua violência não se exprimirá com guerra, mesmo “justa”, mas com a divinização das obras. E as obras parecem divinas quando possam produzir o Último (Cacciari, 1997: 128).


Há dias em que a esperança sabe violar o apertado vale do sentido. É então que me sinto mais agnóstico do que ateu, mais poeta do que morfeu, mais inquieto do que camafeu. E, no entanto, é nessas alturas que insisto em partilhar a esperança. Talvez a esperança dos cépticos, mas, de qualquer modo, a esperança.
Desarrumação

Ao fundo, umas luminárias brevíssimas a decomporem o negrume sem perfil e sem contornos que o arvoredo desenha de par a par na esquadria da janela, onde as cortinas abertas desenham um vale invertido em folhos assim como a graça com que se inscreve na noite a longevidade do verbo esquecer.
Balanço

No penúltimo dia do ano surge a tentação do balanço. As imagens que a mais ligeira tentação seleccionaria para a arena habitual são de todos já conhecidas (Iraque, Casa Pia, etc., etc.). Ficam, no entanto, por lembrar todas as outras que jamais conseguirão registar o seu próprio apagamento. Mas são elas que tornaram possível o edifício do ano.
Vejamos os 365 dias e 6 horas de 2003 como uma arquitectura que se foi desdobrando e ampliando em processo, através de linhas e pontos que, ao mesmo tempo, se definiam e se excluíam. Nesses milhões de segundos sem rosto, sem encanto e sem história (os tais que lançaram as linhas de força mas que não as corporizaram) reside a força do ano. De todos os anos. Ou de qualquer duração em que a entrega excedeu a tentação de um balanço.
Um corpo respira o invisível e denota o palpável com olhos que apenas dão conta do sentido.
Fora do vale por onde corre o sentido há outras imagens, há outras guerras, há outras prisões, há outras expansões. É por isso que a boa literatura deve cheirar, aqui e ali, a desarrumação. A aparente desperdício. A puro lapso.
Oxalá eu chegue um dia a essa outra falha.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2003

Instante

E há um instante, nada mais do que o retinir perfeitamente indistinto que me chega de longe, um instante breve, portanto, em que chego a admirar-me de estar aqui. À mesa, sentado, com a quase certeza de que me cruzei com qualquer coisa. É assim também a respiração.