Acusações vs Suspensões
Em minha opinião, devia tê-lo feito há meses. Recorrendo às próprias palavras de Paulo Pedroso, teria ganho imenso tempo e oportunidade política ao "preservar o Parlamento e o PS dos efeitos colaterais de difamação". Parece-me claro e óbvio.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2003
Para Já
Estou a ler o Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo e creio que o jogo entre as descontinuidades discursivas, a polifonia explícita e o poder das imagens tão próprio do António Lobo Antunes já foi melhor no Manual e no Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura. Não sei, falta-me ainda devorar mais de metade. Para já é o que há a dizer. E é pouco. O ideal, nestes casos, é mesmo o silêncio. Pelo menos, quando é possível silenciar a exaltação. O que nem sempre é fácil.
Estou a ler o Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo e creio que o jogo entre as descontinuidades discursivas, a polifonia explícita e o poder das imagens tão próprio do António Lobo Antunes já foi melhor no Manual e no Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura. Não sei, falta-me ainda devorar mais de metade. Para já é o que há a dizer. E é pouco. O ideal, nestes casos, é mesmo o silêncio. Pelo menos, quando é possível silenciar a exaltação. O que nem sempre é fácil.
De regresso - 2
Estou de volta após breve passagem pelos mares do (nosso) sul. Por agora fica o registo de chegada: nuvens avermelhadas, densas, a transbordar no coração da terra incerta que ficou por lavrar. É esta a janela, é este o olhar de chegada. De lado, ficará a avidez das palavras. Vou dar-lhes tempo para que aflorem para além do mosto e das mil bases que lhe terão filtrado a viagem. Um rosto é sempre o reflexo de um langor muito antigo. Quase sempre adiado. A maior parte das vezes esquecido. Perdido. Nuvens densas, avermelhadas, é esta a janela. É esta a casa de regresso. Inventemos mundos.
De regresso - 1
De regresso a casa, tinha quase setenta mensagens na caixa de correio electrónico. Agradeço a todos as palavras generosas, o calor, a amizade, a entreajuda e o resto. O mundo, por vezes, é uma caixa de surpresas. Não é?
Estou de volta após breve passagem pelos mares do (nosso) sul. Por agora fica o registo de chegada: nuvens avermelhadas, densas, a transbordar no coração da terra incerta que ficou por lavrar. É esta a janela, é este o olhar de chegada. De lado, ficará a avidez das palavras. Vou dar-lhes tempo para que aflorem para além do mosto e das mil bases que lhe terão filtrado a viagem. Um rosto é sempre o reflexo de um langor muito antigo. Quase sempre adiado. A maior parte das vezes esquecido. Perdido. Nuvens densas, avermelhadas, é esta a janela. É esta a casa de regresso. Inventemos mundos.
De regresso - 1
De regresso a casa, tinha quase setenta mensagens na caixa de correio electrónico. Agradeço a todos as palavras generosas, o calor, a amizade, a entreajuda e o resto. O mundo, por vezes, é uma caixa de surpresas. Não é?
terça-feira, 23 de dezembro de 2003
Inverno, dia 1
Põe-se o sol. No limiar do horizonte a vista transforma-se num magma aceso. Depois escurece e a noite anuncia-se através da uma nova densidade. No vidro da janela reaparece a humidade, essa linguagem filigrânica que diz o coração da água em silêncio. É nestas alturas que a espera se torna presença. E o que é agora actual passa a ocupar o espaço passado e um certo porvir talvez idealizado. Deste modo discreto, quase que passamos despercebidamente sob o zénite do solstício. Como se navegássemos lentamente sob a veneziana ponte dos suspiros. Saudemo-los. Estou longe do quotidiano e deixo-me inebriar pelas imagens que rasgam a terra. Até porque amanhã o sortilégio da vida voltará a celebrar outra vez a luz.
Põe-se o sol. No limiar do horizonte a vista transforma-se num magma aceso. Depois escurece e a noite anuncia-se através da uma nova densidade. No vidro da janela reaparece a humidade, essa linguagem filigrânica que diz o coração da água em silêncio. É nestas alturas que a espera se torna presença. E o que é agora actual passa a ocupar o espaço passado e um certo porvir talvez idealizado. Deste modo discreto, quase que passamos despercebidamente sob o zénite do solstício. Como se navegássemos lentamente sob a veneziana ponte dos suspiros. Saudemo-los. Estou longe do quotidiano e deixo-me inebriar pelas imagens que rasgam a terra. Até porque amanhã o sortilégio da vida voltará a celebrar outra vez a luz.
Quase Natal - 3
Uma das características destes dias que antecedem a noite de 24 de Dezembro é a perda de pé, o stress, a correria e o lado mais desavindo da euforia. Barrico-me em casa e olho em frente. Há um sol prodigioso a alimentar esta crisálida, esta paragem, esta suspensão, este pausa, este limar de arestas sem destino.
Uma das características destes dias que antecedem a noite de 24 de Dezembro é a perda de pé, o stress, a correria e o lado mais desavindo da euforia. Barrico-me em casa e olho em frente. Há um sol prodigioso a alimentar esta crisálida, esta paragem, esta suspensão, este pausa, este limar de arestas sem destino.
segunda-feira, 22 de dezembro de 2003
Quase Natal - 2
Luzes ao longe e o perfil esfumado da encosta por onde descem carros muito lentamente. São as ruas despovoadas depois da euforia. Fios eléctricos que acendem e apagam no meio da voragem agora suspensa. São músicas com sabor a açafrão doce. Manequins em ritmo diáfano e o fumo das castanhas ao fundo do túnel. E, no meio deste alinhamento de montras e cabines telefónicas vazias, há sempre uma motorizada a rodopiar nas margens do silêncio. Fantasmas de barrete vermelho, barbas de esferovite e néons em forma estrelada. É natal e, talvez por isso, a memória entregue a si própria a máscara que lhe confere surpresas. E é então que o lume se acende e atinge as nuvens mais altas. São imagens distantes, perfeitas, ateadas pela dádiva, ou pelo encantamento sem razão. E, mesmo assim, vivas. Vivas e presentes como o imenso limoeiro ao fundo do quintal.
É aproveitar para suspender o quotidiano e pensar. Pensar sem objecto, Sem finalidade. Até amanhã.
Luzes ao longe e o perfil esfumado da encosta por onde descem carros muito lentamente. São as ruas despovoadas depois da euforia. Fios eléctricos que acendem e apagam no meio da voragem agora suspensa. São músicas com sabor a açafrão doce. Manequins em ritmo diáfano e o fumo das castanhas ao fundo do túnel. E, no meio deste alinhamento de montras e cabines telefónicas vazias, há sempre uma motorizada a rodopiar nas margens do silêncio. Fantasmas de barrete vermelho, barbas de esferovite e néons em forma estrelada. É natal e, talvez por isso, a memória entregue a si própria a máscara que lhe confere surpresas. E é então que o lume se acende e atinge as nuvens mais altas. São imagens distantes, perfeitas, ateadas pela dádiva, ou pelo encantamento sem razão. E, mesmo assim, vivas. Vivas e presentes como o imenso limoeiro ao fundo do quintal.
É aproveitar para suspender o quotidiano e pensar. Pensar sem objecto, Sem finalidade. Até amanhã.
domingo, 21 de dezembro de 2003
Quase Natal - 1
Aproxima-se o Natal e o ritmo blogosférico está a descer e vai descer ainda mais. Inevitavelmente. E ainda bem. Aproveitarei decerto o balanço mais pausado, mas, para já, não farei ainda qualquer intervalo. Cada coisa a seu tempo. Noites calmas, lume aceso, os astros em repouso e a grande esfera em deambulações muito lentas e silenciosas.
É aproveitar o ritmo para descansar.
Aproxima-se o Natal e o ritmo blogosférico está a descer e vai descer ainda mais. Inevitavelmente. E ainda bem. Aproveitarei decerto o balanço mais pausado, mas, para já, não farei ainda qualquer intervalo. Cada coisa a seu tempo. Noites calmas, lume aceso, os astros em repouso e a grande esfera em deambulações muito lentas e silenciosas.
É aproveitar o ritmo para descansar.
sábado, 20 de dezembro de 2003
Da cultura
MIM, Buenos Aires
Havia uma exaltação centrada e musculada na política cultural à António Ferro, aliás na linha das políticas culturais soviéticas. Com menos dose de propaganda, porque assentes já numa matriz democrática, as políticas de Malraux continuaram, no entanto, apostadas no fechamento, agora em torno da figura dos centros culturais e do seu culto irradiador (como se a arte fosse a nova expressão de um deus inelutavelmente perdido).
O que sobrará a estes espectros que chegam até nós, hoje em dia?
Porventura, a ideia (recente) de património, físico e imaginário, bem como o estímulo descentrado, democrático e transversal à criação contemporânea e aos seus públicos variados.
Estou em crer que as actividades que se designam dentro do chamado espaço cultural, na escala de uma economia em que o deve e o haver deverá exceder a noção de saldo, estão inevitavelmente dependentes, como muitas outras, de orçamentos, privados e públicos, que lhes são alheios.
Seja como for, é um facto que a actual esteticização do mundo comunicacional (na publicidade, no design, no cibermundo, na auto-referencialidade dos média, etc.) convive com uma mediania global cada vez mais distante de uma ideia de exaltação musculada. Neste cenário de fluxos, o espaço da cultura deixou de estar preso às delimitações e fronteiras que o tornavam visível e existente no século XX.
Muito do discurso actual sobre a cultura continua a misturar o(s) pano(s) de fundo do século passado com a pura descrição descentrada das actividades designadas como culturais, tais como elas hoje se processam e se tornam visíveis (sem as contextualizar devidamente).
Esta desvio óptico, ou esta falha de perspectiva, está na origem de muita errância discursiva sobre o tema da cultura.
MIM, Buenos Aires
Havia uma exaltação centrada e musculada na política cultural à António Ferro, aliás na linha das políticas culturais soviéticas. Com menos dose de propaganda, porque assentes já numa matriz democrática, as políticas de Malraux continuaram, no entanto, apostadas no fechamento, agora em torno da figura dos centros culturais e do seu culto irradiador (como se a arte fosse a nova expressão de um deus inelutavelmente perdido).
O que sobrará a estes espectros que chegam até nós, hoje em dia?
Porventura, a ideia (recente) de património, físico e imaginário, bem como o estímulo descentrado, democrático e transversal à criação contemporânea e aos seus públicos variados.
Estou em crer que as actividades que se designam dentro do chamado espaço cultural, na escala de uma economia em que o deve e o haver deverá exceder a noção de saldo, estão inevitavelmente dependentes, como muitas outras, de orçamentos, privados e públicos, que lhes são alheios.
Seja como for, é um facto que a actual esteticização do mundo comunicacional (na publicidade, no design, no cibermundo, na auto-referencialidade dos média, etc.) convive com uma mediania global cada vez mais distante de uma ideia de exaltação musculada. Neste cenário de fluxos, o espaço da cultura deixou de estar preso às delimitações e fronteiras que o tornavam visível e existente no século XX.
Muito do discurso actual sobre a cultura continua a misturar o(s) pano(s) de fundo do século passado com a pura descrição descentrada das actividades designadas como culturais, tais como elas hoje se processam e se tornam visíveis (sem as contextualizar devidamente).
Esta desvio óptico, ou esta falha de perspectiva, está na origem de muita errância discursiva sobre o tema da cultura.
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