sexta-feira, 5 de dezembro de 2003

Desejo

Tem sido uma semana de actividades concentradas, variadas, repetidas. E sempre a chover. A chover. Às vezes, face a certos ritmos e flutuações, fica mesmo tudo por dizer. É por isso que se escreve, para subsumir às possibilidades de cada momento um desejo longínquo que os atravessa.

Quase Inverno

Os limões sob chuva forte. As pedras quase em gelo a observarem o ceú sem cor. Sem palavra. E o destemido fantasma, tão esguio quanto a última labareda que sai do tronco de azinho, a escapar-se pelas chaminés. É assim o inverno.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2003

Aniversário

Hoje, o meu pai, José Geraldo Amaro Carmelo, faz oitenta anos.
Parabéns Pai!
Rua anónima

O brilho do sol na grande parede de zinco. Uma imagem rápida, brusca, quase acelerada. Motores ao longe. Por cima, os quatro círculos encantados. E ainda a telha escura a rodopiar o vestígio recente do brilho da chuva.
A luz inclinada a definir o volume do prédio, as varandas fechadas e o inacessível terraço. Por baixo, o telhado perdido entre musgos e a sombra muito lenta do gato. Dois olhos noctívagos a avançarem entre os quatro círculos metálicos que desenham a marca do stand. As montras de vidro espesso e o reflexo da multidão.
A parede de zinco como cenário para uma trama de Méliès, o telhado rasteiro como calhe para um travelling de Wenders. Os círculos da Audi como marketing olímpico a desafiar outros deuses. No cume do paraíso, ao centro, o gato é o imperador da cena. Na montra, de alto a baixo, o folclore das compras de natal.
É assim a rua mais anónima de Lisboa.

Penumbras matinais

Em frente, do outro lado da janela, vejo algumas laranjas espalhadas no chão. É uma talha luminosa que dança, passo a passo, uma espécie de Prelúdio de Villa-Lobos sobre um tapete persa à procura do seu voo. Entretanto, a chuva regressou e invadiu a toada demorada desta manhã de Dezembro. Ao fundo, os sobreiros já esqueceram a música que embalou a laranjeira e o breve passeio onde os frutos parecem esperar pela hora da rebentação.

terça-feira, 2 de dezembro de 2003

A luz da noite

No hemisfério da noite, tudo precede do caos. É por essa razão que a noite mitológica se terá deixado um dia envolver pelo seu irmão, Érebo, tendo-se assim tornado na mãe de Éter e de Hemera (i.e., do ar e da luz). Mas a noite acabou também por ser a mãe de muitos outros seres menos recomendáveis, todos eles habitantes de uma região chamada Hespéria que se dizia situada para além do Estreito de Gibraltar (na perspectiva do Mediterrâneo centro-oriental, claro). Curiosamente, este Ocidente que sempre se sonhou por trás das Colunas de Hércules, aparece na língua árabe traduzida pelo conceito de Gharb (o local onde o sol se põe). Ou não fosse a noite mitológica da margem norte do Mediterrâneo, entre outros atributos, a mãe da própria luz. Fica por explicar se a Atlântida que é revista em textos Platónicos - e que se situa no mesmo Extremo-Ocidente, embora já para além do Mare Nostrum - ainda pertence ao mundo apolíneo, ou se é irremediável parte do tártaro profundo, sombrio e esquecido.
Questão

Face a certos sites e a certas individualidades que, em princípio, entenderão muito bem a rede e o seu significado para a cidadania omnipolitana e contemporânea, pergunto: por que se diluem em grupo (se são definitivamente personalidades que apelam à clara individualização na vida off-line), ou por que se remetem apenas à inércia expositiva, sigilosa e silenciosa do seu próprio site (onde a convocação interactiva é prática e desejadamente nula)?
Fica por preencher o inabitável vazio da resposta.
Silêncio

Um problema no Blogger impede a blogosfera de respirar, nesta Terça-feira subitamente solar. Haja, pois, respeito pelo silêncio da rede. Qualquer dia procuro outro serviço para o Miniscente e deixo o Blogger. Essa é que é essa.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2003

Frases Felizes - 30

"A ignorância não produz felicidade. A ignorância limita, dilui diferenças, reduz opções, aproxima sentimentos. Da apatia à violência, do prazer à inveja, do desejo à satisfação do desejo. O conhecimento também não produz felicidade. Traça fronteiras e expande-as, intensifica tudo (o bom e o mau), permite a escolha dos caminhos possíveis e exige a responsabilidade dessa escolha. Ao limitar os desejos limita-nos, mas não limita os outros." (Ruminações Digitais)

E, à trigésima, a escolha F.F. - já referenciada na blogosfera - lá recaiu no tema da felicidade. Já não era sem tempo!
O primeiro livro português



Hoje é o dia da Restauração (dos tempos de liceu, lembro-me dos hinos e das fardas da mocidade e da cara do reitor eivada de quinto império e da minha família calipolense inflamada pelas lendas da primeira rainha seiscentista). Enfim, no dia que já foi uma espécie de 10 de Junho em segunda edição - até 1974 era assim - parece-me adequado dar atenção à notícia do primeiro livro impresso no nosso país (é o Rua da Judiaria que nos lembra o facto). Numa altura em que a tolerância estava a viver as suas últimas décadas - i.e. a tolerância entre comunidades diferenciadas que teve um auge no Califado de Córdova e que foi reatada, mais tarde, nas cortes ibéricas cristãs pós-Afonso X, incluindo D. Dinis - é interessante que o primeiro livro impresso em Portugal, saído "das oficinas tipográficas de D. Samuel Porteiro" (um judeu de Faro), no ano de 1487, tenha sido um Pentateuco editado em versão hebraica. "O único exemplar conhecido desta edição ainda em existência encontra-se na colecção permanente da British Library". Restaurado, ou não, Portugal sempre foi uma finisterra com várias origens e com uma idiossincrasia plural. As suas primeira letras atestam o facto. É bom não o esquecer.
Dezembro

As janelas aparecem invadidas, de alto a baixo, pela humidade. Nos vidros dançam amazonas, faunos recambolescos e duas belas estriges (que são mulheres com corpo de ave e patas recurvas). Olho em frente e é assim que entro em Dezembro. Puro cinema, sem montagem. A câmara na mão a percorrer o labirinto de Dédalo. Viva o solstício!