domingo, 30 de novembro de 2003

Mitos e travessias


Carmen Cisneros

Diz o Flor de Obsessão que "um bom romance" se reconhece logo "na primeira frase", enquanto, no caso do cinema, tudo dependeria da "última cena". Nesta afirmação (já a ouvi várias vezes), o entendimento escatológico cinematográfico equivaleria ao cosmogónico romanesco. Trata-se de uma crença na origem única e, por outro lado, no significado último e derradeiro. Trata-se de uma questão de segurança e também de algum receio face ao lado caótico que enquadra e ocupa grande parte do processo criativo, seja no construir romanesco (onde a intriga é uma parte, às vezes uma ínfima parte), seja na complexidade do processo cinematográfico. Não acredito na religiosiodade das origens únicas e dos significados últimos; creio antes no desenhar plural de possibilidades e no curso das coisas, na media res. É por isso que experimento um romance sempre a meio, antes de o iniciar (faço o mesmo até com ensaios, menos com o cinema por razões sobretudo logísticas). Muitas vezes, talvez a maior parte das vezes, aquilo que é o início de um romance resume-se a um acaso forjado, a uma fachada simulada, ou a um ajardinado convidativo. Muitas vezes, as primeiras palavras de um romance obedecem a um jogo, ou a uma ratoeira bem sinalizada e são amiúde inscritas no momento final de toda a escrita (é normal, é habitual tal acontecer). Já nem falo da montagem cinematográfica e desse fantasma que é o fim (a "última cena"/a última ceia?). Pela experiência que tenho, trata-se de algo que tem atrás de si uma predeterminação tal que pode tornar-se num momento vivo e memorial, é certo, mas jamais num garante (religioso) do significado (enquanto instância última, ou selo derradeiro - na moda corânica). Acredito mais nas travessias do que nos mitos. No fundo, é a diferença entre quem acredita que tudo fica irremediavelmente dito (no princípio ou no fim) e quem acredita que o dito não é o mesmo que o definitivamente revelado, mas tão-só uma modesta parte do não-dito.
Adeus Novembro

Chove. Vejo ao longe, no circuito de manutenção, alguns atletas com fato de treino e espesso guarda-chuva. Correm desenfreados. Deve ser assim o bronze de Novembro. A voragem do corpo.
No último sonho da noite, lembro-me que havia um enorme gafanhoto encostado ao tinteiro e sempre, sempre a olhar para mim. A luz era branda, suave, a desenhar nas paredes do escritório uma mancha abaulada, informe, espécie de embarcação silenciosa e sem rumo.
Chove. Subitamente, chove mesmo muito. Lá ao longe, o circuito de manutenção esvaziou.
Abro o rádio e surge o Chico Buarque a cantar a Banda (lembro um Setembro qualquer passado em Elvas. Gárgulas, bicicletas, calor, a vista ilimitada).
Monteverdi nocturno


Calenco

Fez-se silêncio em casa. O sono mergulhou profundamente nos objectos, no côncavo recuado das janelas, no hiato desconhecido que acompanha as cortinas e na própria sombra que se projecta sobre os muros do quintal. Ouço Monteverdi e sei neste momento que um cometa pode passar, a qualquer momento, do outro lado da janela. Mesmo em frente dos meus olhos.

sábado, 29 de novembro de 2003

Bloguelogia

Diz o Dicionário do Diabo que estamos "num momento de viragem da blogosfera, cada vez mais apostada - como se diz agora - nos «conteúdos». Pela minha parte, saúdo a seriedade intelectual de todos estes blogs novos e antigos. Havemos todos de trocar umas ideias sobre vários assuntos". Pois é, pelo meu lado prefiro uma blogosfera que reflicta a abertura ilimitada. A discorrer, a misturar, a não saciar ninguém. Nada tenho contra os conteúdos, mas a verdade é que, se a blogosfera, na sua dominante, evoluísse para um amplexo de segmentos mais ou menos estanques, ou para um self-service variamente centrado, então passaria a ser de facto um mero e clean expositor de conteúdos. Por mim, prefiro o acentramento, as assimetrias, a agenda não importada, a delonga não obrigatória, o fluxo das mil lógicas (do lixo à excelência), o suspenso, o debate sem rumo, a crítica aérea e terrena, o encontro mágico, a paródia, o humor e o resto. De acordo: havemos de trocar umas dicas sobre o assunto. É a bloguelogia.
Intelectuais - 2

Diz o perspicaz Avatares de um Desejo que "mostrar um certo distanciamento em relação às tecnologias emergentes é uma daquelas marcas de água dos intelectuais". E tem toda a razão. A esses vestígios de fumo açucarado que ainda têm a sofredora marca sartreana, os tais a que EPC outro dia chamou incontinentes (ou tradutores) dos "códigos culturais", fica sempre bem dizerem que não entendem nada de blogues, nem de internet, nem dessas coisas que eles inventam. Geralmente chamam a isso tudo coisas estranhas, americanices do Bill Gates, bruxedos globais e meio capitalistas; enfim, para eles, belos nostálgicos sem terreiro onde berrar, nada melhor do que os tempos em que havia tertúlias fechadinhas e a malta falava cara a cara, mesa a mesa, cinzeiro a cinzeiro, e ainda havia vanguardas e tudo (pois fazia então sentido prenunciar futuros de ouro). Agora a rede, o anonimato dos circuitos abertos, as Margaridas digitais, os cyborgs e os chips e todas essas coisas omnipolitanas e a caminhar para um vago being-in-common onde já nem vai havendo cultura territorial e assistência e auditórios clássicos, ai, ai que horror!
A caravana há-de passar e os intelectuais ficarão a fazer companhia às aventuras do bom Tim-Tim (ler mais abaixo o post "intelectuais").
Nome tardio



O Sábado começa com os vultos ao longe a deambularem entre as cercas perdidas. Uma avioneta no ar a contracenar com o sigilo da manhã. A voz que chega de longe. Parece um eco, uma labareda no meio do poço vazio, um sinal a crepitar no fundo da cisterna. Bom dia blogosfera!

sexta-feira, 28 de novembro de 2003

Agora mesmo



A penumbra que se adensa à volta do tronco do limoeiro e na folhagem da mais solitária das nespereiras. Por cima, um rio de estrelas a errar entre nuvens paradas e cheias de um pasmo sem limites. O antigo tanque de lavar a roupa e o fio coado de luz muito branca a deixar rasto e brilho no nicho do muro onde dormem alguns pombos. A brisa em torno de nada. O círculo. A noite a inverter a sua própria respiração. Uma sombra a falar acerca da ciência do quintal. Sem o saber.
Subsídios


Open Democracy

No Público de ontem, na secção de cultura, vinha o anúncio mais desejado por alguns: "Bolsas para Escritores Avançam, mas Sem Estreantes". Por mim, estreantes ou não, sou contra as bolsas destinadas a escritores tendo como objectivo a escrita de um livro. Já tenho mais de vinte livros publicados e em nenhum houve um subsídio estatal que me fosse pessoalmente destinado tendo em vista o acto criativo. Ter-me-ia sentido constrangido, pressionado, forçado, cerceado. No mínimo. Decerto que existem outras possibilidades de apoio a escritores já com algumas provas dadas, mas agora tornar o escritor num agricultor de girassóis ou num escrivão da nossa administração pública, isso nunca. Também eu gostava de viver só da escrita. Para dizer a verdade, já estive mais longe disso, embora saiba perfeitamente que continuo ainda a léguas e léguas de o conseguir. Mas persistirei. Terei que continuar a leccionar ao mesmo tempo. Terei de trabalhar em várias frentes. O que não posso é impor à comunidade onde vivo que me pague para eu fazer apenas o que desejo. Há que lutar pelas coisas. Há que saber merecer as coisas. Razão tinha o Gerrit Komrij quando disse, um dia, em plena Holanda das mil subvenções, que (foram mais ou menos estas as palavras) - "uma sociedade que paga para que se escreva ou para que se leia um livro é uma sociedade quase moribunda".
Gris


I.C.

"Gris, gris, l´amour est gris". Parece que foi hoje. A inocência da voz ainda a percorrer o que resta do outono. Os arbustos ao fundo no limiar da saudade. De que me lembro afinal, ao olhar para o céu carregado e cinzento?
Um mundo de musgos, o silêncio do fogo, o gesto sem norte, a fonte no meio da praça deserta.
Educação

Às vezes, a escala pode mesmo fazer a diferença. A experiência vem de Nova Iorque. Não é nada do outro mundo, mas funciona e bem. Leia a história que vem hoje publicada no Washington Post.