segunda-feira, 3 de novembro de 2003

São, Nim !

Numa sondagem da Universidade Católica feita para a RTP, cerca de 70% dos portugueses desejam e aceitam um constituição europeia. Nessa mesma sondagem, cerca de 90 % dos portugueses acham-se mal (ou mesmo muito mal) informados sobre o tema.
Há casos especificamente portugueses que merecem ser inquiridos com profundidade e suma paciência.
Optimismos

Poupem-nos os optimistas do Nietzsche & Schopenhauer. De facto, é constrangedor ver um estádio que é uma catedral e uma equipa que, às vezes, é apenas uma ermida.
Seriedades

O Aviz acredita na história e na sua sacralização. Não é a história, depois de Vico e do pós-iluminismo, uma consequência normal da emergência moderna que pretendeu racionalizar, catalogar e ordenar o passado, do mesmo modo que procedeu à racionalização do futuro, através da regulação utópica e ideológica (de tão transtornada memória, para nós, hoje) ?
E a ressacralização de um mundo que fora teossemiótico, por via da criação dos "novos altares da pátria, da história e da cultura", não foi um passo do mesmo movimento que teve o seu mais longínquo aparecer por volta de setecentos ?
Deixemos os miúdos correr no panteão e gozar o seu Harry Potter !
Convite - 3

Convido todos os leitores e todos os blogues para o lançamento do meu livro Semiótica - uma introdução que terá lugar na Livraria Eterno Retorno (Rua S. Boaventura, 42, Bairro Alto), na próxima Quarta-Feira, dia 5/11, pelas 22 horas (só há ciberconvites).

sábado, 1 de novembro de 2003

Frases felizes - 25

"Eu não tenho nenhum problema que me classifiquem na direita, desde que se explique o que é que isso quer dizer. Há uma direita que não faz, não quer fazer e eu não quero que faça parte do meu clube. E há uma esquerda liberal e moderada (infelizmente uma raridade no nosso país) com quem me entendo muito bem." (O Comprometido Espectador)
Rui Horta, hoje


Daniel Mueller

Depois de ver o LP coreografado pelo Rui Horta, duas conclusões. Primeira: o corpo não é apenas uma cascata de metáforas; ele é sobretudo um ser que se questiona. Segunda: o corpo não é apenas um actor que representa a nossa vida mental; ele é sobretudo um ser que se apresenta.
Desilusionismos

O nosso amigo Avatares de um Desejo (gosto do nome) referiu e comentou o subtítulo deste blogue: desilusionismos. Aproveito para pensar um pouco em voz alta acerca dessa minha escolha.
Na nossa vida, é normal confrontarmo-nos com identidades que são encenadas como coisas feitas, delimitadas e quase perfeitas. Como se existissem identidades que correspondessem sempre à transparência fosse do que fosse. Como se o mesmo fosse um episódio derradeiro e não discutível. A este mundo em que tudo nos surge ilusoriamente igual a si próprio chamaria eu mundo ilusionista, à moda do aventuroso Méliès que tentou transformar o cinematógrafo, no seu tempo, em algo belo mas subordinado ao efeitismo e à sugestão imediatos.
Rever e pôr em causa o carácter provisório e frágil de uma identidade - o seu estado de falha, como já expus romanescamente - é, no fundo, como dizem os descontruccionistas, ilustrar a sua indecibilidade, ou seja, pôr a nu a vasta terra de ninguém que separa as ordens que teriam sido possíveis no seu edificar-se do conjunto de possíveis realizado que prevalece diante dos nossos olhos. É esta a atitude desilusionista. Mais do que magia, é sobretudo uma subversão ou uma contaminação que se processa entre a desagragação e a edificação seja do que for. É esse o leme da própria escrita, afinal.
Tempestades solares - 2



Tal como ontem referimos, citando e dando a ver imagens do Washington Post, parece que o sol está a atravessar uma fase agitada. O Público, hoje, explica com algum detalhe o que se está a passar.
Novas vias

Ontem, depois de agradecer à Bomba uma mensagem simpática, vi-me a escrever com sinceridade acerca do que realmente me atrai na melhor blogosfera, ou seja, a "atitude de fusão entre o quotidiano e o que o não é numa única e imponderável textura". Esta capacidade de edição livre e individualizada, perseguindo a deriva alternativa ao que é hoje a massificação de uma sociabilidade de fluxos e democratizada muitas vezes por baixo, está a permitir o aparecer de novas plataformas de encontro, de novas vias entre o público e o privado, de novos ritmos entre a realidade e as ficcionalidades contemporâneas e de novos recortes na malha das linguagens que nos domina. Para além disso, a blogosfera é ainda um esteio onde se está a testemunhar, dia a dia, o surgimento e o ressurgimento de novas vozes e qualidades expressivas.
Cachecol apertado

Comecei o dia com o vírus da época a espreitar alguma oportunidade para atacar. Resisto-lhe. Quando dei por mim, estava a falar para uma rádio e a sentir a terrível compulsão e indecibilidade da palavra soletrada. Cada vez mais me apetece sobretudo escrever e não tanto falar publicamente, com excepção, às vezes, das aulas e das sessões públicas que digam respeito ao meu trabalho mais genuí­no. Preparo-me para ir ver um ateliê aberto baseado no trabalho LP de Rui Horta e, ao fim do dia, o encerramento de um festival de Jazz com a banda de Carlos Martins e com a Eddy Cabral Trio. Tudo isto se passa em Évora, a candidata a uma periferia de tipo novo que já vai tendo algum centro e onde a qualidade de vida vai aconselhando e permitindo uma vida tranquila.