quinta-feira, 4 de setembro de 2003

Até porque

uma árvore é uma árvore.
Mas nem sempre é a mesma coisa.



Ver o mesmo com outros olhos
ser o caos a mesma coisa
Até porque

o caos é sempre um personagem a falar de si mesmo.

quarta-feira, 3 de setembro de 2003

Proibido vs priobido

É verdade, sim. Eu respondo, eu respondo. O "Priobido" foi mesmo intencional. Era a brincar com o "subliminar" muito lacaniano e francês. O blogue, afinal, e com eu dizia, não é lá assim tão proibitivo. É, sim, priobitivo. Todos o vêem; ninguém o dita, todos o citam, ninguém o denuncia.
E eu também não.
O blogue priobido

Todos falam nele. O Abrupto, o Dicionário do Diabo, o Aviz e o Prazer Inculto. Só para citar quatro onde passei há minutos. Todos falam nele, no terrível blogue. No mal. Estou de acordo: há famílias e ciclos de vírus que vêm por mal e há também blogues que vieram por mal. Há uma escatologia blogosférica, sem rosto, sem mosto, ameaçadora. Dantes, os monstros representavam essas coisas, hoje é o silêncio forçado, o silêncio às vezes tão pouco sepulcral. Porque em todos, em todos sem excepção, existe uma subliminar tentação de o prenunciar, de o pronunciar, de o citar. De com ele conviver, ainda que separados por uma cortina suspensa de uma janela sem fim e em fogo. Faz lembrar o Murnau, naquele seu inocente Fausto, e onde aparece um monstro muito pio e inocente, muito velhinho e reluzente a ver voar morcegões muito escuros de asas a lembrar barbatanas. Um monstro de papel à Mao, um monstro do futebol à Garrincha. Uma coisa do arco da velha, do outro lado do parapeito, na outra margem do lago. Uma figura esbelta e terrível. Uma língua de fogo. Todos a vêem, todas a contam, todos a narram, todos a sonham.
Mas ninguém a vê.
Ninguém a diz.
Ninguém.
Eu também não.
Tinha lido no Aviz que havia um grande momento de futebol no Desejo casar. Desconfiei do azulado do comentário. Mas afinal gostei. Às vezes, ali para os lados do Maranhão, há com cada olheiro. Às vezes, ali para o lado da Luz, há com cada cumplicidade mais comovente ! Obrigado a ambos pelo docer momento.
O ruído do mundo português

Outro dia, algures na Arrábida, um exercício militar deu fogo. E apagá-lo, num diferido televisivo, foi coisa de gesta épica própria de exército meio desempregado (constante europeia que só adquire visibilidade quando há conflitos internacionais). Hoje, nas instalações da NATO, um militar morreu devido a um disparo involuntário. Mais a norte, algures numa penitenciária, um esmerado "artista plástico" pintava um ramo de árvore a esvoaçar ao lado de uma pombinha branca. E a psicóloga com um dente a menos secundava o acto com grande gravidade. Aliás, o que é comum aos três casos, para além da farda, é o discurso dos peritos, ou dos experts, (os espertos, na lusa língua), que se apressam a narrar a moralidade dos factos com um ar absolutamente gravíssimo e adverbialmente decisivo e convincente.
De facto, ao lado do kitsch ostentátório, Portugal tem cada vez mais apetência a um culto dos peritos acacianos. No futebol sempre houve muitos, mas têm piada e funcionam bem na linguagem onde habitam. Só que agora o fenómeno está a transbordar... e o que era giro nos Donos da Bola, há uns anos (eu deliciava-me a ver), está agora a tornar-se cada vez mais na actualidade dos figurões da defesa, da segurança, da justiça, sem esquecer o verosímil (ou versossímil, tanto faz) de certos comentadores televisivos que começam a cansar. A repetição cansa, cria tautologias, origina reduções. E um longo discurso, semana após semana, começa, a pouco e pouco, a reduzir-se a siglas e a meras palavras de ordem. Do mesmo modo que o discurso dos responsáveis do exército (na Arrábida, ou no quartel da NATO) e da polícia (na tal Penitenciária pintalgada) é só já uma mera sigla, uma descansada palavra de ordem branca, inodora, inofensiva, sem sentido. Ruído. Um verdadeiro Nada.
O século oliventino

Os amigos de Olivença têm andado num ritmo frenético. Primeiro foi a questão judicial da ponte, depois foi o regozijo com que enchem caixas de correio por terem sido recebidos por um micro-partido (BE) e, por fim, é a notícia de que a CIA incluiu finalmente a questão oliventina no "Relatório anual sobre Disputas internacionais".
Viveremos em que século ? (infelizmente a pergunta adequar-se-ia a muitas outras carapuças com bem mais protagonismo e que todos temos que ouvir no dia a dia...)

terça-feira, 2 de setembro de 2003

Ainda a literatura e os fluxos

Um leitor devidamente identificado fez-me chegar a seguinte mensagem, em diálogo com o post anterior.

Li as notas sobre a literatura de fluxo, ou fluxos, e só posso concordar com a teoria.
Há algum tempo comprei o livro do Urbano Tavares Rodrigues UTR, intitulado Goodbless América, que aliás me foi recomendado, ou referido por razões que não interessam para aqui, pois bem, só me atrevo a criticar a obra, que devolvi dez minutos depois de adquirida e lida, porque acredito piamente que não foi UTR que a escreveu.
Por quase vinte euros (quatro contos), demasiado para o produto em causa, adquiri, muito bem encadernadas, vinte e poucas páginas de um conto, em letras garrafais, para preencher espaço, com quatro ou cinco fotos que poderiam ter sido tiradas em qualquer canto do mundo árabe e sem a mínima relação com o conto contado.
Lançado na sequência da última guerra no Iraque, deve ter vendido como canja, enchido os cofres da editora até rebentar, e desiludido certamente muita gente.
Para mim foi um fenómeno de sinergia de fluxos que a editora e o autor, que terá acedido a assinar a obra aproveitaram.
Não me julgo à altura de criticar UTR, mas sei, quando provo qualquer coisa, se gosto ou não, e não gostei.
Todo o escritor coloca, mesmo que o não pressinta, a sua marca pessoal naquilo que escreve, é quase como uma impressão digital e, para mim, o polígrafo teria desmentido UTR
Posso não ter qualquer razão, mas não deixo de ter esta impressão. A culpa, essa só a posso atribuir a UTR, pois outras obras Dele me levaram a identificar o odor, melhor, a fragrância da sua escrita, e nesta obra esse misterioso perfume estava ausente.
Felizmente para mim que aceitaram trocar esse livro por um outro, que me satisfez e cuja autora não me desiludiu.
Quanto à obra que critico, foi um fluxo que lhe deu...


Não farei grandes comentários, embora, por mero acaso, e em conversa informal, tenha sabido pelo próprio UTR que andava a escrever o conto em questão.

segunda-feira, 1 de setembro de 2003

Notas sobre o texto dos fluxos

Republico por baixo o texto de ontem à noite, já que, por razões indescortináveis, os caracteres decidiram então fazer uma estranha greve.
Acabei de comprar o Equador do Miguel Sousa Tavares. Fi-lo para oferecer a quem gosta muito. Cá em casa. Compreendo o prazer deste tipo de gostos, mas não os partilho. Não tanto pelo marketing, não tanto pela competência linguística e estética do seu autor, não tanto por se tratar de um romance histórico (e eu não crer no mito da história como ciência, ou não apreciar particularmente o género), não tanto pelo enredo e não tanto, também, pelo facto de ameaçar tornar-se em best seller. O que eu menos gosto é da literatura que funciona por fluxo.
Nas Órbitas da Modernidade, defini fluxos como uma espécie de preenchimentos, mais automatizados do que autonomizados, no seio dos quais a liberdade é quase anulada por uma vontade prévia que é objectivada pelo instantanismo. Ou seja, por miúdos: vê-se em fluxo (a vida rodeada de ecãs), consome-se em fluxo (não interressa o que e por que se compra, mas compra-se; consome-se o próprio fluxo), fala-se em fluxo (regras rí­gidas ? Para quê ? basta só já uma sintaxe coordenada e alguns clichés em miniatura para contentar iniciais e siglas "q.b."), viaja-se em fluxo (a rotina motorizada das férias, do quotidiano urbano, das pontes, dos feriados, dos natais e doutros que tais), imagina-se em fluxo (a ficcionalidade dos média, construí­da a partir de dados reais, põe toda a sociedade a imaginar de modo homogéneo).
O fluxo é, pois, a voragem que precede a decisão e que atira o sujeito actual em fuga para a frente. Vê, compra, viaja, imagina e fala em estado de fluxo.
E há obras, ou livros, por muito bem escritos que sejam, por muito bem investigados que tenham sido através do labor de eminências anunciadas e por muito bem fermentados que tenham sido no mercado... que caem na arena do fluxo como ouro sobre azul. O livro de MST tem todas as características de um livro de fluxo. Parabéns ao autor pela receita ideal !
Junta o imaginário televisivo do autor a uma coloquialidade que apela à memória, à identidade e a um pretenso realismo histórico. Dá-se como objecto de um mundo de aventuras actual que recobre o mundo e roda sobre ele com eclectismo (daí­ o feliz tí­tulo). Por fim, propõe aos leitores um deslize ligeiro e confortável, ao longo da linguagem, que permite a muitos o jogo das mais de 500 páginas (se fosse música, digamos que ficava no ouvido).
Para mim, a literatura deve corresponder a um salto diferente. Não se trata de um salto para além da ordem dos fluxos - isso seria quase impossí­vel - , mas um salto diferente onde o factor estético ainda deverá ser o decisivo. É por isso que se chama literatura. Sem quaisquer preciosismos o afirmo.
Mas vou ler o Equador. Aos saltos, do fim para o princí­pio, em elipse, partilhando com muitos aquilo que são os fluxos.