quinta-feira, 31 de julho de 2003

Se existe paraíso, ele não deve andar longe destes dias de quarenta graus centígrados em que, de noite, deambulo entre árvores solitárias, no meio da penumbra dos ramos e dos versos. O resto, para já, pouco mais interessa.

segunda-feira, 28 de julho de 2003

Em breve, irei começar as obras. Muitas obras. Obras por todo o lado. No meio do imenso estaleiro, sobra um quintal entre muros altos onde pairam quatro árvores, um poço e algum manjericão. Olhei ontem para o quintal e desse olhar resultaram estas poeiras finas:


Como percorrer os anos e descer
entre glicínias até ao quintal onde o silêncio
é o que já foi
há tanto tempo afinal percorrido ?

os frutos no chão tão imóveis quanto a graça
que imaginei para aquilo que havia de ser o quintal
uns anos depois

havias de percorrê-lo e irias com os mesmos olhos
com que as folhas sangram ao vento

pelos degraus que descemos sem dar por isso
no primeiro dia em que os descobrimos.

domingo, 27 de julho de 2003

avaliações em vez de avaliaçãos gralha gralhindo gralhando
Tempo sem névoa, avaliaçãos acabadas, asfalto liberto, uma flor por aparecer. Fica tudo por dizer.

sábado, 26 de julho de 2003

Na maior parte dos blogues que vou lendo, existe um desfasamento entre a ciberlógica que é, naturalmente, caracterizada pelo instantanismo e pelo efémero, e, por outro lado, um certo sentido nem sempre disfarçado de projecção na posteridade. Como se cada palavra escrita aqui, neste jogo-limite de aquários, tivesse o secreto condão de, amanhã, poder ser finalmente escutada e reconhecida. Então, este cibermomento em que o génio único ditava a suprema alegoria, entraria no reino da eternidade. Esta projecção angélica é claramente subliminar na linguagem da moda que, como se sabe, é instintiva, revivalista, propositadamente banal, silly mas bem, sucinta mas bué feculenta q.b., afirmativa e toscamente escultural. Como se fossem directores de jornalecos de província, no início do século XX, grande parte da rapaziada que dirige e alimenta os seus blogues ainda pensa em tornar-se no Hermes imortal. É evidente que existem mares e mares de excepções. Mas fora delas, tudo é igualmente honroso. Fecundo como as cornáceas.

sexta-feira, 25 de julho de 2003

Acabam com o Acontece sem terem sequer escrito uma carta, ou sem terem sequer telefonado ao Carlos Pinto Coelho. O Salazar despedia os seus com uma carta, geralmente um parágrafo gramaticalmente correcto e bastante sucinto. Hoje em dia, o visceral ministro de que não lembro agora o nome despede quem trabalha na RTP, há mais de um quarto de século, por interpostos figurões mudos e sem carácter, sem sequer recorrer à fineza e à transparência que era típica de Salazar. Um sintoma do estado em que o país navega. Com esta tirada de Silly Season, o governo e a sua administração demonstraram mesquinhez e evidenciaram um claro cariz persecutório. Não se faz. Se queriam acabar com o Acontece, estavam no seu direito, mas ao menos fossem dignos e tivessem espinha direita e fossem capaz de falar com o CPC. Um nojo.

quinta-feira, 24 de julho de 2003

Na literatura clássica, épica ou profética, abunda a dimensão onírica e visionária. Mas aí nunca se ouve falar de insónia. É partir do grande spleen moderno que o stress nocturno se torna em tema, em moda. Proust, Kafka e Pessoa são grandes apólogos do novo modo de moldar a ficcionalidade. Curioso, este facto. E hoje, vivemos na pós-insónia ? Pelo meu lado. hoje, sem dúvida. Recompus-me de insónias dos dias anteriores. Até o blogue sorri doutra maneira.

quarta-feira, 23 de julho de 2003

Insónias, textos que se colam ao outro lado onde não há texto, desejo de sono e os passos que se arrastam pela casa vazia. Noite imperturbável, grande ópera do sossego. Ramagens inquietas, céu parado, Verão adiado, sussurro de gatos sob os pneus dos automóveis. Surgem palavras e o que nelas é hiato, uma espécie de surpresa, de imprevisibilidade serena. O que vem ao ser é amigo, nuvens carregadas, estrelas quase adormecidas. Imenso o jogo dos contrastes que atravessa o olhar, quando é tempo de voltar a tentar o sono. Imagens a dançar com o outro lado onde não há imagens. Insónia, um reino de desejados, um limiar de cansaço. Mais uma vez.
portu galinho, sim pequena mercearia cheia de senhoras de idade aos gritos agudos. Cada uma mais encosta que a outra a querer prender a atenção do merceeiro. Às vezes é ver os blogues a falar uns dos outros e a curtirem uns com os outros, porque uns têm grandAs templates, porque os outros são rechonchudinhos nas palavras, outros porque se ofendem com o tom que o outro achou austero, outro ainda a citar sempre o mais abrupto, outro ainda e ainda a reivindicar que mil e um avejões o visitam porque o não sei quantos very known o citou. E o merceeiro com cara de caso e o caso com rosto oblongo; e a ajudante do merceeiro com ciber-varicela e a dona Felpina, à entrada, a mandar à m. o merceeiro que a trocou por outra. Tudo isto ao mesmo tempo e num único flash. Porque o instantanismo e o imediatismo é que estão na moda qb. Bué de template. Às vezes, esta blogosfera é uma chatice. Ou seja, muita corrente de ar que por aqui grassa não é coisa que caiba na paciência. Todos do mesmo círculo, todos do mesmo perímetro, tudo piKeno. Meu portu galinho. Crista aconchegada. Pim Pam Pum. Viriato.

terça-feira, 22 de julho de 2003

A alcatifa e o rombo. Ao longe, poeiras e umas letras. Vêem-se lâmpadas de feira e uns poemas revivalistas como arma de arremesso inteligente, mas de sabor a nada. Viro a página e o sol põe-se. Há gente a passar, um grande centro comercial, coisa imaterial com nariz à Concorde feito de um vidro espesso meio azulado. Quando me levantei, a alcatifa parecia um maremoto e ouviu-se Poum ! Vinha de baixo, da zona blogalizada, vinha desse magma de campeadores à solta, dessa matéria que não tem forma a não ser aquela que Cid, o aventuroso, herdou na sua solidão final. Um cais de anti-heróis. O rasgo dos ciberdeuses das máquinas de amanhã. Um fru-fru sem arrepio e sem norte. Uma cilada sem precipício. Cada nuvem no seu céu. Cada sorriso no seu rombo. E a alcatifa a dar-lhe, um fru-fru que vinha de cima e um Poum, POum que vinha de baixo. Ao longe, poeiras e letras, links, buganvílias, o ceú a arder e a palavra a ocupar o seu espaço quase inerte. Quando saí do centro comercial, virei à esquerda, depois à direita, e transformei-me na parte de dentro de uma bola de futebol. Era aí, afinal, que tudo se estava a passar. E está ainda.