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Terça-feira, 22 de Junho de 2004

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Palavra de Basco

Assim é que é!


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Impasse de bola ao centro

Chamar-lhe-ia exclusão de partes e não passaria do método mais primário para definir o mérito. Mas é assim mesmo que as negociações europeias tecem hábitos (e miragens de hábitos) de seda pura, cujo sentido último se resume a dotar a presidência seja com quem for.


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Espaço privado

Uma alternativa à sua vida. Invista.


Segunda-feira, 21 de Junho de 2004

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Passar por quem passou por cá - 4 (breve decalinque)

O Olho do Girino está cada vez melhor. Escala pelos murmúrios e afina o olhar filigrânico com rara suavidade.
A Charlotte tem um espelho mágico onde revê a elegância própria, i.e., o "Estado em que se encontra este blogue". Sigo sempre. Compassadamente.
O Babugem alerta para Alicia Keys.
O Azenhas do mar vela pelo "top" das mais ínvias arribas.
O Quartzo, feldspato & mica regressa ao cheiro do papel do velhinho Diário Popular. Sinais dos tempos.
O Melga já tomou partido por Kerry. E bem.
O Incursões noticia as velas dos sete mares em incontroversa fúria.
O Francisco explica como age um "escritor de eleição". A reler. A aplicar.
O Bota Acima enaltece o poder da avestruz (da magnitude chamada liberdade de votar ou não voltar. That´s the point).
Por fim, o Mood Swing distribui os merecidos prémios aos gladiadores. E eu fico subitamente com vontade de comer pão de rala.


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Fleuma em Junho de 2004

Escapar à agenda: o meu cão (o Ulisses) olha para a televisão e não vê nada do que eu vejo. Sinceramente. Fica admoestado com o silêncio, admira-se com os tons menos feéricos e não aplaude apenas por aplaudir. Cheira primeiro. Gosto dessa pose desinteressada e desinibidamente intelectual.


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Os média reflexivos

Um fio a fazer suspender a copa da palmeira. Ou seria apenas a enigmática e inexplicável voz da abelha nocturna? Dir-se-á que é um facto aparentemente irrelevante, mas a ditar-me toda a atenção neste momento.


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Mudar de casa - 7

Tenho vindo a desenvolver uma possível poética da mudança (de casa). Com algum sucesso. Desse lado (de quem lê) e do lado de cá (atenuando e dissimulando o sufoco natural da situação). Entre uma casa que se deixa (e um número razoável de anos que nela se comungou) e uma nova casa que se (re)construiu de raiz em dez meses de obra vai uma espécie de brecha por onde passa uma luz ténue e sem direcção. Luz dispersa e indefinida, espalhando-se entre o ter sido, o porvir e o acontecimento puro e duro de cada momento, de cada dia. O inesperado a pactuar com a ansiedade adormecida no desejo. O encanto a navegar sobre asas que escondem o imobilismo desencantado dos embrulhos e dos pacotes sem fim. As referências hipotecadas e sem proporção justa de espaço a habitar este estado fluido entre dois continentes, entre dois mares, entre dois céus. Um milagre de metamorfoses absolutamente naturais.


Domingo, 20 de Junho de 2004

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Mudar de casa - 6

O tempo a ver passar a espera em que piso o solo de dois planetas sem a nenhum pertencer. É isto que se sente a uns cinco dias de mudança de casa. De um lado: obras ainda a tramar a conjugação das formas, paraíso inacabado, sombras sem projecção e olhares admirados pela súbita inocência. Do outro lado: a casa antiga a despovoar-se, a nutrir-se dos volumes originais e a antecipar-se à despedida.


Sexta-feira, 18 de Junho de 2004

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O pêndulo e a catástrofe

Veio o vento. Não é de levante, nem é atlântico. É antes um remoinho que se dissolve no ar entre poeiras e a memória nem sempre recôndita da devoração. O sublime vive e respira em diversas escalas. O micro-mundo é um ensaio geral da nossa obstinação pelo grande acontecimento que aniquilaria as proporções com que pensamos o tempo. Fecho as cortinas e revejo ainda os minúsculos tornados a ondear entre ervas e as copas quase rasteiras. Os limões oscilam nos ramos e dão-me a ver a gravidade de um fio-de-prumo. Poética pendular.


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Infinita

concordância.


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Atrasados,

mas sentidos. Parabéns Francisco. Não se trata de mera formalidade, não. Trata-se de um, talvez imprevisível, processo de conjugação positiva.


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Toma

!


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Prece

Serve este milésimo centésimo quadragésimo oitavo post para pedir aos deuses que não voltem a atiçar os pequenos diabos que, na passada noite, ousaram transformar o oniro sereno numa insónia tempestuosa. O ano passado, creio que no verão, discutia-se aqui na blogosfera a aparição do diabo nos pequenos detalhes da vida, lembram-se?


Quinta-feira, 17 de Junho de 2004

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Estranheza

Referindo-se à sua nomeação para a missão permanente na Unesco - que aproveito sinceramente para saudar -, afirma José Pacheco Pereira no seu Abrupto:

Como é óbvio, depois de tomar posse, e dada a natureza do cargo, não tem qualquer sentido continuar a ter um papel activo no comentário político. Já de há algum tempo tenho estado a preparar essa situação nos órgãos de comunicação social onde colaboro. Escreverei sobre outras coisas, sempre que tenha oportunidade, e continuarei o Abrupto dentro desses condicionalismos. É um silêncio que desejei e escolhi, após anos e anos de voz muitas vezes solitária. Haverá outros caminhos e certamente outros tempos.

Respeito, como é natural. A cada um a expressão da sua própria liberdade. Contudo, este carácter estanque entre cultura e não cultura perturba-me. Não entendo a razão que leva José Pacheco Pereira, sempre disponível para um saudável agir pouco politicamente correcto, a separar de modo estriado o auto-imposto silêncio de cariz político das chamadas "outras coisas". Não será um atributo do nosso tempo misturar os silêncios e os não silêncios de todos os temas possíveis, incluindo os políticos, no espaço público que é comum a todos? Eu creio que sim. Não entendo essas clivagens artificiosas que continuam a desvendar na cultura um qualquer rasgo salvífico que, por isso mesmo, a impediria de conviver com o mais desassombrado ou discreto comentário de ordem política. Este tipo de fronteiras marcadas por conjugações forçadas faz-me lembrar o mito revolucionário dos idos de setenta que levava a separar quem gostava de futebol de quem se dizia ser intelectual. Vou sentir a falta dos comentários políticos de José Pacheco Pereira. E devo confessar que só a entenderei em função do desgaste normal de uma voz que se vê a si própria como (talvez excessivamente) "solitária".


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O nono

Em Setembro o meu próximo romance estará nas bancas. Blogueadores e amigos: poupem uns euros do vosso orçamento estival! E já agora, com esta antecedência toda, preparem-se para comprar dois, um para leitura outonal e outro para amigo ver no Natal. Preferia que fosse o décimo, sempre era conta certa. Fica para 2006.


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Mudar de casa - 5

Ver as estantes reduzidas ao esqueleto, entender a crispação com que se desvivem da sua função primeira, imaginar a náusea com que reinventam a sua forma subitamente solitária. No fundo, é como olhar para uma cidade e voltar a vê-la como se não passasse de um amontoado de estruturas e gaiolas sem habitabilidade, sem paredes, sem janelas, sem reminiscências da redenção quotidiana. Há na mudança de casa um entreposto de loucura, ou seja, um real desapossar das ficcionalidades habituais. De repente, a montagem entra em cena sem qualquer projecto e toda a vida à nossa volta se reduz à riqueza de uma fita inocente e exuberante à George Méliès. Podem crer.


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Tentação

Raramente me deito antes das duas da manhã. Adoro pisar a hora limite como se houvesse um perímetro qualquer a desafiar. Olho então para a fixidez dos objectos e para o rigor filigrânico das arquitecturas e da paisagem. Tudo imóvel e a vontade de perpetuar a instalar-se no olhar como tentação irresistível. É por isso que as imagens que fazem aparecer a consciência nunca chegam a tempo. Precisamente porque erram entre o ter sido em que vivemos - chamemos-lhe memória alargada - e a descoberta admirada do que possam representar agora e aqui. O porvir é o reino que liga este condensado de tentações e aquilo que está por vir diante de nós, diante da vida. Neste momento, apenas sei que existe a noite ainda por vir (esta divagação faz-me lembrar o romance do Christian Bobin, La femme à venir).


Quarta-feira, 16 de Junho de 2004

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Será possível

uma coisa destas?


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No coração do kitsch

No Fórum-TSF continua a discussão sobre os pontas de lança. A euforia em que o país anda mergulhado é de um kitsch tão acentuado como eram há duas décadas as manifestações do 1º de maio da Praça do Kremlin. Fazer do futebol o papel de cenário ilusório de onde sairia a nossa própria salvação (identitária, económica, mediática, pulicitária, nacionalista e relativa à auto-estima, etc., etc.) é tão ridículo e paradoxal quanto imaginar Eugénio de Andrade a declamar poemas seus dentro de um carro de fórmula 1 em plena competição. Desfasamentos radicais. Eu até gosto de futebol e tenho as minhas paixões clubísticas, mas sei antes de tudo que o futebol é um espaço de entusiasmo e de saudável delírio que dura noventa minutos, that´s it. E fiquemos por aí. O resto é para sorrir e não levar muito a sério (debates na TV, polémicas nos jornais desportivos, parangonas de directores de clube e coisas dessas). De vez em quando, ele é Timor, ele é Expo, ele é coisas dessas para encher o olho e o gáudio do indígena. Mas utilizar o futebol como móbil e miragem do auto-cumprimento profético é um verdadeiro regresso à loucura daqueles cenários coloridos dominados pela comédia trágica de Brejnev (escrevia-se assim?).


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Compulsão natural

O que mais nos mobiliza é a lógica do porvir, a súmula de expectativas e o horizonte das finalidades mais próximas. É a partir desse movimento que desliza do presente para o futuro imediato, dessa antecipação involuntária e desse enunciar de acenos sempre possíveis que ordenamos as ficcionalidades do passado e que postulamos a compreensão comum do presente.


Terça-feira, 15 de Junho de 2004

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Rua com eles!

Acho que já há razões mais do que suficientes para expurgar os ingleses do Euro e de todas as competições onde a civilidade deve ser um valor mínimo. O currículo já inclui o Rossio lisboeta na noite das marchas populares, os desacatos no Parque das Nações (no Domingo) e os incidentes de ontem em Albufeira. Vão passear!


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Penúltimas aulas

O suor. A possibilidade do pasmo. A guarida cheia de imagens involuntárias. E ainda a brisa que aparece a intrometer-se na noite. Como eu gostava de saber dançar o tango. Nem que fosse a deambular no laranjal agora desfigurado pelo ardil das sombras. Hoje dou a última aula teórica deste ano lectivo. Sim, sim: já chega.


Segunda-feira, 14 de Junho de 2004

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Olhar movediço - 2

Despertar o nome que habita na frescura nocturna das buganvílias: foi esse o leme que me guiou noite fora. Os ralos no centro da constelação. Depois a Segunda-feira surgiu a ameaçar trovoada para os lados de Espanha. Quando a vida se embala deste modo sagaz, acende-se uma vaga penumbra onde crepitam vontades opostas. Talvez seja uma espécie de limbo, ainda que prematuro, para ter a sensação de que os pés estarão assentes na terra.

Olhar movediço - 1

Faz bem sorrir ao observar a concordância forçada que muitos conjugam para forjar a sensação de que a vida se subsume às suas máximas de conduta, aos seus princípios irreparáveis e aos seus dogmas inabaláveis.


Domingo, 13 de Junho de 2004

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Fazer história

É verdade, já me esquecia!


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Mudar de casa - 4

Dialogo com os enigmas do tempo neste domingo em que o tempo parece ter parado dentro das paredes da minha casa. Tudo ou quase tudo está neste momento embalado em caixas e caixotes ou coberto por panos brancos. A arrumação torna-se em memória, enquanto a partida se converte numa espécie de nome redentor. Pulula por aqui um alheamento nostálgico a florir entre breves manchas de esquecimento e o ardor que faz o movimento do espírito abrir-se à plena suspensão do tempo.
A verdade é que o presente é um aquário adiado dos grandes oceanos, uma fugaz intromissão dos eventos neste líquido mais vasto onde o canto de fundo se confunde com a ilusão dos vidros que delimitam o olhar imemorial das algas. No presente há factos, fendas, imolações interpretativas, catarses emocionais, prenúncios vários, paixões secretas, fantasmas imaginados, contendas verosímeis, olhares rotineiros, reacções em cadeia, simulações intencionais e flutuações incontroladas. O presente pertence ao desenlace da vaga, ao ritmo do vento na copa das árvores, ao olhar incandescente para o muro branquíssimo do quintal. Mas no diálogo com o tempo imobilizado deste domingo, o que sobressai é a neutralização desse ímpeto da contingência, dessa nora ininterrupta, desse poema emergente sem início nem fim.
Hoje o dia pertence aos ecos.
No fundo o eco é o que sobra ao agir do quotidiano. É o que suspira para além da comoção ínfima dos dias. É o que contém as formas que deslizam na montagem errante dos instantes. É o que se espalha em toda a apoteose mundana do vivido. É o que basta ao contínuo imperceptível da respiração. É o que perdura do antigo coro grego a fundir o aparecer concatenado das imagens. É o que rumina de modo ocluso nas malhas desdobradas da consciência. É o que se espraia no silêncio mais inerte, esse ardil e móbil do entreacto.
Hoje, de facto, o tempo surgiu para ser o artífice de uma incalculável represa de Verão. Águas paradas. Miragens perfeitas. Limiar adiado. Uma árvore carregada de ameixas a curvar-se sob a desmedida suspensão solar.
É isto o que se sente num breve segundo interpelado subitamente pela melancolia. Mudar de casa pode chegar a ser mudar de pele. Até já.


Sexta-feira, 11 de Junho de 2004

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Passar por quem passou por cá
(seleccionando onze) - 3


Começo por um visitante mais habitual nos últimos tempos, o Causa Nossa. Hoje, Vital Moreira assina um post sobre um tema que me é caro: as topografias afectivas que cada um de nós recorta na sua experiência dos espaços e da paisagem. Um território acaba sempre por ser um habitat que fazemos descolar do contínuo espacial e que inscrevemos como lugar ou percurso no quadro do nosso próprio agenciamento. O Rossio, seja ele qual for, não é o mesmo para todos. Somos seres e agentes territoriais, pois então.

O Cruzes meteu férias.

O Jaquinzinhos escreve sobre o terceiromundismo de Almada (que quer dizer, em Árabe, o metal - al- Ma´ada - e tem a sua raiz em minas hoje já inexistentes). E escreve muito bem. Não queria viver num sítio assim (com respeito por quem lá vive, é evidente). Sempre achei muita piada ao marketing da senhora presidenta da Câmara: “Almada tem vida própria!” (Uh, uh, uh !)

Desde que está no frio do Brasil, o Aviz pouco passou por cá. Mas agora revigorou e tem aparecido bastante mais. Dava sinceramente ao Francisco um pouco do calor que atravessa estas terras até ao coração do Maranhão alentejano (e a esta hora, não sei se já sabe desta boa notícia). Além do mais, devo dizer que, desde os tempos holandeses, que me converti ao múltiplo e rico império da cerveja. Para que conste.

Ainda sobre a natureza do calor: A Charlotte tem o blogue a “saunas e banhos turcos”. Imagine-se aqui, entre estevas e incandescências turvas. Ou de como o Tejo separa a natureza críptica das rimas.

Sigo o Super Bock Super Rock na Batukada. Belo serviço público e não só (há muito que queria dizê-lo). Durante o Rock in Rio segui quase tudo pela Sic-Radical.

Já agora, estou com o Miguel Cardina e com o Cenas da Lua na recusa em embandeirar os arcos da janela doméstica.

Passando para um registo muito a sério, devo dizer que concordo totalmente com o MacGuffin. Só podíamos estar de acordo. Apesar de, apesar de, apesar. Só podíamos estar mesmo de acordo. A vida é a vida e depois dela é ou será (?) ainda a vida. E antes e agora e sei lá quando. Mas sempre a vida, em primeiro e único lugar, não é?

E se se quiser saber o que pensa Abel Barros Baptista acerca da vida após a escrita, basta ligar a sintonia fina na direcção do leme do Babugem.

Gosto sempre muito das peregrinações paralelas do sensível e apurado Digitalis. Estou sempre lá. Nesse local onde a luz sabe ao emaravilhamento dos fenos. Madressilvas, talvez.

Para terminar, um último aceno amigável. Sandra e Cláudia: gostei de ler a palavra “imagia”. Continuem.


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Portugal pioneiro

Para além das bandeirinhas à janela, veja-se como funciona o nosso real pioneirismo!


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Mudar de casa - 3

Ao meu relativo silêncio soma-se a visão de uma mesa com um computador em cima e, à volta, apenas um mar de caixotes cheios de livros e do resto que se pode imaginar. E a mudança física e real é só daqui a quinze dias! Cumprimentos blogosféricos.


Terça-feira, 8 de Junho de 2004

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A China e o Ocidente: três tópicos



1 - Foi já há década e meia e parece que foi hoje. Estava quase a regressar a Portugal (fi-lo em 1990) e a China transbordava então o campo noticioso. A esperança de uma mudança no comunismo parecia possível. Mas não foi. Quando o ritmo alucinante do actual crescimento económico determinar o aparecimento de uma classe média, então sim, será possível. E inevitável.
Nessa altura, não apenas o comunismo tenderá a ruir como o capitalismo sem regras de algumas cidades do sul tenderá a equilibrar-se com valores progressivamente democráticos (a mão-de-obra escrava e uma total ausência de mediações democráticas nos mega-investimentos em curso não são coisas que durem para sempre).
Provavelmente, sendo realista, a transição demorará mais uma década e meia, embora, já hoje, a China lance cartas no mundo nomeadamente na procura de petróleo e no desmedido recurso ao aço (a crise planetária do aço deve-se ao nível exponencial da construção civil na China).
2 - Seja como for, a transformação democrática da China virá a constituir-se, a prazo, como um factor fundamental do equilíbrio estratégico do planeta. A própria noção histórica de Ocidente precisa de se reenquadrar gradativamente com novos pilares sólidos e consistentes que recusem a via do hiper-terrorismo e da cultura da morte.
A curva democrática e a redistribuição dos fluxos de poder globais (incluindo a nível do know how tecnológico) obrigam a um reenquadramento mais activo do Ocidente no mundo. Nesse âmbito, na era actual pós-09/11 e pós-11/03, o papel da Europa parece-me muito importante. Sobretudo se entender o quadro de motivações que conduziu os EUA a um certo isolamento e unilateralidade (o qual, historicamente, acabará por aparecer enquadrado no campo da necessidade conjuntural).
Não consigo, pois, isolar um julgamento sobre esse mega-continente que é a China de um processo altamente dinâmico que, a curto ou médio prazo, poderá ser de relevância maior para a humanidade. E isto apesar da denúncia permanente que um regime feroz deve merecer por parte dos democratas de todo o mundo.
3 - O caso da China não deixa de ser emblemático, sobretudo se o contrastarmos com os desígnios que vigoraram em grande parte do século passado. Ou seja, o caso chinês permite-nos compreender o pior de modo muito nítido: de um lado, a opressão e a miséria em nome de uma pretensa igualdade futura (no presente, o homem surge aí sempre hipotecado na sua felicidade e iniciativa); do outro lado, o aproveitamento do capitalismo mundializado, mas desligado das matizes que ligam a crença na liberdade e na expressão do mercado à paridade democrática das regras, à responsabilidade social e à concorrência justa.
A recusa terminante destes dois flancos em nome da articulação entre a liberdade, a iniciativa e um figurino social (cuja matriz inicial se situou na Europa do norte no pós-Segunda Grande Guerra Mundial), no quadro de uma sociedade aberta, transnacional e em guerra aberta com o hiper-terrorismo, definem o parâmetro da contemporaneidade e da nova sociedade da comunicação.
É aí que claramente me situo.


Segunda-feira, 7 de Junho de 2004

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Mudar de casa - 2

Acomodar os livros fora dos seu sítios, encontrar imprevisíveis sinais, reatar o fio perdido pela arrumação dos anos. Rever a ordem em busca de nexo na casa que se deixa e desvendar a desordem prometida na casa ainda despida que nos espera. Travessia, diria Guimarães Rosa.
P.S. - Nas próximas semanas irei por estes motivos escrever menos do que o habitual.


Sábado, 5 de Junho de 2004

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Mérida - 2



Episodio con lluvia y ventana

Antes que ella misma
fue el olor de la lluvia.

Llegaba antiguo y frágil, despistado
y se agolpaba
tras los cristales, y su presencia
se hacia acaso deseable,
cobijo aquel sedoso estruendo
en el sagrado, intangible centro
de la nada.

La lluvia, se dijo, es siempre
una forma de exilio.

Lamidos fueron
al instante los amplios ventanales,
el corazón
emitió un sonido similar
al de la nieve al derretirse
mientras ella miraba
las perfectas hojas del césped
mutiladas por el agua.

Abrázame
oyó decirse en voz baja.

Abrázame.

Después fue la lluvia
borrándolo todo, deshaciendo
cristal y ramas,
labios y ventana,
automóviles, casas, y al cabo
a ella misma.

Tendido,
sobre un único trozo de pizarra
quedó el corazón anegado,

sin olor.




Daniel Casado (El viento y las brasas, 2003)


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Mérida - 1

Estive em Mérida como jurado de um prémio literário. Magníficos os verdes sobre o Guadiana e a arquitectura que os envolve sobretudo na margem poente. Deixei futuros amigos, o Francisco Rangel e o Daniel Casado, ambos poetas. Deste último deixo-vos o site pessoal, dotado de um fórum múltiplo de discussão além de outras surpresas. Voltarei a falar-vos destes recuerdos ainda próximos.



Renasce el corazón de entre pavesas
a pesar de encontrarse ya transido,
cual grano en la besana
aguardando el estío.


Francisco Rangel (Breves son tus pasos)


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Teste



No teste do BdE a minha empatia recaiu em Kubrick. Boa!


Sexta-feira, 4 de Junho de 2004

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Nacionalismos

1 - Sou um bocado alérgico a este nacionalismo que começa a desenhar-se apenas e só por causa do Euro.
Parece um espectro meio invisível que se ressuscita à pressa de um limbo distante e que agora aflora sob a forma de pequenas bandeiras nos táxis, de hinos à Hendrix na Antena 1 e de publicidade atónita e espalhafatosa (sem esquecer a campanha eleitoral que parece ter contraído empréstimo ao kitsch dominante). É coisa estriada, pouco natural e tão sazonal quanto limitada pelo curto prazo de validade.
2 - O outro nacionalismo que anda aí em voga é tão desconcertante quanto apatetado. Se viesse de meios que a si próprios se revêem como conservadores ou tradicionais, a coisa mereceria um dado olhar crítico e pela certa mordaz. Mas vindo do PCP - mascarado de inócua CDU por vergonha do nome “comunista” - o nacionalismo apenas pode explicar-se como tampão para um inevitável e perturbador vazio. Há menos de duas décadas foram sérios adversários da entrada de Portugal na então CEE. Hoje, após outras hecatombes, pouco lhes resta do que pronunciar o desacertado verbo da nação.


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Com uma mangueira na mão!

“Sané”, de seu nome próprio e futebolístico, reatou a mais nobre tradição da luta sindical à antiga portuguesa. É ver para crer: ainda por cima aqui mesmo, entre nós, a norte dos Jerónimos e com ampla vista para o Tejo (que hoje ia tão azul quanto dissipado pela humedecida névoa de calor).


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Gostos



O portal do governo não tem mau gosto. De um lado um famoso Pessoa, do outro lado o fado. E sempre, sempre em fragmento. Um verdadeiro clip institucional. Poucos o conhecem, mas vale a pena entrar no hall de entrada e ver os frescos. Pelo menos.


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Atentos à comédia Ramonet

Os Jaquizinhos andam atentos. Como sempre. E escreveram uma deliciosa prosa sobre os furacões que ardem na imaginação autista de Ignacio Ramonet. Vale a pena ler e sorrir. Com este calor, até sabe bem. A propósito, não renovei a assinatura do Courrier International.


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Aflições do Terreiro do Paço

Preso por dar ponte, preso por não dar.


Quinta-feira, 3 de Junho de 2004

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Estrela cadente


EWG, J. Miró

Veio o calor. Finalmente um dia por cima dos trinta graus. Os corpos a vaguear pela liquidez que os faz tão leves como as folhas do limoeiro. Depois do meteoróide de ontem, a lua apareceu hoje em prata, gigante e quase a querer pousar no mirante onde continuo sentado como se caído na redentora tentação das esfinges.


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Crer-te aqui

Título de romance acabado, morto, enterrado. Custa. Outro virá. Em Outubro, soube hoje. Não devia fazer certas confissões no Miniscente. Mas há prantos que são mais activos e intensos do que tudo o resto.


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Invasão

Em Coimbra, invadir o Senado tornou-se habitual, banal, corrente. Deixou quase de ser notícia. Deve ser essa a estratégia da instituição: desmobilizar os invasores à medida que os média deixem de se importunar com a brincadeira.


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O espaço de um coelho

Abro o rádio e ouço de repente a Banda do Casaco. Lembram-se?


Quarta-feira, 2 de Junho de 2004

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Pragmatismos

Numa carta publicada pelo Causa Nossa e assinada por Henrique Jorge, C. Peirce (com o nome de Pierce que, como se sabe, é outras coisa) e W. James aparecem citados como mentores de um certo pragmatismo (mais o segundo do que o primeiro) que ilibaria os aspectos e "conjecturas morais" em benefício do que tão-só "funciona bem". Não me parece muito justo, sobretudo porque aquilo que o pragmatismo recusa à partida é a explicação imanente do mundo, valorizando a verificação prática e tácita da relação entre os fenómenos que constituem a vida (no seu desdobrar-se categorial entre o nível potencial, o agora-aqui e o nível das previsões racionais). E creio que este princípio (processual e dinâmico) se aplica quer aos eventos e suas redes circunstanciais, quer à espessura do dever-ser ético (apesar de uma certa erosão do segundo, mais por causa daquilo que Lipowetski tão bem explicou no seu Crepúsculo do Dever do que por razões propriamente de ordem pragmática).


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Mudar de casa - 1

Os anos e as histórias mais silenciosas envolvem o contorno impreciso dos objectos e em cada embrulho, peças de um alinhamento caótico, reaparece o brilho que parecia perdido ainda a dialogar com o esvaziamento súbito dos espaços. O que se deixa e o que nos espera. Seguir-se-ão outros episódios.


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Homónimo

O Daedalus deixou escrito em comentário que eu iria estar presente na bela cidade de Coimbra, no próximo dia 3, no Ateneu. De facto, esse Luís Carmelo é outro. Conheço-o bem: integra o Trimagisto (grupo de teatro que dedica muito do seu tempo a relatar a tradição oral, nomeadamene contos) e veio do Brasil para Portugal há uns anos. Não há laços familiares entre nós, mas passámo-nos a habituar a algumas convocações falaciosas. Muitas vezes, sou tido como encenador, actor e contador, outras vezes (mais, devido à idade), é ele que é tido como escrevinhador de romances, ensaios e outras coisas. Homónimos, já se vê.


Terça-feira, 1 de Junho de 2004

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Haja alguma moralidade

Agora está na moda escrever-se e dizer-se "Case-study". Entrou na moda como o "Trust me!" há não muito tempo utilizado para prenunciar as presidenciais. Um destes dias ainda vamos ouvir alguém dizer que o Sousa Franco tem uns óculos esquisitos e defeitos físicos. Haja algum nível, porra!


Segunda-feira, 31 de Maio de 2004

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Por Stefan Müller-Doohm

Para quem gosta de Adorno e de biografias, eis aqui uma mistura adequada. Sobretudo se a língua alemã não foi coisa aprendida a seu tempo.


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David



E o rapaz fez subitamente cinco séculos de vida. Parabéns!


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Só visto

não se pode simular a própria morte.


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Maya Gordon, minha amiga


pintura de Maya Gordon

A meias com o meu amigo e grande fotógrafo, José M. Rodrigues (Ó Zé, lá vai outra vez o... dizer que eu fui um dos produtores do teu Prémio Pessoa), recebi esta semana uma amiga comum dos nossos tempos de Amesterdão, a Maya Gordon. Judia de origem polaca, a Maya, além de pintora, é uma força da natureza e uma imensa cumplicidade de memórias e afectos. Deixo aqui, aqui e aqui alguns registos sobre o seu trabalho e biografia para os mais curiosos.
Foi ontem, no último domingo de Maio, que a Maya acabou por contar (a mim e a um grupo de iluminados, todos reunidos num monte alentejano distante da civilização) uma história que manteve secreta ao longo de anos: a sua fuga da Polónia para Israel em 1957, quando tinha apenas dez anos de idade. Vou agora partilhá-la um pouco.
A história pode aliás ser relatada em poucas palavras. No pós-guerra, não terão sido poucos os judeus que decidiram (voltar a) fixar-se na Polónia. Por crença, por regresso às raízes, por determinação pessoal. O pai da Maya Gordon, um engenheiro de alto nível (chegou a participar em projectos ligados à concepção aeronáutica de ponta), foi um desses homens. Preferiu o destino polaco ao celebrado desígnio utópico da fundação de Israel. Opções pessoais da época.
A partir de meados dos anos cinquenta, quando nada aparentemente o fazia prever, a não ser um certa descontinuidade nas altas taxas de crescimento económico, o partido comunista polaco iniciou uma sistemática e empenhada campanha anti-semita. Nessa onda, muitos judeus veriam os seus empregos ameaçados. Por volta de 1955/7, muitos foram mesmo, directa ou indirectamente, forçados a abandonar a Polónia. A família da Maya Gordon integrou um desses grupos, mais precisamente em 1957, numa viagem de sete dias e sete noites em que nenhum dos passageiros pôde sequer sair do comboio entre Varsóvia e Génova.
A memória de menina leva Maya hoje a insistir na palavra “histeria” para traduzir o desespero daquela viagem e daquele êxodo forçado e silenciado pela história. Em Génova, após vários dias de espera, um barco haveria de levar todas essas famílias para um improvisado campo em Israel. A guerra da independência e o holocausto eram ainda memórias relativamente recentes. O novo país levantava-se a pouco e pouco com coragem.
Até voltar ao nomadismo que a traria à Itália e à Holanda, a Maya Gordon viveu, de 1957 até ao fim dos anos sessenta, num país que se tornou subitamente o seu. Muito do seu trabalho plástico evoca estas rupturas, este caminhar entre lugares e topografias reais e imaginárias. Mas a grande viagem, a que escapou ao sentido de escolha da vida, essa, permaneceu ilesa à memória partilhada. Até hoje.


Domingo, 30 de Maio de 2004

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Sétima vaga

Ontem, Peter Gabriel apareceu com uma voz menos branca e mais ácida. Mas manteve o eco, a proximidade nostálgica e a ira sinfónica (naquele tempo, eu olhava de lado para este tipo de música; preferia mais electricidade, mais som. Hoje - já de madrugada - confesso que senti uma espécie de reconciliação no ar).


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Jogos sem fronteiras

António Barreto, hoje:

"Tudo leva a crer, pelo que se vê e ouve, que o governo vai organizar o regresso das velhas senhoras: facilidade, distribuição e benesse. Há umas andorinhas de mau agoiro que trazem certezas."

Ou de como o ano dos festejos ameaça converter-se em jogo de máscaras para esconder outras faces.


Sábado, 29 de Maio de 2004

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Sentir a falta - 2 (act.)


Lynne Prachyl

Escreve J.P. Coutinho:

“Ao contrário do que por vezes se pensa, e até escreve, a ausência dos que mais amamos não se faz sentir nos piores momentos da vida. Mas nos melhores.”

O que é um bom momento? Talvez o rebate irreflectido e súbito da felicidade. Talvez o atrito instintivo e arrebatado do contentamento. Talvez ainda o pasmo consumado e directo de uma consolação. De qualquer forma, existe um espanto nesse breve instante a que chamamos um bom momento.
O que nos traz os outros, ou o outro, nesses hiatos breves, é a desejada partilha, o pressentido testemunho e a imaginada cumplicidade.
Um sentimento, seja ele qual for, percorre sempre a volatilidade com que nos descobrimos ao encorpar-lhe a forma. De repente, o nosso corpo é já o sentimento. E nada mais sobra nessa ocupação tranquila.
No caso de um bom, ou mesmo de um grande momento, não só trazemos a nós o corpo que sentimos em júbilo como estendemos ao outro, ao ente mais querido e ausente, o desejo de uma identificação sem nome. Ao contrário de um mau momento - espécie de convite à nossa qualidade estóica e acrobata - o bom momento apela inevitavelmente ao desdobrar de vozes, à pluralidade das emoções e ao preenchimento dos outros, dos mais queridos, em nós.
A ilusão que dissimula todo este movimento, a tal que leva J. P. Coutinho a afirmar “ao contrário do que às vezes se pensa”, é uma espécie de boomerang.
Quanto pior é um momento, mais o sublinhamos, mais o dizemos, mais o descrevemos. E é por isso que ele lentamente se afasta, na sua enigmática circum-navegação.
Quanto melhor é um momento, mais o entendemos na sua invisibilidade, mais o silenciamos, mais o denotamos pela surpresa. E é por isso que ele tanto se aproxima de nós na sua incorpórea translação.
Dizer um bom momento é percorrer o imperceptível, o intraduzível, o inefável. E é na aura - essa memória única do invisível vivido -, e apenas nela, que há comunhão, compaixão ou saudade. A aura é, afinal, a forma com que resgatamos a falta.

P.S. Charlotte: "celebrar" pode parecer o contrário de "sentir a falta", mas talvez não seja. Ambos requerem remissão: a uma presença ou a uma ausência, respectivamente. O ideal era poder condensar no presente ambas as remissões e adicionar-lhes a celebração e a própria saudade. Sem parar.
O resultado, de certeza fortíssimo, seria qualquer coisa parecido com as Bachianas ou com o Tango (seria?). Que ponto singular seria esse? Tão forte seria esse sentimento que o nome transbordaria de anonimato e vice-versa (desterritorializações, em suma). Je serais un autre.


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Passar por quem passou por cá – 2 (act.)



(uma selecção de dez simpáticos visitantes desta última semana)



1-Ou de como a magreza estabelece um diálogo profundo com o pranto.

2-Ou de como pode ser vital inventariar de modo descansado as toxinas.

3-Ou de como não se deve falsear o dogma das origens da nacionalidade blogueadora.

4-Ou de como “waauugghh!” pode assinalar a involuntária data de 28 de Maio.

5-Ou de como a arte de lincagem é mais simples e elementar do que o desvario.

6- Ou de como Mikail Cholokov é tão ignorado como os eventos de 24 de Julho.

7-Ou de como é bom saber o que passa na Casa das Artes de Famalicão (irei lá muito em breve).

8-Ou de como a nomeação do novo Director-Geral dos Impostos é coisa de pólvora.

9-Ou de como a expressão “Mazal tov” denota a generosidade de um bom benfiquista.

10-Ou de como o deleite permite gritar em altas vozes nesse bairro: I love Nina Simone!



(última hora: acabou o Dicionário do Diabo. É pena. Sempre fui um bom leitor do Pedro. Continuarei a segui-lo noutros lados. Abraço.)

Até para a semana!



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New Jobs

Quando o Barranquenho e o Mirandês conseguirem o mesmo, a taxa de desemprego diminuirá alguns pontos.


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Capangas



Afinal Mourinho andou fugido na passada Quarta-feira e nos dias seguintes. C'era una volta il West.


Sexta-feira, 28 de Maio de 2004

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A sacralização da arte

Onde dantes havia martírio, milagre e criação divina, há hoje memórias do inferno, metamorfoses inesperadas e criação artística. À esquerda, à direita, a montante, a vazante, ao centro, em todo o lado é assim. Há mais de dois séculos.


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Persistências

Nem vale a pena acrescentar seja o que for ao que estou a pensar. É que blogar sob a forma do anonimato, numa sociedade aberta e democrática como a nossa, é assunto para Baaaaaaaaaghhhhh!


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I love Daclos

Em cerca de 11 meses de Miniscente completei o correspondente a quinhentas páginas escritas. Mãos à cabeça. Teria dado para dois a três romances, ou, em alternativa, para uma sucessão diária de cartas de amor de página e meia cada. Blogar é incorrer em ligações perigosas. Excessivamente. Quando a brincadeira fizer um ano, vou parar para balanço. Ai vou, vou.


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Espaços comuns



O governo, pela voz do secretário de Estado Adjunto da ministra da Ciência e do Ensino Superior, Jorge Moreira da Silva, propôs a criação de um mesmo espaço lusófono de ensino superior. Objectivo: "promover a empregabilidade, mobilidade e qualificação dos sistemas de ensino e competitividade das nações".
Ficamos a saber que a Lusofonia se está a transformar numa espécie de Estados Unidos viável e fiável onde a mobilidade, a polivalência e o eclectismo dos empregos vão a par com uma saudável competitividade, no quadro de uma moldura inevitavelmente democrática, madura e baseada em regras por todos reconhecidas.
O que é difícil na Europa, vai a Lusofonia fazê-lo em tempo recorde. É de aplaudir a iniciativa. Agora já compreendo melhor a vantagem única de partilharmos, todos em uníssono, esse espaço tónico do saber global que dá pelo nome de Lusofonia.


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Umbigalista

Escreve hoje Miguel Sousa Tavares no Público:

“Comentar temas políticos com cinco dias de idade é, entre nós, quase um absurdo: a política, tal como a seguimos e a vivemos, é um objecto de consumo instantâneo.”

Digo eu (ouçam a minha voz): “Ó Miguel, isso passa-se só entre nós? Ou não será antes um vaivém normalíssimo dos tempos actuais, neste planeta em que todos ainda vivemos?”
A solução, adianta o discurso indirecto, é repor o uso da escrita sem ter necessariamente que a escravizar. A angústia expressa no texto de Miguel Sousa Tavares tem a ver com o uso da crónica (publicada em papel) como se ainda respirássemos um tempo diferido, orgânico, historicamente distendido entre passados e futuros. Eu dava um conselho amigo e terapêutico: blogagem. Não creio que seja algo menor, plebeu, portista ou tão-só votado ao meramente “impublicável”.


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Pérolas



Vi a Rapariga com o brinco de pérola de Peter Webber. Não é grande filme. Pessoalmente toca-me a memória daquela arquitectura, o ritmo dos interiores, a descrição condensada. E o valor do filme reside precisamente na fotografia, na aspereza da imagem e no deslocamento da história em relação ao traçado modelar de Vermeer. Não me impressionei, não me emocionei e não vislumbrei qualquer aceno mínimo de perdição. E é isso que procuro, confesso. Muitas vezes, na maior parte das vezes, encontro tudo isso subitamente e num único grão. Com meia dúzia de nada. A vida pode brilhar quando menos damos por ela. Respirando. É fim de Maio. O céu a planar sob augúrios de plenitude. Eu estava a falar de cinema? A sério?


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Densidades e debates

Sabiam que Giorgio Agamben, Paul Virilio e mais uns tantos vultos com alguma espessura mundial vão amanhã batepapar em Évora?


Quinta-feira, 27 de Maio de 2004

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Conde Barão

Lancho numa esplanada em frente aos antigos armazéns do Conde Barão. Ainda cheira a fumo, a queimada, a cinza desfeita. Os últimos três pisos não passam hoje da consumada memória dantesca do antigo Arsenal veneziano: ferros corroídos, paredes limadas a negro, janelas adormecidas pelo vão das labaredas. Após o limbo - essa imaginação nostálgica vestida de metáfora - o emergir impiedoso da catástrofe. Precisamos todos, afinal, de um inferno. Vejamos: não há como um terramoto para repensar uma cidade, o espaço virgem por saciar, ou a abertura ilimitada dos lugares. Talvez precisemos de ciclos bem marcados: erigir, evocar, acocorar em limbo, arder e, depois, então, imaginar e criar sem freios e sem receios. Porventura, há no recato mais íntimo e repousante da vida este vigorar dos limites, este acender dos extremos, este implacável navegar dos abismos. Adeus Conde Barão!
(escrito anteontem num guardanapo).


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Voz primitiva e sem hipocrisia

O futebol é baseado em opções primárias e a-racionais. Há espaço para vibrar, durante o impulso dos jogos, e depois há espaço para enterrar a redoma primitiva e ir normalmente à vida. Mas não sejamos hipócritas! De repente, ficaria bem dizer que todo o país está com o Porto. Mas não está. Nem nunca esteve. As inversas são e seriam verdadeiras em todos os casos. E qual é o problema de o afirmar em voz alta? (agora parece que o Mourinho já caiu em desgraça).


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Bagdade: caminhos cruzados (act.)

Ontem encontrei-me com o Rui Tavares no "Bagdade café" em Lisboa. O acaso tem destas coisas simpáticas. Revimo-nos num CD comum e fomos depois, lado a lado, até ao parque onde, há não muito tempo, existia uma pista de gelo. De Bagdade ao pólo. Longos dias têm cem anos, escrevia a Agustina no título de um livro sobre Vieira da Silva (penso que não me engano, embora tenha lido o livro há mais de vinte anos).
Obrigado Planeta Reboque pelo avivar de memórias!


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Vale a pena

A visitar com urgência What do you represent, apesar do que se diz das escolas que põem em causa a representação e não são poucas. Ah, Ah, Ah. E há blogues que têm a fineza de pronunciar frases sincopadas como esta: "Há dias assim. Em que o tempo parece ter ficado parado ali atrás, e nós não podemos continuar enquanto ele não nos alcançar."
Eu hoje estou de facto atento aos sinais. Mas não mais do que a "bolinha vermelha" que encima a genialidade exposta do maradona (minúscula oblige) que eu tanto aprecio. Kant exemplificava o génio como uma entidade original, exemplar e mediúnica (mais ou menos isto). E confesso que está lá tudo.
Quando a Google decidiu comprar o blogger (os géneros, em Português, falam com gravidade), terá havido por acaso a consciência do ouro que por aqui, na blogosfera lusa (também), abunda?
Going to the West. Looking for gold. Eis-nos aqui. Douradinhos, sem apito e a ver navios com velas que valem a pena.


Quarta-feira, 26 de Maio de 2004

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Prodígios

Vejam esta maravilha blogosférica. Ainda por cima paredes meias com a minha futura casa off-line.


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Feira do Livro

Recomeça, após o feliz ritual da Praça da Alegria, a publicação de bons livros baseados na actividade blogosférica. Parabéns Pedro.


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Uma resposta

Amigo MacGuffin: quem me dá essas instruções bicudas, parcimoniosas e tão fragmentárias quanto nietzscheanas é uma ferramenta que se entitula especularmente: “Referring Web Pages, last 24 hours/ Support Arts - Visit trueFresco.Org” (pode ver-se, de modo mais tangível, na parte de baixo do Miniscente). Quanto redigi aquela prosa não estava lá referido o teu blogue, mas hoje, neste momento preciso, consta lá com 3 (três) agradáveis e desejadas presenças. Mais digo: referir-me a ti e às tuas reflexões é sempre um prazer, do mesmo modo que ler os teus textos e seguir o curso crítico do teu blogue é um exercício diário e não menos votado ao comprazimento e à seriedade intelectuais. Digo-o porque o penso.
P.S. - Acrescento ainda que, em matéria de heteronímias locais, assino por baixo três mil e trezentas vezes.


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Já agora (act.)


Vermittlung von Kunstwerken, Serge Charchoune

E quando o dia nos interpela acerca da memória indiferenciada de tantos fins de Maio? Não terá sido sempre o mesmo mês, o mesmo tempo, a mesma contemporaneidade? Não terá sempre havido a mesma voragem de vozes e o mesmo céu em curvatura de devaneios? Não terá sempre persistido o mesmo brilho, a mesma memória e o mesmo desejo com nome de calor? Não terei eu sempre vivido neste dia, todos os dias? Subitamente a minha resposta é corrosiva e fatal: sim. Este é o dia.
E hoje é dia de decisões. Difíceis, mas decisões. Falarei disso mais tarde. Assunto delicado, mas para não esconder (refiro-me àquilo que não tiver que ser escondido).


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Cahen

O Ma-Schamba volta a lançar alguns dados sobre o conceito esvaziado de lusofonia. Conversa salutar, directa e corrosiva q.b.; no post em causa são propostos vários textos com destaque para a - poderíamos chamar - desconstrução de Michel Cahen.


Terça-feira, 25 de Maio de 2004

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Miniscente em Compacto off-line:

Diário dos Açores (Ponta Delgada), Diário do Sul (Évora), Linhas de Elvas (Elvas), Diário Regional de Viseu (Viseu), Diário do Alentejo (Beja) e O Templário (Tomar).


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Hermenêutica da nostalgia (ganda título!)

Acabei de dar a última aula a uma turma em fim de licenciatura. É sempre errático e às vezes desconcertante ver aparecer e ver partir grupos e grupos de alunos. Vão e vêm, à medida que passam os anos, e, em boa verdade, todos eles formam um caudal ou um fluxo a prazo dificilmente reconhecível enquanto grupo. Uma ou duas décadas depois, reconheço-os sempre individualmente (preservo bons amigos entre eles e sigo a carreira de alguns bastante conhecidos, ou nem por isso; a diferença não é capital), mas perco sempre a ideia de corpo, de grupo, de entidade plural fechada. Curioso é o facto de, ao contrário da previsibilidade do aluno de mestrado, interessado, motivado e entendedor do sentido de pesquisa, aqui, mesmo a dias do final de licenciatura, tudo parecer ainda circular entre o facilitismo próprio ("que páginas vêm para a frequência?") o deixa andar afectuoso ("Ai, professor, tanto trabalho e só me apetece é ir para a Caparica") e alguma infantilidade despregada (que não censuro em termos moralóides ou paternalistas, é evidente). Ao fim destes oito meses de testemunho comum, fica sempre a mesma e irrespondível pergunta no ar: que riqueza se terá adicionado (à já existente) em cada uma dessas pessoas de quem fui professor? Mesmo que a resposta pudesse ser dada, individual e até compulsivamente (estilo juízo final, imagine-se"!), jamais as palavras traduziriam o que se respira no que é sincero e sobretudo desejado na pergunta.


Segunda-feira, 24 de Maio de 2004

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Back to Fukuyama?



Francis Fukuyama, em interessante entrevista ao Al-Ahram, fala de um tema que, a prazo, pode vir a tornar-se importante para o Islão. Não é coisa nova. O autor designa-o por uma espécie de neo-“luteranismo” e visaria conciliar a renovação democrática da tradição ocidental dos últimos dois séculos com a complexidade e a multiplicidade da trajectória do Islão (onde a ideia muito residual de democracia, tal com a entendemos no ocidente, acrescento eu, apenas se terá vislumbrado historicamente na tradição diferencial entre as diferentes escolas de direito sunitas).
Seja como for, um dia destes, iniciarei aqui um conjunto de apontamentos sobre o Kalâm, i.e., sobre as tentativas de encontro entre a interpretação racionalizante que adveio da tradução dos gregos, no século IX abássida, e a própria revelação islâmica. As várias escolas envolvidas nesse proto-Iluminismo islâmico, sobretudo a Mu´tazilita, acabariam por ser abafadas pelo devir histórico monossémico, teocrático e opositor da interpretação mais ou menos aberta ( o tawíl). Estes factos são fundamentais, penso eu, para a compreensão do Islão de hoje - nas suas variantes quase ilimitadas - no mundo.
Voltando à vaca fria, na entrevista ao Al-Ahram, Francis Fukuyama refere-se ainda aos mal-entendidos criados pelas (diversas) imagens de democracia a que o Ocidente recorre, às vezes arbitrariamente, para justificar manobras amiúde injustificáveis. Ou, de como o nome do erro não pode ser sempre baptizado pelo próprio epíteto da democracia. Uma questão interessante e a aprofundar noutros contextos.
Em suma, vale a pena ler. Trata-se de uma abordagem lúcida, cosmopolita, projectiva. Só os cristalizados e ofendidos com a ideia (teoricamente possível) do “colapso da história” (no contexto em que foi visionada) é que recusam ler, ainda hoje, a flexibilidade estimulante e a inteligência prática de Francis Fukuyama.


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Tretas e patranhas



Para o normal sentimento de um ocidental, a internet e o cibermundo andam inevitavelmente associados à democracia. Nem podia ser de outro modo. Mas um passeio ao Laos, descrito pelo cronista Joshua Kurlantzick, ilustra o modo como essa inevitabilidade da internet e da rede em geral pode conviver com a mais despudorada das censuras. É assim (ainda) o comunismo; por cá andam sempre com a palavra liberdade na ponta da língua.


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Passar por quem passou por cá – 1


Vermittlung von Kunstwerken, Lynn Chatwick

Uma a duas vezes por semana, vou passar a dar conta de uma visita aos blogues que mais me visitam (impor-se-á sempre uma selecção, como é natural).
Começo pela Charlotte, uma das presenças mais assíduas e que melhor recebo cá em casa. No tempo blogosférico, pode dizer-se que se trata já de uma amizade clássica. E assim fiquei a saber pela própria Bomba como aproveitar um Sábado à noite diante da televisão: “Há um prazer e um gozo na maldade que vicia por ter graça.” Espreitar e ver. Vale a pena.
Na nossa breve viagem, também reparámos que os felinos passaram a ter um blogue. Devidamente preenchido. A espécie agradece, naturalmente.
Mais para o interior, com vista para Monfurado e Escoural, há o Digitalis. Um excelente blogue que visito muito regularmente. Aconselho-o a todos.
Já agora que falamos de fontes e de letras, deixo aqui o meu obrigado ao Rodrigho Gurgel pela reflexão sobre as editoras.
Para sul, a caminho do Índico, temos outra cumplicidade longa e mutuamente revisitada: o Ma Schamba, esse aroma esclarecido. Hoje publica-se lá um excelente post "sobre blogues". É ir e ver.
Regressando aos quarenta graus de latitude norte, devo dizer que é inegável o gosto que me dá a escrita do Alexandre Monteiro. Embora, às vezes, me bloqueie o Internet Explorer. E porquê?
Entre o irrespondível, o terrível e devotadamente belo, eis que me encontro com uma das mais recentes imagens de O Projecto: a nova biblioteca pública de Seatle. Obrigado pela notícia. Obrigado pelo contagiante excesso da notícia.
Devido aos baques que estas súbitas visões originam, nada mais aconselhável do que o sonambulismo anunciado pelo Babugem (deve ter sido da feijoada, não?)
Mais acordados e às vezes muito espicaçados, esta outra malta, com alguma razão, diga-se, lá acaba por trocar toda a história da filosofia pragmática por um baralho de nada. Radicalismo à parte, nem Peirce, nem James mereciam isso!
Entretanto, longe de polémicas, este simpático blogue é demasiado lento no profundo azul com que se abre perante o leitor, antes ainda de aparecer. E assim fica, azul, infinitamente azul.
Por fim, O olho de girino, a quem outro dia tentei tirar uma dúvida de época (nesse tempo havia ainda a chamada “fruta da época” nas ementas dos restaurantes), fala-nos da recente realização de Morgan Spurlock sobre os McDonalds. Biografismo e denúncia. Gosto mais de bons legumes, bife de lombo mal passado e umas ervas raras com mostarda, sim senhor. Mas não sou fundamentalista. Até à próxima.


Domingo, 23 de Maio de 2004

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Da memória ao mito



Ver Paul McCartney a falar da invenção da sua conhecidíssima Yesterday, ao longo de demorada viagem entre Lisboa e Albufeira, em plenos anos sessenta. Associar essa viagem entre fenos amarelados e aldeias brancas com o encontro, já à beira-mar, com Bruce dos Shadows (que lhe terá emprestado a guitarra) e Cliff Richard da então famosa Congratulalions. Ver o ex-Beatle a evocar essa longa viagem através do Alentejo, quando a letra da melodia ainda se limitava a rimar “scrambled eggs” com “your legs”. Entender que apenas diante o mar algarvio é que a palavra Yesterday se fez finalmente à história e à descoberta.
Seguramente, um belo momento televisivo da SIC-Notícias de ontem.


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Normalidade política

Hoje em dia, em Portugal, há “ministérios parados” onde os ministros e os secretários de estado “não se falam”. Disse-o ontem Marcelo Rebelo de Sousa na TV I. Parece ser coisa normal. Segundo o comentador (e outras vozes correntes mais ou menos avisadas), esta normalidade vai continuar até Outubro, altura de pressentida remodelação menos votada a desígnios cosmético-ambientais. E a oposição, o que tem a ver com isto? Diaconomania? Tragédia?


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Da tragédia ao medo

Quando o medo de andar de manga é superior ao medo de andar de avião, mal vai a volta! Não basta já a turbulência, a ameaça terrorista e a hiper-ocupação do espaço aéreo. Agora até nas mangas e terminais dos aeroportos nos passamos a debater com o chamado terror dos patos bravos. Ai, Paris, Paris, que novas pragas nos trazes! (já nos vais trazendo tão pouca coisa)


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Perspectivas

Já lá vai o tempo em que se estudava e depois se iniciava uma carreira vitalícia a pensar na reforma. Hoje estuda-se e depois há que continuar sempre a estudar (formação permanente, adequações específicas de know-how, pós-graduações, reciclagens permanentes, etc.). Do mesmo modo, a curva demográfica, por si só, conduz ao reconhecimento objectivo de que a reforma é e será cada vez mais assunto de investimento e não objecto de pura passividade e espera tranquila. Gradativamente, a iniciativa irá ocupar o lugar oitocentista da reivindivação. Nos próximos anos, goste-se ou não, o carácter dinâmico dos empregos, a previsível volatilidade da segurança social e a importância do conhecimento (e das tecnologias) irão tornar-se no triângulo decisivo. De um lado a escassez dos recursos, do outro a arquitectura de um mundo radicalmente novo. Quer-me parecer que o nosso espectro político ainda se dispõe entre a relativa fuga para a frente e a espessa peneira diante do sol. Direitas e esquerdas a tentarem dominar o menino que sublima hoje os valores que pertencem a um mundo que já não existe; ei-lo a encontrar sentido para a vida no fluxo do consumo, na instantaneidade tecnológica, no narcisismo social e nas ficcionalidades televisivas ou on-line. Entre a inépcia das respostas e a indiferença generalizada, o rio que corre do outro lado da minha janela tem a pronunciada cor da invisibilidade.